Os Estados e o Comércio no Sudão (02)

por D. Fage



O acesso dos árabes muçulmanos ao poder na África a norte do Sara e o seu domínio do comércio no Mar Vermelho e no ocidente do Oceano índico a partir do século VII, levou a um aumento considerável das fontes de informação relativas ao desenvolvimento da África negra. O mundo islâmico, herdeiro tanto da civilização helenística como da persa, às quais associou o seu próprio contributo original, manteve um elevado nível de pesquisa intelectual e de conhecimento pelo menos até ao século XIV. Os árabes estavam bem informados sobre a região de Bilad-al-Sudan, «a terra dos negros», que alcançavam através das rotas comerciais transarianas e cujo término a norte estava nas suas mãos. Os relatos de geógrafos, historiadores e viajantes árabes do Sudão ocidental e central começam a ser valiosos no século VIII e a quantidade e qualidade das suas informações aumenta constantemente até à obra de Ibn Khaldun, o maior historiador árabe, que escreveu por volta dos finais do século XIV. Nessa época, em que a vida intelectual dos principais centros do mundo islâmico entrou em declínio, o conhecimento histórico encontrava-se localizado no próprio Sudão, sabendo-se que sobreviveram crónicas aí escritas por autores africanos pelo menos no século XVI. Essas fontes de informação escritas podem ser confirmadas pela moderna arqueologia e ainda pelo estudo das tradições orais daqueles reinos negros que perduraram até aos nossos dias.

Uma das impressões deixadas pelos autores árabes mais antigos sobre o Sudão ocidental e central, especialmente uma que está absolutamente confirmada por escritores posteriores, é que esta terra não era habitada apenas por sociedades tribais. Nela existiam reinos organizados com os quais, embora nada tivessem a ver com o Islão e parecessem mesmo muito estranhos aos olhos dos muçulmanos, os árabes eram capazes e estavam interessados em negociar, como faziam com outros estados não muçulmanos. As mais antigas e as mais notáveis manifestações destes reinos sudaneses conhecidas dos árabes parecem ter pertencido a duas áreas específicas no limite meridional do Sara. Uma estava situada a norte dos vales do Alto Níger e Senegal, onde o principal estado se veio a chamar Gana (*) e a outra localizava-se a norte e nordeste do Lago Chade, onde se estabeleceu o reino de Kanem dos Saifauas. Os dados comprovam que a formação do governo monárquico no antigo Gana foi provavelmente um pouco anterior à de Kanem.

A primeira referência conhecida sobre o reino do Gana é a do escritor al-Fazari, do século VIII. Nos finais do IX e início do século X, os escritos de Iacubi e al-Masudi dão a idéia de um poderoso reino sudanês cujo monarca exercia um certo poder sobre reinos mais pequenos. A principal actividade económica do reino era a obtenção de ouro dos povos negros do sul, e a troca do mesmo por sal sariano e produtos africanos do norte, trazidos para sul pelas tribos tuaregues da faixa ocidental do deserto, nomeadamente os Sanhajas que controlavam as rotas caravaneiras a partir de Audagast, uma cidade comercial sanhaja a norte do Gana, até Sijilmasa, no oásis de Tafilalete a sul de Marrocos.



[(*) O Gana inicial não pode confundir-se com o seu homónimo actual, que está situado bastante mais a sul e a leste. Deve notar-se que as actuais tradições dos Soninkes, o povo nativo do antigo Gana, parecem mencioná-lo como o reino de Uagadugu (e Uagadugu é o nome soninke para a região onde estava situado o antigo Gana). Contudo, os autores árabes - e de uma forma geral a história - usam o nome de Gana tanto para a cidade capital como para o reino. No entanto, o primeiro autor melhor informado sobre o assunto, al-Bakri, faz notar que Gana é com rigor o título do rei. O termo pode assim resultar da palavra malinke gana ou kana que significa «chefe», embora o nome que al-Bakri utiliza para o rei que então governava seja Tunka Manin, e tunka realmente significa «chefe» em soninke. Deve ainda referir-se que os tarikhs de Tungubutu (veja-se mais adiante) aplicam o nome Kaya-Magha para a primeira dinastia do Gana, e magha significa igualmente chefe ou governante. É com efeito frequente mencionar tanto os estados como as capitais na África negra através de um termo que indica a presença da realeza. Desse modo mali em língua malinke (e mandé em soninke) significa «o lugar onde reside o senhor [ma]» - «e, por extensão, o povo malinke ou mandé é o povo do rei». Pela mesma razão, Iendi, a capital do reino dos Dagombas significa «onde o rei vive». Para um exemplo relativo à África central, veja-se Cazembe, no capítulo 5.].

Em 1067-8 a. C., o geógrafo al-Bakri, de Córdova, foi capaz de efectuar um relato bastante completo sobre o reino, a sua principal cidade e o comércio de Gana. O rei, que não era filho do seu antecessor mas filho de uma irmã do seu antecessor, era um autocrata que só comunicava indirectamente com os seus súbditos, e a quem eram atribuídas honras divinas. Assim como constituía o foco de uma hierarquia de ministros de estado, o rei era também alvo dê um culto pra- ticado por sacerdotes em bosques isolados próximo da capital. Quando morria, era enterrado juntamente com numerosos servidores sob uma grande cúpula feita de madeira e argila. Tinha sob seu comando um exército numeroso. Al-Bakri diz que eram 200000 homens, dos quais 40000 arqueiros. Uma vez que a sua referência seguinte menciona cavalos de pequena estatura em Gana, parece provável que houvesse igualmente cavalaria no exército (*). Foi sem dúvida este poder militar que permitiu ao rei assegurar a permanência na sua corte de um número de pequenos reis - talvez vice-reis ou reféns de monarquias tributárias. A cidade capital também geralmente chamada Gana, era composta por duas zonas distintas. Uma delas era uma cidade exclusivamente constituída por cabanas redondas de barro e era aí que o rei tinha o seu palácio rodeado por uma cerca. A outra, à distância de alguns quilómetros, era uma cidade de casas de pedra, habitada por muçulmanos e com um certo número de mesquitas. A maioria dos muçulmanos parece ter sido composta por imigrantes que comerciavam vindos do norte de África, mas alguns serviam a corte real e pagã como ministros e funcionários. As duas cidades juntas formavam um vasto complexo urbano; a totalidade da área compreendida entre elas estava ocupada por habitações. Esta zona urbanizada era abastecida com produtos de agricultura intensiva praticada nas imediações com água fornecida por poços. Finalmente, al-Bakri relata alguns pormenores sobre o comércio de importação e exportação obviamente bem organizado e praticado com bestas de carga sendo as principais mercadorias o ouro, o sal, o cobre e produtos artesanais sujeitos a um controlo real e a tributação.



[(*) A primeira referência explícita à cavalaria no Sudão ocidental aparece na descrição de Al-Umari (cerca de 1338) - o rei do Mali teria então 10000 cavaleiros.].



Um ponto de interesse na extensa narrativa de al-Bakri, e em geral nas fontes árabes sobre o antigo Gana, é de que pouco nela se diz sobre os processos usados então na mineração e extracção do ouro, o que parece estranho dado que a prosperidade do reino e do comércio transariano dependiam evidentemente dele. Sabiam, sem dúvida, realmente muito pouco, tal como as palavras de al-Bakri dão a entender: «O melhor ouro que se encontra nesta terra vem da cidade Ghiyaro, que está a 18 dias de viagem da cidade do rei, num país habitado por tribos de negros, sendo as suas habitações contíguas...Ghiyaro está a 20 quilómetros (do Níger) e tem muitos muçulmanos». AI-Masudi, um século antes, afirmara que os mercadores de Gana obtinham o seu ouro por meio da troca muda, e al-Idrisi um século mais tarde disse que o ouro vinha «da terra de Uangara», que «confinava» com o reino do Gana.

Durante muito tempo, supôs-se que «Ghiyaro» e «Uangara» fossem locais onde se produzia ouro, e hoje as jazidas auríferas mais próximas, que poderiam ser consideradas «contíguas» ou «adjacentes» ao antigo Gana, seriam os depósitos aluviais de Bambuk, a meio do Senegal e do seu afluente Faleme e do Boure, nas imediações do Alto Níger e seus afluentes. Mas as referências seriam igualmente a locais onde prosperava um comércio do ouro. A descrição de Idrisi de uma «terra de Uangara» como um território enorme sujeito anualmente a inundações dos rios circundantes é, na verdade, menos adequada ao Bambuque e ao Buré do que ao delta interno do Níger entre Djenne e Tungubutu. Não se trata de uma zona de produção de ouro, mas de uma região agrícola e pastoral, e os vestígios arqueológicos permitem agora comprovar que Djenne, no afluente sul do Níger, o rio Bani, era já uma cidade comercial importante e próspera por alturas de meados do primeiro milénio. A descrição de Idrisi levanta algumas dificuldades que podem ser resumidas se na verdade se partir do princípio de que «Uangara» não era tanto uma área de terra mas um grupo de pessoas específicas que a habitava, e mais concretamente, um grupo de comerciantes. No séc. XIV, é possível verificar, pelas provas apresentadas por Ibn Battuta (que, ao invés de Idrisi, chegou a visitar o Sudão ocidental), juntamente com as da tradição haúça, que termos como «Uanjara», «Uanjarata» e «Uangaraua» se referem a um grupo especializado de comerciantes longínquos, originariamente Soninkes - tal como o .povo do Gana - que eram muçulmanos. A referência de al-Bakri aos muçulmanos em Ghiyaro sugere que estes Uangaras podem perfeitamente ter sido já islamizados no séc. XI. Além disso, uma vez que sabemos que grande parte do poder comercial de Djenne assentava na ligação que os seus mercadores estabeleciam entre o comércio das terras a sul da Guiné e o comércio no Sara de e para Tungubutu (ver mais à frente), é possível que pelo menos uma parte do ouro pelo qual o Gana era famoso pudesse ter sido trazida das terras a sul de Djenne, da região do Lobi, se não mesmo da ainda mais remota Achanti. Embora o Islamismo dos mercadores que se dedicavam a esta actividade lhes tenha chegado por via do comércio transariano estes possuíam uma forte razão comercial para manterem os comerciantes sarianos - e o mundo árabe em geral - afastados do contacto directo com os mineiros que extraíam o ouro; talvez provenha daí a história da troca muda com os negros primitivos.

O aparecimento de um reino comparável a Gana mais para leste, nó Kanem, parece ter chegado ao conhecimento dos árabes algum tempo depois e também de uma forma menos precisa. No fim do século IX, Iacubi escreveu sobre «um reino dos Zaghawas que se situa na região chamada Kanem», e acrescentou que as «suas habitações eram cabanas cobertas de colmo. Não costumam viver em cidades». Os Zaghawas eram pastores nilo-sarianos do Sara ocidental, de modo que a conclusão parece ser de que os reis do Kanem eram originaria- mente nómadas que não tinham um reino fixo. Isto é de facto confirmado pelas tais antigas tradições do reino. Um século mais tarde, no entanto, al-Muhallabi refere duas cidades no Kanem, mas o que mais o impressionou, porque ofendia os princípios islâmicos, foi a natureza dessa monarquia. O povo «louvava e adorava o rei em vez de Alá. Imagina que ele não come quaisquer alimentos... A sua religião é o culto dos seus reis, uma vez que acredita que são eles que trazem a vida e a morte, a doença e a saúde».

A concepção dos árabes sobre a história antiga do reino de Kanem é forçosamente obscura, enquanto que as origens do antigo Gana, com o inicial desenvolvimento da sua organização política e da vida económica, ficaram para lá do seu horizonte histórico. Os primeiros historiadores que consideraram as questões de como e quando estes reinos organizados se constituíram no Sudão (por exemplo Flora Shaw, Maurice Delafosse, Herbert Palmer ou Yves Urvoy) adoptaram a explicação de que tais reinos eram constituídos por povos negros agricultores infiltrados e conquistados por pastores do deserto, que eram Hamitas (ou mesmo Semitas; Delafosse, por exemplo, sugeriu que o reino de Gana fora estabelecido por «sírio-judeus»).

É fácil compreender por que razão esses historiadores adoptaram tal ponto de vista. Em primeiro lugar, eles próprios representavam uma raça estrangeira que tinha imposto com grande facilidade o seu domínio aos negros em toda a África. Pensavam que a raça branca era culturalmente muito superior à negra que, segundo eles, se encontrava num estádio de desenvolvimento muito mais primitivo. Viram-se a si próprios como sucessores dos invasores e conquistadores muçulmanos, do norte de África até ao Próximo Oriente, que também não eram negros mas caucasóides aparentados com eles. Eles e os seus colegas europeus construíram por isso uma imagem da história africana na qual o papel dos negros era essencialmente passivo e tudo o que era dinâmico e construtivo atribuído a invasores estrangeiros como eles próprios. Escreveu o antropólogo C. G. Seligman em 1930: «Além da influência relativamente tardia dos Semitas - bastante limitada no caso dos Fenícios (Cartagineses) e bastante difundida no caso dos árabes (de Maomé) - as civilizações de África são as dos Hamitas, a sua história é a destes povos e da sua interacção com dois outros grupos africanos, os negros e os bosquímanos, quer essa influência tenha sido exercida pelos Egípcios altamente civilizados quer pelos mais variados povos pastores.. .».

Foram já indicadas algumas das falhas nesta «hipótese hamítica». Não existe, por exemplo, qualquer vestígio hamítico nas línguas bantos que Seligman supunha serem a dos «negros hamitizados», e é provável que os agricultores bantos tenham deslocado e absorvido na realidade alguns povos de língua hamítica. Ora, a língua dos agricultores negros haúças é «hamítica» - pode acrescentar-se que no início do século XIX estes Haúças foram conquistados pelos Fulas, na realidade pastores que falavam uma língua sudanesa. Há ainda uma questão de ordem geral: os protagonistas da hipótese hamítica confundiam freqüente e perigosamente raça, cultura e língua.

No entanto, para além do facto de estes escritores fazerem parte de uma sociedade que estava convencida de que os povos brancos possuíam uma superioridade inerente sobre os povos de pele mais escura, «raça inferior sem instituições», havia aparentemente provas para sustentar o seu ponto de vista sobre a história africana. Agora, podiam ver as tribos nómadas do deserto a moverem-se para as terras aráveis da África ocidental. Os Tuaregues tinham obtido o controlo sobre as cidades da faixa do Níger, como Gao e Tungubutu, nos finais do século XVIII, e outros viviam a sul dessa região. As tribos árabes tinham avançado para sul e oeste, a partir da Núbia, em direcção a Kanem e Bornu, do século XIV em diante. Além disso, as mais antigas tradições de alguns dos estados mais importantes na história do Sudão ocidental e central afirmavam, com efeito, que os seus reinos tinham sido fundados por imigrantes vindos do norte que não eram negros.

Dois importantes tarikhs (crónicas) elaborados por autores sudaneses em Tungubutu, nos séculos XVI e XVII, afirmavam que o reino do Gana fora fundado, muito antes da Hégira muçulmana (622 d. C.), por uma dinastia chamada Kaya-Magha, que não era negra. Não se sabia ao certo qual a sua origem, mas um autor pensou que fosse provavelmente de origem sanhaja. Isto parece ter confirmação numa passagem da informação fornecida por al-Bakri. Ele afirmava que o sistema de sucessão ao trono no Gana era matrilinear, e a matrilinearidade é característica dos Tuaregues-Berberes, a que pertenciam os Sanhajas antes de se islamizarem. Por outro lado, o estilo de vida da corte real e dos seus súbditos pagãos parece ser totalmente de origem negra, e dizem os tarikhs que o povo do reino era Soninké (isto é, Mandeus do norte, enquanto os do sul são os Malinkés) e ainda que a dinastia Kaya-Magha original fora talvez substituída por reis negros.

A dinastia saifaua, que governou Kanem e o reino que lhe sucedeu em Bornu sucessivamente dos sécs. X ao XIX, afirmava descender de um antepassado epónimo, Saif ibn Dhu Yazan, que vivera no Iemen no século VI, na época de Dhu Nuvas e da conquista axumita de Ella Asbeha. É evidentemente uma questão em aberto saber como e quando pôde essa dinastia ter chegado ao longínquo Kanem. Mas é interessante que as tradições dos primeiros reis afirmem que eles apenas escolhiam as suas mulheres entre a nobreza dos Tebus (ou Tedas), pastores sarianos do centro-leste aparentados com os Zaghawas. Este facto traz uma confirmação à questão das origens do reino vista por Iacubi e al-Muhallabi nos séculos IX e X, e sugere que a fundação do reino pode estar associada de algum modo a povos nómadas como os Zaghawas e os Tebus, na qualidade de intermediários, e com acontecimentos junto do Mar Vermelho em que estavam envolvidos o Iemen, Axum e a Núbia. O primeiro rei saifaua considerado como sendo exclusivamente de origem local, parece ter reinado ainda antes do início do século XIII.

Estas opiniões locais referentes às origens dos reis de Gana e Kanem podem ser comprovadas de outro modo. Por exemplo, o reino songai a sul do Níger também reclamava uma origem iemenita para a sua primeira dinastia. Entre o Kanem e o Songai, as lendas dos pequenos estados haúças iniciam-se com a referência a um Canaanita que tentou sem sucesso tornar-se «rei de Tripoli» e com um Baiajida «filho do rei de Bagdade». Este último pode corresponder a Abu Yazid, personagem histórica, chefe carijita que foi morto enquanto chefiava uma revolta abortada contra o domínio fatimida na Tunísia em 947 d. C. e cujos seguidores se dispersaram pelo Sara em conseqüência desse facto.

Talvez ainda mais notável seja a lenda Kisra que chegou até aos nossos dias como um substrato da memória histórica dos povos das margens do vale do Benué e do Níger até aos limites do território songai. O tema principal desta lenda que tem aliás muitas variantes, é o seguinte: Kisra era rei dos Parsos ou Baghdadshi (quer dizer, Persas) que antes da conquista de Meca por Maomé (630d. C.) empreendera uma campanha contra os Rumis (quer dizer, Bizantinos) no Egipto. Ocupou o Egipto até Nupata, onde pediu autorização para se fixar. O rei de Nupata (por vezes chamado Mesi, isto é, Messias) consultou o espírito da família, Issa Oesus, que o aconselhou a pedir a Kisra que conquistasse terras a oeste e que o rei de Nupata devia segui-lo. Kisra partiu e atingiu provavelmente os vales do Benué e do Níger, enquanto o rei de Nupata chegou a Gobir (zona norte dos Haúças) onde fundou um reino de onde derivam todos os outros estados haúças. Kisra morreu em Bussa (noroeste da Nigéria) mas ele ou os seus companheiros foram responsáveis pela fundação dos reinos de Borgu (a noroeste da Nigéria adjacente ao Daomé), de Nupe (a norte da Nigéria na confluência do rio Benué), de Kuararafa ou Jukun (no Benué) e mais para sul, de Igala e de loruba.

O início deste relato é reconhecidamente histórico. Kisra é Cósroas (Khosru) II, o rei sassânida da Pérsia de 590 a 628. Os Sassânidas estavam então a avançar para oeste contra o mundo cristão e em 616, pouco depois da expulsão dos Axumitas do lemen, o seu exército ocupou o Egipto, conservando-o em seu poder até serem expulsos por Heraclio dez anos depois. Ignora-se se Cósroe se deslocou ao Egipto, pois foi assassinado no seu próprio palácio em Ctesifonte em 628. Não é contudo impossível que depois da sua expulsão do Egipto, alguns Persas tenham procurado refúgio no Nilo e finalmente tenham sido absorvidos pelos reinos cristãos na Núbia (em cuja arte é visível a influência persa). De um modo geral, o final do século VI e o início do século VII foi um período de grandes convulsões nas regiões circundantes do Mar Vermelho. Houve primeiro um período de predomínio persa e de recuo axumita na Arábia, depois entre 622 e 630 verificou-se o advento do Islão e o estabelecimento do seu domínio no Egipto e no litoral africano do Mar Vermelho. Os cristãos da Arábia e dos reinos da Núbia e Axum não foram afectados por estas importantes transformações. Embora seja muito improvável que um número significativo de Núbios, Iemenitas ou Persas actuais se tenham dirigido alguma vez a Kanem ou mais longe ainda, não e de modo algum absurdo supor que se verificassem reacções em cadeia que tenham feito chegar até aos vales dos rios Níger e Benué, o eco dos grandes acontecimentos do nordeste africano e do Mar Vermelho, através da África, passando por povos sarianos nómadas como os Zaghawas e os Tebus.

A explicação mais plausível para as lendas de grandes heróis, como Kisra, ou membros da linhagem Saif ou Baiajida chegados ao Sudão vindos de leste ou norte, é serem elas um instrumento usado pelos reinos sudaneses com fim de relacionar as suas origens - do ponto de vista cronológico, geográfico e temático - com o que podem ter percebido ser a linha principal do desenvolvimento histórico no Próximo Oriente e nordeste africano. Havia decerto necessidade de um tal instrumento depois da chegada do Islamismo ao Sudão e da sua aceitação por muitas dinastias reinantes (podem contudo ter necessitado ao mesmo tempo de conservar os costumes tradicionais e os deveres para com os antepassados). O facto de algumas lendas como a de Kisra terem sido conservadas essencialmente por sociedades pagãs, pode ser uma objecção àquela explicação. No Borgu actual, por exemplo, embora seja muito conhecida a narrativa de Kisra, ela existe na cultura popular, o que não é aprovado pela sociedade muçulmana. Trabalhos recentes têm contudo sugerido que esta objecção é mais aparente do que real (A argumentação que se segue é devida pelo autor ao seu colega Paulo Farias). O conhecimento da história e da lenda árabes não foi necessariamente introduzido e propagado unicamente por uma nova classe de intelectuais, historiadores e letrados muçulmanos. Ainda hoje, por exemplo, o Alcorão é conhecido tanto de cor e através da recitação como através da leitura (inicialmente sê-lo-ia ainda mais), e a sociedade árabe e berbere tradicional apreciava decerto a arte dos bardos e contadores de histórias. Assim, propagar-se-iam mais rapidamente e a maior distância o conhecimento do prestigiado mundo que produzira o Islamismo e o desejo de estabelecer relações com ele - por exemplo ao longo das rotas comerciais freqüentadas pelos mercadores sudaneses islamizados - do que a conversão efectiva à nova religião. Desse modo, os griots (bardos) e os guardiões da tradição em reinos ainda pagãos, podiam facilmente incorporar folclore do nordeste nas suas narrativas tradicionais e adaptá-las aos objectivos dos seus protectores e senhores. Deve notar-se igualmente que personagens como Saif e Kisra e Baiajida não são exactamente heróis muçulmanos; pelo contrário, os dois primeiros são anti-heróis da lenda e da tradição islâmicas, enquanto Abu Yazid era um rebelde malogrado contra uma das dinastias mais importantes do Islão africano.

Subsiste no entanto ainda uma questão fundamental: não há dúvida que as terras dos povos negros agricultores do Sudão, imediatamente a sul do Sara, foram durante séculos sujeitas a assaltos, infiltrações, conquistas e fixação de povos nómadas vindos do deserto. Estes povos devem ter tido igualmente algum tipo de contacto com os povos do norte e do nordeste de África.

Não é difícil construir um modelo do processo de interação entre os povos pastores e agricultores na zona fronteiriça entre o Sara e o Sudão. Grupos de cavaleiros nómadas seriam empurrados para sul e expulsos do deserto pelos freqüentes conflitos entre tribos, pelo crescimento da população e do gado, por uma estação invulgarmente seca ou pelo simples desejo de comércio ou de aventura. Deviam apascentar o seu gado nas zonas de vegetação compreendidas entre as aldeias de agricultores, e trocar alguma carne, peles e lacticínios por produtos agrícolas e artes anais das aldeias. Inicialmente, não deviam ter uma base fixa nem uma relação política formal com os chefes de aldeia. Devem no entanto ter lançado olhares cobiçosos à riqueza e à estabilidade relativa das sociedades agrícolas e a mobilidade resultante da posse de cavalos e camelos permitiu-lhes a pilhagem com uma ousadia crescente. Os seus próprios conflitos e alianças confundiram-se assim com a política dos habitantes das aldeias. Os seus chefes fizeram alianças por meio de casamentos com algumas famílias dirigentes das aldeias, e assim obtiveram direitos sobre a chefia das aldeias e dos respectivos campos. Finalmente os intrusos, com a sua cavalaria e um forte sentido de disciplina de grupo necessária à sobrevivência no deserto, obtiveram o controlo do território e instalaram-se como nobreza dominante cobrando tributo aos camponeses e enviando uma parte deles à capital onde habitava o rei. Com o correr do tempo, porém, o rei e os nobres, através'de casamentos, tornaram-se muito semelhantes à população quer do ponto de vista racial quer lingüístico.

Não se trata de um quadro fantasista. É, por exemplo, comparável ao que Ibn Khaldun percebeu ter-se repetido freqüentemente a norte do Sara, e que iria desempenhar um papel essencial na sua filosofia da história. Do mesmo modo e ainda mais a propósito, pode ser reconstituído facilmente através das tradições actuais sudanesas, em especial as de Kanem, mas também de reinos mais pequenos como, por exemplo, os de Mossi e Dagomba mais a oeste e a sul. Foi elaborado por um dos primeiros historiadores europeus da África ocidental, Yves Urvoy, um modelo semelhante para a região de Air, habitada em tempos antigos pelos Haúças e que hoje em dia é território predominantemente tuaregue.

Parece, no entanto, que Urvoy e os seus contemporâneos com idênticos pontos de partida cometeram um grave erro de interpretação àcerca da natureza e significado da interacção entre «Hamitas» e negros da zona meridional do Sara. Uma vez que os participantes mais activos eram os do norte, eles concluíram que a sua cultura e as tradições políticas haviam triunfado, donde resultou que os reinos não eram sudaneses mas «hamíticos». Mas, em quase todos os domínios da vida social, eram os negros os mais avançados. Enquanto os recém- -chegados eram pastores nómadas, os negros eram agricultores sedentários que habitavam em aldeias e cidades.

É agora evidente que existiam, já na segunda metade do primeiro milénio, cidades importantes no Sudão ocidental. As ruínas de Kumbi no sul da Mauritânia, que correspondem à posição do antigo Gana e a descrição que al-Bakri faz dele, datam pelo menos do séc. IX e, no máximo, de cerca dos sécs. XII a XV, ocupando a cidade à volta de 200 acres. O outeiro que representa a localização inicial de Djenne demonstrou a existência de uma cidade com perto de 80 acres, próspera desde meados do séc. VIII até cerca de 1100. Conhecem-se outras escavações de núcleos mais abaixo no Níger e no centro do Sudão; poucas foram escavadas, mas a de Daima, já mencionada, com 90 metros de altura no centro e estendendo-se por algo como 30 acres, constitui o resíduo da constante ocupação humana, talvez apenas de uma grande aldeia, com mais de dezoito séculos, desde mais ou menos o séc. VI a. C. Conhecem-se no norte e no leste do Lago Chade ruínas de construções de tijolo. As provas de uma urbanização primitiva estendem-se também para sul, até à Guiné; por exemplo, em Ife, tradicionalmente o primeiro centro do núcleo ioruba, a descoberta de passeios feitos de cerâmica demonstra que esta característica manifestamente urbana data pelo menos do séc. XI d. C. A existência de vestígios numa região tão meridional sugere mais uma vez que os negros do Sudão ocidental e central possuiriam provavelmente cidades nas épocas tradicionalmente indicadas para a chegada de heróis lendários como Baiajida ou os Saifauas. Estas cidades seriam presumivelmente o mercado, centros rituais e políticos de sociedades agrícolas avançadas, e o seu crescimento e expansão geográfica devem ter sido fomentados pelo aparecimento, por alturas de meados do primeiro milénio, de um comércio regular de caravanas de camelos através do Sara.

Vale a pena considerar aqui um segundo modelo - mais complementar do que alternativo do primeiro -, o da interacção entre povos pastores e agricultores do Sabel, na fronteira entre o Sara e o Sudão Os assaltos feitos pelos pastores do deserto encorajavam os agricultores oeste-africanos a agruparem-se em comunidades cada vez maiores e melhor defendidas. Eram preferíveis as aldeias aos agrupamentos familiares dispersos, e finalmente algumas dessas aldeias tornavam-se cidades fortificadas Estas mudanças na distribuição espacial da população, originaria sem dúvida as correspondentes transformações socio-políticas Era freqüente os chefes de famílias mais antigas e mais poderosas adquirirem autoridade, decerto com fins militares específicos, e portanto também em certas esferas políticas, sobre os chefes de outras unidades familiares. Esta hipótese é ainda mais provável do que a primeira. Pelo menos nos seus aspectos espaciais ela é sustentada por importantes provas arqueológicas na encosta de Tichit-Ualata Aí os trabalhos de Patrick Munson forneceram aquilo que se afiguram os primeiros indícios certos do cultivo de cereais sudaneses na região. Os respectivos agricultores começaram a viver nas margens dos lagos então existentes nessa região, mas por volta do ano 1000 a C. concentravam as suas habitações em aldeias de tamanho considerável e fortificadas no cimo de colinas. Uma vez que estas não eram na realidade o melhor local para o cultivo dos cereais, a conclusão óbvia é a de que os agricultores procuravam proteger-se dos ataques dos pastores Por volta de 400 a C, as aldeias foram abandonadas, talvez pelo facto de a região se ter tornado imprópria para a agricultura devido à acção combinada da pastorícia e da seca. É ainda significativo que esta encosta de Tichit-Ualata esteja situada mesmo a norte do local presumível da capital do antigo Gana, a mais antiga organização político-militar criadas por negros da África ocidental

A riqueza, as oportunidades e os prazeres que cidades como Kumbi-Saleh podiam oferecer tornaram-se naturalmente poderosos atractivos, que levaram os povos pastores a deixar o deserto para se fixarem no Sudão, e quanto mais se sedentarizavam mais absorvidos e aculturados foram pela sociedade agrícola e urbana do Sudão. Mas este facto deixa ainda por esclarecer a questão de o governo monárquico organizado ser uma inovação dos recém-chegados ou de existir já a sua chegada, bastando-lhes proceder à apropriação. O Princípio genérico defendido nesta obra é que o governo detido por reis divinos ou sagrados deve ter evoluído no Egipto entre povos agricultores. No Sudão parece, por isso, preferível considerá-lo como um desenvolvimento local e não como uma introdução de pastores vindos do Sara.

No entanto, os pastores, ao chegarem, tiveram um papel político importante e, assim como se crê vulgarmente que a história da moderna Inglaterra começou com a conquista normanda em 1066, também as tradições sudanesas têm razão ao defender que a história de África ocidental pré-colonial tomou um novo rumo a partir das incursões e das conquistas desse período. Como já se afirmou, os recém-chegados devem ter trazido consigo alguns elementos característicos do ritual monárquico que tinham assimilado embora indirectamente nos seus contactos com o norte e o nordeste de África. Mas concretamente, a sua chegada deve ter implicado um importante desenvolvimento ao nível da organização política e ainda provavelmente uma institucionalização mais precisa do seu modo de funcionamento. Estes efeitos resultariam de diversos factores. A posse de cavalos e a possibilidade de aquisição regular destes animais numa terra onde eles só eram alimentados com grandes dificuldades, permitiu-Ihes exercer um domínio sobre áreas muito maiores do que os anteriores governantes. Além disso, o facto de os recém-chegados não terem laços definidos com as terras cultivadas nem com os cultos religiosos associados a elas, permitiu-lhes uma margem maior de manobra política do que aos seus antecessores. Eles necessitavam de legitimar o seu poder por meio de casamentos com as famí1ias reinantes sudanitas, mas podiam escolher as famílias que quisessem e nas condições que desejassem a fim de que uma parte dos seus descendentes se tomassem senhores com poder crescente e outros simples vassalos tributários.

Os processos políticos referidos pela tradição relativa à fundação dos estados do Sudão ocidental e central, que sobreviveram até à sua incorporação na historiografia moderna, devem representar a conversão de pequenas unidades políticas, cidades-estado ou mesmo aldeias-estado, em reinos maiores que requeriam uma maior organização administrativa, definida de modo mais claro. O desenvolvimento de monarquias organizadas que ocorreu por volta do século X constituiu portanto um processo em duas fases, que mergulha as raízes da realeza na Revolução Neolítica dos negros sudaneses, e cujo último florescimento terá sido o resultado de séculos de interacção entre estes negros e os seus vizinhos pastores do Sara que estimularam o seu desenvolvimento e crescimento. As tradições históricas mais consistentes são naturalmente as que provêm das últimas linhagens reais mais poderosas. Nas primeiras lendas do Kanem, do Songai, dos reinos dos Haúças, dos Mossis e dos Dagombas, por exemplo, parece possível distinguir, embora tenuemente, os estádios mais antigos de desenvolvimento associados aos primeiros invasores, ou ainda às estruturas originais da sociedade neolítica mais recente.

Neste contexto, é talvez significativo que os primeiros reinos importantes conhecidos pelos árabes no norte de África estejam justamente a norte de áreas que foram muitíssimo favoráveis à agricultura nos primeiros tempos e à evolução da Idade do Ferro. O Gana ficava exactamente a norte dos vales do Alto Níger e do Senegal, e Kanem mesmo a norte da bacia do Lago Chade. O facto destes reinos não estarem de facto situados nestas áreas propícias mas sim fronteiriços ao deserto, a norte, sugere que os contactos sarianos e o comércio devem ter desempenhado um papel importante ao favorecerem a formação das monarquias mais antigas. Por outro lado, podia realmente tratar-se de uma ilusão óptica. Foi exactamente nestas áreas atingidas pelas rotas comerciais no norte de África que o mundo exterior pôde pela primeira vez saber da existência de importantes reinos na África ocidental. Do mesmo modo, os interesses económicos destes reinos não permitiram aos estrangeiros vindos do norte obter! informações sobre reinos semelhantes mais a sul. Al-Bakri por exemplo, menciona a existência de dois reinos a sul do antigo Gana, mas nada sabemos ao certo sobre eles além dos nomes que lhes atribuiu, Malal e Dau.

Contudo, as tradições locais são praticamente unânimes em apresentar um quadro de notável evolução política ocorrida na África ocidental, que se processou de norte para sul, a partir dos limites do deserto até ao Sudão, e daqui até à Guiné. Foram já apresentadas as razões políticas da aceitação desse quadro como historicamente correcto e as razões económicas conduzem a idêntica conclusão.

Desde a formação do deserto, ou mesmo desde uma época ainda mais recuada, que a fronteira entre o Sara e o Sudão foi sempre muito importante. Não só porque foi aqui que os negros estiveram em contacto com outros povos e culturas, mas também porque constituíam uma divisória ecológica importante entre a terra arável e a terra apenas apropriada à pastorícia, e ainda entre os próprios africanos e as terras temperadas que rodeiam o Mediterrâneo, sendo os povos sarianos nómadas o seu elo de ligação.

Por esse motivo deve ter sido sempre uma importante fronteira comercial e não foi por acaso que as antigas rotas de carros conduziam directamente através do deserto até às terras mais promissoras do desenvolvimento agrícola dos negros e, no caso do Gana, também às terras auríferas. De modo evidente no caso do Gana, e talvez de forma menos clara no caso do Kanem, parece que o factor económico foi de grande importância para o desenvolvimento de reinos extensos, no sentido de monopolizar as exportações sudanesas destinadas aos povos sarianos e africanos do norte e de controlar a distribuição no Sudão dos produtos recebidos em troca.

Uma parte importante das primeiras informações árabes relativas ao antigo Gana é de carácter económico - como se pode ver pelo relato de al-Bakri. Para al-Fazari, a primeira fonte árabe, o Gana era essencialmente «a terra do ouro», enquanto abundam episódios que realçam a sua riqueza em relatos posteriores. Um dos mais conhecidos é a história contada por Ibn-Haukal, um mercador que escreveu no século x. Ele afirmou que quando se encontrava em Sijilmasa, um centro de caravanas a sul de Marrocos, viu um «cheque» (isto é, uma ordem de pagamento) de um mercador de Audagast no valor de 40000 dinares (equivalente a 20000 libras de ouro, ou 100000 dólares de prata e muitas vezes este valor em moeda actual). Se o comércio transariano era de facto praticado nesta escala e com este grau de sofisticação já no início do século x, e não só em ouro, mas também em sal (diz-se que por vezes foi trocado por ouro de igual peso), cobre e diversas mercadorias, pode ver-se facilmente que devem ter sido importantes as razões económicas para a extensão do império a sul do Sara, pelo menos no antigo Gana. Os dados económicos relativos ao Kanem que se encontram nos antigos autores árabes são escassos; mas isso deve-se sem dúvida ao facto de Kanem não ter acesso às fontes de ouro do mesmo modo que o Gana, e não ter atraído tanta atenção. Estava no entanto situado a sul do Fezzan, a terra dos antigos Garamantes. Quando o seu reino ficou mais forte, procurou sempre expandir-se para o Fezzan, e o seu poder foi por vezes efectivo até Bilma, uma importante fonte de sal para o Sudão. Em tempos mais recentes, a estrada de Tripoli e Tunísia via Fezzan e Bilma até ao Lago Chade e ao país dos Haúças era uma das mais importantes rotas caravaneiras. Parecia portanto provável que os factores comerciais tivessem desempenhado pelo menos algum papel no aparecimento de um reino organizado no Kanem. Foi sugerido que eles se relacionariam com o desenvolvimento do comércio de escravos negros para o norte de África.

No antigo Gana e nos estados que lhe sucederam, o antigo Mali e o Império Songai de Gao, parecem muito mais evidentes os factores económicos que intervieram na formação do Império. Os grupos dominantes procuraram estender o seu poder através das vias comerciais especialmente na direcção norte-sul, de modo a que todos os produtos valiosos do Sudão lhes viessem parar às mãos. As capitais de outras cidades comerciais obtiveram assim o controlo dos produtos procurados pelos comerciantes do Sara e do norte de África e os seus agentes asseguravam igualmente o controlo da distribuição dos produtos vindos dessas regiões do Sudão. Variavam os meios pelos quais asseguravam a produção sariana. Como se viu, os relatos árabes mais antigos revelam que o ouro era obtido na fronteira sul do Gana por meio da troca com povos menos avançados que adquiriam com efeito o ouro escavando a terra de aluvião. Por último, em especial no Mali e no Songai, constituiu-se uma classe especializada de mercadores sudaneses, em estreita aliança com os governantes, cujo tráfico (assim como o dos mercadores do norte) estava sujeito a impostos alfandegários regulares e outras taxas. No caso do ouro, o comércio estava certamente sujeito ao controlo real a ponto de parecer um verdadeiro monopólio estatal, sendo os comerciantes na realidade ou servidores do rei ou indivíduos autorizados por ele. Parece igualmente que uma certa parte do produto sudanês obtido na capital e noutros centros urbanos chegava sob a forma de tributos de povos vassalos. Sem dúvida que o objectivo do sistema comercial era concentrar a riqueza nas mãos do rei e da classe dominante. Uma parte desta riqueza podia ser utilizada na compra de cavalos e armas a fim de criar um exército que era muito mais poderoso do que quaisquer outras possíveis concentrações de força. Com esse exército, era possível estender a maiores distâncias, tanto o controlo real sobre o tributo como o comércio e desse modo aumentar a riqueza do reino e dos seus partidários. Quanto mais rica e poderosa fosse a monarquia, mais clientes conseguiam atrair ao seu serviço e menos estariam eles dispostos a apoiar senhores rivais. Do mesmo modo se tornou possível recrutar cada vez mais escravos para o serviço do palácio, do governo e do exército, e criar novas unidades de produção nos campos e no artesanato, que podiam complementar, se não substituir, a produção das unidades familiares tradicionais.

Mas a circulação de caravanas através do Sara, que ajudara a estimular o aparecimento de unidades económicas e políticas maiores no sudão, estivera sempre nas mãos das tribos sarianas descendentes dos antigos Gamarantes e Parusii, e especificamente dos Sanhajas e Tuaregues. O advento do camelo veio possibilitar um aumento substancial do volume e da regularidade do comércio transariano. Este foi objecto de desenvolvimento por parte dos mercadores, agora árabes e judeus também, que financiavam as caravanas que partiam de oásis a norte, como Tafilalete e Uargla. Mas as fortunas destes mercadores e os cameleiros do deserto foram forçosamente afectadas pelas mudanças no equilíbrio político no norte de África a seguir à sua conquista pelos árabes. Assim, por volta do século XI, o controlo de Tafilalete pelos Sanhajas, onde estava situada Sijilmasa a sua base caravaneira a norte, foi ameaçado pelo aumento do poder dos Zenatas que se expandiam a partir do leste.

A ascensão de reinos organizados no Sudão colocou igualmente problemas às tribos sarianas. À medida que o poder dos reis do Gana aumentou, lançavam olhares cobiçosos ao comércio trazido até eles pelos Sanhajas de rosto velado e procuraram estender o seu controlo para norte à custa daqueles. Visto que os Sanhajas estavam divididos n certo número de facções tribais rivais, os Lamtumas, Godalas e Masufas, foram perdendo gradualmente terreno. Por volta dos finais do século X, o seu principal centro comercial no sul, Audagast, tornara-se tributário do Gana. Contudo, os Sanhaja tinham já experimentado na certa influência islâmica e no início do século seguinte um dos seus chefes tribais apercebeu-se de que o Islamismo podia constituir um princípio unificador que os auxiliasse a estabelecer o equilíbrio. Um religioso muçulmano do sul de Marrocos, Abd Allah ibn Yasin foi persuadido a vir pregar entre os Sanhajas. Depois dos primeiros esforços vicissitudes, a sua interpretação rígida e puritana do Islamismo ganhou ascendente sobre as tribos sanhajas e tornou-se uma liga guerreira conhecida na história sob a designação de almorávidas (*).



[(*) O nome de almorávidas deriva do rábico al-Murabitun «povo do ribat». A idéia comum de ribat é um mosteiro fortificado onde se dava instrução militar e religiosa. Concluiu-se portanto, com muita razão, dado o carácter do movimento, que os almorávidas possuíam uma base desse tipo e os estudiosos perderam um certo tempo a discutir onde se encontravam os seus vestígios. A pesquisa moderna demonstrou, no entanto, que neste caso, ribat não tem esse significado concreto, e que al-Murabitun significa aproximadamente «povo da crença religiosa»].



Em meados do séc. XI, os almorávidas haviam readquirido para os Sanhajas o controlo da rota ocidental das caravanas transarianas e dos seus términos em Sijilmasa e Audagast. O próprio Gana ficou sob a sua influência e pelo menos as suas classes dominante e mercantil tornaram-se muçulmanas. Dispondo de uma segura base económica, o exército dos almorávidas abandonou então o deserto para empreender a conquista das terras islâmicas colonizadas e abastadas do norte e nordeste de África e da Península Ibérica, que será abordada no Capítulo 7. A nossa atenção dirige-se aqui para os estudos sudaneses, e a verdade é que, não obstante a islamização do Gana, que se seguiu ao aparecimento dos almorávidas, a orientação do desenvolvimento político do Sudão ocidental e central se manteve pagã e sudanesa pelo menos até ao séc. XVII.

As fontes árabes indicam que o Gana não foi o primeiro estado sudanês a aceitar o Islamismo. Este lugar é atribuído geralmente ao Takrur, um reino mais pequeno no vale do Senegal a sudoeste do Gana, cujo rei e corte se diz que foram convertidos algumas décadas mais cedo. Com efeito, o tráfico transariano proporcionou meios para que o Islamismo pudesse contactar todos os povos sudaneses imediatamente a sul do deserto. AI-Muhallabi (nos finais do século X) refere a conversão do rei de «Kaukau», que pode ser o mesmo «Kuku» que tinha um rei muçulmano no tempo de al-Bakri, e talvez estes sejam os nomes da antiga capital songai de Kukiya. AI-Bakri refere ainda a conversão de um rei de Malal, enquanto a chegada do Islamismo à corte de Kanem é atribuída à época em que governava um rei provavelmente dos finais do século XI. Mas esta aceitação inicial do Islamismo no Sudão ocidental e central parece ter sido essencialmente restrita às classes dominante e mercantil, esta especialmente no Sudão ocidental.

Havia motivos evidentes para que os governantes e comerciantes sudaneses fossem receptivos ao Islamismo; ou porque facilitava as relações cada vez mais importantes com os mercadores e os chefes no Sara e no norte de África, ou porque lhes fornecia instrução valiosa para a manutenção de correspondência e registos diplomáticos, administrativos e comerciais. Mas a aceitação do Islamismo pelos reis do Sudão foi em regra só na aparência. Se fosse mais do que isso teria destruído uma base essencial do seu poder, enquanto sucessores dos antepassados fundadores dessas sociedades, os primeiros reis pagãos que tinham feito o pacto inicial com o mundo dos espíritos e com os deuses de quem dependia a prosperidade do seu povo e a sua agricultura, como era crença geral da população.

Talvez só no Gana e nos reinos menores adjacentes, como o Takrur, que estavam sujeitos à influência dos Sanhajas e dos almorávidas, o lslamismo do século XI tenha avançado e conseguido atingir toda a base da sociedade. A longo prazo, isto traria importantes consequências para todo o Sudão ocidental através da expansão de uma classe mercantil totalmente islamizada. Mas ao nível mais imediato, o ataque almorávida pode ter vindo acelerar processos de mudança que minavam a base agrícola do poder sudanês nesta região tão próxima do deserto. O êxito económico e político do Gana terá suscitado aumentos nas populações humana e animal, que veio sobrecarregar os recursos naturais existentes de água, solo e madeira. Em certa medida, foi possível manter a situação desde que a riqueza continuasse a provir do comércio de longa distância. Mas a agressividade guerreira dos almorávidas desencorajou de facto alguns mercadores de enviarem os seus produtos através do Sara ocidental, e mesmo depois de os Sanhajas terem assegurado o controlo absoluto tanto da rota ocidental como dos seus términos, nem por isso as condições melhoraram. Quando os almorávidas partiram, os Sanhajas do deserto dividiram-se novamente nas suas facções, procurando cada uma o lucro máximo no mais curto prazo possível, e todas procurando adquirir e apascentar mais gado à custa dos agricultores já instalados. Deste modo, tanto a agricultura como o comércio viram-se ameaçados. Gradualmente, as terras setentrionais e centrais do reino transformaram- se em deserto, a ponto de as cidades terem de ser abandonadas. Cada vez mais os comerciantes transarianos preferiam percorrer as rotas mais centrais que iam até à curva do rio Níger, do que atravessar o agitado Sara ocidental para chegarem a um Sudão ocidental empobrecido. Tanto o declínio do comércio como o da agricultura provocaram a diminuição de receitas para a manutenção do poder central. Mas a sul, os povos mandé cuja agricultura não tinha sido perturbada, que viviam junto do rio Níger e aproveitavam as boas condições para a agricultura e uma boa rota comercial a nordeste da curva do Níger, começaram a romper o controlo do Gana, e ainda mais a diminuir os recursos postos à disposição do seu governo. É com efeito possível que numa tentativa de remediar esta situação, a capital do Gana tenha sido transferida mais para sul. Al-ldrisi (cerca de 1150) refere que ela se situava no Níger, mas devido ao declínio das comunicações pelas rotas transarianas a oeste, talvez essa cidade não fosse a capital de Gana mas a de um dos primeiros reinos vassalos que se tinha tornado independente.

Desenrolava-se então com efeito uma luta entre os grupos mandés mais meridionais com vista à transmissão da herança do antigo Gana. Inicialmente, a supremacia parece ter passado para um povo chamado Susu, cujo rei Sumanguru se diz que conquistou e tornou tributários os territórios que restavam do Gana no começo do século XIII. Mas o poder de Sumanguru foi ameaçado por outro grupo mandé, os Keitas, ao que parece originalmente comerciantes no Baixo Níger, os quais se esforçavam por obter o controlo político sobre vários reinos antigos no vale do Alto Níger que sem dúvida correspondiam ao Malal e ao Dau de al-Bakri. A tradição afirma que depois de uma longa guerra, os Keitas elegeram um rei, Sundiata, que destronou Sumanguru e prosseguiu até à conquista da capital do Gana, lançando desse modo os fundamentos do novo Império Mandé do Mali.

Pensa-se que Sundiata reinou entre 1230 e 1255 aproximadamente e é tido como um arquétipo dos reis sudaneses desse período. Por um lado é a grande figura heróica da tradição mandé, sendo muitas das suas vitórias atribuídas a poderes mágicos. Por outro lado, Sundiata é ainda apresentado como sendo originário de uma família muçulmana. É com efeito razoável supor que os Keitas, enquanto comerciantes, tivessem sido islamizados, além de que o seu sucessor imediato e filho VII (cerca de 1255-1270) foi o primeiro de muitos mansa do Mali a fazer a peregrinação a Meca.

Os tarikhs de Tungubutu apresentam o império fundado por Sundiata como uma continuação natural do antigo Gana. Esta parece ser uma perspectiva correcta da história. O antigo Gana, pelo menos na sua fase final, era controlado pelas classes dominante e mercantil dos Soninkes que pretendiam monopolizar o comércio local do Sudão ocidental e as suas ligações com o comércio transariano. O Mali foi criação de um grupo mandé mais meridional, que possuía melhores recursos agrícolas e um controlo mais directo sobre as regiões auríferas de aluvião, e que pretendia controlar todo o Sudão pelo menos até à curva do Níger onde estavam situados os novos términos meridionais do tráfico transariano, Tungubutu e Gao. Nesse aspecto, Sundiata e os seus sucessores foram muito bem sucedidos e por volta do século XIV controlavam um império bastante mais extenso do que o antigo Gana, a partir da sua capital em Niani, próximo ou junto do Alto Níger. Esse império chegou a ter cerca de 2000 quilómetros desde a costa atlântica a oeste até às fronteiras da actual Nigéria a leste e uma extensão máxima de cerca de 960 quilómetros, desde os centros caravaneiros como Audagast, Valata (para onde fugiram os mercadores muçulmanos de Gana depois da ocupação da sua capital por Sumanguru) e Tamakka (Es-Souk), a norte, até aos limites das florestas do sudoeste da Guiné.

O eixo central deste Império e a sua principal via de comunicação era o rio Níger. No entanto, a navegação deste rio até ao actual Segu estava nas mãos de um povo não mandé, os Songai. O início da história dos Songai recua ao primeiro milénio, altura em que eram essencialmente agricultores e pescadores e habitavam as margens do Níger em Dendi, entre a curva do Níger e Borgu. Mas os pescadores estenderam continuamente a sua acção pelo rio acima, o que levou os Songai a contactar de perto com o tráfico que utilizava uma via curta através do Sara até à curva do Níger. Daí resultaram duas conseqüências que vieram consolidar a formação de uma monarquia centralizada entre os Songais, e ainda deslocar o seu centro para norte, sendo a capital transferida por volta de 1100 d. C., de Kukiya no Dendi, para Gao. Na época da ascensão dos Keitas ao poder, no Mali, os canoei- ros songais actuavam para oeste até ao principal centro de comércio mandé de Djenne. O controlo sobre os domínios e a actividade dos Songais tornou-se, deste modo, de suma importância para os Keitas. Este objectivo parece ter sido alcançado por volta do terceiro quartel do século XIII, e mantido embora com possíveis interrupções até cerca do início do século xv.

O controlo sobre os Songais permitiu aos comerciantes mandé alargarem-se para leste e trazer o comércio internacional e o Islamismo aos pequenos reinos haúças, onde foram conhecidos como Uangarauas (isto é, «povo de Uangara» ou apenas «mercadores mandé»). A tradição afirma que os primeiros Uangaraua devem ter chegado à terras dos Haúças no século XIV, e que estavam decerto já bem implantados no século seguinte. De forma geral, o controlo dos Songais permitiu ao Mali atingir o auge da prosperidade e do poder. O império ficou rigorosamente demarcado no mapa (literal e figurativamente, pois aparece no mapa-mundi desenhado em 1339 por Angelo Dulcert, membro da grande escola de cartógrafos então existente em Maiorca), através da magnífica peregrinação a Meca via Egipto, que foi realizada por Mansa Musa (1312-1337) em 1324-5. Relata-se de modo variável a travessia do Sara feita por Musa com uma comitiva de 8000 a 15000 pessoas e que levou tanto ouro com ele, o qual gastou de forma tão pródiga, que o valor do metal foi depreciado em 12 % no Egipto. É evidente que tal peregrinação teve outros motivos para além dos religiosos; deve também ter procurado consolidar laços políticos, económicos e culturais com o mundo islâmico. Há certas indicações sobre os sucessos alcançados. Por exemplo, a partir desta época, sabe-se que houve no Cairo um albergue para estudantes sudaneses, enquanto se afirma que Musa trouxe consigo um poeta e arquitecto andaluz, as-Sahili, que construiu as mesquitas de Gao e Tungubutu e ainda um palácio nesta última cidade. Data possivelmente desse período o lançamento das bases da tradição escolar islâmica nas cidades sudanesas como Tungubutu e Ualata, que iriam produzir os tarikhs, fonte tão valiosa para os historiadores modernos, assim como obras religiosas e filosóficas.

Mas as melhores fontes para a história do Mali nos séculos XIII e XIV são de facto os escritores do norte de África: al-Umari (1301- -1349) e Makrisi (1360-1442) que se basearam em grande parte nas provas coligidas através da visita de Musa ao Cairo; Ibn-Kahldun (1332-1406) cujo serviço nas cortes de Tunes e Fez e como mufti no Cairo lhe forneceu suficiente informação para dedicar um capítulo da sua grande história aos «reis do Sudão- (essencialmente do Mali); e Ibn Batuta (1304-1368) - um marroquino que passou a vida inteira viajando pela maior parte do mundo conhecido, nomeadamente a longínqua China -, através de uma viagem feita pelo território do Mali durante os anos de 1352-3. É bastante favorável o quadro do Mali do século XIV fornecido por estes sofisticados habitantes do mundo muçulmano que se encontrava então no apogeu da sua civilização e erudição.

Ibn Batuta, por exemplo, ao viajar em toda a extensão desse vasto império, vai comentando freqüentes vezes a facilidade das deslocações. A segurança e prosperidade eram tais que não havia necessidade de viajar em grandes grupos com guardas armados, levar provisões ou fazer preparativos antecipados, uma vez que se podia comprar alimentos e obter alojamento seguro em todas as aldeias. “Os negros possuem algumas qualidades admiráveis. São muito raramente injustos e têm maior horror à injustiça do que qualquer outro povo. O seu sultão não perdoa a ninguém que seja culpado do mínimo acto de injustiça. Há total segurança no país. Nenhum viajante ou habitante tem algo a temer por causa de ladrões ou homens violentos”.

O leitor obtém de facto uma impressão de um sistema jurídico e de um governo ordenados, de uma vida económica próspera e de uma civilização urbana tão avançada como qualquer outra das que existiam então na Europa ocidental e numa área muitíssimo mais vasta. Adquire-se a impressão de que era uma civilização islâmica, mantida pela religião, leis, administração e saber islâmicos. Isto é contudo uma ilusão resultante do facto de os autores árabes, para obterem informações, dependerem em última instância essencialmente das visitas feitas aos muçulmanos sudaneses das classes dirigente e mercantil, ou no caso de Ibn Batuta, do facto de ele poder apenas comunicar com o povo das grandes cidades que tinham uma numerosa população imigrante do norte, a qual sabemos que era administrada separadamente de certo modo como um regnum in regno. A realidade pode ser melhor avaliada em dois trechos informativos fornecidos por al-Umari. Num deles diz-se que Mansa Musa não sabia, até à sua peregrinação, que segundo a lei muçulmana não devia ter mais do que quatro mulheres. No outro, talvez mais significativo, diz-se que as práticas pagãs e mágicas estavam espalhadas entre os súbditos de Musa, e que ele temia impulsionar demasiado a causa da islamização, porque sabia que ao fazê-lo iria diminuir a produção de ouro (e indubitavelmente também a de outros produtos do solo) que era tão essencial para a economia imperial.

Em suma, o império era mantido através do exercício da autoridade em seu próprio proveito, por uma classe dirigente quase islamizada e uma classe mercantil mais genuinamente islâmica, e pela força (al-Umari refere-se a um exército de 100000 homens, com 10000 cavaleiros), sobre variados grupos sociais tradicionais que acreditavam num mundo de espíritos e deuses pagãos, e que pensavam que a sua prosperidade dependia da manutenção das relações tradicionais com o mundo do além. No que respeitava aos súbditos mandé, a posição do Mansa derivava em grande parte da sua proclamada descendência de Sundiata, o herói mágico que fundara a nova e mais extensa comunidade mandé.

Mas o Mali no seu apogeu incluiu muitos povos que não eram Mandés e não partilhavam as tradições e crenças mandés, e só conseguiu manter o controlo sobre os seus vassalos na medida em que o poder central se conservou unido e mais forte do que qualquer outro poder regional que se erguesse contra ele. Existira já um período no fim do século XIII, em que se duvidara deste facto. Então o governo central fora sustentado graças à usurpação do poder por um Sakura que não era keita mas um dos seus escravos libertos, que conseguiu assegurar o controlo do exército. Suleiman, o Mansa no tempo de Ibn- Batuta, não deve também ter estado na linha directa da sua sucessão, e depois da sua morte em 1360, várias facções da família real começaram a competir entre si pelo poder. Em tal situação, o poder existente nalguns dos principais territórios vassalos pôde adquirir uma importância vital. Encontravam-se sob o controlo de vice-reis que eram membros dos Mansarin, que tinham desse modo acesso à autoridade central do próprio Mali, e que podiam igualmente assegurar as bases do poder local por meio de casamentos dentro das famílias dirigentes locais. Alguns membros dessas famílias reinantes podiam ser levados, em certos casos, como reféns para a corte de Mansa. Aí podiam adquirir conhecimentos sobre o modo como o poder central era manipulado e mantido, e ainda faziam provavelmente alianças com as facções adversárias dentro da família imperial.

As relações do Mali com o Songai eram especialmente importantes se se queria manter o império intacto. Um dos tarikhs de Tungubutu afirma que em certa altura, dois irmãos da família real songai fugiram da corte do Mansa onde tinham estado ao serviço como oficiais do exército do Mali, e regressaram a Gao. O resultado foi um renascer da monarquia songai, sem dúvida graças às lições aprendidas da experiência no Mali (Existe um fragmento de uma crónica do século XVII que afirma que a nova dinastia era de origem mandé). Os reis songai adoptaram um novo título, Sonni, e por volta de 1400 actuavam de forma independente, uma vez que um deles saqueou a capital do Mali, Niani.

A dinastia dos Sonni em dado momento teve um Sonni Ali (1464- -1492) que na tradição songai é apresentado como um grande inova- dor; um mago-herói - mas também de certo modo um muçulmano - comparado a Sundiata na tradição mandé. Uma vida inteira de campanhas militares destruiu o poder militar do Mali, reduzindo este império aos vales do Gâmbia e Alto Níger e às terras imediatamente adjacentes. Para norte delas formaram-se os reinos independentes dos Tucolores e dos Diaras. Para leste de Djenné, Sonni Ali e o seu sucessor Muhammad (1493-1528) construiu um novo império governado a partir da capital songai, Gao. A sua expansão para sul foi limitada por novos reinos independentes criados na curva do Níger pelos cavaleiros mossis vindos de leste. O império songai no entanto, ao tentar afirmar a sua autoridade sobre os reinos haúças até aos limites de Bornu, conseguiu expandir-se no sentido leste-oeste de modo semelhante ao do Mali no seu apogeu, enquanto para norte o seu poder foi bastante mais longe abarcando Air a nordeste, e a noroeste atingindo 800 km ou mais do deserto até aos importantes depósitos de sal de Teghaza e Taudeni.

Sonni Ali recebeu diferentes tratamentos por parte dos tarikhs. Foi «um homem de grande força e energia inesgotável», lutando sem cessar e sempre vitorioso, mas foi também «o tirano, o debochado, o maldito, o opressor». Este dualismo é o reflexo da existência de forças opostas no império que ele fundou e que faziam com que ele não fosse tão estável nem tão duradouro como o do Mali. Sonni Ali representou a reacção songai contra o imperialismo maliano; a sua força como rei songai residiu no seu papel de defensor do paganismo tradicional local. Ele parece ter revelado uma hostilidade deliberada em relação aos religiosos e eruditos muçulmanos das principais cidades, em especial Tungubutu, eles que eram representantes de uma doutrina universalista que servira os propósitos imperiais do Mali. No entanto na mesma época, Sonni Ali foi um imperialista, e teve necessidade de alguns aspectos da experiência muçulmana mandé ao pretender estabelecer um sistema político que pudesse integrar com sucesso vários povos não-songai.

Imediatamente após a sua morte, revelou-se a importância desta dicotomia, quando o seu herdeiro foi afastado e o poder tomado por um dos seus generais, Muhammad Turé, um mandé, que estabeleceu uma nova dinastia, a dos Askias. Verificou-se de novo, mais tarde, com o insucesso de Muhammad em estabelecer uma pacífica sucessão. Pode dizer-se que a história do império songai de Gao entre a deposição de Askia Muhammad pelos seus filhos em 1528 e a sua destruição por conquistadores vindos de Marrocos em 1591, foi uma luta contínua entre dois grupos políticos, um representante dos Songais, pagão e nacionalista e o outro proclamando um universalismo muçulmano de tipo maliano. A importância da divisão entre as duas facções foi tal que explica a fácil vitória alcançada pela pequena força expedicionária marroquina que atravessou o deserto na direcção de Gao e Tungubutu em 1590-91.

A partir de então, os reis songais, assim como os seus predecessores do Mali, apenas governaram o pequeno reino daí resultante: Dendi. A idéia que surgira no antigo Gana, de um vasto império que monopolizasse os tributos e o comércio de todo o Sudão ocidental em benefício quase exclusivo das classes dirigente e mercantil dos Mandé, essa idéia não voltou a ter quaisquer defensores efectivos do ponto de vista político. Por motivos intrínsecos à história norte-sariana e sudanesa, a partir de então as rotas comerciais transarianas mais importantes deslocaram-se ainda mais para leste, relativamente à época em que o Mali e o Songai eram os principais estados sudaneses, a partir da Tunísia e Tripoli para o Kanem e Haúça.

A história do Kanem, como vimos atrás, pode em certa medida ser interpretada como uma tentativa de construir um tipo de império como Gana possuía mais a oeste. Sem dúvida que a conversão dos seus reis, os Mai, ao Islamismo por volta dos finais do século XI, foi um indício da influência crescente dos comerciantes transarianos. Por volta do início do século XIII, a capital sitUada em Njimi controlava o território a sul do Kanem próximo do Lago Chade, enquanto a norte o poder dos Saifauas atingia os depósitos de sal de Bilma e do oásis de Djado. A sua influência fazia sentir-se muito mais longe, a norte até ao Fezzan e a sudoeste até pelo menos às proximidades dos reinos haúça. Mas seguiram-se então cerca de três séculos de disputas internas entre facções do grupo dominante dos Saifauas. Houve igualmente conflitos crescentes com os Bulalas, um grupo de pastores comparável aos anteriores Zaghawas que tinham inicialmente criado um reino, mas cuja influência foi destrutiva e não construtiva uma vez que eles competiam com os governantes saifawa pelo poder. Os Mai foram possivelmente forçados a retirar do Kanem e a procurar restabelecer o seu reino a partir de uma nova base a sul de Ngazargamu, a antiga província de Bornu, a sudoeste do Lago Chade.

Durante o século XVI, este novo reino saifawa de Bornu tornou-se cada vez mais poderoso. Os Bulalas, embora continuando chefes do Kanem, tornaram-se seus tributários e a influência dos Saifauas de novo se fez sentir na terra dos Haúças. No fim do século, estabeleceram-se relações permanentes com os Turcos otomanos que controlavam então o Egipto e Tripoli, resultando daí que o Mai Idris Alauma (cerca de 1560-1590) obteve fornecimentos de armas de fogo e instrução para os seus soldados no uso dessas armas e de tácticas adequadas, e conseguiu ainda recrutar um corpo de cameleiros árabes. Em conseqüência disso, assenhoriou-se de uma força muito mais considerável do que qualquer outra que pudesse erguer-se contra ele, e começou a transformar o seu reino num estado unificado e governado segundo os princípios islâmicos. Mas, uma vez mais, a linhagem saifawa não conseguiu manter o poder imperial. Houve contínuas guerras na fronteira com os Haúças a oeste e os Jukuns a sul, enquanto tribos tUaregues começaram a invasão pelo deserto a norte. Os príncipes saifauas procuraram ignorar estes conflitos competindo entre si nos rituais e festas da corte e o seu império dissolveu-se lentamente.

Os altos e baixos da organização monárquica e do poder imperial no Kanem e Bornu não foram talvez maiores do que os que ocorreram na área mais ocidental que os reis de Gana, Mali e Songai procuraram por seu lado controlar nessa mesma época. Houve, sem dúvida, do ponto de vista político, bastante mais continuidade no Kanem-Bornu. o sistema saifawa parece contudo nunca ter exercido uma influência profunda comparável à influência crescente dos Mandés. É de grande interesse, por exemplo, o facto de o Islamismo ter atingido os reinos haúças na fronteira com o Bornu, a partir do Mali que estava a muitas centenas de quilómetros de distância. A explicação deste facto parece estar mais uma vez relacionada com o. ponto de vista de os factores económicos do império parecerem ter sido menos importantes ou pelo menos não tão determinantes no Kanem e Bornu. Não se formou nenhuma classe mercantil Kanuri que se pudesse comparar com a dos Mandés. Os recursos disponíveis para a exploração comercial devem ter sido menores - decerto não existia qualquer acesso directo às fontes do ouro - e o país encontrava-se demasiado exposto à infiltração de pastores do deserto a norte e nordeste, os Bulalas, às tribos tuaregues ou os árabes Shuwa. Depois da chegada dos comerciantes mandé, os reinos menores haúças, embora sujeitos por vezes às pressões militares tanto do Kanem-Bornu como dos Songais, conseguiram proceder a uma utilização muito mais proveitosa dos seus recursos. Por volta do século XVI, produziam excedentes agrícolas e tinham manufacturas prósperas de metalurgia, tecelagem e couro (A que os europeus chamavam «couro marroquino» porque no início o importavam de Marrocos, mas provavelmente do Sudão através de Marrocos). Essas actividades iriam tornar estes estados no principal mercado sudanês para os mercadores transarianos, e ainda lhes permitiram, apesar da falta de unidade política, criar um sistema comercial e rotas mercantis em direcção a regiões mais meridionais que iriam competir com os mercadores mandés mais a oeste. Deve examinar-se, em seguida, a influência dos sistemas político-económicos dos Mandés, dos Haúças e do Kanem-Bornu sobre os povos da zona da Guiné, a sul do Sudão central e ocidental.