O Egito Faraônico - Estado, Sociedade e Cultura

por J. Yoyotte.


Uma apresentação sucinta dos aspectos gerais de uma das mais antigas civilizações africanas, o Egito. Tradicionalmente deslocado de seu ambiente, e tratado como uma civilização "mediterranizada", o Egito guarda uma série de elementos culturais extremamente originais que valorizam sua autenticidade africana.in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 2



Economia e Sociedade
Campos e pântanos
A constituição do Estado faraônico por volta do ano - 3000 e o período obscuro que se seguiu com certeza corresponderam a um grande desenvolvimento econômico, evidenciado em alguns aspectos pelas sepulturas reais e privadas da época tinita: as construções tornaram-se mais amplas e os vários objetos de arte sugerem o aumento do luxo e o refinamento da técnica dos artesãos. Não há meios de saber se a necessidade de coordenar a irrigação foi a principal causa da formação de um Estado unificado ou se a unificação do país sob os reis tinitas, aliada ao desenvolvimento da escrita, possibilitou organizar as economias regionais, com a racionalização dos trabalhos de infra-estrutura e a distribuição sistemática dos recursos alimentares. O fato é que até o século XIX da era cristã a prosperidade e a vitalidade do Egito estiveram ligadas à cultura de cereais (trigo, cevada). Um sistema de bacias de inundação, que controlava e distribuía as águas das enchentes e depositava o limo no interior de diques de terra, perdurou até o recente triunfo da irrigação permanente: sua existência é comprovada desde o Médio Império, podendo-se supor que seja ainda mais antigo 1.
Evidentemente, esse sistema só permitia uma colheita por ano; por outro lado, a curta duração do ciclo agrícola liberava grande quantidade de mão-de-obra para os vultosos trabalhos exigidos pelas construções religiosas e reais. Os antigos também praticavam a irrigação permanente, obtendo água de canais ou bacias escavadas até o lençol subterrâneo. Mas, durante longo tempo, as pernas e os ombros humanos carregados de jugos foram as únicas "máquinas" conhecidas para puxar água, sendo a irrigação por meio de valas utilizada somente yara os vegetais, árvores frutíferas e vinhas (contudo, é possível que a invenção do shaduf durante o Novo Império tenha possibilitado duas colheitas de cereais por ano em alguns lugares) 2. Por não armazenar água, os egípcios ainda não eram capazes de atenuar as conseqüências de enchentes anormalmente baixas, que ocasionavam a infertilidade em várias bacias, e de enchentes excessivamente altas, que devastavam as terras e as habitações. O desenvolvimento dos silos e do transporte fluvial, porém, permitiu-lhes assegurar o abastecimento alimentar de uma província para outra ou de um ano para outro. Os rendimentos médios eram bons: os excedentes alimentavam o grande número de funcionários governamentais e os trabalhadores de fábricas de médio porte (estaleiros e arsenais, fiações ligadas a certos templos, etc.). As autoridades dos templos e os altos funcionários exerciam poderes de patronato através do controle dos recursos alimentares, que variavam conforme o período.
O pão e a cerveja, feitos de cereais, constituíam a base da dieta, mas a alimentação dos antigos egípcios era surpreendentemente variada. E impressionante a variedade de tipos de bolos e pães relacionados nos textos. Como ocorre atualmente, as hortas produziam vagens, grão-de-bico e outras leguminosas, cebola, alho-porró, alface e pepino. Nos pomares cultivavam-se tâmaras, figos, nozes de sicômoro e uvas. Também se produzia uma grande variedade de vinhos, com uma viticultura engenhosa, praticada principalmente em diversos pontos do Delta e nos oásis. A criação de abelhas fornecia o mel. O óleo era extraído do sésamo e do nabk; a oliveira, introduzida durante o Novo Império, continuou rara, não sendo seu cultivo muito bem sucedido.
O Egito faraônico não transformou todo o vale em terras agrícolas: além dos recursos que extraía dos campos e hortas, explorou também os grandes pântanos e lagos das bordas setentrionais do Delta, as praias do lago Méride, bem como as depressões à beira do deserto e os meandros do Nilo. Esses pehu abrigavam muitas e variadas aves selvagens, que eram caçadas ou capturadas com arapucas. O Nilo oferecia grande variedade de peixes, pescados com rede de arrastão, nassa para enguias, linha ou cesto; apesar da proibição de seu consumo em certas províncias ou em determinadas categorias sociais, tinham um lugar definido na dieta popular, que também era suplementada pela coleta de rizomas de ciperácea comestível, polpa de papiro e, a partir do período persa, pelas sementes do loto índico. Finalmente, os pântanos serviam de pastagem para bovinos.
Embora o clima, muito úmido, não fosse particularmente favorável à criação de gado e, em conseqüência, os rebanhos exauridos tivessem que ser supridos regularmente pela Núbia e pela Ásia, essa atividade tinha uma importância considerável na vida do país e nas concepções religiosas. As mesas dos deuses e dos notáveis deviam ser bem guarnecidas de carne bovina. O corte da carcaça era uma arte refinada, e em geral as gorduras animais eram utilizadas na fabricação de ungüentos perfumados. Sabe-se que os egípcios do Antigo Império tentaram criar várias espécies, como órix, antílope, gazela, etc., e até grous e hienas, mas tal prática foi abandonada por consumir excessiva mão-de-obra, com resultados desapontadores. Mais tarde, os ruminantes do deserto passam a ser, nos provérbios e nos rituais mágicos, o símbolo de criaturas indomáveis 3. Por outro lado, os egípcios conseguiram ótimos resultados na criação de aves domésticas, principalmente o ganso do Nilo. As cabras, tão prejudiciais às escassas árvores do vale, e os carneiros criados nas terras incultas e nas bordas do deserto, juntamente com os porcos (apesar de algumas proibições), ocuparam um espaço considerável na dieta popular. Em plena época histórica, observa-se uma transformação no tipo de rebanho ovino: por volta de - 2000, o antigo carneiro de chifres horizontais torcidos, que era a encarnação de Khnum, Bés, Hershef e outros deuses antigos, foi sendo gradualmente substituído pelo carneiro de chifres curvos, dedicado ao deus Amon. Sua origem, africana ou asiática, é controversa. Os egípcios obtiveram êxito especial na domesticação de duas espécies africanas, intimamente associadas, em nossas representações, ao passado faraônico: o asno, utilizado desde o período arcaico, não como animal de montaria, mas de carga (paradoxal- mente dedicado a Set, deus do mal), e o gato doméstico, que só aparece a partir do fim do Antigo Império e início do Médio Império (e que era cultuado como uma forma moderada das deusas ameaçadoras).
Mineração e indústria
A nobreza e a guarda praticavam a caça à lebre e aos animais de grande porte no deserto, como esporte e meio de variar a alimentação cotidiana, mas é provável que essa atividade não tivesse grande relevância econômica. A real importância do deserto residia na variedade de recursos minerais que oferecia: as tinturas verdes e negras do deserto arábico, utilizadas para tratar e embelezar os olhos desde a Pré-História; pedras sólidas e de bela aparência usadas pelos construtores e escultores (calcário fino de Toura, arenito de Silsileh, granito de Assuã, alabastro de Hatnub, quartzito de Djebel el-Ahmar e grauvaca de Hammamat) 4; e pedras semipreciosas, como a turquesa do Sinai ou as cornalinas e ametistas da Núbia. A vitrificação (esteatita vitrificada e "faiança egípcia" com núcleo de quartzo) desenvolveu-se muito cedo, estimulando a manufatura de objetos com a aparência da turquesa ou lazurita. O Egito do Novo Império aperfeiçoou as técnicas de fabricação de vidro graças aos contatos com a Ásia, adquirindo um domínio acurado do processo.
Uma das riquezas que o país extraía das vastas cercanias áridas era o ouro, proveniente do deserto arábico e da Núbia. Símbolo da imortalidade perfeita, esse metal ainda não desempenhava o papel econômico fundamental que ma adquirir em civilizações mais recentes, mas era considerado um símbolo de riqueza e bem mais valorizado do que a prata, embora esta última, metal Importado, sempre fosse mais rara e, no Antigo Império, mais preciosa do que o ouro. As numerosas jazidas de cobre existentes nos desertos eram de teor muito baixo (exceto no Sinai) e o Egito logo se tornou dependente do cobre asiático. É preciso observar que as inovações técnicas da metalurgia do Egito faraônico sempre estiveram aquém das que se verificaram no Oriente Próximo. A Idade do Bronze e posteriormente a Idade do Ferro foram tardias no Egito. O metal era relativamente raro e precioso; a madeira e o sílex substituíram-no com sucesso nos implementos agrícolas, e a pedra dura nos instrumentos para esculpir; os utensílios e armas de metal eram conservados e distribuídos pelos serviços públicos 5.
Embora o antigo Egito tivesse que importar metais e madeira de seus vizinhos asiáticos, sua capacidade industrial era insuperável em dois setores. Os faraós exportavam têxteis (o linho egípcio da época era de uma qualidade inigualável) e papel. O papiro, usado para diversos fins - na confecção de velas, cordas, vestuário, calçados -, possibilitou principalmente a fabricação de um suporte muito flexível para a escrita. Esse material era a fonte de poder do escriba e foi muito solicitado no exterior com a expansão da escrita alfabética nas adjacências do Mediterrâneo oriental. O cultivo intensivo do papiro provavelmente contribuiu para o desaparecimento dos pântanos, refúgios dos pássaros, crocodilos e hipopótamos, que, na opinião dos próprios antigos, davam brilho à paisagem egípcia.
O desenvolvimento dos transportes foi um fator determinante no progresso do regime faraônico. Raramente utilizados, os bovinos eram atrelados ao arado ou ao trenó funerário; o asno, mais resistente e menos exigente, era o animal de carga ideal nos campos e nas trilhas do deserto (sabemos que o cavalo, introduzido durante o segundo milênio, continuou a ser um luxo reservado aos guerreiros, e que o rico potencial econômico da roda, cujo princípio já era conhecido desde o Antigo Império 6, não foi explorado). O asno, com um rendimento reconhecidamente menor - embora fosse conhecida a técnica de utilizá-lo em tropas - precedeu e muitas vezes substituiu o camelo, adotado lenta e gradualmente nos campos a partir da época persa. Para o transporte de carga a longa distância, o Egito utilizava o rio e seus canais: as embarcações grandes e pequenas eram rápidas e seguras. As qualidades precoces da náutica egípcia possibilitaram tanto a centralização econômica quanto as prodigiosas realizações arquitetônicas (pirâmides, templos gigantescos, colossos, obeliscos). Além disso, mesmo em tempos muito antigos, barcos à vela percorriam o mar Vermelho e o Mediterrâneo (não há nada que prove a teoria de que os fenícios ensinaram os. egípcios a navegar). Para deslocar os pesados blocos de pedra necessários principalmente às construções sagradas, a engenharia faraônica inventou métodos engenhosos, mas de uma simplicidade surpreendente, utilizando, por exemplo, as propriedades derrapantes do limo molhado para deslocar simples trenós (sem rodas nem rolamentos), aproveitando a enchente do Nilo para lançar as barcaças carregadas de enormes blocos ou utilizando esteiras de junco como âncora flutuante 7 através da reconstituição de tais procedimentos - em que um homem moderno nunca pensaria, confundido que está por tecnologias sofisticadas e outras idéias de ,eficiência - que a pesquisa está desvendando os mistérios da ciência faraônica 8.
A maior parte dos processos agrícolas e industriais foi inventada por volta do III milênio; ao que parece, os egípcios eram lentos e tímidos - e até mesmo preconceituosos -, quando se tratava de adotar inovações técnicas provenientes do exterior. No estágio atual dos estudos e da documentação, parece que as notáveis realizações dos primeiros tempos forneceram soluções para os problemas mais vitais dos habitantes do vale e levaram ao estabelecimento de um sistema social e político eficaz, o "despotismo faraônico". As falhas desse sistema eram minimizadas por uma representação religiosa tão coerente que ainda sobreviveu, nos templos, vários séculos, após ter a conquista estrangeira demonstrado a incapacidade de a tradição e sua correspondente prática social atenderem ao desafio de forças novas.
O sistema econômico e social
É preferível evitar termos abstratos na descrição dos métodos de produção faraônicos, já que o nosso conhecimento a respeito é bastante vago devido à insuficiência de fontes 9.
Os documentos disponíveis permitem distinguir alguns dados gerais. O comércio exterior, a exploração de minas e de pedreiras eram atividades estatais. A maior parte das transações comerciais conhecidas pelos textos envolve pequenas quantidades de mercadorias e é constituída por contratos privados entre particulares; a intervenção de intermediários profissionais - em geral agentes comerciais do rei ou de um templo - é rara. Não há razão para se acreditar na existência de uma "burguesia" de empreendedores e comerciantes privados, e embora a expressão "socialismo de Estado", por vezes utilizada, seja ambígua e anacrônica, tudo indica que, de modo geral, a produção e a distribuição estavam nas mãos do Estado.
De fato, uma investigação do material disponível dá a impressão de que tudo dependia do rei. É verdade que em princípio todos os poderes de decisão e todos os recursos materiais pertenciam a ele. O rei tinha o dever religioso de assegurar a ordem cósmica, a segurança do Egito e a felicidade de seu povo neste mundo e no mundo pós-morte, não apenas exercendo sua autoridade como rei, mas mantendo o culto aos deuses, o que o levava a partilhar seus privilégios econômicos com os templos. Por outro lado, tanto para celebrar o culto nos templos quanto para administrar os negócios da nação, o faraó, teoricamente o único sacerdote, guerreiro, juiz e produtor, delegava seu poder a toda uma hierarquia de indivíduos; um meio de pagar esses funcionários era ceder-lhes terras, cujas rendas passavam a Lhes pertencer. Na verdade, em todos os períodos o monopólio real dos meios de produção era mais teórico do que prático.
Com certeza, as expedições para Punt, Biblos, Núbia e para o deserto a procura de mercadorias exóticas e pedras eram, em geral, enviadas pelo rei e conduzidas por funcionários governamentais. A construção dos templos também era função do governo. Na época imperial, o reino de Kush, anexado, e os protetorados palestino e sírio, por exemplo, eram explorados diretamente pela coroa. Já o aproveitamento da terra egípcia não dependia exclusivamente do faraó. Ao lado dos domínios reais havia as terras dos deuses; estes possuíam campos, rebanhos, oficinas, etc. (no apogeu do culto Amon, o próprio deus podia possuir minas), dispondo de uma hierarquia burocrática própria. O fato de que os deuses, por vezes ficassem isentos, por privilégio real, de certos impostos e taxas significa, em última instância, que os templos eram os "proprietários" de suas terras, do pessoal empregado e dos instrumentos de produção. Além disso, ao menos a partir da XVIII dinastia, os guerreiros: recebiam o direito hereditário à posse da terra. Os altos funcionários beneficiavam-se de dotações fundiárias que eles mesmos dirigiam. As cenas da vida doméstica esculpidas nas mastabas do Antigo Império mostram que esses funcionários tinham seus próprios rebanhos e artesãos, bem como uma pequena frota de barcos. Não sabemos co1no se constituíam as fortunas privadas e transmissíveis, mas é patente que tenham existido e que, além dos cargos oficiais - cuja transmissão aos descendentes não dependia exclusivamente de seu detentor -, havia os "bens domésticos", que podiam ser legados livremente. Contudo, praticamente em todas as épocas, o direito à posse da terra se aplicava a áreas limitadas e esparsas, de modo que as grandes fortunas não tomaram a forma - temida pelas autoridades - de latifúndios. Sabe-se que existiram pequenas propriedades, principalmente durante o Novo Império, período em que o termo "campos de homens pobres" de fato designava as terras de pequenos agricultores independentes, bem diferenciados dos arrendatários que trabalhavam os campos do rei ou dos deuses. Em número relativamente pequeno, os estrangeiros deportados para o Egito ao tempo das grandes r conquistas eram trabalhadores especializados (viticultores palestinos, tropeiros líbios) ou colonos militares. De modo geral, os escravos adquiridos por particulares eram apenas serviçais domésticos e, embora haja provas de sua existência, acredita-se que a mão-de-obra escrava (por vezes penal) forneceu uma força de trabalho apenas limitada para a agricultura (ainda que, posteriormente, associação dos "respondentes" mágicos - colocados à disposição dos defuntos a um grupo de escravos comprados 10 fizesse crer que o escravismo tomou possível, sob os Raméssidas, a realização dos principais trabalhos de irrigação e beneficiamento das terras). Verdade é que a massa da I população trabalhadora parece ter-se ligado de fato à terra, que só poderia abandonar em caso de impossibilidade de pagamento dos impostos.
Podemos supor que nas aldeias predominava uma economia doméstica e que a parte principal do trabalho no campo era feita pelos homens. Nas cidades-mercado, nos domínios reais e templos, a especialização profissional era bem desenvolvida. As corporações - às vezes bastante hierarquizadas de padeiros, ceramistas, arranjadores de flores, fundidores, escultores, desenhistas, ferreiros, aguadeiros, guardas de todos os tipos, guardadores de cães, pastores de ovelhas, de cabras e de gansos, etc. trabalhavam para o rei ou para os templos, e o ofício se transmitia de pai para filho. Sabemos com certa segurança como vivia a comunidade de trabalhadores que, instalados num povoado vizinho ao Vale dos Reis (atual sítio de Deir el-Medina), escavavam e decoravam os túmulos dos faraós e das rainhas. Os artistas e escavadores eram funcionários públicos dirigidos por um escriba real e dois chefes de equipe nomeados pelo soberano 11. Eram pagos regularmente com cereais, algumas vezes coletados diretamente das rendas de um templo, e rações de peixe, verduras, legumes ou outros alimentos. Trocavam pequenos serviços e bens entre si e administravam sua própria justiça (exceto quando consultavam o veredicto oracular de um deus local). Seu status era suficientemente elevado e sua posição moral sólida o bastante para que a comunidade pudesse recorrer à greve se houvesse atraso na distribuição de suas rações.
Os serviços administrativos
A organização e a distribuição da produção, o controle da ordem pública e a supervisão de toda e qualquer atividade eram responsabilidade de funcionários públicos sob a autoridade do príncipe - o faraó ou, em períodos de cisma, os chefes locais - ou dos templos. Esses funcionários eram recrutados entre os escribas, já que o conhecimento da escrita era a chave de toda erudição e permitia o acesso às técnicas superiores (os interessados compraziam-se em demonstrar esse conhecimento nas suas Sátiras das Profissões e ensaios epistolares), constituindo, assim, uma fonte usurpada de poder e de bem-estar. Esses escribas, depositários da cultura religiosa e leiga, dominavam todas as atividades profissionais (no Novo Império os altos oficiais do exército eram escribas). Podiam ser engenheiros, agrônomos, contadores ou ritualistas; muitos acumulavam vários cargos. Educados com bastante rigor, professavam um código moral geralmente elevado, carregado de intenções benevolentes, um certo desprezo pela plebe e respeito pela ordem social, considerada como a expressão perfeita da harmonia do universo. Mesmo que evitassem as prevaricações, conforme os princípios que regiam seus serviços, desfrutavam de gratificações proporcionais à sua posição na hierarquia (era ampla a variação dessas remunerações, pelo menos na XII dinastia) 12 doações de terras, salários em mantimentos, benefícios sacerdotais deduzidos dos rendimentos regulares dos templos e das oferendas reais, donativos honoríficos ou presentes funerários recebidos diretamente do soberano. Os mais graduados viviam em grande estilo neste mundo e no outro, e sua riqueza, sem falar de sua influência, dava-lhes poderes de patronagem.
As listas de títulos e as genealogias mostram claramente que não havia uma casta de escribas distinta da casta dos guerreiros ou dos sacerdotes. A classe dirigente era única e se confundia com os quadros administrativos. Em geral, todo bom estudante podia ocupar um cargo e ascender na carreira se sua competência e dedicação o distinguissem perante o rei, teoricamente o único árbitro em matéria de promoção social. Contudo era normal transmitir-se aos filhos pelo menos parte das funções, e não devemos dar muito crédito a uma retórica que se apressa em representar todo funcionário como alguém que o rei tirou do nada. Conhecemos as dinastias dos altos funcionários e, na Tebas do 1o milênio, observamos que várias famílias partilhavam os postos e as funções sacerdotais da "Casa de Amon" numa época, deve-se dizer, em que o direito de hereditariedade assumia uma importância considerável.
A história faraônica parece ter-se desenrolado ao ritmo da luta entre o alto funcionalismo, que tendia a se constituir num poder hereditário e autônomo, e a monarquia, apegada ao direito de controlar as nomeações. Desse modo, o Antigo Império desapareceu quando, nas províncias do sul, fortaleceram as dinastias dos "grandes chefes" ou prefeitos hereditários. No Segundo Período Intermediário, as altas funções tornam-se propriedade pessoal suscetível de ser comprada e vendida. O Novo Império chega ao fim quando o pontificado tebano e o comando militar do sul reunidos tornam-se o apanágio de uma dinastia de sumos sacerdotes de Amon; no período líbio repetir-se-á, no Delta, o processo de desmembramento já vivido pelo Alto Egito durante o Primeiro Período Intermediário. As implicações econômicas e as causas e conseqüências dessas mudanças não podem ser identificadas com segurança, mas pode-se dizer que, em cada período de enfraquecimento do poder central e de fragmentação territorial do sistema administrativo, as lutas internas per- turbavam a paz nos campos, e a influência externa e a segurança das fronteiras ficavam comprometidas. As construções religiosas tornavam-se mais raras e modestas, e a qualidade dos trabalhos artísticos declinava.
A organização política
O ideal confesso da sociedade egípcia, portanto, era uma monarquia forte, considerada como o único meio de dar ao país o impulso necessário ao seu bem-estar. O soberano era a personificação do serviço público: o termo "faraó" vem da expressão per-ao, que designava no Antigo Império a "Grande Casa" do príncipe, incluindo sua residência e seus ministérios, e que no Novo Império passou a designar a pessoa do rei: Este possuía uma natureza diferente do resto da' humanidade: as lendas sobre sua predestinação, os quatro nomes canônicos e os epítetos que acrescentava a seu nome, o protocolo que o cercava, as cerimônias que acompanhavam suas aparições e decisões, a multiplicação infinita de suas imagens, cartuchos e títulos nos edifícios sagrados, suas celebrações jubilares, o estilo de sua sepultura (pirâmides menfitas, tumbas talhadas tebanas) - tudo isso acentuava a diferença. Uma das demonstrações mais evidentes do desgaste periódico da autoridade faraônica e de certas pressões sociais é a adoção, por parte de um número cada vez maior de indivíduos, de estilos de tumbas 13, temas iconográficos e textos funerários antes reservados apenas ao rei. Além disso, embora a monogamia pareça ter predominado entre os mortais, em geral o rei-deus desposava várias mulheres, por vezes sua irmã ou mesmo suas filhas.
A sucessão real cerca-se de algum mistério. Com certeza, era costume que o filho sucedesse ao pai no trono, conforme o modelo mítico de Osíris e Hórus, o protótipo do filho que sepulta o pai e vinga sua morte. Algumas vezes, como na XII dinastia, o princípio da hereditariedade tem como conseqüência a coroação prematura do sucessor. Mas não se deve pensar que o direito de realeza fundamentava-se apenas na transmissão hereditária masculina por primogenitura. Os poucos soberanos que nos falam de seus antepassados enfatizam que foram escolhidos livremente pelos pais como lugar-tenentes e seus herdeiros prováveis (Séti I, Ramsés II, Ramsés III, Ramsés IV). Contudo, as palavras das fórmulas pelas quais se reafirmava a "legitimidade" do rei são idênticas, quer em se tratando do filho mais velho do predecessor, quer de um adventício. Cada soberano herdava a "realeza de Rá, a função de Shu, o trono de Geb", sendo assim o sucessor direto dos deuses que criaram e ordenaram o mundo; cada um era "escolhido" pelo deus de sua cidade de origem. O rei, predestinado à sua posição, era gerado pelas próprias obras do deus-Sol (mito figurativo da teogamia) 14, e, no Novo Império, a designação ou reconhecimento do novo rei pelo oráculo de Âmon era a garantia da legitimidade do novo monarca. Desse modo, um "direito divino" direto superava a legitimidade dinástica. Na realidade, cada reinado era um reinício. Era o ritual que fazia e mantinha o soberano, e cada vez que ele agia como sacerdote ou legislador, as mesmas purificações, as mesmas unções e os mesmos ornamentos renovavam sua "aparição como rei". Comparado a um deus, algumas vezes adorado durante sua existência como um verdadeiro deus - Amenófis III ou Ramsés II, por exemplo, através de seus prodigiosos colos- sos -, o faraó assumia um papel sobrenatural sem, contudo, pretender seria- mente a posse de dons sobrenaturais; pelo contrário, era acima de tudo o homem exemplar, que dependia dos deuses e que devia servi-Ios 15.
Quatro mulheres tornaram-se faraós: curiosamente, as duas primeiras (Nitócris e Sebeknefru) assinalam o fim de uma dinastia, e as outras duas (Hatshepsut e Tauosré) passaram à posteridade como usurpadoras. Eram pródigas as honras demonstradas à mãe, esposas e filhas do rei. Algumas princesas do Médio Império e principalmente, em tempos posteriores, Teye, primeira esposa de Amenófis III, e Nefertári, primeira esposa de Ramsés II, receberam honras excepcionais. Ahhotep, durante o governo de Amásis e Ahmés-Nefertári, durante o governo de Amenófis I, parecem ter exercido uma influência determinante em questões políticas ou religiosas. A atribuição da função ritual de "divina esposa de Amon" a princesas ou rainhas mostra o papel indispensável da feminidade e da mulher no culto do deus cósmico. Contudo não existe prova positiva de um regime matriarcal no conceito egípcio de realeza 16 e, em particular, não está absolutamente demonstrada a teoria de que na época amósida o direito dinástico era normalmente transmitido através da mulher.
Um estudo das listas de títulos dos funcionários superiores e inferiores e dos poucos textos legislativos e administrativos que chegaram até nós dá uma noção razoavelmente precisa da organização governamental: governo dos nomos, hierarquia do clero e distribuição das obrigações religiosas dos sacerdotes, administração real ou sacerdotal das terras aráveis, dos rebanhos, das minas, dos silos, dos tesouros, do transporte fluvial, da justiça, etc. Organogramas engenhosos, se não rigorosos - que evidentemente variavam de acordo com o período - comprovam a existência de práticas sofisticadas de gerência e de técnicas de secretariado e contabilidade bastante avançadas (cabeçalhos, classificação, tabelas com estorno, etc.). Esse trabalho de escrituração era, não obstante, eficaz. Provavelmente o poder do Egito no exterior dependia mais de sua organização avançada do que de sua agressividade, e os monumentos, que resistiram ao tempo, seguramente devem sua existência à perícia dos escribas na manipulação em grande escala do trabalho humano e dos materiais pesados.
No ápice do sistema situ'dva-se o tjaty ou "vizir", para usar uma designação tradicional da egiptologia. Esse primeiro-ministro, responsável pela ordem pública, era comparado ao deus Tot, "coração e língua do Sol Rá"; era, antes de tudo, a suprema autoridade legal na Terra, depois do faraó e do ministro da justiça. Alguns vizires que serviram durante vários reinados consecutivos devem ter dominado a vida política do país. Contudo o tjaty (ou os dois tjaty durante o Novo Império) não era o único conselheiro do rei, nem necessariamente o principal. Muitos dignitários vangloriavam-se de terem sido consultados por seus soberanos a portas fechadas ou de terem sido escolhidos para missões especiais. Na época imperial, o governador da Núbia, um "filho real" honorário, quase soberano em seu próprio território, obedecia diretamente ao faraó. Em realidade, o poder político dos ministros ao que parece não se refletia exatamente na hierarquia administrativa. Algumas personalidades, como o. escriba de recrutamentos Amenófis, filho de Hápu, um arquiteto que paulatinamente foi levado ao nível dos deuses por sua sabedoria, ou Khamois, o sumo sacerdote de Ptah e um dos numerosos filhos de Ramsés II 17, com certeza foram tão influentes quanto os vizires de seu tempo. O despotismo radical da monarquia faraônica entregava à Residência a resolução dos principais conflitos polítIcos. A proscrição da memória de diversos altos funcionários - não apenas Senmut e outros íntimos de Hatshepsut, mas também servidores de soberanos menos contestados (dois príncipes reais e Usersatet, vice-rei da Nubla durante o governo de Amenófis II) - é o testemunho mudo das crises governamentais.
A organização militar
O rei era responsável pela segurança do País. Em tese todo o mérito pelas vitórias e conquistas era seu. Ramses II multo explorou em Palavras e imagens, a título de propaganda, o fato de ter permanecido sozinho com sua guarda em Kadesh, reafirmando a primazia do rei único salvador por graça divina de um exercito que, na realidade, era responsável pela fundação de sua dinastia. É claro que, desde os tempos das pirâmides, o país dispunha de um alto comando especializado, a um só tempo militar e naval, que dirigia forças já acostumadas a fazer manobras e desfilar em alas disciplinadas. Contudo, no III milênio os povos dos países vizinhos não representavam grande ameaça. As razias haviam facilmente dizimado a população da Núbia, em benefício do Egito; as campanhas triunfais, em função das quais se recrutava em massa a população rural, eram suficientes para intimidar e espoliar as populações sedentárias dos confins da Líbia e da Asia; por sua vez, os "caçadores do deserto" controlavam os movimentos dos beduínos famintos.
Sabe-se que os militares menfitas participaram em atividades de interesse econômico e nos grandes trabalhos de construção. As "equipes de jovens recrutas de elite", que compunham a guarda real, inspecionavam o transporte de pedras destinadas às pirâmides, bem como algumas expedições importantes para as minas do Sinai ou para as pedreiras orientais. Um corpo paramilitar especializado, os sementi 18, investigava e explorava as minas de ouro da Núbia e do deserto, enquanto que os "intérpretes" viajavam para muito longe a fim de negociar ou se apoderar de produtos asiáticos ou africanos. Com o Primeiro Período Intermediário, a divisão do reino em principados rivais modificou a organização militar: ao séquito pessoal do príncipe e aos contingentes dos nomos uniram-se as tropas de choque auxiliares recrutadas entre os núbios ou os Amu asiáticos. Dois aspectos, já manifestados no III milênio, serão característica constante dos exércitos faraônicos: a participação dos militares nos principais empreendimentos econômicos ou de construção - como supervisores ou mão-de-obra - e a utilização de tropas violentas recrutadas no exterior. Embora com fortes tendências militares devidas ao senso de ordem e gosto pelo prestígio, os egípcios não possuíam temperamento guerreiro.
Durante o Novo Império, época de importantes conflitos internacionais, houve, naturalmente, uma expansão inédita do exército profissional. Dividia-se ele em duas armas de serviço, carros de batalha e infantaria, subdivididas em grandes corpos comandados por uma hierarquia complexa e servidas por uma grande burocracia. Essa ampla estrutura resistiu aos impérios e aos principados da Ásia e parece ter resolvido com sucesso a crise gerada pela heresia atonista. Os soldados recebiam pequenas doações de terra; sob os Raméssidas, numerosos cativos - núbios, sírios, líbios, Povos piratas do Mar - incorporados ao exército gozavam, também, de tais concessões. Apesar de sua aculturação relativamente rápida, os líbios (contingente talvez reforçado pelos invasores da mesma origem) constituíram-se numa força autônoma e acabaram por fazer de seu chefe um Faraó. Contudo esse Egito de guerreiros líbios meshwesh não conseguiu adaptar-se às novas técnicas militares, enquanto a Assíria se organizava numa formidável máquina de combate. No novo choque de impérios, os reis saítas, ao invés de mobilizar esses guerreiros apoiaram-se em novos colonos militares recrutados entre jônios, carianos, fenícios e judeus. E nas guerras finais contra o Império Persa, os últimos faraós nativos, como seus adversários, contrataram mercenários gregos recrutados por aventureiros cosmopolitas. O colapso do aparato defensivo da nação, que não conseguiu dissipar nem o antigo mito do faraó como único vencedor, nem a nostalgia das conquistas passadas (epopéia de Sesóstris) nem tampouco as recordações lisonjeiras das guerras civis (ciclo de Petubástis), foi o ponto fraco de um Egito que renascia e cuja economia e cultura ainda se mantinham.
Concepções Religiosas e Morais
Os mitos
Com certeza uma das maiores realizações da civilização faraônica, e talvez, uma de suas fraquezas, foi a imagem esplêndida que fez do mundo e das forças que o regem, uma imagem coerente que se manifesta nos mitos, nos rituais, na arte, na língua e em suas obras de conhecimento. Um aspecto dessa mentalidade deve ser lembrada para explicar por que a exposição sucinta e incompleta da mitologia faraônica feita a seguir não fornecerá nem uma hierarquia ou genealogia clara do panteão, nem uma cosmogonia e cosmografia sistemáticas. Para entender as forças da natureza e os fenômenos naturais, a mitologia aceita todas as imagens e lendas legadas pela tradição. Podem-se ter várias divindades "únicas": o céu é um teto líquido, o ventre de uma vaca, o corpo de uma mulher, uma porca, etc. Assim, havia várias concepções da origem do universo, que se combinavam de diversas maneiras nas grandes sínteses elaboradas localmente no decorrer dos séculos, cada uma das quais podendo ser restabelecida em toda a sua pureza pela realização de um determinado ato ritual, a que conferia uma dimensão cósmica. Os traços principais eram comuns a todos os sistemas. O mundo atual é organizado e mantido pelo Sol, depois que a deusa (Methyer, Neith) que nadava no Nun, as águas primevas - ou ainda um grupo de deuses mais -primitivos (o Ogdoad ou os " "deuses mortos" em Edfu e Isna), ou ainda a primeira terra seca (Ptah- Tenen) -, preparou a manifestação desse demiurgo, que existia como potencialidade "inerte" no seio do caos. Este desencadeou o processo gerador com a, ajuda de Sua Mão, a primeira deusa, e se reproduziu em pares sucessivos: Shu (o ar) e Tefnut (a força do fogo), ambos seres leoninos, Geb (a terra) e Nut (o céu); assim, pouco a pouco, todos os membros das enéades - as várias manifestações do divino - dele procederam. A estrutura atual do cosmos, determinada pelo demiurgo, foi estabelecida e completada por sua palavra divina, que deu forma aos sons. Foi assim, por exemplo, que o homem (rome) originou-se de suas lágrimas (rame), assim como os peixes (remu).
O poder da divindade solar, uma radiação vital que também pode ser destrutiva, é o "Olho de Rá", entidade feminina que ocasionalmente se confunde com a deusa através da qual se gerou o mundo animal quando o deus se dividiu em dois. Esta, simultaneamente esposa e filha, manifesta-se nos penteados e nas coroas reais sob o aspecto de uma naja, de um leão, de uma tocha ou do incenso consumido pelo fogo. A gênese, que apenas expulsou as primeiras trevas, repete-se praticamente todo dia ao nascer do sol. Cada dia como no início, o criador deve enfrentar as forças hostis: o dragão Apópis, que ameaça secar o rio celeste ou bloquear o Sol com seu olhar maligno 19; a misteriosa tartaruga e os "inimigos" inomináveis que se enfurecem no oriente. Antes de cada aparição matinal, o Sol deve também se lavar nos reservatórios das margens do mundo e se purificar da noite e da morte. O astro envelhece no curso de sua viagem diária e se regenera misteriosamente durante a noite, enquanto atravessa outro mundo por outro rio. No Novo Império, composições fantásticas, como o Livro de Am Duat ou o Livro dos Pórticos, simbolizam as fases desse rejuvenescimento físico da "carne" de Rá, descrevendo as praias freqüentadas por divindades auxiliares, formas e forças enigmáticas, bem-aventurados e malditos.
Nosso mundo é muito precário. Durante a noite a Lua, um segundo . Olho divino, substitui o outro, mas não pára de definhar, atacada pela faca de um deus terrível, Tot ou Khons, que mais tarde se procurou identificar com o próprio Sol 20 ou com Set, um porco, um órix... Várias outras lendas contam que o Olho Direito, a deusa incandescente, voa para longe do Sol e deve ser trazida de volta. Uma delas liga explicitamente essa fuga a uma tentativa de destruir a humanidade, que conspirava contra o Rá envelhecido. A revolta nasce entre os homens, e estes acabam por perder sua igualdade original 21. Periodicamente também, a ira do Olho de Rá desperta, a poderosa Sekhmet aflige os homens com doenças, e a cheia do Nilo faz-se baixa, aumentando as "calamidades do ano".
Rá perdoou aos homens sua revolta e deu-lhes a magia como meio de assegurarem a sobrevivência, mas se distanciou deles. Uma dinastia divina passou a governar este mundo. Nesses tempos, Set matou Osíris, que, ressuscitado pelos cuidados de Isis e Anúbis, o embalsamador, tornou-se o modelo de todos os reis mortos e, por extensão, de todo defunto. Ele é também a imagem do Sol que morre toda tarde, e a linfa que flui de seu corpo é a água que nasce a cada ano (uma imagem, dentre muitas, das cheias do Nilo). Seker-Osíris é também a semente que se enterra e que germina. Banido dos túmulos e dos santuários de Osíris, Set foi durante muito tempo adorado como um deus - vitalidade brutal, entidade turbulenta, auxiliar de Rá contra Apópis, a desordem necessária à ordem 22. Foi apenas por volta do século VIII antes da era cristã que um novo fervor expulsou Osíris e lsis do culto funerário, no qual seu mito formava a base da idéia de uma vida pós-morte, rebaixando Set ao nível de Apópis e tratando-o como a personificação do mal e como patrono dos invasores.
Harmonia pressupõe unidade, e esta, sempre precária, exige a reunificação. Set, rival de Hórus, filho de Osíris, é a sua contrapartida indispensável. Segundo a tradição original, cada rei agrega em sua própria pessoa a reconciliação de Hórus e Set, assim como devem reunir-se as duas planícies do norte e do sul, ou ainda a terra negra do vale e a terra vermelha do deserto. O mito segundo o qual o Olho de Hórus fora dilacerado por Set e tratado por Tot se tornaria o objeto de várias glosas rituais que assimilam à recuperação do olho curado (oudjat) toda a oferenda, todo acréscimo de grãos nutritivos e a própria e a própria Lua, símbolo de tudo que deve estar completo para assegurar a fertilidade e a plenitude.
À ordem divina corresponde não apenas a estrutura e os ritmos do mundo físico, mas uma ordem moral - Maât -, a norma da verdade e da justiça que se afirma quando Rá triunfa sobre seu inimigo e que, para a felicidade do gênero humano, deve prevalecer no funcionamento das instituições e no comportamento individual. "Rá vive por Maât". Tot, o deus dos sábios, contador de Rá, juiz dos deuses, é "feliz por Maât" 23.
Os deuses
Todas as doutrinas e imagens que acabamos de mencionar eram aceitas em todos os templos. Os hinos que louvam os atributos cósmicos e a maravilhosa providência do deus criador retomam os mesmos temas, quer se trate de uma deusa primordial como Neith, de um deus-terra como Ptah, ou mesmo de Âmon-Rá, Khnum-Rá, Sebek-Rá. Os grandes mitos - o Olho de Rá, o Olho de Hórus, a paixão de Osíris - bem como as práticas rituais básicas são comuns a todos os centros populacionais; contudo são deuses diferentes - cada qual com seu próprio nome, imagem tradicional, manifestações animais' e deuses associados - os "senhores" das várias cidades: Khnum em Elefantina, Isna e outras partes; Min em Coptos e Akhmin; Mont em Hermonthis; : Âmon em Tebas; Sebek em Sumenu, no Faium e outros lugares; Ptah-Seker ' em Mênfis; Ra-Harakhte-Atum em Heliópolis; Neith em Saís; Bastet em Bubástis; Uadjit em Buto; Nekhbet em el-Kab, etc., havendo ainda numerosos deuses locais chamados pelo nome de Hórus, assim como inúmeras deusas - as temíveis Sekhmet ou as amáveis Hátor. Teriam anteriormente existido, espalhadas pelo país, figuras associadas a mitos mais ou menos esquecidos? É possível; em todo caso, a presença de diferentes religiões locais em épocas pré-históricas poderia explicar muito do politeísmo que prolifera numa religião cuja unidade é manifesta. Parece que esta tendia, através da identificação de certos deuses a outros, a reduzir essa pluralidade a poucos tipos: uma divindade suprema, geralmente um deus solar e muitas vezes explicitamente identificado a Rá (Âmon-Rá, Mont-Rá; Haroeris-Rá, etc.); uma deusa-consorte, que é o Olho de Rá (Mut = Bastet = Sekhmet = Hátor, etc.); o deus-filho guerreiro, como Hórus-Anhur; um deus morto, como Osíris (Seker, Seph, etc.). Os teólogos do Novo Império representavam cada cidade "inicial" como um ponto de parada do demiurgo no curso de sua gênese itinerante e consideravam os três principais deuses do Estado - Âmon, do ar, Rá, do Sol, e Ptah, do mundo dos mortos - três manifestações cosmográficas e políticas de uma mesma - e única - divindade. O labirinto de problemas teóricos apresentados por um panteão multiforme deu origem a muitas especulações teológicas e mesmo filosóficas: Ptah concebia em "seu coração, que é Hórus", e criava por "sua língua, que é Tot"; Sia, "o conhecimento" e Hu, "a ordem", principais atributos do Sol; as quatro Almas, que são Rá (fogo), Shu (ar), Geb (terra) e Osíris (água); o incognoscível e infinito Deus, que é "o céu, a Terra, o Nun, e tudo o que se encontra entre eles", etc. Entre os letrados, pelo menos a partir do Novo Império, predominava um sentimento de unidade divina aliado a uma fé que venerava - assim como tantas outras abordagens do inefável - os mitos, os nomes e os ídolos de todos os deuses do país. A conduta do famoso Akhenaton, que pretendeu reconhecer o disco visível do Sol como único deus verdadeiro, ainda permanece na principal corrente do pensamento egípcio, mas era herética na medida em que subvertia uma tradição que, permitindo o mistério, aceitava e reconciliava todas as formas de piedade e de pensamento.
O templo
Cada deus criou sua cidade; zela não só por seu domínio mas também por todo o Egito. O rei ocupava-se simultaneamente de todos os deuses. Herdeiro do Sol e sucessor de Hórus, era incumbido de manter a ordem criada pela providência divina, devendo, para tanto, sustentar os seres divinos - ameaçados, eles próprios, por um possível retorno ao caos -, desviar a ira da deusa, valer-se da perpétua colaboração com o divino para garantir o ciclo anual, a subida das águas do Nilo, o crescimento normal da vegetação, o aumento do rebanho, o malogro das rebeliões, a segurança das fronteiras, a felicidade e o governo de Maât entre seus súditos. Para conseguir tudo isso, a ciência sagrada empregava a magia da palavra e do gesto, da escrita, das imagens e das formas arquitetônicas; enfim, todos os processos também usados para assegurar a vida pós-morte.
Nas cerimônias conduzidas pelos sacerdotes iniciados os atos rituais eram acompanhados de fórmulas verbais que reforçavam seu poder de coação através de palavras mágicas evocativas de precedentes míticos. A representação desses ritos e a escrita desses textos nas paredes dos templos perpetuavam sua ação. Do mesmo modo, as numerosas estátuas do rei e as imagens das pessoas comuns nos recintos sagrados permitiam-lhes servir eternamente ao deus, habitar com ele e receber uma força vital adicional. O arquiteto fez do templo um modelo reduzido do universo, dando-lhe, desse modo, perpetuidade: o pilar é a montanha do Sol nascente, o santuário escuro é o lugar onde o Sol se põe, as colunas representam o pântano original de onde emergiu a criação, e a base de seus muros é o solo do Egito. Com seus jardins e áreas de serviço, o templo é isolado das impurezas que poderiam poluir o divino por um alto muro de tijolos; os sacerdotes oficiantes e as pessoas privilegiadas admitidas no têmeno são obrigados a submeter-se às purificações rituais e a observar as proibições alimentares, de vestuário e de atividade sexual. Para mostrar que o culto é efetivamente celebrado pelo faraó, as cenas gravadas nas paredes representam-no oficiando os vários ritos e apresentando, em longas procissões, os nomos do Egito, as fases das cheias e as divindades menores que presidem às diferentes atividades econômicas. Durante o dia, o ídolo - ou seja, a forma pela qual se entra em contato com o deus - é purificado, incensado, vestido, alImentado e longamente invocado em hinos que exortam o deus a despertar, reafirmam seu poder divino e solicitam sua ação benevolente. Nas grandes festividades o deus sai em procissão para se realimentar de energia divina em contato com os raios solares, visitar os túmulos dos reis mortos e dos deuses obsoletos, e restabelecer os eventos míticos através dos quais o mundo se formou 24.
Acima de tudo, o templo é um lugar de trabalho onde o rei, auxiliado pelos sacerdotes iniciados, pratica uma alta magia de Estado para assegurar a boa marcha dos acontecimentos (fundamentalmente para assegurar a alimentação de seu povo). Por mais distantes que fossem, os deuses, motores do mundo, eram sentidos como seres pessoais, próximos de cada mortal. No Novo Império, o povo rezava para eles diante dos portões laterais dos templos, nas capelas da aldeia ou nas ruínas de monumentos antigos, onde se pode sentir sua presença (a Grande Esfinge de Gizé, principalmente, era considerada como um ídolo tanto do Sol como de Hurun, o deus curandeiro tomado de empréstimo aos cananeus). Os hinos estão gravados em pequenas estelas, testemunhando a fé dos mortais no deus de suas cidades; imploram-se também as graças do grande Amon - "juiz imparcial, que atende aquele que o chama, que ouve suas súplicas" - para a saúde ou para os negócios. Em toda a história do antigo Egito, os nomes próprios mostram-nos que todas as camadas da população reivindicavam a proteção direta das grandes divindades. Além disso, apesar de sua forte especificidade e de um clero que guardava ciosamente os segredos que regiam a vida da nação, a religião egípcia mostrou-se especialmente acolhedora. No Novo Império, anexou as divindades sírio-palestinas, fez de Bés, gênio protetor das mulheres e dos bebês, um habitante do Sudão oriental, aceitou e egipcianizou Dedun, senhor da Núbia, reconheceu Amon no deus-carneiro dos núbios e implantou solidamente o culto do deus tebano em Kush; posteriormente, identificou seus deuses com o panteão grego e, nas zonas rurais, conquistou a fé dos colonos gregos na época ptolomaica.
Todavia, a identificação da terra egípcia com o mundo organizado é indicador, em particular, da visão que tinham os súditos do faraó do mundo exterior. Os povos africanos e semitas e as cidades e monarquias estrangeiras eram comparados às forças do caos, sempre prontas a subverter a criação (a escrita hieroglífica caracteriza todo país estrangeiro como um deserto montanhoso!). Em ambos os lados das portas dos templos existem placas opostas mostrando, ao sul, o rei vencendo os núbios e, ao norte, o rei subjugando os asiáticos 25. Essas imagens nas entradas do microcosmo aniquilam através do poder da mágica os "rebeldes" que ameaçam a ordem; no Novo Império, as extensas séries de representações esculpidas nas paredes externas, mostrando as campanhas vitoriosas e os saques levados ao deus, apenas ilustram com particularidades históricas a cooperação constante entre o soberano e a divindade na manutenção do equilíbrio do universo. Uma manifestação interessante dessa mentalidade - que até certo ponto qualificava o "chauvinismo" do dogma - é o fato de os ritos mágicos dirigidos contra os príncipes e os povos da Ásia, da Núbia e da Líbia visarem antes livrá-los de intenções hostis que destruí-los.
A ética
O rei existe para manter a harmonia perfeita da criação. Nesse sentido, a época ideal foi "O tempo de Rá"; os sacerdotes do Período Final chegaram a imaginar uma idade de ouro perdida, em que as serpentes não mordiam, os espinhos não picavam, os muros não desmoronavam e Maât reinava sobre a Terra 26. O sistema perfeito não é uma utopia que se procura alcançar com a invenção de novas regras - ele existiu no princípio e torna-se novamente real a partir do momento em que a pessoa se conforma a Maât. Isso significa que a moral professada nos Ensinamentos redigidos pelos altos funcionários de Mênfis (Djedefhor, Ptahhotep) e por vários escribas de períodos posteriores (Ani, Amenemope), bem como as instruções para os sacerdotes gravadas nos templos de épocas mais recuadas são fundamentalmente conformistas, e que o ensino era bem pouco propício ao florescimento da originalidade. Os textos em que se descrevem descobertas pessoais são raros em comparação com as autobiografias convencionais e as fórmulas padronizadas. É, portanto, notável que muitos escultores tenham conseguido imprimir uma marca pessoal em seus trabalhos, embora aceitando sem objeção os cânones tradicionais.
A ética corrente colocava no mesmo plano as virtudes propriamente ditas e as qualidades intelectuais, a retidão e o decoro, a impureza física e a baixeza de caráter. Baseada numa psicologia sem ilusões, exaltava a submissão aos superiores e a benevolência com os inferiores. Admitia-se que o sucesso mundano é conseqüência natural da virtude, e, embora se desenvolvesse muito cedo a idéia da retribuição póstuma das ações de uma pessoa, os expedientes mágicos ofereciam fórmulas funerárias a fim de evitar que o julgamento divino criasse obstáculos a isso. Dava-se muita atenção ao ensino do bom comportamento: não falar muito, ter gestos comedidos e reações moderadas, ideal que a estatuária egípcia expressa com perfeição. Todo excesso é prejudicial: aquele que se deixa levar pela emoção perturba os outros e provoca sua própria perdição. Contudo alguns sábios introduzem em suas reflexões uma forte religiosidade pessoal e expressam uma aspiração à superioridade individual: um coração honesto é preferível à submissão formal aos rituais. e. em Deus que se encontra o "caminho da vida". Não se deve subestimar a dívida da sabedoria bíblica à cultura egípcia. A preocupação pelo próximo.é grande, mesmo se relacionada com maior freqüência a necessidades sociais do que à compreensão caridosa. Os reis e os escribas deixaram boas lições de ética social: concentrar esforços para atender aos interesses do rei e de seu povo, não para beneficiar o forte em detrimento do fraco, não para se deixar corromper, não para trapacear no peso e na medida. O Egito também desenvolveu o conceito de dignidade humana: "não usar a violência contra os homens [...] eles nasceram dos olhos de Rá, são seus descendentes"; em uma das célebres narrativas do papiro Westcar, um mágico se recusa a executar uma experiência perigosa num prisioneiro, "pois é proibido agir assim com o rebanho de Deus".
O quadro que a ideologia oficial traçava da ordem ideal correspondia, sob todos os pontos de vista, ao que o país apresentava quando, com a reunificação das Duas Terras, uma monarquia sólida e uma administração conscienciosa asseguravam a prosperidade e a paz geral. Com o Primeiro Período Intermediário, as guerras civis, as infiltrações dos bárbaros e a alteração brusca da situação despertaram a ansiedade. "Mudanças estão em curso; as coisas não são mais como no ano passado." Era necessário encontrar "palavras novas", dizia o escritor Khakhêperre-sonb (chamado Ankhu) em seus Discursos, para apreender o inusitado dos acontecimentos. Desse modo, surgiu uma literatura pessimista, da qual se originam principalmente a Profecia de Neferti, -que evoca a crise que pôs fim à XI dinastia, e as Admoestações do mestre do coro lpu-Ur às vésperas da época dos hicsos 27. O Neferti e posteriormente o Oráculo do Oleiro, bem como os diversos contos relativos à expulsão dos Impuros estigmatizam a subversão de Maât com o único intuito de fazer sobres- sair a vitória final do rei-salvador e da ordem. Já o Diálogo do Homem Desesperado com Sua Alma põe em dúvida a utilidade dos ritos funerários, e os Cantos do Harpista são um convite ao carpe diem. Temas hedonistas insinuam-se, por vezes, em composições convencionais. Se a literatura profana tivesse sido melhor preservada, revelaria um universo mental mais diversificado do que o mostrado pelas inscrições rupestres reais e sacerdotais. Certos contos, as canções de amor, os detalhes cômicos que animam as cenas da vida doméstica nas capelas funerárias, e os alegres esboços desenhados em óstracos revelam, por trás do conformismo faraônico, um povo fundamentalmente feliz, habilidoso, bem-humorado e amigável, como hoje em dia.
O direito
Como vimos, a religião e a ética dão ênfase à manutenção de uma disciplina rigorosa, que beneficia toda a comunidade dos súditos, e à ação exclusiva da pessoa real na administração e nos ritos. A própria arte prefere o geral ao particular, o exemplo típico à espontaneidade individual. É, portanto, notável constatar que o direito faraônico permaneceu firmemente individualista. No tocante às decisões reais e aos procedimentos e penalidades legais, tudo indica que homens e mulheres de todas as classes eram considerados iguais perante a lei. A família restringia-se ao pai, à mãe e a seus filhos jovens; as mulheres desfrutavam dos mesmos direitos em matéria de propriedade e de assistência jurídica. No conjunto, a responsabilidade era estritamente pessoal. A família no sentido amplo não tinha consistência legal, e a posição de um homem não se definia em função de sua linhagem. No domínio da lei, o Egito faraônico diferencia-se claramente da África tradicional e curiosamente antecipa as sociedades modernas da Europa.
Crenças e práticas funerárias
O mesmo individualismo reinava nas crenças e nas práticas relativas à vida pós-morte. Cada um, de acordo com seus recursos, preparava sua outra vida, a de seu cônjuge e de seus filhos em caso de morte prematura. O filho deveria participar dos ritos funerários de seu pai e, se necessário, assegurar seu enterro. O ser humano (ou divino) reúne, além do corpo mortal, vários componentes - o Ka, o Ba e outras entidades menos conhecidas -, cuja natureza ainda é difícil definir e cujas inter-relações são obscuras. As práticas funerárias destinavam-se a garantir a sobrevivência dessas "almas"; no entanto, uma característica bem conhecida da religião egípcia é o fato de ter ligado essa sobrevivência à preservação do próprio corpo pela mumificação, e de ter assegurado, com arranjos elaborados, uma vida além-túmulo pelo menos tão intensa e feliz quanto a terrena. Um túmulo é composto de uma superestrutura aberta para os parentes vivos e de uma cripta onde repousa o defunto, acompanhado de objetos mágicos ou domésticos. As pessoas abastadas pagavam regularmente, sob contrato, um estipêndio a sacerdotes profissionais que, de pai para filho, se encarregavam de levar as oferendas de alimentos. E, como última precaução, empregava-se o poder compulsório da fala e da escrita e a magia das imagens esculpidas e pintadas. Na capela - mastaba ou hipogeu - eternizam-se os eficazes rituais do enterro e da oferenda; outras cenas reconstituem o trabalho e os prazeres de um mundo ideal; estátuas e estatuetas multiplicam os corpos substitutos. Nas tábuas do caixão, nas pedras da cripta, no "Livro dos Mortos" confiado à múmia, estão copiadas as fórmulas recitadas no momento do enterro e as palavras mágicas que possibilitam ao morto desfrutar de todas suas faculdades, escapar dos perigos do Outro Mundo e cumprir seu destino divino. Como na teologia, a crença egípcia relativa à vida pós-morte justapôs várias concepções: sobrevivência como companheiro do Sol, residência no túmulo com despertar diário ao nascer do Sol, manifestação do Ba ao ar livre e usufruto dos objetos familiares, vida num Elísio maravilhoso ao lado de Osíris. Qualquer que fosse o caso, aquele que tivesse um belo enterro mudaria de status: seria igual aos deuses, a Osíris e a todos os reis, cada um deles um Osíris.
Notas
1 Os textos relativos às técnicas de irrigação são muito raros. A mais antiga referência segura a irrigação por bacias (hod) encontra-se nos textos dos sarcófagos do Médio Império: BUCK, A. de. 1935-61. p. 138, b-c.
2 Ver a interpretação, engenhosa que HELCK, W. e OTTO, E. (1973) propuseram para os dados do "Papiro Wilbur".
3 "Papiro Zanzing", 3, 8-9; CAMINOS, R. A. 1954. p. 382. Sobre a Significação religiosa do órix, ver DERCHAIN, P. J. 1962.
4 A grauvaca (incorretamente chamada de xisto em muitos trabalhos) é uma "rocha quartzosa, de granulação fina, compacta, dura e cristalina, muito parecida com a ardósia, apresentando. em geral, várias tonalidades de cinza": LUCAS, A. 1962. pp. 419-200.
5 Sob a XIII dinastia, as pontas de flecha e os dardos de pedra eram calcados nos modelos de metal, mas sua produção obedecia a técnicas tradicionais arcaicas. como revelam as armas encontradas na fortaleza de Mirgissa: VILA, A. pp. 171-99.
6 Uma escada de assalto montada sobre rodas acha-se representada numa sepultura da VI dinastia: SMITH. W. S. 1949. p. 212. fig. 85.
7 GOYON. G. 1970. pp. 11-41.
8 Mais recentemente, CHEVRIER, H. 1964. pp. 11-17; 1970. pp. 15-39; 1971. pp. 67-111.
9 Notas críticas e bibliografia em JANSSEN, J. J. 1975. pp. 127-85.
10 CERNY, J. 1942. pp. 105-33
11 Apud VALBELLE, D. 1974.
12 Para um texto característico, ver GOYON. G. 1957.
13 o fenômeno de diferenciação do tratamento póstumo dos reis e, posteriormente, de usurpação progressiva dos privilégios funerários do soberano pelos indivíduos comuns ocorre com freqüência, O primeiro ciclo começou durante o Antigo Império e foI acelerado pelo enfraquecimento do poder real durante o Primeiro Período Intermediário; todavia, não se pode mais sustentar que naquela época tenha havido uma democratização repentina dos privilégios funerários.
14 BRUNNER, H. 1964.
15 POSENER, G. 1960.
16 Dados úteis em GROSS-MERTZ, B. 1952.
17 Sobre essa personagem, ver a tese recente de GOMAA, F. 1973.
18 Sobre o grupo pouco conhecido de garimpeiros, ver YOYOTTE, J. 1975. pp. 44-55.
19 Recentemente esse tema mitológico foi evidenciado por BORGHOUTS. J. F. 1973, 114-.50.
20 Seleção de textos m SAUNERON, S. & YOYOTTE, J. 1952. Sobre o aspecto arcaico dos deuses lunares, POSENER, G. 1960.
21 BUCK:, A. de. 1935-61. pp. 462-4.
22 VELDE, H. TE. 1967.
23 Os textos associam as desordens naturais às perturbações na ordem política e social. Contudo, Maât é um conceito moral e judiciário e, a despeito da teoria bastante difundida, não é evidente que inclua a ordem física do mundo.
24 Nosso conhecimento do simbolismo dos templos e de sua decoração, bem como dos rituais, tem por base os grandes monumentos construídos e decorados nas épocas grega e romana (Edfu, Ombo, Denderah, Filas, etc.). Para informações gerais, ver SAUNERON & STIERLIN, H. 1975.
25 DESROCHES-NOBLECOURT, C. & KUENTZ, C. 1968. pp. 49-57 e notas 178-9 (pp. 167-8).
26 OTTO, E. 1969. pp. 93-108.
27 Cf. SETERS. J. Van. 1964. pp. 13-23.