O Lugar da História na África

por Boubou Hama e Joseph Ki-Zerbo.

Qual o lugar da História na Sociedade e na Cultura da África? Quais as concepções, métodos e formas de fazer história na sociedade tradicional africana? Ao contrário do que imaginamos, a história tem um lugar especial para as culturas africanas, assunto explanado detalhadamente neste artigo. in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 1



O homem é um animal histórico. O homem africano não escapa a esta definição. Como em toda parte, ele faz sua história e tem uma concepção dessa história. No plano dos fatos, as obras e as provas de sua capacidade criativa estão aí sob nossos olhos, em forma de práticas agrárias, receitas de cozinha, medicamentos da farmacopéia, direitos consuetudinários, organizações políticas, produções artísticas, celebrações religiosas e refinados códigos de etiqueta. Desde o aparecimento dos primeiros homens, os africanos criaram ao longo de milênios uma sociedade autônoma que unicamente pela sua vitalidade é testemunha do gênio histórico de seus autores. Essa história engendrada na prática foi, enquanto projeto humano, concebida a priori. Ela é também refletida e interiorizada a posterior; pelos indivíduos e pelas coletividades. Torna-se, portanto, um padrão de pensamento e de vida: um "modelo".
Mas sendo a consciência histórica um reflexo de cada sociedade, e mesmo de cada fase significativa na evolução de cada sociedade, compreender-se-á que a concepção que os africanos possuem de sua própria história e da história em geral seja marcada por seu singular desenvolvimento. O simples fato do isolamento das sociedades é suficiente para condicionar estreitamente a visão histórica. Assim, o rei dos Mossi (Alto Volta) intitulava-se Mogho-Naba, ou seja, rei do mundo, o que ilustra bem a influência das limitações técnicas e materiais sobre a visão que se tem das realidades sócio-políticas. Desse modo, pode-se constatar que o tempo africano é, às vezes, um tempo mítico e social, mas também que os africanos têm consciência de serem os agentes de sua própria história. Enfim, veremos que este tempo africano é um tempo realmente histórico.
Tempo mítico e tempo social
Num primeiro contato com a África, e mesmo a partir da leitura de numerosas obras etnológicas, tem-se a impressão de que os africanos estavam imersos e, como que afogados no tempo mítico, vasto oceano sem margens nem marcos, enquanto os outros povos percorriam a avenida da história, imenso eixo balizado pelas etapas do progresso. De fato, o mito, representação fantástica do passado, em geral domina o pensamento dos africanos na sua concepção do desenrolar da vida dos povos. Isso a tal ponto que, às vezes, a escolha e o sentido dos acontecimentos reais deviam obedecer a um "modelo" mítico que predeterminava até os gestos mais prosaicos do soberano ou do povo. Sob forma de "costumes" vindos de tempos imemoriais, o mito governava a História, encarregando-se, por outro lado, de justificá-la. Num tal contexto, aparecem duas características surpreendentes do pensamento histórico: sua intemporalidade e sua dimensão essencialmente social.
Nesta situação o tempo não é a duração capaz de dar ritmo a um destino individual; é o ritmo respiratório da coletividade. Não se trata de um rio que corre num sentido único a partir de uma fonte conhecida até uma foz conhecida. Nos países tecnicamente desenvolvidos, os próprios cristãos estabelecem uma nítida demarcação entre "o fim dos tempos" e a eternidade. Isto talvez porque o Evangelho opõe nitidamente este mundo transitório ao mundo futuro, mas também porque, por esta visão distorcida e por outras razões, o tempo humano é praticamente laicizado. Ora, em geral o tempo africano tradicional engloba e integra a eternidade em todos os sentidos. As gerações passadas não estão perdidas para o tempo presente. À sua maneira, elas permanecem sempre contemporâneas e tão influentes, se não mais, quanto o eram durante a época em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direções: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro, não apenas pela interpretação dos fatos e o peso dos acontecimentos passados, mas por uma irrupção direta que pode se exercer em todos os sentidos. Quando o imperador do Mali, Kankou Moussa (1312-1332), enviou um embaixador ao rei do Yatenga para pedir-lhe que se convertesse ao islamismo, o chefe Mossi respondeu que antes de tomar qualquer decisão ele precisava consultar seus ancestrais. Percebe-se aqui como o passado, através do culto, está diretamente ligado ao presente, constituindo-se os ancestrais agentes diretos e privilegiados dos negócios que ocorrem séculos depois deles. Da mesma forma, na corte de numerosos reis, funcionários intérpretes de sonhos exerciam um peso considerável sobre a ação política projetada. Esses exegetas do sonho eram, em suma, ministros do futuro. Cita-se o caso do rei ruandês Mazimpaka Yuhi III (fim do século XVII) que viu em sonho homens de tez clara vindos do leste. Armou-se então de arcos e flechas mas, antes de lançar as flechas contra eles, guarneceu-as com bananas maduras. A interpretação desta atitude ambígua, ao mesmo tempo agressiva e acolhedora, introduziu uma imagem privilegiada na consciência coletiva dos ruandeses e talvez contribua para explicar a atitude pouco combativa desse povo, tradicionalmente aguerrido, face às colunas alemãs do século XIX, semelhantes aos pálidos rostos avistados durante o sonho real dois séculos antes. Nesse tempo "suspenso" a ação do presente é possível mesmo sobre o que é considerado passado mas que permanece, de fato, contemporâneo. O sangue dos sacrifícios de hoje reconforta os ancestrais de ontem. E até agora, os africanos ainda exortam seus próximos a não negligenciarem as. oferendas em nome dos parentes falecidos, pois os que nada recebem constituem a classe pobre desse mundo paralelo dos mortos e são obrigados a viver do auxílio dos privilegiados, que são objeto de generosos "sacrifícios" feitos em seu nome.
De uma forma ainda mais profunda, certas cosmogonias atribuem a um tempo mítico os progressos obtidos num tempo histórico, que não sendo recebido como tal por cada indivíduo, é substituído pela memória histórica do grupo. E o caso da lenda Gikuyu que explica o advento da técnica de fundição do ferro. Mogai (Deus) havia distribuído os animais entre os homens e as mulheres. Mas estas foram tão cruéis com seus animais que eles escaparam e tornaram-se selvagens. Os homens então intercederam junto a Mogai em favor de suas mulheres, dizendo: "Em tua honra, nós queremos sacrificar um carneiro; mas não pretendemos fazê-lo com uma faca de madeira, para não incorrer nos mesmos riscos que nossas mulheres". Mogai felicitou-os por sua sabedoria e, para dotá-los de armas mais eficazes, ensinou-lhes a receita da fundição do ferro.
Essa concepção mítica e coletiva era tal que o tempo tornava-se um atributo da soberania dos líderes. O rei Shilluk era o depositário mortal de um poder imortal, já que totalizava em si próprio o tempo mítico (encarnando o herói fundador) e o tempo social considerado como fonte da vitalidade do grupo. Do mesmo modo, entre os Bafulero (Zaire oriental), os Bunyoro (Uganda) e os Mossi (Alto Volta), o chefe é o sustentáculo do tempo coletivo:
"O Mwami está presente: o povo vive. O Mwami está ausente: o povo morre". A morte do rei constitui uma ruptura do tempo que paralisa as atividades, a ordem social, toda expressão de vida, desde o riso até a agricultura e a união sexual dos animais e das pessoas. O interregno constitui um parêntese no tempo. Apenas o advento de um novo rei recria o tempo social que se reanima novamente. Tudo é onipresente nesse tempo intemporal do pensamento animista, no qual a parte representa e pode significar o todo; como os cabelos e unhas que se impede de caírem nas mãos dos inimigos por medo de que estes tenham poder sobre a pessoa.
De fato, é preciso atingir uma concepção geral do mundo para entender a visão e o significado profundo do tempo entre os africanos. Veremos então que no pensamento tradicional, o tempo perceptível pelos sentidos não passa de um aspecto de um outro tempo vivido por outras dimensões da pessoa. Quando vem a noite e o homem se estende sobre sua esteira ou sua cama para dormir, é o momento que seu duplo escolhe para partir, para percorrer o caminho seguido pelo homem durante o dia, freqüentar os lugares que ele freqüentou e refazer os gestos e os trabalhos que ele realizou conscientemente durante a vida diurna. e. no curso dessas peregrinações que o duplo se choca com as forças do Bem e do Mal, com os bons gênios e com os feiticeiros devoradores de duplos ou cerko (em língua songhai e zarma). e. no duplo que reside a personalidade de cada um. O songhai diz que o bya (duplo) de um homem é pesado ou leve, querendo significar que sua personalidade é forte ou frágil: os amuletos têm como finalidade proteger e reforçar o duplo. E o ideal é chegar a confundir-se com o próprio duplo, a fundir-se nele até formar uma só entidade, que ascende assim a um grau de sabedoria e de força sobre-humano. Somente o grande iniciado, o mestre (kortékonynü, zimaa) atinge esse estado em que o tempo e o espaço não constituem mais obstáculos. Era esse o caso de SI, o ancestral epônimo da dinastia: "Assustador é o pai dos SI, o pai dos trovões. Quando ele está com uma cárie, é então que mastiga cascalhos; quando está com conjuntivite, é nesse momento que, resplandecente, acende o fogo. Com seus grandes passos, ele percorre a terra. Ele está em toda parte e em parte alguma".
O tempo social, a história, vivida assim pelo grupo, acumula um poder que é a maior parte do tempo simbolizado e concretizado num objeto transmitido pelo patriarca, chefe do clã ou rei ao seu sucessor. Pode tratar-se de uma bola de ouro conservada num tobal (tambor de guerra) associado a elementos extraídos do corpo do leão, do elefante ou da pantera. Esse objeto pode estar fechado numa caixa ou numa arca, como as insígnias reais (tibo) do rei mossi... Entre os Songhai-Zarma, é uma haste de ferro afiada numa das extremidades. Já entre os Sorko do antigo Império de Gao, é um ídolo em forma de um grande peixe provido de uma argola na boca. Entre os ferreiros, é uma forja mítica que às vezes, durante a noite, toma-se rubra para expressar sua cólera. A transferência desses objetos é que constituía a devolução jurídica do poder. O caso mais interessante é o dos Sonianke, descendentes de Sonni Ali, que possuem correntes de ouro, prata ou cobre, cada elo das quais representando um ancestral, e o conjunto simbolizando a descendência dinástica até Sonni, o Grande. No decorrer de cerimônias mágicas, estas correntes magníficas são regurgitadas diante de um público embasbacado. No momento de morrer, o patriarca sonianke regurgita a corrente pela última vez, fazendo com que o escolhido para seu sucessor engula-a pela outra extremidade. Ele morre logo após ter passado sua corrente àquele que deve substituí-lo. Esse testamento vivo ilustra com eloqüência a força da concepção africana do tempo mítico e do tempo social. Poder-se-ia pensar que uma tal visão do processo histórico seria estática e estéril, na medida em que, ao colocar a perfeição do arquétipo no passado, na origem dos tempos, parece indicar como ideal para o conjunto das gerações a repetição estereotipada dos gestos e da gesta do ancestral. O mito não seria, assim, o motor de uma história imóvel? Ficará claro mais adiante que não podemos nos ater unicamente a esse enfoque do pensamento histórico entre os africanos.
Por outro lado, o enfoque mítico - é preciso reconhecê-lo - está na origem da história de todos os povos. Toda história é originalmente uma história sagrada. Do mesmo modo, esse enfoque acompanha o desenvolvimento histórico, reaparecendo de tempos em tempos sob formas maravilhosas ou monstruosas. Entre elas está o mito nacionalista, que faz com que um determinado chefe de Estado contemporâneo se dirija ao seu país como a uma pessoa viva, e o mito da raça, sob o regime nazista, concretizado por rituais cujas origens remontam a um passado longínquo, que condenou milhões de pessoas ao holocausto. .
Os africanos têm consciência de ser os agentes de sua história?
Certamente, durante alguns séculos o homem africano teve razões de sobra para não desenvolver uma consciência responsável. Excessivas imposições exteriores e alienantes domesticaram-no a tal ponto que mesmo quando ele vivia longe da costa onde se dava o aprisionamento de escravos e da área de influência do comandante branco, ele guardava num canto qualquer de sua alma a marca aniquiladora da escravidão.
Do mesmo modo, no período pré-colonial, numerosas sociedades africanas elementares, quase fechadas, dão a impressão de que seus membros só tinham consciência de estar fazendo história numa escala e numa medida bastante limitadas, em geral na dimensão da grande família e no quadro de uma hierarquia consuetudinária gerontocrática, rigorosa e pesada. Entretanto, mesmo (e quem sabe sobretudo) nesse nível, o sentimento da auto-regulação da comunidade, da autonomia, era vivo e poderoso. O camponês lobi e kabye na sua aldeia, quando "senhor da casa" 1, acreditava ter amplo controle de seu próprio destino. A melhor prova disso é que nessas regiões de "anarquia" política, onde o poder era a coisa mais bem distribuída do mundo, é que os invasores e em particular os colonizadores tiveram maior dificuldade em se impor. O apego à liberdade atestava aqui o gosto pela iniciativa e o repúdio pela alienação.
Em compensação, nas sociedades fortemente estruturadas a concepção africana de chefe dá a este último um espaço exorbitante na história dos povos dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Assim, não é de admirar que a tradição relembre toda a história original dos Malinke no Elogio a Sundiata. O mesmo acontece com Sonni Ali entre os Songhai da curva do Níger. Isto não significa, em absoluto, um condicionamento "ideológico" que destrói o espírito crítico, ainda que, nas sociedades em que o único canal de informações é a via oral, as autoridades que controlam uma sólida rede de griots praticamente monopolizem a difusão da "verdade" oficial. Mas os griots não constituíam um corpo monolítico e "nacionalizado".
Por outro lado, a história mais recente da África pré-colonial demonstra que a posição dedicada aos líderes africanos nas representações mentais das pessoas provavelmente não é superestimada. É o caso, por exemplo, de Chaka, que realmente forjou a "nação" Zulu na tormenta dos combates. O que os testemunhos escritos e orais permitem perceber da atuação de Chaka deve ter-se reproduzido várias vezes durante o desenvolvimento histórico africano. Diz-se que a constituição dos clãs mande remonta a Sundiata; e a ação de Osei Tutu ou a de Anokye na formação da "nação" Ashanti parece corresponder à idéia de nação que os Ashanti têm até hoje. Tanto mais que a idéia de um líder que atua como motor da história quase nunca se reduz a um esquema simplista, creditando a um só homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata-se de um grupo dinâmico, celebrado como tal. Os companheiros dos chefes não são esquecidos, mesmo os de condição inferior (griots, porta-vozes, servos). Eles freqüentemente entram para a história como heróis.
A mesma observação vale para as mulheres que, ao contrário do que se tem dito e repetido à saciedade, ocupam na consciência histórica africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. Em Uanzarba, perto de Tera (Níger), onde a sucessão na chefia era matrilinear, durante o período colonial os franceses, no intuito de reunir os habitantes dessa aldeia aos de outras aldeias songhai, haviam nomeado um homem para comandar essa aglomeração. Mas os Sonianke 2 não deixaram de conservar sua kassey (sacerdotisa), que continua até hoje a assumir a responsabilidade do poder espiritual. Também em outros lugares as mulheres são vistas como protagonistas na evolução histórica dos povos. Filhas, irmãs, esposas e mães de reis, como essa admirável Luedji, que foi tudo isso sucessivamente e mereceu o título de Swana Mulunda (mãe do povo Lunda), ocupavam posições que lhes permitiam influir nos acontecimentos. A célebre Amina, que, na região haussa, no século XV, conquistou para Zaria tantas terras e aldeias que ainda levam o seu nome, é apenas um exemplo, entre milhares, da idéia de autoridade histórica que as mulheres impuseram às sociedades africanas. Esta idéia permanece viva até hoje na África, na atuação das mulheres na guerra da Argélia e nos partidos políticos durante a luta nacionalista pela independência ao sul do Saara. É claro que a mulher africana é utilizada também como objeto de prazer e de decoração, como nos sugerem as que são mostradas envoltas em tecidos de exportação ao redor do rei do Daomé ao presidir uma festa tradicional. Mas do mesmo espetáculo participavam as amazonas, ponta de lança das tropas reais contra Oyo e os invasores colonialistas na batalha de Cana (1892). Pela sua participação no trabalho da terra, no artesanato e no comércio, pela sua ascendência sobre os filhos, sejam eles príncipes ou plebeus, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos. Houve e ainda há batalhas para ou pelas mulheres. Porque as próprias mulheres muitas vezes desempenharam o papel de traidoras ou sedutoras. Como no caso da irmã de Sundiata ou das mulheres enviadas pelo rei de Segu Da Monzon às bases inimigas. Apesar de sofrer uma segregação aparente nas reuniões públicas, todos sabem na África que a mulher está onipresente na evolução. A mulher é a vida. E também a promessa de expansão da vida. É através dela que os diferentes clãs consagram suas alianças. Pouco loquaz em público, ela faz e desfaz os acontecimentos no sigilo de seu lar. E a opinião pública formula este ponto de vista no provérbio: "As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar".
Em suma, tudo se passa como se na África a permanência das estruturas elementares das comunidades de base através do movimento histórico tivesse conferido a todo processo um caráter popular bastante notável. A frágil envergadura das sociedades tornou a história uma questão que diz respeito a todos. Apesar da mediocridade técnica dos meios de comunicação (ainda que o tantã assegurasse a telecomunicação de aldeia para aldeia), a estreita amplitude do espaço histórico media-se pela apreensão mental de cada um. Daí a Inspiração "democrática" incontestável que anima a concepção africana da história na maioria dos casos! Cada um tinha o sentimento de poder, em última instância, subtrair-se à ditadura, mesmo que fosse através da secessão, para refugiar-se no espaço disponível. O próprio Chaka passou por essa experiência no fim de sua carreira. Este sentimento de fazer a história mesmo na escala microcósmica da aldeia, assim como a sensação de ser somente uma molécula na corrente histórica criada pelo rei visto como demiurgo, são muito importantes para o historiador. Porque constituem em si mesmos fatos históricos e porque contribuem por sua vez para criar a história.
O tempo africano é um tempo histórico
o tempo africano pode ser considerado um tempo histórico? Alguns afirmam que não, sustentando que o africano só concebe o mundo como uma reedição estereotipada do passado. Ele não passaria então de um incorrigível discípulo do passado repetindo a todo mundo: "Foi assim que os ancestrais fizeram", para justificar todas as suas ações e seus gestos. Se fosse assim, Ibn Battuta só teria encontrado no lugar do Império do Mali comunidades pré-históricas vivendo em abrigos cavados nas rochas e homens vestidos com peles de animais. O próprio caráter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque a história é a vida crescente do grupo. Ora, deste ponto de vista pode-se dizer que para o africano o tempo é dinâmico. Nem na concepção tradicional, nem na visão islâmica que influenciará a África, o homem é prisioneiro de um processo estático ou de um retorno cíclico. Evidentemente, na ausência da idéia do tempo matemático e físico contabilizado pela adição de unidades homogêneas e medido por instrumentos confeccionados para esse fim, o tempo permanece um elemento vivido e social. Nesse contexto, porém, não se trata de um elemento neutro e indiferente. Na concepção global do mundo, entre os africanos, o tempo é o lugar onde o homem pode, sem cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal é a dimensão principal do "animismo" 3 africano em que o tempo é o campo fechado e o mercado no qual se confrontam ou negociam as forças que habitam o mundo. Defender-se contra qualquer diminuição de seu ser, desenvolver a saúde, a forma física, a extensão de seus campos, a grandeza de seus rebanhos, o número de filhos, de mulheres, de aldeias, este é o ideal dos indivíduos e das coletividades. E essa concepção é incontestavelmente dinâmica. Os clãs Cerko e Sonianke (Níger) são antagonistas. O primeiro, que representa o passado e tenta reinar sobre a noite, ataca a sociedade. O segundo, ao contrário, é o mestre do dia; representa o presente e defende a sociedade. Esse simbolismo é eloqüente em si. Mas vejamos uma estrofe significativa da invocação mágica entre os Songhai:
"Não é da minha boca
É da boca de A
Que o deu a B
Que o deu a C
Que o deu a D
Que o deu a E
Que o deu a F
Que o deu a mim
Que o meu esteja melhor na minha boca
Que na dos ancestrais."
Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado, que constitui para ele uma justificação. Mas esta invocação não significa o imobilismo e não contradiz a lei geral da acumulação das forças e do progresso. Daí a frase: "Que o meu esteja melhor na minha boca que na dos ancestrais".
O poder na África negra se expressa em geral por uma palavra que significa "a força" 4. Esta sinonímia assinala a importância que os povos africanos outorgam à força e mesmo à violência no desenrolar da história. Mas não se trata simplesmente da força material bruta. Trata-se da energia vital que reúne uma polivalência de forças, que vão da integridade física à sorte e à integridade moral. O valor ético é considerado, na verdade, como uma condição sine qua non do exercício benéfico do poder. A sabedoria popular é testemunha dessa idéia e em numerosos contos coloca em cena chefes despóticos que são punidos no final, extraindo assim literalmente desse fato a moral da história. O Ta'rikh-al-Sudan e o Ta'rikh-el-Fattash não poupam elogios aos méritos de al-Hajj Askiya Muhammad. É verdade que havia interesses materiais em jogo. Mas sistematicamente as virtudes desse príncipe são relacionadas à sua "fortuna". Bello Muhammad pensa da mesma forma e convida Yacouba Baoutchi a meditar sobre a história do Império Songhai: foi graças à sua justiça que Askiya Muhammad não apenas manteve como também reforçou a herança de Sonni Ali. E foi quando os filhos de Askiya se afastaram da justiça do Islã que seu império se desarticulou, dividindo-se em múltiplos principados impotentes.
Para o filho de Usman dan Fodio, o mesmo princípio vale para seu próprio governo: "Olhe para o passado, para todos aqueles que comandaram antes de nós... Havia antes de nós dinastias milenares no território haussa. Nelas, muitos povos tinham adquirido grandes poderes que desmoronaram porque estavam distanciados de sua base fundada na justiça, de seus costumes e tradições, alterados pela injustiça. Quanto a nós, nossa força, para que seja duradoura, deve ser a força da verdade e a do islamismo. Para nós, o fato de ter matado Yunfa, destruído a obra de Nafata, de Abarchi e de Bawa Zangorzo 5 pode impressionar as gerações atuais mesmo fora da influência do Islã. Mas as que virão depois de nós, não mais- perceberão isso: elas julgar-nos-ão pelo valor das organizações que lhes tivermos deixado, pela força permanente do islamismo que tivermos estabelecido, pela verdade e justiça que tivermos sabido impor ao Estado".
Esta visão elevada do papel da ética na história não provém somente das convicções islâmicas do líder de Socoto. Nos meios "animistas" também existe a idéia de que a ordem das forças cósmicas pode ser alterada por procedimentos imorais e que o desequilíbrio resultante só pode ser prejudicial ao seu tutor. Esta visão do mundo em que os valores e exigências éticas são parte Integrante da própria organização do mundo pode parecer mítica. Mas ela exercia uma influência objetiva sobre o comportamento dos homens e particularmente sobre diversos líderes políticos da África. Nesse sentido, pode-se dizer que se a história é, em geral, justificação do passado, ela é também exortação do futuro. Nos sistemas pré-estatais, a autoridade moral que afiançava ou corrigia eventualmente a conduta dos negócios públicos era assumida por sociedades especializadas, às vezes secretas, tal como o Lo do povo Senoufo ou o poro da Alta Guiné. Essas sociedades constituíam muitas vezes poderes paralelos, encarregados de desempenhar o papel de recurso à parte do sistema estabelecido. Mas elas acabavam às vezes substituindo clandestinamente o poder constituído. Elas apareciam assim às pessoas como centros ocultos de decisão, que confiscavam ao povo o controle de sua própria história. Nesse tipo de sociedade, a organização em classes etárias é uma estrutura de primeira importância no encaminhamento da história do povo. Essa estrutura, na medida em que está estabelecida a partir de uma periodicidade conhecida, permite reconstituir a história dos povos até o século XVIII. Mas desempenhava também uma função específica na vida das sociedades. De fato, mesmo nas coletividades rurais que desconheciam maiores inovações técnicas e eram, conseqüentemente, bastante estáveis, os conflitos de gerações não estavam ausentes. Era necessário então assumi-los, por assim dizer, ordenando o fluxo das gerações e estruturando as relações entre elas para evitar que degenerassem em conflitos violentos resultantes de bruscas mutações. A geração engajada na ação delega um de seus membros à geração de jovens que a sucede. O papel desse adulto não é o de aplacar a impaciência dos jovens, mas de canalizar a fúria irrefletida que poderia ser nefasta ao conjunto da coletividade ou que, na melhor das hipóteses, prepararia mal os interessados para assumir suas responsabilidades públicas 6.
A consciência do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo que tem um grande peso sobre o presente não anula o dinamismo deste, como testemunham numerosos provérbios. A concepção do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas não é, com certeza, inerente ou consubstancial a uma espécie de "natureza" africana. É a marca de um estágio no desenvolvimento econômico e social. Prova disso são as diferenças flagrantes que notamos ainda hoje entre o tempo-dinheiro dos habitantes das cidades e o tempo tal como é apreendido pelos habitantes do campo. O essencial é que a idéia de desenvolvimento a partir das origens (a serem pesquisadas) esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, ou de resquícios de mitos, trata-se de um esforço para racionalizar o desenvolvi- mento social. Às vezes, têm-se verificado esforços ainda mais positivos no sentido de iniciar o cálculo do tempo histórico. Este pode estar relacionado com o espaço, como quando se fala em "dar um passo", para qualificar uma duração mínima. Pode estar relacionado também à vida biológica, como o tempo de uma inspiração ou de uma expiração. Mas está freqüentemente relacionado a fatores exteriores ao indivíduo, como por exemplo, os fenômenos cósmicos, climáticos e sociais, sobretudo quando eles são recorrentes. Na savana sudanesa, entre os adeptos das religiões africanas tradicionais, geralmente conta-se a idade pelo número das estações chuvosas. Para indicar que um homem é idoso, fala-se do número de estações das chuvas que ele viveu ou, através de uma imagem, que ele "bebeu muita água".
Também foram elaborados alguns sistemas de cálculo mais aperfeiçoados 7. Mas o passo decisivo nesse campo só será dado pela utilização da escrita. Ainda que a existência de uma classe letrada absolutamente não garanta a tomada de consciência de uma história coletiva por parte de todo o povo, ela ao menos permite estabelecer pontos de referência que organizam o curso do fluxo histórico.
Por outro lado, a introdução das religiões monoteístas baseadas num determinado processo histórico contribuiu para fornecer uma outra representação do passado coletivo, "modelos" que apareciam geralmente nas entrelinhas das narrativas. Por exemplo, sob a forma de ligações arbitrárias das dinastias às fontes islâmicas cujos valores e ideais servirão aos profetas negros para modificar o curso dos acontecimentos em seu país de origem.
Mas a grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulação monetária. Só agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilação dos esquemas mentais em vigor nos países que influenciam os africanos econômica e culturalmente. Descobrem então que, em geral, é o dinheiro que faz a história. O homem africano, tão próximo de sua história que tinha a impressão de forjá-la ele próprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienação e a oportunidade de ser co-autor do progresso global.
Notas
1 A expressão bambara so-tigui, equivalente, numa escala inferior, a dougou-tigui (chefe de aldeia), dyamani-tigui (chefe de cantão) e kele-tigui (general em chefe), mostra bem a força dessa autoridade.
2 Neste clã, o poder se transmite "pelo leite", ainda que se admita que o laço de sangue contribua para reforçá-lo. Entre os Cerko, porém, é unicamente através do leite que o poder é transmitido.
3 O animismo, ou ainda melhor, a religião tradicional africana, caracteriza-se pelo culto devotado a Deus e às forças dos espíritos intermediários.
4 Fanga (em bambara), panga (em more), pan (em samo).
5 Príncipes de Gobir
6 Por exemplo, entre os Alladian de Moosu (perto de Abidjan) a organização por gerações (em número de cinco, cada uma "reinando" nove anos) permanece em vigor inclusive para tarefas de tipo "moderno": construção, festa de formatura ou de promoção...
7 Ivor WILKS mostra, assim, ao criticar o livro de D. P. HENIGE, The cronology of Oral Tradition: Quest for a Chimera, que os Akan (Fanti, Ashanti...) dispunham de um sistema de calendário complexo, com semana de sete dias, mês de seis semanas e ano de nove meses, ajustado periodicamente ao ciclo solar segundo um método ainda não completamente esclarecido. "Era então possível no esquema do calendário Akan referir-se, por exemplo, ao 18o dia do quarto mês do terceiro ano do reinado de Ashantihene Osei Bonsu." Método de datação ainda corrente nos países europeus no século XVIII e mesmo no século XIX. Cf. WILKS, I. 1975. p. 279 e segs.