Os Estados e o Comércio na Guiné (03)

por D. Fage



O vasto sistema político e comercial mandé cujas origens e desenvolvimento foram esboçados no capítulo anterior, dificilmente teria existido sem atingir mais a sul os povos negros da África ocidental na região da Guiné. De igual modo, a lenda de Kisra menciona movimentos que provocaram o aparecimento de extensos reinos organizados no Sudão central, que não se detiveram aí tendo repercussões ainda mais a sul. De um modo geral, parece suficientemente claro que as transformações económicas e políticas que tiveram lugar no Sudão ocidental e central a partir dos finais do primeiro milénio tenderam, naturalmente, para extravasar e influenciar a evolução noutros pontos da África ocidental.

No entanto, essa influência parece ter implicado algumas vezes a intervenção política directa dos estados sudaneses nos assuntos dos povos guineenses. Pelo menos em certa medida, a explicação deste facto parece ser de carácter técnico-militar. O poder dos chefes sudaneses fora dos territórios centrais que eram habitados pelos seus grupos étnicos dependia de possuírem uma força militar superior. A cavalaria tornou-se a arma principal nos seus exércitos e um instrumento ideal para o emprego da força a grandes distâncias nas amplas savanas. Além disso, através do controlo dos términos meridionais das rotas comerciais transarianas e também da importação de cavalos adequados a fins militares, detinham o monopólio desta força. Mas, quanto mais a cavalaria era utilizada a sul, menos eficiente ela se tornava. Era difícil utilizá-la eficazmente nas savanas arborizadas; na floresta era impossível visto que os cavalos só se podiam deslocar em fila ao longo dos caminhos estreitos e sinuosos feitos por viajantes a pé. Quanto mais a cavalaria penetrava para sul, mais facilmente podia ser posta fora de combate por grupos locais de arqueiros e lanceiros muito menos dispendiosos. Isto ficou claramente demonstrado depois da conquista dos Songais pelos Marroquinos. Os invasores foram capazes de dominar sem grandes dificuldades as principais cidades da curva do Níger, mas sempre que tentavam aproximar-se dos reis songai, que se haviam refugiado nas matas de Dendi, as suas forças foram apanhadas em emboscadas e obrigadas a retirar.

Neste contexto, é pois importante recordar que existe uma área na Guiné entre o Baixo Volta e a fronteira sueste da Nigéria actual, onde, devido a uma pluviosidade extremamente baixa para essa latitude, não existe floresta densa nem sequer no litoral e até as faixas arborizadas são mais estreitas e menos densas. Com efeito, esta área situa-se quase mesmo a sul da fronteira, a leste da curva do Níger, entre as zonas mandé e chadianas do Sudão. As zonas de floresta contíguas a ela, onde hoje se situam o Gana e a Nigéria ocidental, estavam geralmente abertas à influência do norte.

O maior desenvolvimento do poder político e económico no Sudão antes do século XVII foi sem dúvida o que resultou da iniciativa mandé nos impérios sucessivos do Gana e do Mali (e em certa medida também do Songai). Este facto teve decerto consequências políticas directas nas terras situadas a oeste e a sul do centro mandé, nas imediações dos cursos superiores dos rios Níger e Senegal. Estendendo-se do Baixo Senegal até à Libéria ocidental, existia aí uma amálgama de povos como os Tucolores, Uolofes, Sereres, Diolas, Tendas, Papeis e Golas, entre outros. Os linguístas estão de acordo acerca das línguas destes povos que formam uma subfamília «oeste-atlântica» da principal família lingüística negra (a níger-congolesa) que é totalmente distinta da subfamília que compreende as várias línguas e dialectos mandé. Em termos gerais, parece que estes povos «oeste-atlânticos» eram negros que possuíam gado e vastas capacidades agrícolas (incluindo por vezes a rotação de culturas) e que tinham um alto nível de vida aldeã e de artesanato (inclusive trabalho em metal) mas que não tinham desenvolvido muito o comércio a longa distância ou estruturas políticas consideráveis que se pudessem comparar com as dos Mandés, talvez em parte porque estes se interpunham entre eles e o estímulo directo resultante dos contactos transarianos.

Houve, no entanto, um grupo étnico que falava uma língua oeste-atlântica totalmente diferente de todos os outros, e a sua história passou a ter, por volta do século XI, conseqüências tão importantes para uma vasta região da África ocidental que as suas relações com o crescimento do comércio e do império mandé devem ser consideradas em primeiro lugar. Trata-se do povo Fula (Fulani em inglês e Peul em francês).

Embora alguns Fulas actualmente sejam sedentários e urbanos, como veremos mais adiante, devem distinguir-se historicamente de todos os outros povos africanos ocidentais porque o seu modo de vida básico era a pastorícia itinerante. Os Fulas também têm sido diferenciados de outros africanos ocidentais do ponto de vista antropométrico, dizendo-se que são mais esguios, possuem nariz direito, o cabelo mais liso e os lábios mais finos do que é normal entre os negros da África ocidental. Além disso, embora possam ter pele escura como os outros, alguns dos Fulas têm de forma notória a pele mais clara ou mais avermelhada. Esta combinação de traços culturais e físicos distintos deu origem à idéia de que os Fulas eram inicialmente um povo de pastores sarianos, até possivelmente nilo-sarianos, que emigrara para ocidente ao longo dos limites meridionais do deserto.

Se assim foi, deve tratar-se de uma migração pré-histórica, uma vez que o primeiro indício provável dos Fulas em tempos históricos indica que eles eram um dos grupos de criadores de gado que habitavam a região onde os Soninkes (isto é, os Mandés do norte) edificaram o reino do Gana. A dispersão dos povos pastores para outras regiões foi um dos efeitos do crescimento dessa sociedade agrícola sedentária. Os antepassados dos actuais Fulas parecem ter decidido instalar-se mais a sudoeste, nas estepes que ladeiam o vale médio do Senegal. Foi provavelmente aí, no caso de não serem originariamente africanos, que eles adquiriram a sua língua actual através da fusão com os povos da região, dado que existem relações mais estreitas com as línguas dos Sereres e dos Uolofes dos vales do Baixo Senegal e do Gâmbia. Mas, com o aparecimento do reino do Takrur, o seu modo de vida pastoril foi de novo ameaçado. Alguns deles optaram por participar da sociedade sedentária (a muçulmana) e tornaram-se assim o povo hoje chamado Tucolor (ou Toucouleur que é a versão francesa de um nome que significa «povo de Takrur»; no Senegal, os Franceses usavam as designações Toucouleur e Peul de forma mais ou menos variável; com efeito, as línguas são essencialmente as mesmas).

Contudo, outros Fulas não aceitaram o modo de vida sedentária e islâmica e, por volta do século XI, procuraram preservar o seu pastoralismo pagão e tradicional deslocando-se para leste através das pastagens do Sudão entre os 10° e 15° de latitude norte. Por volta do século xv tinham-se já instalado em número considerável nos planaltos do Futa Jalon e nas imediações de Macina, o delta interior do curso superior do Níger em Tungubutu. Começavam também a aparecer no país dos Haúças, onde hoje existem cerca de quatro milhões de pessoas descendentes dos Fulas. Por volta do século XVI, os grupos avançados da migração fula encontravam-se no Bornu, e no século XVIII um grupo numeroso instalou-se nas terras altas de pastagens do Camarões.

Esta notável migração foi caracterizada pelo facto de, excepto no extremo oeste (Futa Toro - o antigo Takrur - e Futa Jalon), os Fulas geralmente não desalojarem nem se misturarem com os gentílicos das regiões onde se fixavam. Permaneciam em comunidades distintas, cada uma delas com o seu próprio guia ou chefe, o ardo, deslocando-se continuamente com as suas manadas através das pastagens e rodeando os campos das aldeias agrícolas. As suas relações com os governos e com a economia das comunidades sedentárias - bastante semelhantes às dos ciganos na Europa - eram essencialmente de natureza simbiótica. Pretendiam trocar os seus lacticínios, peles e por vezes gado por alguns dos produtos da sociedade sedentária, mas sem participar dela. Decerto, muitos Fulas abandonaram este pastoralismo pagão para se fixarem nos novos centros urbanos e não nas aldeias de agricultores, e ali se converteram ao Islão. Desconhece-se como isso se processou, mas pode ter acontecido pelo facto de as cidades, com a sua desenvolvida rede comercial, proporcionarem de longe os melhores mercados para os Fulas oferecerem os seus produtos e adquirirem algumas mercadorias e bens de que necessitavam vindos de outras regiões, de tal modo que alguns Fulas se fixavam nelas de início para apoiar os seus irmãos do campo (Foi mencionado por E. F. Gautier que nas estepes a norte do Sara, os nómadas são mais atraídos pelas cidades do que pelas explorações agrícolas). Assim como o crescimento das cidades e do comércio no Sudão, para leste até aos Haúças, esteve freqüentes vezes relacionado com as iniciativas mandé, pode dizer-se que o fortalecimento do poder mandé e do seu comércio teve tendência para atrair e para empurrar para leste os Fulas. Os Fulas urbanizados devido à dispersão, não só conservaram os seus laços étnicos com os pastores itinerantes das áreas rurais, como com os Fulas e os Tucolores islamizados que se concentravam no extremo ocidental do Futa Toro e do Futa Jalon. Desse modo, quando no século XVIII eles começaram a reorganizar a sociedade tradicional na África ocidental de modo algo semelhante às teocracias muçulmanas, a rede de comunidades muçulmanas Fulas nas cidades de todo o Sudão ocidental e central, juntamente com os laços que estas comunidades urbanas mantinham com os numerosos Fulas, nómadas e pagãos, do meio rural circundante, permitiram que as idéias da reforma e da revolução muçulmana se propagassem de forma rápida e impetuosa a enormes distâncias.

Outros efeitos do crescimento do poder político e do comércio mandé no Sudão ocidental foram menos dramáticos e tiveram menos alcance do que a dispersão dos Fulas, embora trouxessem mudanças significativas para os povos da costa atlântica, que rodeavam o território mandé a oriente e a sul. Grupos de fugitivos das convulsões políticas (por vezes talvez das primeiras fases da dispersão fula) instalaram-se nas zonas costeiras do Atlântico. Os mais notáveis entre eles foram os Susus que, como se viu atrás, tinham concorrido sem sucesso ao legado do antigo Gana, sendo o seu rei Sumanguru derrotado pelo chefe keita, Sundiata, o fundador do grande império do Mali. Actualmente, os Susus vivem junto do mar entre os Tenes e os Sereres, constituíndo desse modo uma cunha da língua mandé no território das línguas oeste-atlânticas. Outros grupos de língua mandé deslocaram-se para oeste ou para . sul em direcção à costa como comerciantes ou conquistadores. No caso dos comerciantes, o acesso às fontes de sal que se obtinha no litoral constituiu provavelmente um importante incentivo. Já referimos que existia, nesse tempo, uma estreita relação entre o comércio .e a formação de estados, especificamente porque o tributo representava um meio fácil de adquirir excedentes para o comércio. O crescimento do comércio mandé em direcção ao litoral deu origem a que um certo número de pioneiros mandé edificasse reinos em proveito próprio e em competição com o modelo principal do Mali. Parece terem existido dois eixos principais da expansão mandé. Um deles estendia-se ao longo do rio Gâmbia, uma artéria comercial muito útil, que tem início a alguns quilómetros da nascente do Faleme, um dos principais afluentes do Senegal, cujo curso superior estava na posse firme dos Mandés. O outro, separado da Gâmbia pelo maciço do Futa-Jalon que os Fulas ocupavam, estendia-se para sul no sentido da actual Serra Leoa, junto dos territórios dos Susus. Em ambas as áreas estavam estabelecidas unidades políticas dirigidas por chefes designados farimas. Parece que inicialmente estes pagavam muitas vezes tributo ao Mali, e ainda conservavam alguma ideia da supremacia final desse império mesmo depois do seu declínio nos fins do século xv.

Verificou-se um último contributo dos Mandés para a geografia étnica e política das regiões do oeste atlântico, quando elas foram invadidas na primeira metade do século XVI, a partir de leste, por bandos de assaltantes e conquistadores chamados Manes. Através dos seus trajos e das armas (que os europeus comentaram nessa época) assim como pela sua língua, não resta qualquer dúvida que os Manes eram, com efeito, na sua origem, soldados mandés. No entanto, um outro problema é saber como conseguiram avançar paralelamente à costa vindos de leste. As fontes exteriores só conseguem referenciá-los aproximadamente a meio da costa liberiana. Existe contudo uma tradição mane, fixada por escrito por volta de 1625, que afirma que eles atingiram pela primeira vez a costa junto de um forte português. Isto só pode ter acontecido na Costa do Ouro (a costa do actual Gana) a cerca de 1000 quilómetros para leste. Não se encontra confirmação deste facto nem nos relatos portugueses (embora sejam bastante omissos para este período) nem nas tradições existentes entre os actuais povos do Gana. Mas, tendo em atenção o que mais adiante se afirmará acerca das relações dos Mandés com a Costa do Ouro, não seria de modo nenhum impossível que um contingente militar mandé ali chegasse, pelas estradas comerciais que a partir de Djenne conduziam para sudoeste. A decisão de regressar ao país de origem pelo ocidente e ao longo do litoral pode ter estado relacionada com o surto do poderio militar songai ao longo do médio Níger. Uma decisão deste tipo não foi um passo no desconhecido como se poderia supor, dado que existem provas de que os Mandés de oeste como os da Gâmbia, conheciam a actividade comercial de outros Mandés no interior da Costa do Ouro.

Assim sendo, por volta de 1540, os Mandés avançavam para oeste paralelamente à costa da actual Libéria, combatendo cada grupo tribal que encontravam. Foram quase sempre bem sucedidos. A seguir a cada vitória instalavam-se alguns deles como senhores de um novo estado, enquanto outros conseguiram arrastar à sua passagem alguns elementos da região como auxiliares (chamados sumbas) e fortalecidos desse modo, caminhavam para novas vitórias mais a oeste. O avanço mane só foi realmente sustido quando, a noroeste do que é actualmente a Serra Leoa, encontraram os Susus, um povo mandé como eles, que possuía armas, táctica e organização militares semelhantes.

O resultado final das conquistas dos Manes veio complicar consideravelmente a situação étnica no limite sul e sudoeste da região oeste-atlântica. Parece terem sido estas conquistas que tornaram os Mendés, de língua mandé, a população dominante no sul da Serra Leoa. Mas a norte, os Lokos falam também mandé; contudo, há razões para crer que a sua base étnica teve originariamente proveniência «oeste-atlântica». Os Tenes, seus vizinhos, embora falem uma língua oeste- atlântica, parecem ser uma aristocracia de origem mane, assim como alguns sobados entre os Krus, o grupo dominante da actual Libéria, parecem ter surgido do mesmo modo.

A influência mandé nas terras a leste da Libéria, nas actuais repúblicas da Costa do Marfim e do Gana, parece ter tido inicialmente uma intenção comercial, embora isso pudesse e tivesse ocasionado consequências importantes no domínio político, como já foi sugerido acerca da antiga história dos Manes. Ela esteve relacionada com a expansão de uma classe especializada de comerciantes mandé islamizados, chamados Diulas, que parecem estar inicialmente relacionados, senão identificados, com os traficantes de ouro uangara/soninke mencionados no capítulo 3. (Foi assinalado que há contextos em que os termos «Diula» e «Uangara» são usados indistintamente- Para os Soninkes, diula é apenas um termo que significa «comerciante», mas fora das áreas de língua mandé passou a ter uma conotação étnica). No que respeita à expansão para sul e sudoeste dos Diulas (ou Uangaras), o desenvolvimento da cidade comercial de Djenne foi um factor chave. Não se chegou a um consenso sobre a data em que a cidade foi realmente fundada, mas é evidente que por volta do século XIII ela era já um importante centro da actividade mercantil e muçulmana. Os Diulas, ao apoiarem-se em Djenne, fizeram-no com vista à abertura do tráfico em direcção ao sul. A cidade não está situada no rio Níger, a via principal de comunicação oeste-leste através do império do Mali, mas num dos seus afluentes a sul, o rio Bani, que aí segue um curso algo tortuoso em regiões pantanosas, quase paralelo ao Níger, que ele encontra a sul de Tungubutu. Embora, Djenne não possuísse boas comunicações naturais com a região central mandé a oeste, estava protegida pelas terras pantanosas que a rodeavam, e era uma boa base para mercadores que desejassem ligar o comércio de e para sul e sudoeste com as rotas transarianas que terminavam em Tungubutu e noutras cidades da curva do Níger.

Havia dois produtos principais originários do sul e sudoeste que costumavam atrair o interesse dos comerciantes no território mandé. O primeiro era o ouro. Existiam vastos depósitos no país dos Lobis no vale do Volta Negro, a cerca de 500 Km a sul-sueste de Djenne. Além disso, o ouro podia ser obtido por meio da lavagem das areias de aluvião ou escavando minas relativamente pouco profundas em mui- tos locais das florestas a sul da Costa do Marfim e do actual Gana. Neste país, com efeito, nos vales e nas proximidades dos rios Ofin e Ankobra, existem depósitos de ouro que se revelaram os mais ricos de toda a África ocidental. Tiveram sem dúvida alguma um interesse crescente em função da exploração cada vez mais intensiva dos depósitos aluviais de Bambuque e Buré, que deviam estar já a produzir resultados diminutos (o seu rendimento nos tempos actuais tem sido insignificante comparado com o do Gana actual; a sua exploração é essencialmente uma ocupação para os agricultores na estação seca).

O segundo produto de maior interesse no sul para os mercadores do norte era a noz de cola, o fruto de árvores que cresciam espontaneamente na floresta tropical. A noz quando mastigada tem um sabor agradável e refrescante, e desempenha um papel na etiqueta da hospitalidade e das relações sociais nos países árabes. Dado que é um estimulante suave, tinha um certo interesse para as comunidades islâmicas a quem era negado por lei o prazer do álcool. Existem algumas variedades da árvore da cola, mas aquela que produz os frutos mais procurados pelo comércio e pelos hábitos sociais, a Cola nitida, era originária das florestas que se estendem da Serra Leoa até ao actual Gana.

Provavelmente existiam já então alguns povoamentos de língua mandé a sul de Djenne (e também a leste na direcção do país dos Haúças), nomeadamente dos povos designados Samos e Busas, que devem ter constituído um ponto de partida para os mercadores Diulas poderem avançar. A sua prática consistia em estabelecer núcleos próximos das aldeias dos chefes pagãos mais importantes, repetindo aparente- mente desse modo o modelo próprio da antiga cidade de Gana, com o seu bairro de mercadores muçulmanos ao lado da capital pagã. O primeiro núcleo mais importante a sul de Djenne era Bobo-Diu- lasso, cujo nome indica a sua situação, pois significa «o núcleo diula no país dos Bobo». A sul de Bobo-Diulasso, Kong foi um outro centro importante dos Diulas, a cerca de 560 km de Djenne, donde irradiavam numerosas rotas comerciais em direcção às florestas da Costa do Marfim e da Libéria oriental. Mas ainda hoje estas terras são relativamente pouco habitadas e há quinhentos anos atrás deviam ser muito escassamente povoadas. As rotas comerciais mais lucrativas parece terem-se localizado mais para leste, quer partindo directamente de Djenne, por exemplo em direcção às terras auríferas dos Lobis, quer de Bobo-Diulasso e Kong, em direcção às terras habitadas pelos povos de língua acane que actualmente são o grupo dominante da metade meridional da República do Gana. Por volta de 1300, havia núcleos importantes de Diulas em Begho, a sudeste de Kong, num recanto das montanhas de Banda e a 110km daí, em Bono-Mansu próximo do actual Tekyiman em território Brong dos Achantis do norte (O Bono-Mansu tem, talvez, um significado semelhante a Bono-Oiulasso, por exemplo «o núcleo man(de) no país Bono (Brong)»; man é ainda a raiz do termo akan para reino, onam e aman no plural).

Quando no século xv os Portugueses se empenharam em tentar aceder, por mar, ao comércio do ouro na África ocidental os seus agentes conseguiram reunir numerosas informações acerca do comércio entre Djenne e as terras dos Acanes, o que se reflecte nos escritos de Cadamosto (cerca de 1455), Pacheco Pereira (1505) Valentim Fernandes (1507) e João de Barros (1552). Os três primeiros obtiveram informações sobre a região da Gâmbia, onde naturalmente os Portugueses puderam contactar com as zonas fronteiriças do império Mali. O aspecto mais vantajoso desse tráfico parece ter sido a troca secular do sal sariano pelo ouro da África ocidental. O sal era transportado em camelos, pelo deserto até Tungubutu, em enormes blocos que atingiam o peso de 100 quilos cada (um camelo podia carregar dois), e em seguida era transportado para Djenne, em embarcações, possivelmente songai (cada uma das quais podia transportar cerca de 20 toneladas) onde 50 quilos valiam cerca de 8 onças de ouro. Este era aproximadamente o dobro do seu valor em Tungubutu, pelo que o comércio era bastante lucrativo. Segundo o testemunho de Fernandes, um mercador uangara instalado em Djenne podia ter um lucro equivalente a 7500 onças de ouro ao ano. O latão e o cobre, tecidos azuis e vermelhos, seda e especiarias eram outras mercadorias importadas por Djenne pelo mesmo processo, e eram provavelmente também reexportadas para o sul. Em Djenne, o sal (assim como outros produtos) era fragmentado em pedaços mais pequenos e levados para o sul em caravanas de cem ou duzentos carregadores. As fontes portuguesas indicam que no final da estação seca, os mercadores regressavam à região norte com escravos e ouro em pó. Uma parte destes bens ficava retida no Sudão; outra parte era enviada mais para norte para comprar sal e outras mercadorias do norte de África. Os Portugueses estavam sobretudo interessados neste comércio, na medida em que envolvia o ouro, mas sem dúvida muitos carregadores levariam, nas suas deslocações rumo ao norte, carregamentos de noz de cola (produto de menor interesse para os Portugueses).

Pacheco Pereira, assim como um dos tarikhs de Tungubutu, refere alguns locais para onde se dirigiam as caravanas dos Diulas saídas de Djenne. Um importante mercado era designado por «a terra de Toom», e a cidade talvez tivesse especificamente o nome de Bitu. Ambos os termos são facilmente identificáveis, sendo Ton e Tonawa «povo de Ton» os termos mandé e haúça respectivamente para desginar os Acanes, enquanto bitu é o termo haúça para Begho. Segundo os informadores de Pacheco, o povo de «Toom» eram monstros estranhos com cabeça de cão com quem se praticava a troca muda como regra, mas Fernandes, ao salientar que o comércio com eles era monopólio absoluto dos Uangaras (isto é, Diulas) fornece efectivamente a explicação para tal história.

Por volta do século XIV, os Acanes pareciam habitar predominantemente a savana a norte das zonas florestais onde se encontravam as mais ricas jazidas de ouro. Um dos efeitos da chegada ao seu país dos mercadores diulas parece ter sido encorajar a formação de reinos que controlavam as saídas dos caminhos da floresta por onde o ouro era transportado. (Parece existir novamente um paralelo significativo com o antigo Gana.) Com efeito, os primeiros reinos conhecidos dos Acanes situam-se a norte da floresta ou nos seus limites e não na floresta propriamente dita. Próximo das minas de ouro dos Lobis ficava Bona, segundo parece, de início um estado acane, embora tenha sido conquistado pelos Dagombas nos finais do século XVI. OS dois reinos mais antigos e mais importantes foram provavelmente o de Banda, governado a partir da região estratégica de Begho que controlava o desfiladeiro nas montanhas por onde passava a estrada comercial principal em direcção a Kong, e o de Bono, com a capital em Bono-Mansu. Em ambas as cidades existiam evidentemente importantes núcleos de Diulas. Já se afirmou que a monarquia Bono, sob a forma que teve até ser conquistada pelos Achantis em 1722-3, foi fundada em 1295. No entanto, uma interpretação mais rigorosa dos dados tradicionais, indica que seria mais razoável uma data mais próxima de 1420. Essa data (e mesmo a outra anterior) está de acordo com a noção de que o desenvolvimento político do reino de Bono está associado ao desenvolvimento da rota comercial de Djenne, e que a fundação de Banda foi provavelmente mais ou menos contemporânea.

A direcção principal da expansão de Bono parece ter sido para sudoeste, paralelamente ao limite norte da floresta que aí curva para sul em direcção à costa e ao desfiladeiro das montanhas Akwupim-Togo por onde corre o rio Volta até ao mar e a zona das pastagens que se alarga gradualmente e se estende desde Sekondi até ao leste da Nigéria. Chamou-se já a atenção para a importância desta região costeira e para o facto de os primeiros agricultores não estarem bem equipados para viver nas densas florestas equatoriais. Pode muito bem ter acontecido que os antepassados do grupo meridional dos Acanes, geralmente conhecidos por Fantes, tenham atingido o litoral a sul da floresta a oeste de Acra, rodeando-a ao longo do Volta, tendo-se fundido ali com os primeiros habitantes e estabelecido um certo número de pequenos reinos, na época em que os Portugueses chegaram por mar, por volta de 1470. Alguns desses reinos parecem ter conservado tradições que os relacionam com Bono.

Evidentemente que a floresta não estava então desabitada, pois de outro modo o ouro não teria atingido cidades como Bono-Mansu e Begho. Era, no entanto, escassamente povoada (como o são hoje as zonas não-auríferas da floresta situadas a oeste da Costa do Madim e da Libéria) ou então o trabalho do ouro era provavelmente uma ocupação essencialmente sazonal para grupos de homens provenientes da savana. Do mesmo modo era evidente que, com a valorização crescente da riqueza que se podia obter com o comércio do ouro, existiam muitos incentivos para os Acanes se instalarem permanentemente e em grande número na floresta. Isso foi facilitado pela aquisição de plantas alimentares do sudoeste asiático.

Na altura da chegada dos Portugueses ao litoral, existia um núcleo já significativo de povoados acanes e uma actividade económica e política na floresta que tinha o seu limite meridional aproximadamente nos rios Ofin e Pra, correspondendo ao actual estado achanti de Adansi. Era conhecido pelos europeus no litoral como Acane e Tuifo, embora o seu nome exacto fosse Akyerekyere. Aquelas designações são elucidativas. Acane (ou «Acani») só por si é bastante significativo, pois para os mercadores europeus durante os séculos XVI e XVII os «Acanes» eram conhecidos como os melhores comerciantes de ouro. Tuifo, que se pode traduzir por «o povo Tui», também é revelador, dado que Tui é o nome de uma das duas principais línguas acas do Gana (a outra é a fante).

Não se sabe muito àcerca dos Acanes ou dos Tuifos. Não temos, por exemplo, a certeza se eram um ou dois reinos, ou se na realidade era algo mais do que o primeiro núcleo de povoamento e comércio dos Acanes na floresta. Isso deve-se simplesmente ao facto de não terem sobrevivido à grande expansão económica e política que ocorreu entre os Acanes da floresta devido ao aparecimento a sul de novos mercados altamente competitivos para o seu ouro, em conseqüência da actividade marítima européia, e que eram alternativas para os mercados antigos do sistema diula. Pensa-se geralmente que foi um facto muito importante para o posterior desenvolvimento dos Acanes. Para o historiador ganês do século XIX, C. C. Reindorf, Acani foi «o primeiro local da nação dos Acanes... a partir do qual os outros adquiriram conhecimento e sabedoria». As dinastias reinantes de muitos e importantes reinos acanes reclamam a sua descedência dos Acanis e dos Tuifos, e pensa-se que o seu desenvolvimento esteve relacionado com o estabelecimento da rota comercial dos Diulas a partir do norte. Assim, os governantes de Akuamu, um dos três maiores reinos que competiam com o comércio dos europeus no século XVII, conservam a tradição de que os seus antepassados vieram da região dos Tuifos, antes disso de Dormaa (a sul de Begho) e, ainda antes, de Kong. Man- tiveram-se as ligações com Dormaa até ao século xx.

Foi já afirmado que as famílias reais de Akuamu e de outros estados acanes, eram de facto de origem diula. Isto representa uma conclusão forçada perante as provas existentes. O máximo que se pode dizer é que as novas oportunidades económicas que os Diulas tiveram, serviram talvez para estimular alguns chefes tradicionais, de grupos aparentados com os Acanes, a desenvolver um poderio político mais vasto e eficaz; que os chefes muçulmanos diulas devem ter sido úteis conselheiros neste processo, e que por vezes as famílias dirigentes de ambos os lados se devem ter aliado e em certa medida fundido pelo casamento. No entanto, as instituições e os costumes dos estados acanes parecem ter-se desenvolvido a partir de bases indígenas como, por exemplo, os grandes festivais do inhame ou a herança matrilinear dos cargos e ainda em 1798 um importante rei acane, Osei Kuame dos Achantis, foi deposto por ser favorável aos muçulmanos.

Sabe-se, no entanto, da história dos séculos XVII e XVIII que os Diulas-Mandés detinham sem dúvida a iniciativa política nas áreas onde se tinham fixado quando isso lhes interessava. Mas, por vezes isso pode ter acontecido nas regiões dos Acanes, pelo menos em parte, como reacção ao crescente fortalecimento dos seus estados. Deve ser esse um dos factores que contribuiram para a criação do novo estado de Gonja pelos Mandés no início do século XVII.

Gonja é uma região estéril, mesmo a norte de Bono, escassamente habitada com exceção de zonas fronteiriças que eram importantes para os comerciantes diulas, uma vez que próximo delas passavam algumas das maiores vias comerciais que conduziam às áreas produtoras de ouro e de cola dos Acanes. Por volta do início do século XVII, as condições existentes para estes mercadores eram bastante piores do que tinham sido inicialmente. Em primeiro lugar, o reino de Bono era então tão forte e extenso que devia conseguir ditar em certa medida as condições em que permitia aos Diulas a compra de ouro e cola vindos da floresta que está situada junto da sua fronteira sul. Em segundo lugar, desde o fim do século XV que se formara um novo reino militar, Dagomba, que se expandira imediatamente para nordeste de Gonja. A conquista de Bona pelos Dagombas foi sem dúvida perturbadora para os Diulas, mas ainda mais importante deve ter sido o facto de em Daboia, no Volta Branco, os Dagombas se terem apoderado da única fonte de sal importante da região. Os seus reis foram sem dúvida capazes de explorá-lo em seu proveito, e em prejuízo da posição comercial dos Diulas. Um terceiro factor foi o facto de os Diulas não serem já o único grupo de comerciantes inter-regionais a operar nessa área. A Crónica de Kano (A Crónica de Kano encontra-se num manuscrito árabe que parece datar só do fim do século XIX, e os dados cronológicos que fornece para os reis de Kano não são universalmente aceites. Baseia-se, no entanto, provavelmente em crónicas mais antigas ou na tradição oral existente no tempo em que foi escrita, e, por alguns cálculos, as referências a Gonja devem reportar-se ao período acima mencionado) relata a abertura do comércio entre o país dos Haúças e Gonja, especificamente para nozes de cola, no tempo dos reis que terão governado durante os meados ou a segunda metade do século xv. Existe, de facto, uma referência a mercadores de Gonja que iriam comerciar ao país dos Haúças; assim sendo, talvez fossem Diulas/Uangaras. Leo Africanus, no entanto, referindo-se à situação no Início de 1500, mencionou mercadores do país dos Haúças que se tornaram «muito ricos porque levam as suas mercadorias a países muito distantes e porque a sul estão em contacto freqüente com um país onde se encontram grandes quantidades de ouro», e isso refere- se com certeza aos mercadores haúças que comerciavam com o país dos Acanes. Pelo menos no século XVI, os comerciantes diulas, devem ter encontrado em Gonja a concorrência dos comerciantes do país haúça.

A reacção dos Diulas na região de Bono-Banda-Gonja contra o agravamento geral da sua posição parece ter consistido na colocação ao seu serviço de soldados aventureiros mandés. Não se entende claramente através das fontes disponíveis donde eles vieram. Podem ter vindo do norte onde o surto do poderio militar songai a partir de 1464 aproximadamente deve ter provocado a diminuição de oportunidades para alguns dos soldados mandés, ou podem habitar já a região, por exemplo como guardas dos comerciantes diulas. Todas as provas indicam que estes guerreiros entraram em Gonja vindos de sudoeste, e edificaram um estado que começou a expandir-se à custa dos estados de Bono e Dagomba. Este último foi forçado a deslocar a sua capital, Iendi, das proximidades de Daboia para a sua actual localização mais a leste. Os vários povos de língua acane e gur que habitavam o novo estado foram divididos pelos chefes dos grupos mandés, um dos quais foi reconhecido como rei. A constituição do reino revela semelhanças imediatas com os Dagombas e com a organização política dos Acanes. Gonja não se revelou, no entanto, favorável à manutenção de um governo centralizado, nem o poderio dos Dagombas a norte ou o dos Acanes a sul tinha sido totalmente destruído, e o novo reino foi perdendo rapidamente a sua autoridade à medida que os bandos de conquistadores se integravam cada vez mais nas suas comunidades locais.

A presença dos Diulas e as alterações no equilíbrio do poder provocaram insurreições políticas noutros locais além de Gonja. No século XVII, as tensões entre muçulmanos e pagãos da região de Begho conduziram a uma guerra destruidora que levou finalmente ao abandono total da capital de Banda. A população local provavelmente instalou-se em algumas cidades a leste, enquanto os Diulas se retiraram para oeste, para um local mais afastado nas montanhas de Banda, onde criaram o novo centro comercial de Bonduku. Por volta de 1730, houve idênticas perturbações em Kong, onde os Diulas conseguiram apoderar-se do poder político. Esta mudança pode ter estado associada, como esteve sem dúvida a queda final de Gonja, à formação do estado dos Achantis que controlou praticamente todos os Acanes da floresta assim como a sua importante produção.

As referências aos mercadores haúças e à constituição do poderio dos Dagombas (que esteve relacionado com o comércio haúça) têm por mérito recordar-nos que no actual Gana os Diulas actuavam numa região da Guiné que esteve igualmente aberta a influências políticas e económicas originárias do Sudão central. A ausência de flo- restas no litoral a leste do Volta fez com que o actual território do Gana fosse particularmente aberto a influências vindas de leste. Com efeito, dois grupos de povos, os Dagombas e os Mamprussis e outros parentes seus ao norte, e os Gás, Adangmes e Euas a sudoeste, mantêm tradições sobre a sua origem, nomeadamente a de que os seus antepassados vieram de leste.

No caso dos Dagombas e dos Mamprussis, e do povo mossi seu aparentado a norte da República do Burquina Fasso, estas tradições foram analisadas multo exaustivamente, e a sua historia inicial pode hoje ser delineada com bastante segurança. Os reinos dos Dagombas e dos Mamprussis, os dois maiores reinos dos Mossis - Uagadugu e Iatenga (ou Uahiguia) - e ainda outras pequenas monarquias, foram criados por cavaleiros invasores que assolaram a bacia do Volta a partir de leste, e no século XV, que apareceram provavelmente na sua fronteira oriental nos fins do século anterior. Antes disso, talvez entre os séculos XI e XIV, cavaleiros semelhantes tinham organizado aparentemente um certo número de reinos mais para leste, em Diamare, território dos Songais mesmo a sul do país dos Dendis, em ambas as margens do Níger, onde hoje se encontram as cidades de Niamei e Sai. Na realidade, os tarikhs de Tungubutu referem assaltos dos Mossis contra as maiores cidades da curva do Níger, que parece terem ocorrido interminavelmente entre 1260 e 1480, e esses assaltantes provi- riam eventual e originariamente de Diamare. O que fez sem dúvida terminar esses assaltos, e pode ter conduzido à extinção dos reinos diamares, foi o aumento do poderio militar dos Songais na curva do Níger a partir da época do Sonni Ali. No tempo de Askiya Muhammad (1493-1529) e Askiya Daoud (1549-1582), os exércitos songais fizeram a guerra ao país inimigo e destruíram as suas cidades.

É possível que a criação dos reinos que sobreviveram até aos tempos modernos na bacia do Volta esteja de algum modo relacionada com esta alteração no equilíbrio político mais a norte e a leste. De qualquer modo, nos meados do século XV e a partir de uma zona próxima do extremo nordeste do actual Gana, os antepassados das linhagens dominantes de Mamprussi, Dagomba, Uagadugu, Iatenga e de outros reinos começaram a expandir-se na direcção oeste, utilizando a sua cavalaria para conquistar e lançar tributos sobre muitas terras pertencentes aos povos agricultores da região voltaica ou de língua gur. Por vezes os reis-sacerdotes dos cultos animistas locais foram assassinados e depostos. Ainda mais freqüentemente os invasores escolhiam esposas nessas famílias e desse modo reclamavam o senhorio da terra tanto por direito como por conquista. De qualquer modo, o resultado disso foi a constituição de uma nobreza autoritária e hierárquica acima dos grupos autóctones aparentados e a sua reunião em reinos unificados. Em conseqüência disto, a etnia dos conquistadores fundiu-se com as etnias locais, mas os títulos de nobreza e o poder mantiveram a possibilidade de reconhecer a descendência dos conquistadores originais, distinguindo-se pela posse de cavalos, embora em tempo de guerra a cavalaria fosse reforçada por hostes de archeiros locais.

O conjunto dos reinos Mossi-Dagomba foi criado por processos muito semelhantes aos usados, cerca de sete séculos antes, pelos Zaghawas quando fundaram o reino de Kanem a norte do lago Chade. Na realidade, não esquecendo que em Diamare surgiram aparentemente os primeiros reinos songai, parece certo que os fundadores dos estados da bacia do Volta, juntamente com os primeiros reis Songai, foram os representantes a ocidente do processo de constituição de estados que se iniciou primeiramente junto do Lago Chade. Não é muito difícil imaginar os jovens cavaleiros nobres de povos como os Zaghawas ou os Bulalas a avançarem para oeste a fim de criarem novos estados em seu próprio proveito. Talvez as políticas pagãs dos Haúças pré-uangaras tivessem nascido deste modo, e só depois os reinos de Diamare e Dendi, seguindo-se-lhes a repetição do ciclo mais a oeste.

Se isto foi possível a oeste do Kanem, aconteceu do mesmo modo na zona de passagem para sudoeste que se prolonga até à costa. Foi isso o que realmente sucedeu, e a este respeito a lenda de Kisra fornece um modelo útil (embora não seja único). Sugere ela que o ciclo de expansão e conquista, seguido da organização dos reinos, e de novo da expansão, conquista e organização política noutras regiões, deve ter continuado através da África ocidental a partir da região do Lago Chade e dos Haúças em duas direcções principais. Uma é a linha já considerada, que incluíu também, muito provavelmente, os reinos de Borgu (em cuja região se diz que morreu Kisra), logo a sul de Diamare. A outra dirigiu-se mais para sul, a partir dos Haúças e de Borgu, compreendendo o estado de Jukun no Benué, a que os Haúças chamavam Kuararafa, o reino Nupe mesmo a norte da confluência do Benué e do Níger, o reino Igala a sul de Nupe, os reinos iorubas a sudoeste de Nupe e a sul de Borgu, o reino de Benim a leste dos iorubas, e os reinos dos Ajas a oeste daqueles. Para lá dos Ajas, que são um ramo dos Euaes, ficaram os pequenos reinos dos Adangmes e Gãs na zona sudoeste de Gana.

Os chefes destes reinos e de muitos outros, consideravam o leste ou o nordeste (no caso de Benim, a terra dos Ioruba) como a direcção por onde tinham vindo os seus antepassados. Nalguns casos, pouco mais é possível afirmar. Os Jukuns sobrevivem hoje como um pequeno grupo com pouco interesse pelo passado do império outrora controlaram a norte da fronteira entre os Haúças e Bornu. Conhece-se o que hoje resta da sua história, principalmente através dos relatos dos territórios haúças, em especial Kano e Bornu, aos quais os Jukuns provavelmente pagavam tributo por volta dos séculos xv e XVI. No século XVII eles foram no entanto uma potência militar temível que conseguiu desvastar tanto o território dos Haúças como o de Bornu. O declínio posterior e a desintegração do seu estado devem estar relacionados com a chegada dos Fulas à região no século XVIII. O Nupe foi realmente conquistado pelos Fulas, no século XIX, em seguida a um período de guerra civil e, em consequência disso, pouco se sabe hoje da sua antiga história. Existe ainda uma outra dificuldade relativa ao aparecimento da nova dinastia de Igala por volta de 1500, que praticamente extinguiu na totalidade as tradições da história de Nupe anterior a essa época. Mesmo o passado de Igala é hoje visto em termos de influências políticas sucessivas com origem nos Iorubas, no Benim e nos Jukuns, sendo difícil, se não impossível, estabelecer um quadro cronológico satisfatório para essa história.

Há, com efeito, muito que dizer acerca do facto de os reinos de Jukun, Nupe, loruba e Benim, e ainda talvez os reinos de Borgu, terem seguido um processo político comum, ou uma série de processos, mas é só entre os Iorubas e no Benim que é possível obter uma noção clara do que se passou. No caso do Benim, a primeira explicação para este facto é a de que conservou o seu reino intacto até ao fim do século XIX, tendo sido efectuado um valioso registo da sua tradição por um dos seus chefes, J. U. Egharevba. A partir de 1480, o reino esteve em contacto com os europeus e podem utilizar-se os seus relatos para comprovar a história tradicional desde aquela época. No que respeita aos Iorubas, enquanto estiveram ocupados numa série de guerras intestinas destruidoras, durante quase todo o século XIX, foram desenvolvendo um sentido bastante forte de identidade cultural. Foram auxiliados nisso, de modo algo paradoxal, pelo facto de estarem abertos às missões cristãs e através delas à educação ocidental, desde a década de 1840. A base de qualquer investigação sobre o passado ioruba é com efeito uma História escrita por um pastor ioruba, conhecido como Reverendo Samuel Johnson, em 1897. Além disso, dispõe-se hoje de um conjunto razoável de vestígios arqueológicos tanto para os Iorubas como para o Benim.

O actual interesse sobre o Benim e a sua história começou de facto com o grande número de peças da sua arte, especialmente as modeladas em latão, mas que inclui igualmente alguns trabalhos notáveis em marfim, que foram pilhados da cidade de Benim depois da expedição inglesa em 1897. Pouco depois, em 1910, o etnógrafo alemão Leo Frobenius revelava pela primeira vez ao mundo exterior a existência de uma tradição ainda mais requintada de escultura em latão e terracota de Ife, segundo a tradição a cidade onde os Iorubas se dispersaram para fundar os seus reinos. O conhecimento desta arte aumentou consideravelmente mais tarde graças à investigação arqueológica. Uma grande parte das peças descobertas em Ife são representações em tamanho natural de cabeças de antigos reis e rainhas num estilo de beleza invulgar e de um naturalismo até então insuspeitado entre artistas africanos. Algumas das peças de latão de Benim têm a forma de representação de cabeças reais, inicialmente também naturalistas, mas progressivamente estilizadas, mas uma das suas principais realizações é a grande série de placas de latão modelado (de que se conhecem cerca de mil), que representam cenas da história e da lenda de Benim, e que outrora adornavam o palácio real na capital do reino.

A corrente naturalista na arte de Ife e do Benim, juntamente com o alto grau de apuro técnico necessário para produzir trabalhos de latão tão perfeitos pelo processo de moldes de cera, levou de imediato os europeus a supor que para ela contribuira alguma influência não- -européia. Se assim aconteceu, deve ter sido em tempos muito recuados, dado que pelo menos algumas placas do Benim foram vistas já em meados do século XVII, altura em que um escritor holandês se referiu ao palácio do rei como tendo «pilares de madeira incrustada com cobre, onde representavam as suas vitórias», enquanto a tradição do Benim afirma que a arte de modelar latão foi trazida de Ife para o Benim no tempo de um rei que governou provavelmente cerca de um século antes da chegada dos Portugueses.

A pesquisa arqueológica recente confirmou a antiguidade das culturas que produziram a arte de Ife e ào Benim, e demonstrou igual- mente que não houve necessidade de influência externa para que esse trabalho se realizasse. O actual ponto de vista é o de que a escultura do Ife e do Benim terá evoluído naturalmente a partir da escultura da cultura de Nok, que produziu belas figurinhas de terracota, e que data do período que vai de 900 a. C. a 200 d. C. A área onde foram encontrados os objectos da cultura de Nok estende-se desde a zona ocidental do território haúça através do Benué até às terras dos Jukuns, enquanto o trabalho em latão da tradição de Ife-Benim é também conhecido em Nupe e Igala.

A única inovação vinda do exterior deve ter sido a técnica de moldes de cera para ligas de cobre. Há, no entanto, várias razões para este facto não ser tão significativo como se supunha. Em primeiro lugar, a escultura em metal é apenas um aspecto secundário. Naquela região produziram-se óptimas obras de terracota, pedra e marfim, e ainda hoje se fazem belas peças em madeira e cabaça, materiais esses que não são de natureza a sobreviver como vestígios arqueológicos. Em segundo lugar, a cultura de Nok constitui uma prova em como a técnica metalúrgica do ferro, e ainda a do estanho, eram praticadas já há muito tempo nessa região. O problema principal com o cobre e as suas ligas deve ter sido o de obter quantidades suficientes desse metal.

As zonas de trabalho do cobre mais conhecidas em termos históricos situam-se em Air e no Baixo Congo, a uma distância de cerca de 1300 kms uma da outra, mas a produção na primeira parece ter sido bastante fraca, e de qualquer modo o cobre usado para modelar as esculturas revestia invariavelmente a forma de latão ou bronze, em que o cobre entra numa liga de outros metais como o zinco, o estanho e o chumbo. É praticamente tido como certo que pelo menos o latão não era fabricado na África subsariana, pelo que surge com bastante força a possibilidade de grande parte do metal ter vindo de fora, através do comércio transariano e, eventualmente, a partir de 1480, por via do comércio marítimo europeu, sabendo-se que ambos transportavam grandes quantidades de ligas de cobre. No que respeita ao processo de fundição com moldes de cera, ele pode ter sido empregue em Nok para o estanho, e além disso foi usado freqüentemente para o latão ou bronze no leste da Guiné, desde as terras dos Acanes a ocidente (os seus trabalhos mais famosos são pequenos pesos esculpidos com os quais pesavam o ouro em pó) até ao Camarões a leste. As esculturas de metal mais antigas até agora identificadas nesta região são os magníficos bronzes exumados em Igbo-Ukwu, no leste da Nigéria, que foram datados do século IX d. C. e pertencem acidentalmente a um estilo que parece ser totalmente diferente da tradição de Ife-Benim.

O requinte da arte de Ife e do Benim sugere que ela deve ter estado associada a funções reais ou sacerdotais numa sociedade rica e altamente organizada. Afirmou-se já que as placas do Benim decoraram outrora o palácio real; sabe-se ainda que as cabeças em latão eram utilizadas nos altares dos antepassados no palácio, enquanto a finalidade mais provável das cabeças naturalistas de Ife seria a de efígies usadas nos funerais de estado. Visitantes holandeses do século XVII acharam justo comparar a capital do Benim com as principais cidades holandesas desse tempo, tais como Amesterdão e Harlem. A arqueologia moderna demonstrou que era uma cidade muralhada com perto de 2,5 quilómetros quadrados e um conjunto de cercas que se estendiam pelos campos circundantes, por vezes, numa área de vários quilómetros. Demonstrou ainda que por volta do século XIII existia já no local uma cultura equivalente à que os visitantes do século XVII observaram.

Este facto permite confirmar à evidência a conclusão, obtida através da lista de reis e conservada pela tradição do Benim, sobre as origens da dinastia derrotada pelos Ingleses nos finais do século XIX, que podem recuar a cerca de 1300 ou 1200 d. C. A tradição do Benim afirma, contudo, que não só o trabalho em latão foi introduzido no Benim a partir de Ife depois de essa dinastia se ter estabelecido (ao que parece com base num reino ou reinos ainda mais antigos), como ainda afirma que essa dinastia foi iniciada por um princípe de Ife, Oranmiyan. Em tempos mais recentes, os reis do Benim enviavam sem dúvida mensageiros a Ife para confirmação da sua entronização e recebiam mensagens de Ife, enquanto a tradição revela que inicialmente as cabeças dos reis de Benim eram enviadas para Ife, a fim de aí serem enterradas.

As tradições iorubas mais fidedignas hoje em dia, não provêm de Ife mas de Oio, que foi o estado ioruba mais importante dos séculos XVII e XVIII, e cujas tradições foram preservadas na grande História dos Iorubas de Johnson. No entanto, a tradição de Oio confirma sem dúvida o ponto de vista do Benim sobre as suas relações com Ife. Oranmiyan aparece nela como Oranyan, neto do fundador de Ife, Oduduwa, considerado também como o primeiro rei de Oio. Mais adiante afirma-se que todos os outros reinos iorubas foram fundados por descendentes de Oduduwa vindos de Ife.

Estes primeiros reis iorubas são evidentemente figuras lendárias mais divinas que humanas, e o primeiro rei histórico de Oio pode ter sido Aganju, segundo a tradição neto de Oranyan, que terá provavelmente reinado antes dos finais do século xv. No entanto, não parecem existir motivos para contestar o conceito de que muitas outras dinastias da região, inclusive a do Benim, foram criação de emigrantes de Ife, e não subsistem hoje dúvidas acerca do facto de a actual cidade de Ife ser mais antiga do que qualquer outra no Benim, e de ela ter na realidade uma antiguidade considerável. Tanto as esculturas de terracota como as de latão têm sido aí encontradas num contexto que se pode datar dos séculos XI ou XII, enquanto a escavação de covas consideradas como local funerário das cabeças dos reis de Benim, revelou datas correspondentes ao IX e X séculos d. C. Refira-se, aliás, que se sabe agora da existência de uma importante povoação no local do primeiro núcleo de Oio, por alturas de 1100.

E difícil rejeitar a conclusão de que o Benim e os reinos iorubas foram criados por grupos de imigrantes que, vindos do norte e nordeste, atingiram as terras de comunidades agrícolas e metalúrgicas como as da antiga cultUra de Nok, se tivermos em conta uma versão da lenda de Oduduwa que conta a história de uma imigração da Arábia via Bornu e país dos Haúças que é uma reminiscência da história de Kisra. O facto de existir uma tradição à parte sobre Oduduwa, que ê um mito da sua descida do céu a fim de criar o mundo em Ife, constitui um certo reforço àquele ponto de vista. Ele parece ser um reflexo da crença de que existiram uma sociedade e uma cultura iorubas antes da formação dos reinos que perduraram até ao século XIX. A constituição de novos reinos por invasores tem sido com efeito apontada como um processo que ocorreu muito antes no Kanem/Bornu e entre os Haúças, e talvez bastante mais tarde na bacia do Volta, e parece correcto aceitar que ele se verificou igualmente em Borgu, Nupe e entre os Jukuns e os Iagalas.

Tanto a sul como a norte, o sucesso dos recém-chegados pode estar talvez relacionado com a posse de cavalaria. Shango, o deus das guerras dos lorubas, também representado como filho do Oranyan, é nitidamente um cavaleiro. Os exércitos de Oio que no século XVII estenderam o seu poder para sudoeste, através das planícies limítrofes das florestas até aos territórios dos Ajas, junto da costa no Daomé, foram ao que parece compostos essencialmente por cavalaria. É certo que atualmente os Iorubas são muitas vezes considerados habitantes da floresta. Mas muitos deles vivem ainda nas savanas do norte; além de que, a antiga história de Oio revela uma luta contínua pelo poder contra os outros reinos da savana, Borgu e Nupe: e a actual concentração de população na floresta pode ser parcialmente uma conseqüência da pressão dos Fulas durante o século XIX. É certo que lfe se situa na floresta e os recém-chegados podem ter sido atraídos para ela por se tratar de um importante centro de culto dos povos que estavam prestes a dominar. Por outro lado, o Benim situa-se mesmo na floresta onde, além de não servirem para a guerra, os cavalos dificilmente sobrevivem, apesar de que os reis e os nobres sempre insistiam em aparecer em público a cavalo (como o testemunham as placas de latão e os visitantes dos séculos XVII e XVIII).

Outra característica dos recém-chegados consistia em serem construtores de cidades. O tamanho e a complexidade da cidade de Benim já foram mencionados, enquanto os Iorubas actualmente habitam especificamente só em cidades, a partir de onde os camponeses percorrem grandes distâncias para atingir os seus campos. Essas cidades tinham muralhas e eram bastante populosas. O perímetro da cerca exterior em Ife, por exemplo, tinha perto de 15km, enquanto a capital de Oio, antes do século XIX, deve ter tido muralhas com cerca de 25 km de extensão máxima. Esse facto recorda a situação no país dos Haúças, onde as cercas de Keno e Katsina por exemplo, tinham ambas à roda de 22 Km. Há no entanto, indícios em como nem toda a área interior das muralhas era ocupada por edifícios. Isso acontecia sem dúvida entre os Haúças no século XIX quando, por exemplo, o viajante Henry Barth calculou que cerca de 30000 pessoas ocupariam apenas 1/3 do espaço cercado em Kano, e que em Katsina cerca de 8000 pessoas habitariam apenas 1/6 da área interior das muralhas. Apesar disso, a questão das muralhas das cidades desta região é muito complexa, como já o demonstraram os arqueólogos tanto em Ife como no Benim, e parece que a construção de muralhas terá proporcionado uma protecção suficientemente ampla para todos os súbditos do rei e seus animais por algum tempo em caso de necessidade. Se assim aconteceu, talvez se possa encontrar a explicação das cidades muralhadas que nos primeiros tempos seriam santuários estabelecidos pelos recém-chegados num país potencialmente hostil ou, em alternativa, refúgios construídos pelos povos invadidos.

Sabe-se que existem numerosos vestígios de fortificação em Tado e Nuatsi, que se situam numa linha que, a partir de Ketu, o estado ioruba mais ocidental, se dirige para oeste paralelamente ao mar e a cerca de 96 Km de distância dele. As tradições dos Euaes e dos Gãs referem-se a este eixo por onde os seus antepassados terão emigrado, enquanto Tado é referenciada como o ponto de onde os povos ajas dispersaram em direcção à região que actualmente ocupam, e Nuatsi como o centro de dispersão dos Euaes. Parece portanto que o pro- cesso de constituição de estados continuou para oeste a partir dos Iorubas ao longo desse eixo. Talvez se tratasse de uma via utilizada para refúgio dos governantes que tinham sido destituídos pelos chefes iorubas, dado que a oeste dessa linha os primeiros chefes gãs parecem ter sido reis-sacerdotes de comunidades muito pequenas, enquanto a leste os reis ajas terão estado sujeitos em certa medida à influência ioruba (embora possa ter sido uma simples consequência da expansão de Oio durante os séculos XVII e XVIII). As fortificações não foram ainda escavadas por arqueólogos, mas a dispersão dos Ajas a partir de Tado é tradicionalmente localizada por volta dos meados do século XVI, e a chegada dos Gãs às planícies de Acra deve ter ocorrido ao mesmo tempo ou um pouco mais cedo.

O processo de formação do estado da parte oriental da Guiné tem sido encarado essencialmente em termos de ocupação militar e de motivação política. As provas disponíveis não permitem na realidade elaborar qualquer interpretação económica global do tipo da que foi proposta para a Guiné ocidental. Isso talvez não seja surpreendente. Como se disse já, a origem dos estados no Sudão central parece ter sido muito menos influenciada por razões comerciais do que o foi mais a oeste, enquanto o comércio a longa-distância no Sudão central, e daí até à Guiné oriental, parece ter sido estimulado em grande parte pela influência dos comerciantes mandés que alcançaram os reinos haúças vindos de oeste no século XIV. Mas se aceitarmos a hipótese de que os reinos da Guiné oriental historicamente conhecidos, surgiram em consequência da saída contínua de pequenos grupos que abandonavam os reinos inicialmente criados, para se lançarem na conquista, teremos de aceitar a evidência de que as vantagens económicas, nomeadamente o desejo de conquistar e explorar novos territórios em proveito próprio, constituíram poderosos incentivos para esses grupos. Se tivermos em conta a tradição e alguma lógica, as histórias das migrações de Kisra e de outros conquistadores podiam ser mais uma prova do incremento das rotas comerciais onde os mercadores difundiam essas histórias, do que das verdadeiras conquistas. De qualquer modo, se recordarmos a natureza das interacções ocorridas mais a norte, entre o Sara e o Sudão, e a antiguidade da cultura de Nok, muitas energias dos conquistadores devem ter sido votadas à conquista, exploração e desenvolvimento dos primeiros reinos, os quais terão possuído as suas próprias redes comerciais. Uma vez que a memória destes reinos foi muito apagada pelas conquistas, deve ser difícil descobrir provas históricas para sus- tentar um tal ponto de vista. Mas ele parece confirmar-se, por exemplo, ao ter em conta que os antepassados dos reis mossi-dagomba se deslocaram em direcção inversa, no mesmo eixo que os comerciantes uangara-mandé utilizaram para atingir as terras dos Haúças. Embora a correlação cronológica seja aqui obscura, pode no entanto afirmar-se que a riqueza das cidades da curva do Níger estava então a ser prejudicada pela importante actividade dos Mossis.

Por si só, os vestígios artísticos são suficientes para demonstrar que alguns dos novos reinos dotaram os seus governantes de uma riqueza considerável. Ela era em grande parte proveniente sem dúvida do tributo, mas além disso também do comércio. O latão e o bronze utilizados em Ife e no Benim, assim como nos territórios acanes, deviam ter sido trazidos de outra região, provavelmente em troca de alguns produtos locais. É escasso o nosso conhecimento acerca do antigo comércio da Guiné oriental e dos seus métodos, mas existem cada vez mais provas de que ele deve ter sido volumoso.

Parece ser um contributo importante para esta questão a escavação realizada por Thurstan Shaw em Igbo-Ukwu, assim como a sua datação aproximada do século IX, conforme foi já referido. Os achados incluem a sepultura de um homem que só pode ter sido um rico monarca ou um rei-sacerdote, e existem indícios importantes de actividade comercial. Igolo-Ukwu situa-se no país dos Ibos-orientais, onde se pensava não existir qualquer tradição monárquica e estar localizado fora de qualquer sistema de comércio a longa distância até à chegada dos comerciantes europeus ao litoral. Em tais condições, era difícil perceber como tinha sido acumulada tanta riqueza. Contudo, trabalhos recentes revelaram que, antes da chegada dos europeus, as comunidades do delta do Níger e das enseadas a leste do Camarões enviavam sal e peixe seco para norte em troca de produtos agrícolas, e que existia ainda um tráfico, no sentido este-oeste até ao sul do país ioruba, de alguns produtos artes anais especializados.

Este facto é comprovado pelas descrições dos primeiros comerciantes portugueses no litoral no século XVI. OS Portugueses de então não foram grandes inovadores do comércio africano, pelo simples facto de terem poucos produtos seus para exportar que interessassem aos compradores africanos. A sua prática consistiu geralmente em apoderar-se do comércio local e explorá-lo em seu próprio proveito. A sua principal preocupação foi, como se disse, a de obter ouro na Costa do Ouro (isto é, no litoral do actual Gana). De certo modo isso foi fácil visto que existia já uma activa comunidade de comerciantes entre os Acanes que viviam próximo no litoral (Diulas, Acanes e outros mercadores do interior apareciam na costa já por volta de 1500). Mas essa comunidade tinha de ser abastecida das mercadorias que pretendia comprar. De início, os Portugueses importavam, entre outras coisas, enormes quantidades de tecidos marroquinos que provavelmente já costumavam chegar aos Acanes em pequenas quantidades por terra. No entanto, em breve descobriram que podiam fornecer as mercadorias pretendidas na Costa do Ouro a partir de uma região mais próxima. Inicialmente os Portugueses procuravam-nas principalmente no Benim, não porque aqui houvesse grande produção, mas porque existia um sistema comercial bem organizado e facilmente acessível por mar. (Mais tarde este sistema esteve sujeito a um controlo régio no interesse do monarca, a tal ponto que os Portugueses preferiram comerciar com os Itsekiris e Ijaus fora do controlo do Benim.) Uma das principais importações dos Portugueses para o Benim e territórios adjacentes foram utensílios de cobre, e entre as principais exportações para a Costa do Ouro encontravam-se os tecidos dos lombas, missangas (algumas talvez de Ife, que produzia nessa altura vidro, e outras missangas de pedra provavelmente do Alto Benué), e escravos.

Subsistem portanto poucas dúvidas acerca do comércio como factor de acumulação de riqueza e do desenvolvimento do poder monárquico na Guiné oriental, ainda que tenha exercido aqui uma influência menos decisiva do que na Guiné ocidental. É ainda possível que a rede comercial do Benim e da região do delta do Níger possa ter alcançado a sul a foz do Congo, que seria uma boa fonte de cobre, e para onde se diz que navegaram as canoas dos Fantes por volta do século XVII.