O Nordeste e a África Banto (04)

por D. Fage



[...] Existem [...] dois factores que condicionam o núcleo banto nesta área imensa. um deles foi a força numérica e cultural dos povos que habitavam já os territórios para onde os Bantos se deslocavam. Em segundo lugar, temos o factor de ordem geográfica: os Bantos não estavam nada interessados em colonizar terras onde a agricultura não assegurava a subsistência, o que era corrente, em virtude de um índice de pluviosidade anual inadequado ou insuficiente.

Na maior parte da imensa área para onde os Bantos se deslocavam, os habitantes seriam provavelmente falantes da língua khoisan, cujos sobreviventes são os Khoikhoi (ou «Hotentotes») de pequena estatura e pele amarelada e os bosquímanos Sano A distinção entre ambos situa-se basicamente ao nível cultural. Os Khoikhoi são pastores e dominam as técnicas da olaria, cestaria, tecelagem e metalurgia. Os que restaram dos San são caçadores-recolectores nómadas na Idade da Pedra, e é possível que fosse genericamente este o estado cultural dos Khoisans quando os Bantos entraram em cena. Assim sendo, a sua densidade populacional teria apresentado valores muito inferiores aos alcançados pelos Bantos que se dedicavam à agricultura, tendo como conseqüência a sua incapacidade de resistir ao avanço destes últimos. Terão sido exterminados, influenciados ou então assimilados pela sociedade e pela cultura dos grupos bantos, ou empurrados para zonas que não interessavam aos Bantos para efeitos de constituição de núcleos. A maior parte destes situava-se na região cada vez mais árida no extremo sudoeste do continente que culmina no deserto da Namíbia e no deserto vizinho do Calaári. Hoje em dia, quase todos os sobre- viventes se encontram distribuídos em redor das franjas desta região seca, e é no próprio Calaári que os poucos San que sobreviveram caçam e recolhem. Outras e maiores comunidades de caçadores-recolectores de pequena estatura, ainda existentes, subsistem num outro meio ambiente geográfico difícil, a floresta da bacia do Congo, e em particular a floresta do alto Ituri, muito húmida e relativamente fria, no nordeste do Zaire. São normalmente designados por pigmeus e pigmóides. Todavia, não sabemos se os seus antepassados teriam sido na origem falantes khoisan, dado hoje todos estes grupos de pequena estatura que vivem nas florestas falarem as línguas das comunidades banto com as quais vivem em relação de simbiose ou subordinação.

A aridez da ponta sudoeste do continente é uma conseqüência extrema do facto de a maior parte da precipitação na África meridional vir, no Verão, do Oceano Indico. A sul dos 20° de latitude S, mais de metade das terras altas do interior recebe em média menos de 400 mm de precipitação por ano, sendo, por conseguinte, pouco propícias à agricultura. Deste modo, muito embora existam bons vestígios arqueológicos de que os agricultores da Idade do Ferro haviam atravessado o Limpopo e se começaram a instalar no Transval, Suazilândia e Natal a partir do séc. IV, o seu subseqüente avanço na África meridional foi relativamente lento. O gado passou a ter uma importância cada vez maior na sua economia e sociedade e a colonização centrou-se nas planícies costeiras melhor irrigadas antes de avançar para o interior. A sedentarização nas terras altas de pastagem da savana só se terá iniciado cerca de 1300, e no litoral os Bantos podem só ter alcançado o rio Kei próximo do séc. XVI (altura em que dispomos de fortes indícios da sua presença através das narrativas dos marinheiros portugueses naufragados). A razão pela qual as línguas banto localizadas mais a sueste terão sofrido uma influência tão significativa do discurso khoisan reside, sem dúvida, no facto de a sua expansão final registar um processo lento e experimental por parte de pequenos grupos de pessoas, e grande parte desse avanço se ter processado através da absorção de muitos dos habitantes que falavam khoisan nas suas próprias estruturas sociais.

No nordeste existia também uma zona seca, uma faixa extensa que se prolongava para sul a partir do deserto que se estende desde o Lago Turkana (Rudolfo) até ao sul da Somália, e que separava as regiões planálticas e lacustres a ocidente que tinham sido ocupadas pelos Bantos a partir do litoral oriental que eles tinham povoado. Mas a aridez não fora o único problema que se pôs aos Bantos dessa região. Se quiseram avançar mais tiveram de lutar pela posse da terra contra tribos combativas de pastores nómadas que falavam línguas «nilo-sarianas» ou mesmo «hamíticas».

Atualmente, os tipos étnicos existentes ao longo da fronteira nordeste da área banto apresentam alguma complexidade. A grande faixa de terra seca que se estende a sul, desde a área do Lago Turkana até ao centro da Tanzânia através do Quénia, é ocupada essencialmente pelos nilo-sarianos mais meridionais, que falam as chamadas línguas «nilo- -hamíticas» tais como os pastores massais e a norte deles os Kipsigis, os Nandis e os Samburus. Contudo, a leste dos Massais do sul existem os restantes grupos que falam línguas hamíticas ou khoisan, como por exemplo, os Iraqw e os Sandaves. A nordeste dos Massais, existe um grande prolongamento do território banto ocupado por tribos, como os Kambas e Quicuios, que devem ter vindo da região litoral a sul da Somália. Para norte e nordeste dos nilo-hamitas vivem outros nilo-sarianos, os chamados «nilóticos», como os Luos, os Acholis, os Dinkas e os Nuer, cujo território se prolonga para norte pelo Nilo Branco até à antiga Meroé. Para nordeste situa-se o Corno de África habitado por povos de línguas afroasiáticas, quer pastores nómadas das planícies áridas como os Somalis e os Oromos (Galas) de língua cushítica, ou agricultores como os povos de língua semítica que colonizaram os planaltos etíopes vindos do nordeste do antigo reino de Axum ou os Sidamas de língua cushítica dos planaltos mais meridionais.

Este é um quadro simplificado da distribuição actual das populações. Seria muito precipitado esboçar algo acerca da situação existente quando chegaram à região os primeiros Bantos há cerca de dois mil anos. Todos os vestígios existentes sugerem que durante os dois últimos milénios têm existido fluxos e refluxos populacionais nesta fronteira nordeste dos Bantos e fora dela; com efeito, esta região africana tem conhecido, ainda nos últimos quinhentos anos, movimentos de população numa escala e de um tipo que são talvez únicos na história de África deste período. A própria designação «nilo-hamita» ilustra o problema. Do ponto de vista lingüístico, ela pouco significa, como vimos. Do ponto de vista cultural, no entanto, pode indicar aqueles «nilóticos» , isto é povos do Alto Nilo Branco, que se deslocaram para um território anteriormente ocupado por pastores de língua «hamítica», cuja cultura em parte assimilaram. Esta interaculturação é, com efeito, típica desta região. Por isso encontram-se indiscriminadamente sistemas de classes etárias entre alguns Bantos mais a norte, como os Quicuios, alguns povos nilo-harníticos e nilóticos, e entre os Cushitas do sul (entre os quais se supõe que teve origem o sistema cíclico de classes etárias *). E ainda provavelmente nesta área que os Bantos obtiveram o primeiro gado, e depois a técnica de ordenhar, talvez através dos povos cushitas.

[(*) um sistema de classes etárias divide a população masculina em grupos de rapazes, guerreiros e velhos. Todos os rapazes pertencem, durante um certo tempo, a um determinado grupo; chegado o momento, todos são formalmente iniciados na condição de guerreiros. Depois de um intervalo de anos, esse grupo será classificado como um grupo de velhos, por meio de uma cerimónia (ou talvez como de velhos mais novos), elegíveis para o casamento e para responsáveis pelo governo, enquanto o grupo mais jovem entre eles será designado como o dos guerreiros do país.].



O que talvez se possa afirmar com certeza é que no primeiro milénio os Bantos estavam a avançar para norte (evitando, no entanto, a faixa de terra seca desde o Lago Turkana até à Tanzânia central), iam absorvendo caçadores e recolectores da Idade da Pedra e ainda assimilando ou empurrando para norte os povos de língua cushítica que possuíam gado e alguma agricultura. No final do primeiro milénio, a situação tomou, no entanto, um rumo diferente. Os povos cushíticos no Como de África começaram a dedicar-se à pastorícia extensiva. A expansão dos pastores somalis para oés-sudoeste terá desencadeado um amplo movimento dos Oromos, cuja principal linha contornava, da esquerda para a direita, o extremo sul das terras altas da Etiópia, e que viria culminar com a invasão destes planaltos, no séc. XVI, tanto de sul como de oeste. Os Oromos haviam desalojado também os Bantos no litoral mais a norte, fazendo com que avançassem para oeste em direcção às faldas florestadas do Monte Quénia. Mas a mudança que mais afectou os Bantos deu-se cerca de 700 d. C., quando os pastores nilotas e os seus rebanhos começaram a sua deslocação para oeste do Lago Turkana. Alguns destes nilotas iriam acabar por conquistar e dominar as monarquias bantos do norte do Lago Vitória; outros, em maior número, instalaram-se e misturaram-se com povos falantes de banto detentores de uma organização política inferior, na parte oriental do Lago, tendo como resultado povos semelhantes aos modernos Luos. Em termos mais genéricos, a influência nilótica parece ter provocado mudanças na sociedade e na economia dos povos de língua banto que melhor os adequavam à ocupação de terras mais áridas do que aquelas que haviam preferido inicialmente para a instalação dos seus núcleos. Duas das mudanças mais óbvias foram uma maior incidência na criação de gado leiteiro e a dispersão da população humana, em vez da sua concentração, em grandes aldeias próximas de rios e lagos. Tais mudanças tiveram lugar em zonas tão a sul como os rios Zambeze e Limpopo, já nos sécs. X e XI e, a breve trecho, acabaram por facilitar a ocupação de terras mais áridas ainda m.ais para sul.

No entanto, seria errado tentarmos compreender o que sucedeu no extremo nordeste, a partir de cerca de 700 d. C., apenas tendo em conta as reacções dos povos predominantemente pastoris, como os cushíticos e os nilo-sarianos, às pressões exercidas anteriormente na região pela expansão dos agricultores banto. Não devemos esquecer que ao longo desses tempos, o litoral do Mar Vermelho e do Oceano Indico esteve aberto ao comércio e ao povoamento estrangeiro, e que os reinos constituídos pela primeira colonização do sul da Arábia e sob a influência do Cristianismo existiam ainda nos planaltos do norte da Etiópia. Por volta do século XIV, se não antes, existiam também reinos organizados entre os Sidamas no sudoeste do planalto e entre os Bantos a norte e oeste do Lago Vitória.

Depois do século VII, as relações exteriores com o nordeste africano foram um monopólio dos árabes muçulmanos, oriundos na sua maior parte do Mar Vermelho e do litoral da Arábia, no Golfo Pérsico, mas que mantinham relações com o resto do mundo muçulmano desde o Egipto até à Índia e ainda mais longe. Inicialmente, as relações que se desenvolveram entre os muçulmanos árabes que se instalaram nas costas africanas do Mar Vermelho e do Golfo de Aden e no reino cristão da Etiópia, que tivera origem no antigo Axum, foram relativamente amistosas. Os cristãos eram «o povo do Livro», o rei cristão de Axum fora tradicionalmente mais cordial com Maomé do que a maioria dos outros potentados, e os Axumitas eram considerados como sendo de origem sul-arábica. Não foi feita qualquer tentativa, ao que parece, para destruir o reino cristão, que na realidade conseguiu enviar ao Egipto um pedido de bispos monofisistas para dirigirem a sua igreja (e continuou a fazê-lo de facto até ao século xx). A ascensão do Islão e o seu poderio no Mar Vermelho isolaram inevitavelmente o reino etíope das relações comerciais e culturais com o mundo grego e mediterrânico que tinham tido uma importância vital no seu primitivo desenvolvimento. Para sobreviver, teve de voltar-se para África; para resistir, foi preciso avançar para o interior novamente e conquistar e aculturar os povos pagãos africanos, na sua maior parte cushíticos. Foi esta a principal preocupação dos reis, soldados e sacerdotes etíopes a partir do século XI até ao século XIII, «a idade das trevas» da história etíope.

Inicialmente, a Etiópia cristã entrou em crise, mas a partir do fim do século XIII recomeçou a desenvolver-se sob a dinastia salomónica restaurada (A dinastia cultivou a lenda de que o primeiro rei da Etiópia era o produto de uma aliança entre Salomão e a Rainha de Sabá), que consolidou o conceito de um reino cristão africano com a sua tradição própria e uma literatura em língua ge'ez. Mas o ge'ez era então uma língua clássica e clerical; a língua quotidiana do reino era o amárico, uma língua semítica derivada do ge'ez mas com contributos cushíticos. O centro do reino situava-se na província de Amara, junto ao Lago Tana, a cerca de 320 quilómetros a sul de Axum, em Tigre que era então uma província fronteiriça enquanto os limites meridionais do reino se estendiam até à curva do rio Abay (Nilo Azul) que corre para sul a partir do Lago Tana.

No litoral eritreu, as colónias de mercadores e colonos árabes foram convertendo ao Islamismo as tribos locais de cushitas - Sahos, Afares, Somalis - e constituíram reinos muçulmanos com tendências expansionistas. A Etiópia cristã, embora dependente dos muçulmanos para comerciar, foi capaz de resistir-lhes politicamente. A rota principal para o avanço do comércio e do Islamismo para o interior situou-se, assim, mais a sul, através dos planaltos meridionais. O avanço foi dirigido a partir de Zeila, um porto do Mar Vermelho que era a capital de Ifat, o mais próspero dos sultanatos muçulmanos. A cidade- estado de Harar tornou-se no interior uma base permanente para os comerciantes muçulmanos, e além disso a busca de fontes de ouro, marfim e escravos levou-os a Xoa e ao território dos Sidamas, onde foram organizados novos estados muçulmanos como Hadya e Bali.

Ifat veio com efeito a reanimar a velha rota comercial que outrora ligara Meroé ao mar, e graças à qual Meroé alcançara a prosperidade. Naturalmente, a monarquia etíope recentemente consolidada reagiu contra este crescimento do poderio muçulmano. A partir do reinado de Amda Syon (1314-1344), o grande herói da dinastia restaurada, foram dirigidas várias guerras contra Ifat e os reinos muçulmanos do interior. O domínio político dos muçulmanos no interior para lá de Harar enfraqueceu, e mesmo Ifat foi obrigado a pagar tributo durante algum tempo. Contudo, os muçulmanos deslocaram a sua base para Adal, um pouco mais a leste, e continuaram a comerciar com o interior embora por uma rota mais a sul, através de uma região baixa onde os soldados etíopes não gostavam de se aventurar. No século XVI, quando a constituição do poderio naval dos Turcos otomanos no Mar Vermelho proporcionou aos muçulmanos um fornecimento constante de armas de fogo, o equilíbrio do poder alterou-se novamente. Ahmad ibn lbrahim Gran (1507-42), de Adal, restaurou o império muçulmano no interior e ameaçou devastar a própria Etiópia.

O reino cristão só foi provavelmente salvo da destruição pelo oportuno aparecimento, em 1541, após alguns anos de embaixadas de e para Portugal, de uma pequena mas bem armada e disciplinada força expedicionária de mosqueteiros portugueses. Em 1542, depois de uma série de duros reencontros que provocaram grandes baixas, os sobreviventes portugueses juntaram-se aos Etíopes para uma grande batalha na qual o exército de Adal foi desbaratado e o próprio Gran foi morto. Pouco tempo depois, começaram a avançar hordas de pagãos oromos através da via de comunicação com o interior, o que impediu qualquer outra ameaça da parte de Adal. Mas os Oromos constituíram uma ameaça para a Etiópia cristã muito mais insidiosa e difícil de solucionar do que os exércitos de Adal. Os seus pastores começaram a avançar em massa para os planaltos numa frente que se prolongava de sudoeste para oeste. Principiava, assim, a desmoronar-se a tradição da monarquia cristã centralizada e ainda do modo de vida agrícola que constitui a a sua base, e três séculos passaram antes de a ameaça dos Oromos ser sustida.

Os perigos externos e os problemas internos com que o estado e a igreja cristã da Etiópia se defrontaram a partir do século VII foram tantos que não deve ter havido grande oportunidade para o reino exercer uma influência muito determinante sobre os seus vizinhos negros a oeste e a sul. No caso de alguma influência significativa ter atingido os povos negros do Vale do Nilo e da região dos Grandes Lagos a partir do planalto etíope, o mais provável é que ela proviesse dos reinos que se constituíram entre os Sidamas. Estes foram essencialmente povos agricultores da língua cushítica dos planaltos do sul que tinham evitado a influência e a colonização semítica que conduzira primeiro ao aparecimento de Axum, depois da monarquia cristã etíope nos planaltos do norte. Pouco se sabe da sua história antes da chegada dos comerciantes muçulmanos de Zeila, que provocou a incorporação dos Sidamas do norte e do leste nos estados muçulmanos de Bali e Hadya. Contudo, as guerras de Amda Syon e dos seus sucessores impediram a sua islamização efectiva e de facto isso levou-os a uma conversão nominal ao Cristianismo.

No extremo sudoeste, para lá do rio Omo, os povos sidamas edificaram um certo número de pequenos reinos que, embora tendo contactos com os comerciantes de Zeila, parecem ter evitado consideravelmente as influências muçulmana e cristã, tendo-se conservado essencialmente pagãos. É obscura a origem desses reinos. As tradições existentes no reino melhor conhecido de Kaffa (os outros eram os de Jimma, Janjero e Enaryea) não se referem à monarquia anterior aos anos de 1400. Indicam, sim, que ela foi criada por vagas de nobres imigrantes vindos do norte que conquistaram e organizaram os povos autóctones, alguns dos quais podem ter sido negros nilóticos. Mas esta explicação da origem dos reinos pode reflectir a dominação posterior da Etiópia no século XIV. É possível que a tradição dos Sidamas ocidentais sobre a monarquia seja bastante anterior ao século xv. Os antigos textos árabes e etíopes afirmam que, no século X, a Etiópia cristã estava a ser ameaçada por ataques de um povo governado por uma rainha. uma das interpretações do nome dado a este povo, Hamuia (que é, por outro lado, desconhecido), situá-lo-ia no país dos Sidamas ou próximo dele, a sul do rio Abay. A menção a uma rainha regente é o resultado de uma tradição, assinalada nos Actos dos Apóstolos, de que Meroé nos últimos tempos era governada por rainhas chamadas Candácias. Contudo, a origem desta tradição é, sem dúvida, a de que, entre 160 a. C. e 15 d. C., cinco dos onze governantes de Kush terão sido mulheres, enquanto candácia é uma palavra meroítica que significa «rainha» ou «rainha-mãe» (sendo desse modo um título e não um nome).

Acontece que em 1613-14, um jesuíta português chamado António Fernandes visitou Enarea e Janjero; também se conhece bastante sobre Kaffa através de pesquisas efectuadas no século xx. Em consequência disso, é possível reconstituir alguns aspectos dos reinos dos Sidamas antes de terem sido oprimidos pela conquista dos Oromos que mais tarde se converteram ao Islamismo, ou pelo avanço do reino cristão da Etiópia nos finais do século XIX. Como complemento da criação de gado, havia uma agricultura próspera que incluía arados de um tipo semelhante aos do antigo Egipto e a produção de algodão e café assim como de produtos alimentares. Eram fornecidos tecidos, gado e sal aos negros vizinhos em troca de ouro (que os próprios Sidamas produziam em pequenas quantidades). Eram usadas pequenas barras de ferro como moeda. Nesta importante base económica, foram edificados rei- nos onde o estatuto dos reis era pelo menos semidivino e onde as rainhas-mães desempenhavam um papel importante. Quando o rei morria, o seu corpo era envolvido em pele de boi e depois da eleição pelo conselho de um dos seus filhos para o trono, era enterrado com um ritual complicado, que incluía o sacrifício de muitas vacas, num túmulo escavado.

Alguns costumes e cerimónias ligadas à monarquia nos reinos sida- mas são reminiscências de outros nalguns dos reinos lacustres bantos, e foi já sugerida também a possibilidade de a monarquia sidama ter tido alguma relação com a monarquia meroítica. No entanto, ambas as relações são pura especulação, e não podem constituir uma base sólida para posteriores reflexões sobre a noção básica de que a realeza divina atingiu os reinos bantos por difusão a partir dos reinos históricos do Vale do Nilo, Egipto e Núbia. Considerando necessária a idéia da difusão, parece muito mais provável - como referimos no capítulo 2 - que ela se tenha dado através de um estrato cushítico pré-histórico posto em fuga devido à expansão dos Bantos.

No entanto, os reinos pagãos dos Si damas desde o início do século xv, ou talvez mesmo desde o século x, ocupavam decerto uma posição geográfica altamente importante. A comunicação com a Núbia era possível ao longo do Nilo Azul, com os nilotas ao longo do vale do rio Sobat, com a bacia do Lago Turkana pelo rio Omo, e através da via de Webi Shibeli com o litoral índico da Somália, onde se encontravam estabelecidos os comerciantes árabes pelo menos desde o século VII. uma vez que os Sidamas constituíram sem dúvida uma ligação através da qual o comércio e as influências do mundo do Mar Vermelho conseguiram alcançar os nilóticos, eles puderam do mesmo modo transmitir a esses povos idéias que tinham a sua origem próximas quer em Meroé quer em Axum. Tudo isto reveste interesse, pois é certo que a partir do século XV alguns grupos nilóticos emigraram e fundaram reinos tanto a norte como a sul do seu país de origem.

Não há, contudo, razão para pensar que os movimentos de povos nilóticos e de outros nilo-sarianos tenham sido exclusiva ou principalmente devido a influências exercidas através dos reinos sidamas. Foi anteriormente afirmado que a migração meridional de «nilo-hamitas» pode ter sido desencadeada pela pressão dos Oromos sobre as terras da bacia do Lago Turkana. Na medida em que as migrações dos Oro- mos foram provocadas pela expansão da pastorícia somali em direcção ao Corno, é admissível que a causa desses vastos movimentos populacionais possa ter estado de certo modo ligada ao crescimento do comércio árabe e à colonização do litoral da Somália a partir do século VII. Se assim foi, então retomemos de novo a idéia de que a evolução ocorrida na bacia do Mar Vermelho foi a causa principal dos movimentos populacionais nilóticos. Por outro lado, sem dúvida que estes movimentos devem ter sido o resultado de factores puramente locais, como o crescimento demográfico ou - como acontece com qualquer povo de pastores - o aumento dos rebanhos que conduziu ao esgotamento das pastagens locais.

O primeiro movimento importante de população nilótica acerca do qual se sabe algo é o dos Luos, que começaram a deslocar-se do seu país de origem entre o extremo norte do Lago Turkana e as nascentes do Sobat um pouco antes do século XVI. A história das migrações dos Luos é complexa e não pode ser contada aqui detalhadamente. O aspecto importante a reter é que existiam dois tipos perfeitamente distintos de povoamento luo. Um tinha a forma de deslocações em massa de pastores que se fundiam com os anteriores habitantes das terras por onde passavam e criavam novos grupos étnicos que falavam línguas nilóticas. Essa foi, por exemplo, a origem dos actuais povos Acholi e Alua no nordeste do uganda. Ainda mais a sul, na margem oriental do Lago Vitória, existe um grande grupo de povos que se chamam Luos e que falam uma língua nilótica, mas que são o resultado da fusão de pastores luo que imigraram e agricultores bantos da região. Essencialmente, eram todas sociedades sem estado. Mas noutras regiões, tanto entre os Shilluk, a norte da confluência do Sobat com o Nilo Branco, como no território banto a noroeste do actual uganda, apareceram em cena, por volta de 1500, pequenos grupos de imigrantes luos como fundadores de dinastias reais.

Será talvez ainda mais interessante saber que esses pequenos grupos de Luos não foram os únicos invasores e fundadores de dinastias, a norte ou a sul, a aparecer vindos dos vales do Alto Nilo e do sudoeste da Etiópia. Ainda por volta de 1500, foi conquistado o que restava do antigo reino de Alua (Alodia) por imigrantes negros chamados Funj, que fundaram uma dinastia que governou a partir de Senar até ser dominada em 1821 por um exército egípcio enviado por Muhammad Ali. As origens dos Funj são objecto de controvérsia mas possivelmente a explicação mais provável é a de que eles devem ter sido pastores vindos de zonas mais elevadas do Nilo Azul. Em segundo lugar, o grupo luo conhecido como Bito, que criou as dinastias que governaram os reinos bantos de Bunioro, Toro e Buganda que se mantiveram até ao século xx, alcançaram esses resultados conquistando e apoderando-se das instituições de um reino anterior que parece ter sido criado por imigrantes vindos do norte. Actualmente recorda-se muito pouco acerca desse reino, excepto em Bunioro que sem dúvida herdou a maior parte do território central do anterior estado. Ali, o estado precedente é designado Kitara, e nele os agricultores bantos eram governados por reis e nobres pastores chamados Chuezis, que se diz terem partido para sul, quando chegaram os Bitos. Mais para oeste, e mais próximo do antigo Kitara, no Buganda, o período chuezi parece estar incluído numa lenda de um grande herói chamado Kintu, que se diz ter chegado do nordeste e ter reunido pela primeira vez os vários clãs bantos sob uma autoridade central.

Do conteúdo dessas lendas pode deduzir-se que os Bitos inicialmente, eram, em comparação, um povo bárbaro consciente de que estava a apoderar-se de um sistema político e económico consideravelmente mais avançado do que qualquer outro conhecido antes. Com efeito, sendo Luos, deviam viver numa sociedade governada mais por classes etárias do que por reis ou chefes. Os Bitos procuraram legitimar o seu acesso ao poder em Bunioro ao afirmar que os Chuezis os tinham convidado a vir; que eles tinham tomado pacificamente os palácios, as insígnias, os rebanhos e as mulheres dos seus predecessores, que se tinham deslocado alegremente para o sul; e que as mulheres chuezis os tinham instruído nos deveres da realeza. No Buganda, a nova dinastia reclamou-se como o resultado de uma aliança entre um descendente de Kintu e de uma filha do primeiro rei bito de Bunioro. Como salientou no entanto o Professor Oliver, a verdadeira natureza da invasão de Kitara pelos Luos, é perceptível na tradição do reino mais meridional do Ruanda que os Luo não conseguiram conquistar. Aí faz-se referência a uma terrível invasão dos Banioros (isto é, povo de Bunioro) que, numa época que deve ser equivalente ao início do século XVI, surgiram em cena, assolaram a região, mataram gado e escravizaram mulheres e crianças.

Existem algumas provas arqueológicas da conquista do que a tradição afirma ser o último bastião dos Chuezis nas enormes fortificações de Bigo, no limite sul da terra ocupada pelos Bitos invasores e na fronteira norte de Ankole. A escavação dessas fortificações revelou que estiveram ocupadas por volta de 1350-1500, e que a estrutura básica (embora nem toda a vastidão do complexo) é essencialmente semelhante às cercas reais que se usavam em Ankole e no Ruanda até ao século XIX. Não resta dúvida, portanto, que os reis chwezi faziam parte de um grupo de pastores, conhecidos variavelmente por Himas ou Tutsis, que permaneceram no período colonial como nobreza dominante nos reinos de Ankole, Ruanda e Burundi a sul de Toro, a conquista mais meridional dos Bitos. O nome chuezi (assim como os de Gabu e Ranzi, que se diz terem estado associados aos Chuezis no governo de Kitara) é ainda, com efeito, um nome clânico dos Himas.

A estrutura social dos reinos que se desenvolveram a partir da conquista dos Bitos, era muito mais homogénea do que a .dos estados himas ou provavelmente dos de Kitara. Por exemplo, no Ruanda, os Tutsis dominantes eram uma casta endógama constituindo cerca de 10 % da população e distinguiam-se claramente do resto da população tanto pela constituição física como pelas funções. Eram mais altos (a estatura média é de cerca de 1,80 m), magros e de pele ligeiramente mais clara; a sua ocupação era o governo e a administração da justiça sob a égide do seu rei sagrado; a sua vida permitia o cultivo das artes como a poesia, a música e a cestaria; eram os únicos proprietários de gado do reino e viviam quase exclusivamente dos seus produtos; e a sua relação geral com o resto da população tem sido comparada justamente àquela que existia entre senhores e servos nos feudos da Idade Média européia. Contudo, eles falavam a mesma língua banto do povo em geral, os Hutus, que eram agricultores e a quem foi tirada grande parte do gado. Abaixo dos Hutus, que constituíam 85 % da população, havia uma classe ainda mais pobre, os Tuas, de tipo pigmeu, que formavam os restantes 5 %. Os Tuas eram caçadores e oleiros e devem representar um elemento não assimilado da antiga população encontrada pelos Bantos quando chegaram ao país.

A origem da classe dominante Tutsi/Hima/Chuezi nos reinos bantos lacustres é uma questão intrigante. Do ponto de vista serológico eles são negros, o que parece eliminar a possibilidade de uma origem cushítica. Alguns explicam a sua diferenciação física da maioria da população banto como uma simples conseqüência de uma dieta melhorada e rica em proteínas. Mas as tradições dos Ruandeses e dos Bugandeses afirmam que esta classe dominante imigrou vinda do norte. Além disso, os costumes funerários reais dos reinos himas foram considerados como muito semelhantes aos dos estados sidamas, que decerto estiveram em contacto freqüente com os povos nilóticos e podem mesmo ter possuído um substrato nilótico. Não é certamente insensato supor que a incursão luo não foi a primeira invasão nilótica em território lacustre banto.

Existem outras provas que podiam sustentar a noção de que na área lacustre a criação de governos monárquicos foi o resultado de influências vindas do norte em diversas vagas. Enquanto no extremo nordeste, desde o litoral do Quénia até à região do Monte Quénia, as tribos bantos, como já se afirmou, não tinham Estado, e continuaram nessa situação até aos tempos modernos, foram organizados reinos entre os povos a sul e sudoeste dos territórios dos Hima. Com efeito, os indícios fornecidos pela tradição indicam para a formação do Estado, influências que se propagaram para sul a oeste do Lago Vitória e depois para sudeste até ao oeste da Tanzânia, e para norte até à extremidade do Lago Malavi. Geralmente, a oeste da Tanzânia e prolongando-se também até ao extremo sul do território «nilo-hamítico» que fica a nordeste da Tanzânia, existe uma tradição comum de chefia tribal que se assemelha ao modelo lacustre, e que é atribuído à vinda de proprietários de gado do norte ou do noroeste. É, no entanto, significativo notar que o gado trazido pelos estrangeiros não era o gado de chifres longos dos Himas e Tutsis, mas uma espécie com chifres pequenos que actualmente não se encontra nos reinos lacustres. Parece portanto que os fundadores de estados na Tanzânia ocidental terão .deixado a região do uganda antes da chegada dos Himas.

Entre os Bantos da Tanzânia, a organização monárquica teve tendência para se processar em menos escala do que sucedia mais a norte. Os princípios eram os mesmos, mas por vezes o rei podia ter apenas alguns milhares de súbditos. Isto pode reflectir o facto de a terra ser muito menos adequada à agricultura do que os solos aluviais e vulcânicos bem irrigados da região lacustre, a ponto de as comunidades serem naturalmente mais pobres e portanto as oportunidades de desenvolvimento real serem menores. Mas indica ainda que a edificação de reinos consideráveis pelos imigrantes na região lacustre se pro- cessou por fases, e que apenas a primeira, a sul, deve ter atingido no máximo a Tanzânia. Levanta-se, portanto, a questão de saber o que realmente coube a esses imigrantes edificar; se eles tiveram de começar com um tipo de sociedade sem estado, como a que se encontra entre os Bantos do Quénia, ou se encontraram comunidades que já tinham em si os germes donde podia formar-se e proliferar a noção de realeza divina.

É perfeitamente claro que a ausência de chefia entre os Bantos do Quénia não pode provar que esse fosse o estado «natural» da sociedade banto. Além dos sistemas de classes etárias, existem várias provas que revelam que as suas estruturas sociais assim como políticas foram muito influenciadas pela fusão e intercâmbio com os seus vizinhos cushíticos e «nilo-hamíticos». É pois necessário avançar mais para sul, para estudar o que se conhece sobre a história antiga dos Bantos para lá da actual Tanzânia, no território que albergava o núcleo inicial do povoamento banto, e que se considera demasiado antigo para poder ter sido atingido pela influência nilótica. No entanto, estes Bantos meridionais não evoluíram numa situação de isolamento total. Foram decerto sujeitos à influência do comércio do Oceano índico e do povoamento do litoral leste africano, devendo ser primeiro narrado o percurso deste comércio e povoamento.

A navegação no Oceano índico parece ter apresentado aos primeiros navegadores menos problemas do que a navegação no Atlântico. Como já se referiu, o sistema de ventos de monção da zona norte do Oceano índico foi um importante factor dado que sopravam constantemente em direcção à costa africana durante os meses de Inverno e em direcção à índia e à península arábica durante o Verão. Foi, portanto, possível desenvolver o comércio regular transoceânico para e da África oriental muito antes e com barcos mais simples do que aconteceu no litoral atlântico. Como se disse no capítulo 2, os marinheiros do sistema comercial do Mar Vermelho ao serviço do Egipto helenístico estavam já certamente familiarizados com a zona norte do litoral africano do Oceano índico por volta do ano 100 d. C. O PéripIo do Mar Eritreu menciona uma cidade chamada Rhapta como sendo o centro comercial mais meridional na «Azania», e geralmente supõe-se que estaria localizada algures no delta do Rufiji. Na forma em que chegou até nós, a Geografia de Ptolomeu parece reflectir o conhecimento geográfico que fora acumulado em Alexandria por volta do IV século. Com base nela, é evidente que os marinheiros gregos estavam familiarizados com a costa até pelo menos ás proximidades de Cabo Delgado. Conheciam igualmente uma ilha chamada «Menou- thias» que deve ter sido Madagascar ou uma das Ilhas Comores. (Parece que tiveram também alguma idéia da geografia interior da África oriental com os seus grandes lagos e montanhas com o cume coberto de neve.)

Será, com efeito, razoável supor que a navegação helenística deveria terminar naturalmente próximo do extremo norte do Canal de Moçambique entre a África e Madagascar, porque representa o limite meridional dos ventos regulares da monção. O quadro traçado pelo PéripIo e por Ptolomeu é de facto confirmado por achados de moedas helenísticas, romanas, bizantinas e persas na costa, no período compreendido entre o século III a. C. e o século IV d. D. A principal concentração destas descobertas encontra-se na costa sul da Somália, sugerindo desse modo uma intensidade das trocas comerciais com as regiões planálticas do sul da Etiópia ocupadas pelos Sidamas. Essas moedas foram contudo encontradas também mais a sul nas ilhas de Zanzibar e Mafia. Moedas semelhantes eram fabricadas na índia ocidental, havendo portanto poucas dúvidas de que, durante os últimos séculos antes da era cristã e nos primeiros da mesma era, existia um sistema organizado de comércio marítimo que ligava os países que confinavam com o ocidente do Oceano índico, e que era frequentemente impulsionado por mercadores gregos ou greco-romanos estacionados no Egipto. O seu interesse pelo nordeste africano devia-se ao facto de este ser uma fonte de especiarias, incenso, goma, marfim, ouro e escravos. Esse sistema parece também ter tido relações com o comércio do Oceano índico oriental e para lá dele, dado que existem provas de comerciantes chineses desse período terem algum conheci- mento sobre a África oriental.

Por volta do século IV, a influência grega sobre o comércio da zona ocidental do Oceano índico decaiu devido ao surto do poderio naval da Pérsia sassânida, e em parte devido talvez ao desenvolvimento de rotas terrestres comerciais no nordeste africano a partir de Axum. No século VII, no entanto, os árabes destruíram o poderio sassânida e obtiveram ainda o domínio do Egipto e do litoral do Mar Vermelho enquanto os muçulmanos iniciaram igualmente a penetração no noroeste da índia do século XI em diante.

Os primeiros núcleos de povoamento árabe na costa da África oriental parecem ter sido acampamentos temporários de famílias que deviam ser tanto pescadores como comerciantes, talvez pré-islâmicos. Dos séculos IX e X, no entanto, existem vestígios de numerosas cidades na costa, em especial na costa da Somália, mas também nas linhas de Zanzibar e Pemba. A construção foi feita inicialmente em barro, mas pelo menos no começo do século XII construíam-se em calcário grandes edifícios, mesquitas e ainda provavelmente fortes e palácios. Por volta do fim do século XII, os Shirazis», assim chamados na Crónica de Quíloa (a mais antiga que se conhece de numerosas histórias locais escritas em árabe, e aparentemente compostas cerca de 1520), instalaram-se em Quíloa Kisiwani (Isto é, «Quíloa na ilha». Existem hoje duas outras cidades vizinhas que também se chamam Quíloa), uma ilha junto da costa sul da Tanzânia a cerca de 160 milhas a norte do Cabo Delgado. É talvez errado pensar-se que os Xirazis vieram de Xiraz na Pérsia. É mais provável que tenham chegado a Quíloa idos da costa sul da Somália (embora certamente tivessem contactos com a região do Golfo Pérsico na sua qualidade de comerciantes). A decisão dos Shirazis se mudarem mais para sul revela uma alteração na orientação do comércio muçulmano com a África oriental; o comércio com a costa sul estava então a tornar-se mais lucrativo do que o comércio com a costa norte. Existem algumas provas de que um outro grupo de comerciantes seguiu o caminho dos Shirazis para sul no fim do século XIII e substituiu-os no governo de Quíloa.

Não há dúvida de que desde 1200 Quíloa se tornou a mais próspera das cidades comerciais da costa oriental, e que houve um progresso crescente na sua prosperidade depois de 1300. Ibn Battuta, que visitou Quíloa em 1331, pensou que era «uma das cidades mais belas e com construções mais imponentes» que jamais visitara. As ruínas da sua Grande Mesquita ainda hoje se podem ver e as escavações recentes do que deve ter sido o palácio real indicam que era uma magnífica estrutura erigida provavelmente no início do século XIV num estilo que recorda a arquitectura dos Omíadas e Abássidas de cerca de 500 anos antes. Entre as outras trinta e sete cidades costeiras que prosperavam nessa época, contavam-se (de sul para norte), Kismani na ilha de Mafia, Kizimkazi na ilha de Zanzibar, Mombaça, Gedi (hoje totalmente em ruínas e abandonada), Melinde e Mogadishio; muitas delas são conhecidas através de relatos árabes contemporâneos ou portugueses do século XVI, tendo-se realizado importantes trabalhos arqueológicos nalgumas delas. Mesmo as cidades mais pequenas podiam ocupar quarenta ou cinquenta acres, todas tinham grandes edíficios em pedra e todas revelaram abundantes provas da sua prosperidade comercial em especial nos séculos XIV e xv. O indício mais notável é talvez as quantidades substanciais de porcelana chinesa que foram encontradas. Isso é importante do ponto de vista arqueológico porque podem ser datadas rigorosamente: a maior parte delas pertence à dinastia Ming (1368-1620). A porcelana foi provavelmente apenas um produto de luxo; os principais produtos de importação eram as contas que foram encontradas em grandes quantidades, e tecidos que deixam pouco ou nenhum vestígio arqueológico. Outro indicativo da prosperidade comercial e da sofisticação é o facto de as moedas, geral- mente de cobre, serem cunhadas pelo menos em três cidades costeiras; em Quíloa desde o tempo de um rei que governou de 1277 até 1294, em Mogadishio desde cerca de 1332 e em Zanzibar provavelmente desde o século xv.

As povoações comerciais exerciam uma influência poderosa na aculturação dos Bantos do litoral. Ibn Battuta disse que em Quíloa «a maior parte dos seus habitantes são Zanj de pele muito escura». O efeito geral do povoamento árabe, foi decerto criar ao longo da costa uma cultura islâmica, homogénea e de raiz urbana, a dos Suaílis das cidades (do termo árabe sahel, «costa», donde Suaíli, «povo da costa»). A língua suaíli é sem dúvida banto e, embora tenha adoptado um vocabulário arábico considerável, a partir do século XIII começou a suplantar a língua árabe como língua corrente nas cidades costeiras. A literatura popular começou provavelmente a ser escrita em suaíli por volta do século XVI; durante o século XIX principiou a substituir o arábico como língua da narrativa histórica, e por volta do século XX tinha-a substituído para todos os efeitos. Com o crescimento das rotas comerciais continentais, no século XIX, o uso do suaíli começou a propagar-se ao interior. Actualmente é a língua nacional da Tanzânia, e é geralmente compreendida em toda a parte oriental da África desde o norte do Quénia até Moçambique, e para ocidente até ao Alto Congo.

Não obstante, antes do século XIX, as cidades comerciais costeiras parecem não ter exercido influência sobre os povos do interior para lá das zonas litorais do Quénia e da Tanzânia. A pesquisa arqueológica que tem sido levada a efeito nesta região não fez qualquer descoberta proveniente da zona costeira ou do Oceano indico, com data anterior ao fim do século XVIII. Por um lado isso é facilmente explicável. Numa faixa entre oitenta e cento e trinta quilómetros para o interior o ambiente começa a mudar desde a floresta mista e a savana irrigada pelas chuvas da monção até atingir a região do mato inóspito. Em grande parte da sua extensão, esta fronteira ecológica é acompanhada pela fronteira étnica entre os povos agricultores bantos do litoral e os pastores seminómadas. Desse modo, tanto os factores ambientais e étnicos como os factores culturais contrariaram o desenvolvimento das rotas comerciais para o interior a partir do litoral. O problema consiste pois em esclarecer a presença nesta costa de tantas cidades comerciais muçulmanas e o desenvolvimento de uma sociedade rica e avançada árabe-suaíli.

O que deve ter acontecido é que os primeiros comerciantes árabes da costa somali que comerciavam especiarias, incenso, marfim, escravos e ouro com o interior, devem ter começado a explorar a zona com a ajuda dos ventos da monção para ver se podiam encontrar a sul mais fornecimentos desses produtos tão desejados. Marfim e escravos foram sem dúvida obtidos no litoral sul, e aumentou a sua procura nas regiões desenvolvidas desde o Egipto até à índia, graças aos seus laços comerciais com o Mediterrâneo e a Ásia. Sabe-se por exemplo que os escravos Zanj eram empregues em minas de sal próximas de Basra já no século IX, enquanto o marfim africano era esculpido mais facilmente do que o asiático, pelo que era procurado em zonas tão longínquas como a Europa ocidental e a China. AI-Idrisi, na sua descrição da costa (escrita em 1154, mas baseada talvez numa outra fonte mais antiga), afirma que fora descoberto na proximidade de Melinde um depósito de ferro de alto teor, e que se revelara rentável trabalhá-lo com vista à exportação para a índia. Mas entre a data da informação de Idrisi e a de Abufelda, que escreveu no início do século XIV, foi feita uma descoberta muito mais importante: a de que era possível obter ouro por troca no litoral, no limite sul da navegação pelas monções. Deve ter sido essa descoberta que provocou a migração dos Shirazis, e levou Quíloa a suplantar Mogadishio, no sul da Somália, como centro comercial mais importante, embora ao tempo da visita de Ibn Battuta em 1331, Mogadishio fosse ainda aparentemente a cidade maior e a mais desenvolvida no seu aspecto cultural.

O ouro que se podia obter no litoral das monções mais a sul, vinha do território actualmente chamado Zimbabué, e em breve os mercadores árabes ou suaílis começaram a explorar as rotas comerciais em direcção a esse território. A primeira delas dirigia-se talvez para sudoeste a partir de Quíloa e da costa próxima a sul, seguindo a linha dos vales de rios como o Rovuma, que corria do planalto que ficava no extremo sul do Lago Malavi. Por eles teriam vindo os comerciantes até ao Vale do Zambeze e às numerosas vias de acesso à estepe do Zimbabué onde era explorado o ouro. A descoberta do Zambeze, no entanto, deve ter revelado que, apesar da irregularidade dos ventos da monção no Canal de Moçambique, seria mais fácil alcançar o Zimbabué a partir dos portos de Quíloa no litoral mais meridional. Sofala tornou-se o porto principal, numa ilha junto da costa a meio caminho entre o delta do Zambeze e a foz do rio Sabi. Se a Crónica de Quíloa é digna de crédito, a cidade de Sofala deve ter sido fundada (ou apenas conquistada) a partir de Quíloa pouco tempo depois da migração dos Shirazis, isto é, por volta do fim do século XII.

Pode deduzir-se facilmente desta extensão para sul do sistema comercial árabe na África oriental, que o ouro era então já explorado no território que veio a ser o Zimbabué. Isto é sem dúvida um facto. O Zimbabué do século XX tem sido na realidade um produtor considerável de ouro, e já se disse que «dificilmente se encontra uma mina actual...que não seja o local de um "trabalho antigo"» (Summers). Inicialmente, ao que parece, o ouro era muito abundante à superfície no planalto do Zimbabué, e existem inúmeros vestígios de antigas minas a uma profundidade que atinge os 30 metros. Não é fácil atribuir uma data às próprias minas, tanto mais que muitas delas sofre- ram interferências de mineiros ou prospectores modernos, mas o equilíbrio das provas culturais que lhes podem estar associadas sugere sem sombra de dúvida que o ouro era extraído no planalto do Zimbabué por volta do séc. XI.

A dada altura, chegou-se a sugerir que as técnicas utilizadas nas primeiras minas de ouro do Zimbabué eram muito semelhantes às que outrora se usavam no sul da índia, e que as minas haviam sido abertas em resposta a uma iniciativa vinda do exterior. Os comerciantes do Oceano índico estariam, sem dúvida, interessados em novas fontes de ouro, tanto mais que cerca do séc. IV os recursos auríferos do sul da índia se estavam a esgotar. Talvez não seja de todo impossível imaginar alguns precursores dos comerciantes árabe-suaílis a efectuarem prospecções da costa oriental para o interior, a sul das barreiras de vegetação rasteira e espinhosa e das suas tribos de pastores, quiçá inicialmente em busca de maiores fontes de marfim, e a encontrarem depois afloramentos de ouro e, apercebendo-se da sua importância, a enviarem mineiros pioneiros do sul da índia, a fim de iniciarem a sua exploração. Mas, independentemente do facto de as técnicas usadas em qualquer situação mineira ser em certa medida determinadas pelas circunstâncias em que o minério é encontrado, e de a tecnologia primitiva não apresentar um grande leque de técnicas, quando se considera a exploração inicial de minas de ouro no Zimbabué, na perspectiva dos vestígios arqueológicos contemporâneos existentes grosso modo na África central e meridional, não é, na verdade, necessário pensarmos que foi precisa qualquer influência externa para que o seu começo tivesse lugar.

Observamos já a rapidez com que todos os Bantos se dedicaram à extracção do ferro e, conquanto os minérios de ferro se encontrem mais facilmente e em maior quantidade nas suas terras do que os outros minérios, dispomos de indícios adequados que comprovam o gosto que tinham no seu trabalho, e a sua enorme habilidade, onde quer que fossem identificados estes minérios. Possuímos já vestígios da extracção e fundição de minérios de cobre na província de Shaba no moderno Zaire, cerca de 1800 kms a norte das minas de ouro do Zimbabué, no séc. IV ou V. O cobre tem em comum com o ouro as características de ser um metal extraordinariamente brilhante, dúctil e fácil de trabalhar, conferindo-lhe formas elegantes; em comparação com o metal mais comum, o ferro, é também relativamente duradouro. O cobre é, por conseguinte, um bom material para o fabrico de adornos e objectos de prestígio, ainda mais se não existir por perto o ouro. Demonstram-no bem os grandes cemitérios parcialmente escavados em Sanga e Katoto, no vale superior do Lualaba, no Zaire. Tais adornos foram usados entre os sécs. VII e XVII, e por volta dos sécs. XI e XII - muito embora Sanga fique a cerca de 240 kms da fonte mais próxima de cobre que se conhece, e Katoto ainda mais distante: homens, mulheres e crianças eram sepultados em conjunto com consideráveis quantidades de pulseiras, colares e outra joalharia de cobre muito trabalhada. Com o passar do tempo, as sepulturas continham também um cada vez maior número de pequenos lingotes de cobre em forma de X; só podem ter sido considerados símbolos de riqueza, talvez mesmo usados como moeda. Mais a sul, na Zâmbia, no próprio Zimbabué, e a sul deste, na zona norte do Transval, existem imensos vestígios da extracção e do trabalho do cobre já a partir do séc. VIII. Sabe-se de igual modo que, tanto no Zimbabué como no norte do Transval, o estanho era extraído e também ligado ao cobre para produzir o bronze. Com semelhante experiência na extracção e trabalho dos metais, nada parece levar-nos a supor que os indígenas bantos no Zimbabué não tardassem a dedicar-se à extracção e trabalho do ouro, uma vez identificado o minério e as suas possibilidades.

Todavia, é importante registar que, desde cerca do séc. VIII em diante, algumas das estações pré-históricas que foram escavadas na África central, até algo como 1600 kms da costa leste, revelaram pequenas quantidades de objectos, como contas de vidro, conchas e cauris, que só podem ter sido levados para o interior a partir do Oceano Indico. Será credulidade excessiva sugerirmos que os comerciantes estrangeiros haviam penetrado até meio do continente no séc. VIII. Somos, sem dúvida, levados a concluir que, nesta altura, as comunidades bantos da África central e meridional se encontravam já suficientemente avançadas para organizarem sozinhas o comércio cobrindo distâncias consideráveis. Poderemos pressupor que todas estas comunidades eram por norma auto-suficientes nas necessidades básicas do quotidiano, como géneros alimentícios, habitações, cerâmica, materiais que, para todos os efeitos, eram volumosos e difíceis de transportar. Mas havia pelo menos três matérias-primas necessárias ou pretendidas pelas sociedades que progrediam na Idade do Ferro e que não se encontravam distribuídas equitativamente. O sal de qualidade só podia ser obtido no litoral, ou de salinas esporádicas no interior, que acaba- riam por revestir uma considerável importância em termos económicos. Os afloramentos acessíveis de cobre, com o qual era possível fabricar objectos de adorno e prestígio existiam apenas em áreas muito limitadas. O minério de ferro estava muito mais uniformemente distribuído, mas, em comparação, os minérios de qualidade superior são raros e, por conseguinte, poder-se-á pensar que os povos que viviam perto deles conseguiriam uma vantagem significativa no fabrico de utensílios (especialmente enxadas) e armas de boa qualidade (Verifica-se também que o melhor barro utilizado na cerâmica não estava distribuído igualmente em todo o lado, e o mesmo acontecendo com os utensílios cerâmicos. Estes eram frágeis e baratos tendo em conta o volume, pelo que é difícil imaginar o seu comércio através de grandes distâncias). Deste modo, a troca processar-se-ia a um bom ritmo, e não seria despropositado pensar que por alturas do séc. VIII a rede de comércio interno tivesse entrado em contacto com a procura externa dos principais artigos africanos por parte dos comerciantes do Oceano índico (em particular, dado que a costa seria muitas vezes a fonte de sal mais próxima). Se a extracção de ouro se iniciou no planalto do Zimbabué por volta do séc. VII, seria plausível contar que em finais do séc. XII tivesse já chegado ao litoral uma quantidade suficiente do metal para servir de poderoso chamariz capaz de atrair para sul os comerciantes shirazis, mais concretamente, para Quíloa e Sofala, zona onde iriam tentar penetrar no interior por sua própria iniciativa.

Por volta do século XIV, a relação entre a rede interna de trocas e o comércio do Oceano índico é comprovada pelas escavações que têm sido realizadas em Ingombe Ilede, próximo do ponto onde o rio Kafue que corre do Catanga para sul, encontra o Zambeze a cerca de metade do seu curso. Estas revelaram sepulturas dos séculos XIV e xv que continham ricos ornamentos em ouro e cobre, lingotes em forma de X e fio de cobre, tecido de algodão, marfim, contas de vidro e de conchas do Oceano índico. Há aqui várias questões de interesse. Em primeiro lugar, não existem fontes próximas de ouro nem de cobre; todos os produtos feitos destes metais devem ter sido levados para norte ou sul, a uma distância de pelo menos 160 Km. Dado que não existiam vestígios de habitações contemporâneas e permanentes, é lógico concluir que estes produtos tenham sido trazidos expressamente para serem trocados 'pelas contas do Oceano índico, e também provavelmente por tecidos (embora alguns deles possam ser de manufactura local), e sem dúvida por sal, além de que o sítio de Ingombe-Ilede no século XIV era mais um acampamento comercial do que um local de habitação permanente. Finalmente, a riqueza patenteada nos túmulos revela que se trata dos funerais de indivíduos pertencentes a uma classe dirigente ou mercantil desenvolvida (se de facto não são ambas a mesma).

Cerca de um século depois, quando os Portugueses chegaram ao sudoeste de África atraídos pelo comércio do ouro (conquistaram Sofala e Quíloa em 1505), o quadro tornou-se relativamente simples. Havia reinos organizados no interior com os quais valia a pena comerciar, e os Portugueses procuraram fazê-lo criando estabelecimentos comerciais ou feitorias ao longo do Zambeze (decerto até 160km de Ingombe-Ilede), e também nos vales do seu afluente, o Mazoa, até ao planalto a noroeste do Zimbabué. Além disso, é evidente que estes entrepostos comerciais foram instalados no rasto da antiga penetração dos mercadores árabe-suaílis.

O Zimbabué moderno foi a sede do mais conhecido de entre todos os antigos reinos bantos meridionais. Foi feito aqui provavelmente mais trabalho do que em qualquer outra parte, sobre a tradição oral existente, a qual parece remontar a cerca de 1400. Mas tão importante ou ainda mais do que isso, é o facto de esta área da África central ter sido a mais explorada pelos Portugueses no século XVI devido ao seu ouro; e foi aí, e mais a sul no Transval, que os primeiros reinos bantos com construções em pedra, deram assim origem a ruínas duradouras e muito impressionantes que têm fascinado exploradores e arqueólogos há mais de um século.

Ao todo, sabe-se que existem cerca de 200 ruínas de pedra no Zimbabué e nas áreas vizinhas de Moçambique e do Transval. A primeira reacção européia foi dizer que os africanos subsarianos não construíam em pedra (na realidade, eram incapazes de construir em pedra) e que por isso as ruínas deviam ter sido edificadas por estrangeiros - foram indicados por várias vezes construtores árabes, sabeus e até fenícios. Com efeito, a razão pela qual a construção em pedra era rara na África subsariana devia-se essencialmente ao facto de a boa pedra de construção também ser rara. O barro é muito mais abundante e, quando cozido ou seco ao sol, pode ser usado com menos dificuldade e trabalho para se obterem idênticos ou ainda melhores resultados. Isto acontece em especial se se tomar cuidado no sentido de evitar os efeitos da chuva, embora, se isso não acontecer, os edifícios de adobe se desmoronem em montículos informes tornando-se muito mais difíceis de descobrir e interpretar pelos arqueólogos do que as ruínas de pedra.

Na região do Zimbabué, acontece no entanto que o país é coberto de afloramentos rochosos, muitos dos quais se desintegram naturalmente em placas de cerca de 15 cm de espessura com que se pode facilmente formar blocos de construção com pelo menos duas faces paralelas. Portanto, os Bantos que se fixaram ali usavam naturalmente a pedra para construção, não para todos os fins (os seus locais de habitação actuais continuam a ser normalmente cabanas redondas de adobe com estacas de madeira e tectos de palha), mas quando queriam construir grandes estruturas ou construir plataformas nas encostas onde podiam erigir cabanas, ou reunir tais habitações em conjuntos fortificados. Através das técnicas que usaram, isto é, paredes de pedra sem argamassa e sem juntas unidas, pode ver-se que os construtores do Zimbabué criaram a sua própria arte e não foram influenciados por outras arquitecturas, como por exemplo as construções islâmicas de calcário do litoral. Há, com efeito, muitos outros exemplos de contrução em pedra no interior da África subsariana onde existiam condições adequadas, como por exemplo em Engaruka no norte da Tanzânia, onde se crê que os construtores foram os predecessores cushíticos dos actuais «nilo-hamitas». Mas as ruínas de pedra do Zimbabué são notáveis pelo seu esplendor e grandeza. O local mais famoso, o «Grande Zimbabué», visto pelos europeus pela primeira vez em 1860, estende-se por cerca de 24 hectares, e inclui algumas muralhas que têm nove metros de altura e chegam a atingir 4,5 metros de espessura na base, tendo muitas delas configuração elaborada, por exemplo, em forma angular. Ao que parece, locais como esses só podem representar capitais reais e centros de culto de estados importantes que desenvolveram sistemas políticos e económicos capazes de mobilizar e orientar recursos consideráveis de mão-de-obra preparada e disciplinada.

As investigações de arqueólogos no «Grande Zimbabué» e em muitas outras estações durante cerca de oitenta anos, indicam que estas ruínas devem ter estado associadas a uma cultura, produzida por uma sociedade agrícola que utilizava o ferro: o povo da «Montanha do leopardo» do primeiro milénio. Esta cultura começou a construir em pedra de modo intenso por volta do século XII, e nessa época o «Grande Zimbabué» era já um local de enorme prestígio. As realizações mais esplêndidas no «Grande Zimbabué» podem datar-se dos séculos XIV e XV, e estão relacionadas com uma crescente prosperidade, revelada pela primeira vez pela presença de grandes quantidades de porcelana e missangas importadas. Este desenvolvimento do centro reflecte-se na quantidade crescente de construções em pedra com uma sofisticação comparável, embora em escala menor, a outros pontos do Zimbabué em especial a sul e a oeste revelando desse modo um crescimento da população, sem dúvida sob o controlo ou a influência do centro. Contudo, depois dos meados do século XV a construção em pedra parece ter parado praticamente até aos séculos XVII ou XVIII, altura em que se verificou um renascer da construção em pedra, da prosperidade e do poder aparentemente igual ao que existira anteriormente.

Este quadro arqueológico começa a concretizar-se logo que é completado com o conhecimento existente acerca da história da zona costeira e da tradição oral local. Através do desenvolvimento dos seus próprios recursos agrícolas e mineiros, sob o estímulo proporcionado pelo aumento do comércio costeiro, alguns dos líderes tradicionais que acumulavam as funções de chefia com as sacerdotais, começaram a adquirir o estatuto de governantes divinos, desenvolvendo o poder militar, garantindo o aumento do número de sequazes e servidores a expensas dos vizinhos e rivais, e investindo a sua riqueza em grandes manadas de gado que eram apascentadas nas planícies adjacentes, durante a seca no planalto, e cuja carne podia servir como recompensa para os seus servidores. Os seus centros de culto, onde se tinha acesso às divindades através dos espíritos dos antepassados, situados freqüentemente em fortalezas nas colinas ou em grutas próximo das quais foram encontradas as maiores ruínas, tornaram-se desse modo mais poderosos do que os outros, permitindo-lhes assim atrair ainda mais seguidores, mais riqueza, mais comércio e mais poderio. O auge deste processo verificou-se a partir do século XII, a ponto de, no século XIV, todo o planalto onde existia ouro estar praticamente sob o domínio de um grande rei-sacerdote do «Grande Zimbabué», ou de pequenos reis que lhe prestavam obediência. É sem dúvida significativo que o início da primazia comercial de Quíloa na costa oriental e o crescimento do seu comércio do ouro, assim como o de Sofala com o interior, datem do século XIII.

Nos finais do século XIV, o desenvolvimento do «Grande Zimbabué» chegou ao fim. Manteve-se até à actualidade como um importante centro de culto dos povos Shona do actual Zimbabué, que são quase de certeza os descendentes do povo que fez a sua grandeza imperial, mas nunca mais voltou a ser um centro político ou económico importante. O que terá eventualmente sucedido é que a estrutura do «Grande Zimbabué,. entrou em competição com uma série de dinastias rivais. Três destas dinastias terão alcançado maior êxito, atingindo cada uma, durante algum tempo, o poder hegemónico sobre uma área de dimensões idênticas à que era dominada pelos governantes do «Grande Zimbabué».

A primeira destas dinastias ficou mais conhecida pelo nome dado, no séc. XVI, pelos Portugueses ao seu líder, Monomotapa, derivado de Mwene Mutapa, «senhor (ou chefe) do saque», forma de tratamento muito enaltecedora. Assim se criou um grupo dominante que, juntamente com os seus seguidores, partiu do planalto rumo ao norte, no começo do séc. XV, a fim de conquistarem e expulsarem os povos da parte sul do vale médio do Zambeze, entre Tete e o Zumbo dos zimbabués que, por não disporem de pedra para construção de casas, as fariam de madeira e matope. Os antecedentes desta movimentação, e na verdade, o aparecimento de outras dinastias rivais como as de Changamire e de Torua, podem perfeitamente ter estado na origem da rotura económica e política do planalto. Houve quem sugerisse que terá estado associada de alguma forma aos grupos Sotho que nesta altura se deslocavam para sul entre as terras altas e o Calaári. O mais provável será talvez ter resultado de uma ou mais catástrofes naturais, como secas, destruição de sementeiras ou epidemias do gado, numa situação em que o desenvolvimento das populações humanas e do gado podem ter exercido pressões consideráveis sobre a terra. Todavia, uma explicação mais concreta para esta movimentação da dinastia dos Monomotapas em direcção ao Zambeze reside na tradição de que migraram para assegurarem melhores fornecimentos de sal. Poder-se-á fazer uma interpretação mais lata no sentido de que o grupo Monomotapa pretendia alargar os seus contactos importantes com a principal artéria comercial controlada pelos árabe-suaílis ao longo do Zambeze. (Poder-se-á dizer que a estação do «Grande Zimbabué, se afigura algo excêntrica em relação às principais rotas comerciais e às principais fontes de ouro.) A importância do comércio de longa distância para os estados sucessores do Zimbabué poderia ser ilustrada com.a história da dinastia Changamire. Ouviu-se falar dela pela primeira vez na década de 1490, quando tentou desafiar o poder do Monomotapa nas planícies meridionais do Zambeze, mas foi derrotada. Mais tarde, porém, nos finais do séc. XVII, os Changamires voltam a surgir como desafiadores vitoriosos do poder e da riqueza dos Toruas, a dinastia que, a partir de finais do séc. XV, desenvolvera uma hegemonia sobre uma área considerável do planalto conhecido como Butua, no sudoeste do centro antigo do «Grande Zimbabué», uma área que era fertilizada pelas caravanas de comércio que iam e vinham do empório costeiro que os árabes haviam desenvolvido em Sofala, e que os Portugueses tinham ocupado em 1505. Enquanto os Monomotapas entraram em decadência após a penetração activa dos Portugueses entre 1575 e 1666, os Butuas, possivelmente aliados aos comerciantes muçulmanos que operavam no vale do Gabi, prosperaram e ganharam terreno e acabaram, em finais do séc. XVII, por expulsar os Portugueses das suas feitorias comerciais no interior das terras altas. O êxito dos Butuas pode, como é lógico, ser equiparado ao recrudescimento, nos sécs. XVII e XVIII, das construções de pedra no sudoeste.

A combinação das fontes arqueológicas, tradicionais, árabes e portuguesas permite reconstruir a história dos reinos bantos do planalto do Zimbabué em maior profundidade do que é possível noutros territórios centrais e meridionais dos Bantos. Mas é manifestamente evidente que nos finais do século xv pelo menos, estes foram os únicos reinos bantos importantes da África central. Havia, por exemplo, um estado Maravi (Esta é a antiga designação do actual Malavi) a norte do Zambeze no extremo sul do Lago Malavi. Mas pouco se sabe da sua história. Os outros reinos melhor conhecidos a seguir àqueles são os da costa ocidental em ambas as margens do Baixo Congo. Isso sucede porque os Portugueses chegaram ao reino do Congo, mesmo a sul do rio Congo, em 1842, e estiveram intimamente ligados à sua existência nos cem anos seguintes. Além deste reino que tinha uma costa de cerca de 140 quilómetros e atingia cerca de 400 quilômetros para o interior até ao vale do rio Cuango; existiam numerosos estados mais pequenos e em certa medida tributários, como o Loango e Cacongo, a norte da foz do Congo, e o Ndongo, a sul.

Por meio de informações da tradição oral, começadas a ser coligidas pouco depois de chegarem os Portugueses, pode dizer-se que o reino do Congo se formou através da conquista de alguns reinos bantos mais pequenos e já existentes. No período português havia sinais evidentes do facto: o rei, chamado Manicongo (sendo Mani equivalente a muene) estava no topo de uma hierarquia de chefes provinciais e sub-provinciais (também chamados manis, isto é, «senhores») que eram designados por ele e sob o poder de quem estavam as aldeias e a sua chefia tradicional. O rei, que possuía pouco mais do que uma escolta de soldados à sua directa disposição, dependia dos seus manis para o recrutamento em tempo de guerra e era um conselho desses senhores que o elegia entre os membros elegíveis da família real. Parece, portanto, que o reino foi edificado por uma nobreza conquistadora que invadiu o país e os dados tradicionais indicam que isso se verificou a partir da região acima do Malebo (Stanley) Pool por volta de 1400.

Porque teria essa nobreza agido dessa maneira não se sabe ao certo. Havia obviamente vantagem em organizar um grande reino, e o estado dos Bacongos tinha um sistema regular de taxas e uma tesouraria central. Mas porque viriam os conquistadores de nordeste para este território em especial? Uma parte da resposta pode talvez encontrar-se na rápida organização pelos Portugueses, depois da sua chegada, de caravanas comerciais para o interior dirigidas por condutores chamados pombeiros. Em troca dos produtos portugueses, e do sal costeiro e das conchas de Luanda chamadas nzimbu, que eram a moeda no Congo, esses pombeiros traziam desde Malebo Pool marfim, cobre, escravos e tecidos de ráfia. Muito dificilmente os Portugueses podiam ter agido deste modo e tão rapidamente, se não existissem já no litoral provas de que esses produtos podiam ser obtidos do interior. (Referiu-se já que os Portugueses raramente foram iniciadores de novo tráfico.) O facto de os Bacongos terem uma moeda fixa, à semelhança de outros estados costeiros (Loango usava por exemplo tecidos de ráfia), sugere ainda que esses estados tinham já um considerável grau de complexidade comercial. Podem, assim, ter existido razões comerciais para os povos do interior quererem obter o domínio do litoral, para assegurar o seus fornecimentos de sal, por exemplo (e ainda possivelmente para exportar o seu cobre, como se aludiu no fim do capítulo 4).

O reino do Congo, e seus vizinhos, situa-se na extremidade noroeste da orla das savanas onde os Bantos foram ter quando saíram das florestas da bacia do Congo. A nobreza dominante parece ter organizado os reinos mais pequenos da região mais ou menos na mesma época em que o estado do Zimbabué, provavelmente também edificado a partir de unidades mais pequenas, se encontrava no seu apogeu, e tomou o rumo do outro extremo das savanas, afastando-se para sueste. Por conseguinte, perguntar-se-á se estes dois conjuntos de iniciativas políticas não se terão inspirado nas proezas dos Bantos mais ao centro, sobre as quais pouco se sabe, uma vez que deixaram vestígios arqueológicos menos sólidos e estavam mais longe dos olhos dos cronistas.

Isso não constitui um grande problema, numa perspectiva negativa. O Professor Oliver utilizou o termo muene (que no Congo deu origem a mani) para designar um tipo e organização política característica daqueles povos bantos a sul da Tanzânia e mais longe ainda, que não foram forçados a adoptar a estrutura de reinos mais consistentes por parte de nilotas ou grupos nilóticos vindos do norte. Este tipo de organização política, que actuava mais através da persuasão religiosa e mágica e de laços familiares do que de meios declaradamente políticos, baseava-se na capacidade presumível de o principal descendente do antepassado fundador de uma comunidade, melhor do que qualquer outro mortal, comunicar com o outro mundo e, através dos espíritos dos antepassados e dos espíritos da terra e da água, aplacar as forças da natureza tão vitais para a prosperidade das comunidades agrícolas. Era, evidentemente, fundamental no mundo banto em geral, tal como o era no dos agricultores negros da África ocidental, donde os bantos tinham emergido. No Zimbabué, Monomotapa e Butua, esse tipo de organização parece ter comprovado a sua capacidade de crescer e transformar-se até funcionar numa escala nacional. Tanto aqui como na região do Baixo Congo, a idéia de obter riqueza através do comércio e da tributação do produto excedente da terra parece ter proporcionado o incentivo necessário.

A questão mais difícil de responder é se o mesmo incentivo produzia resultados igualmente impressionantes nas partes mais centrais da vasta área banto. Aqui, uma das dificuldades advém do pouco trabalho arqueológico desenvolvido no Zaire e em Angola, em comparação com o que foi possível conseguir na região para sul da Zâmbia. A riqueza do material encontrado nas sepulturas de Sanga e Kotoko indica que as produções excedentárias e sofisticadas desenvolvidas por eles e o comércio de longa distância situar-se-iam em pleno coração da África banto já no séc. XI. Mas predomina a opinião geral de que as sepulturas não fornecem provas suficientes sobre a estratificação social e, por conseguinte, não se pode ter a certeza de que os consideráveis recursos materiais existentes fossem explorados com vista ao apoio a uma grande superestrutura política. Também não dispomos de informações sobre este assunto, para além das que sobreviveram durante o período colonial. Muito embora estas tradições nos possam orientar numa tentativa de compreensão do passado, remontando muito provavelmente a quatro ou cinco séculos, enfermam consideravelmente no que se refere à cronologia e poucas ou nenhumas provas fornecem a não ser as de uma ligação muito reduzida à história política, na medida em que os sobreviventes vitoriosos a pretendem ver recordada. No entanto, a história política que relatam revela um processo de contínuo florescimento, declínio e dispersão de conceitos estatais e políticos.

Dois povos parecem ter tido papéis de destaque neste processo, os Lubas, que vivem de ambos os lados do vale superior do Lomani, e os Lundas, que vivem mesmo a oeste deles. Ambos os povos possuíam reinos extensos por volta do século XVII: O principal estado luba (parece terem existido dois menores mesmo a oeste daquele) ocupava uma área de cerca de 50000 Km quadrados a oeste do Lago Kisale até cerca do rio Luemba. As suas tradições afirmam que foi fundado por imigrantes vindos de nordeste, que erigiram o reino a partir de unidades políticas mais pequenas numa época que se situa provavelmente entre os limites de 1400 a 1500. O reino lunda, ou império visto que era cerca de três vezes maior do que o principal reino luba, ocupava o território compreendido entre os rios Bushmaie e Kuilu, e a sul desde o curso superior do rio Cassai até ao seu curso na direcção oeste, a norte. Os dados tradicionais afirmam que ele foi constituído por imigrantes vindos do país luba num período correspondente ao século XVI. Os indícios sugerem ainda que esses imigrantes lubas tinham aprendido por experiência própria no seu país a integrar os chefes ancestrais das comunidades agrícolas locais na hierarquia política sem criar conflitos e tensões, no que tiveram mais sucesso do que haviam tido no próprio país.

Nos séculos XVII e XVIII, muitos outros reinos do modelo lunda foram criados, em especial a sul da própria Lunda. um deles foi o reino dos Lozis junto das planícies irrigadas do Alto Zambeze, provavelmente fundado no século XVII. Outros foram especificamente partes do império lunda, governadas por reis intitulados Kazembe, que parecem ter começado por ser os chefes de grupos invasores ou de comerciantes enviados pelos governantes lundas. Destes, o mais famoso foi o Kazembe que criou um reino no vale de Luapula entre o lago Moero e o Catanga.

Devem também ser considerados neste contexto, os grupos de Jagas e Imbangalas que apareceram na fronteira oriental do reino do Congo na última parte do século XVI, e cujas actividades militares contribuíram para. apressar o declínio de um estado já enfraquecido pela interferência dos Portugueses nos seus assuntos; os Imbangalas eram um bando especial, possivelmente maior e mais coerente do que o habitual. Estes bandos evidenciavam um comportamento muito semelhante aos Manes, seus contemporâneos, na região da Serra Leoa mais a norte, estando mobilizados permanentemente para a guerra e acostumados a dominar os núcleos comunitários através do ataque-surpresa e a integrar depois os seus prisioneiros na sua própria sociedade. uma consequência final das suas actividades foi o aparecimento de uma série de reinos militares ao longo da fronteira oriental do reino do Congo, sendo o maior e o mais estável o reino de 1mbangala do Cassanje, no Alto Cuango. Costumava pensar-se que os Jagas tinham vindo da região da Luba e que os Imbangalas tinham avançado da região da Lunda. Sabe-se agora que os pontos de partida para os seus ataques ficavam no interior do reino do Congo, cobiçado pelo seu comércio e riqueza, tanto maIs que as suas próprias terras estavam sujeitas a secas periódicas. Existiam outros bandos, que passaram mais despercebidos do que os Jagas e os 1mbangalas, e que parece terem tido um papel idêntico do outro lado da África banto. Foram os grupos que os Portugueses conheceram como os «Zimbas», vindos do interior para atacar as zonas costeiras entre Quíloa e Mombaça na segunda metade do séc. XVI e os três primeiros quartéis do XVII. O império maravi parece ter sido o culminar de uma série de incursões nas terras imediatamente a norte do baixo Zambeze, e a tradição maravi reivindica uma origem luba para os seus primeiros reis. Será provavelmente correcto afirmar que, apesar de os actuais invasores do reino do Congo, vindos de leste e do vale do Zambeze, e dos Monomotapas vindos do norte, poderem não descender de parentes dos Lubas e dos Lundas, em primeiro ou mesmo segundo ou terceiro grau, constituíram, no entanto, um sintoma de uma constante instabilidade que impediu os povos bantos que viviam no centro do continente de aproveitarem vantajosamente o seu legado político. Parece não terem faltado pessoas com o necessário conhecimento e vontade de transformar aldeias agrícolas em unidades políticas; na verdade existiram essas pessoas. um reino raramente permanecia estável e unido por muito tempo sem que os grupos de nobres começassem a competir pelo trono e pelo poder. Como resultado da luta, o reino podia dividir-se em duas ou mais partes, ou as províncias periféricas tornavam-se independentes, ou os contendores derrotados afastavam-se e procuravam construir de novo noutro local o que não tinham conseguido tomar para si dentro dele.

É difícil ter certezas sobre os problemas subjacentes que aí existiram. É por demais óbvio que os reinos bantos tiveram tendência para sofrer as conseqüências de não possuírem um direito explícito de sucessão ao trono, sendo-lhes, deste modo, difícil assegurar a lealdade constante dos povos subjugados com tradições diferentes das suas a qualquer distância do centro do poder. Mas estes problemas diziam respeito igualmente aos reinos da África ocidental, cuja estabilidade em geral parece ter sido maior do que nos estados bantos. Alguns reinos bantos, no entanto, parecem ter sido melhor sucedidos do que outros. Estes incluem o grupo lacustre a norte e no centro de África, os grupos do Congo e do Zimbabué (pelo menos até os Portugueses se terem infiltrado neles), e ainda o reino dos Lozis e o reino Kazembe do Luapula, que duraram até ao século XIX. A estabilidade dos reinos lacustres devia ter algo a ver com o facto de as suas classes dominantes não serem de origem banto. Mas é também certo estar associada ao facto de as suas terras serem extraordinariamente irrigadas, férteis e muito produtivas, o que constituiu provavelmente um factor primordial para os Lozis. Exceptuando o reino dos Lozis, os reinos da África central situavam-se num ambiente muito mais marginal. Estavam situados em áreas planálticas com solos pobres e sem grandes lagos (Talvez valha a pena mencionar que parece ter existido um estado luba, extraordinariamente estável embora muito pequeno, chamado Kikonja na margem norte do Lago Kisale) e em grande parte dependentes dos rios para obter água. uma série de estações pouco chuvosas podia, pois, criar uma situação crítica para as colheitas e o gado de populações que aumentavam com o crescimento de reinos organizados. Os reinos mais prósperos neste tipo de ambiente, foram, juntamente com o Kazembe de Luapula, os da periferia desse sistema, os grupos do Congo e do Zimbabué. Estes últimos tinham a vantagem de estarem no litoral ou próximo dele o que proporcionou contrastes do meio ambiente, e portanto favoreceu o desenvolvimento de sistemas comerciais estáveis e permitiu complementar a produção de bens provenientes da agricultura. O reino do Zimbabué teve ainda a grande vantagem resultante da riqueza mineral e do acesso ao sistema comercial do Oceano indico. Longe do mar, Kazembe possuía também uma apreciável riqueza mineral, e esteve em contacto permanente com as costas ocidental e oriental por meio de rotas caravaneiras existentes, nos séculos XVIII e XIX.

A conclusão acerca da África central parece ser, portanto, a de que nessas regiões, onde não existiam fontes importantes de riqueza mineira, onde todos iam produzindo os mesmos produtos agrícolas no mesmo ambiente que podia revelar-se crítico para a produção agrí- cola à medida que a população aumentava e as estações secas fossem prolongadas, nessas regiões havia poucas possibilidades de aumentar os excedentes que a agricultura era capaz de produzir, através do comércio de longa distância. Os reinos não conseguiram, portanto, desenvolver-se além de um certo limite, e dificilmente sobreviveram a grandes crises de escassez agrícola. Devia ser esse o contexto no qual grupos como os Jagas, os 1mbangalas e os Kazembes do Luapula, se lançavam do interior em direcção ao litoral e seu comércio, ou - no caso dos Kazembes - em direcção a uma importante fonte de riqueza mineira que estava ligada à costa por importantes rotas comerciais.

No entanto, ainda que as condições fossem freqüentemente desfavoráveis à sua estabilidade e crescimento, há indícios de que os Bantos da África central possuíam realmente um conceito básico de organização monárquica, o do poder do muene. Parece lógico admitir, portanto, que os Bantos se dirigiram para norte do núcleo original de povoamento na África central levando consigo esse conceito. uma vez chegados a um meio mais favorável junto do Lago Vitória, ele deve ter começado a florescer de novo. Os povos nilóticos que conquista- ram os Bantos lacustres do norte devem muito provavelmente ter alimentado e desenvolvido um conceito local de monarquia, em vez de introduzirem um que lhes fosse próprio.