O Egito e suas Relações com o Mundo Africano

por Abd El Hamed Zayed e Jean Devisse.

Estudada singularmente com uma sociedade "oriental" pela academia européia, o Egito é antes de tudo uma civilização que estabeleceu diversas pontes entre o mundo mediterrâneo, mesopotâmico e africano. Neste texto, uma análise das relações que o Egito guardava com outras civilizações africanas e seu importante papel na história deste povo. in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 2




Admite-se atualmente que a arqueologia não revelou indícios decisivos de contatos entre o Egito e a África ao sul de Méroe. Isso, naturalmente, não impedia a presença de teorias baseadas em hipóteses. No entanto, estas deverão ser consideradas como tais até que as evidências arqueológicas venham conferir-lhes peso necessário.
Há poucos anos divulgou-se a descoberta de objetos egípcios em regiões longínquas no interior do continente. Uma estatueta de Osíris, datada do século VII antes da era cristã, foi encontrada no Zaire, às margens do rio Lualaba, próximo da confluência do Kalunegongo; ao sul do Zambeze, descobriu-se uma estátua gravada com o cartucho de Tutmés III (- 1490 a - 1468). No entanto, um estudo das circunstâncias em que esses objetos foram descobertos não nos permite concluir, no momento, serem eles testemunhos de relações entre o Egito e as regiões acima mencionadas, nos séculos VII ou V antes da era cristã 1. Valendo-se de indícios pouco convincentes, A. Arkell concluiu pela presença de contatos entre o Egito bizantino e Gana atual.
Entretanto, isso não significa que se deva inferir, com base num raciocínio a silentio, que na Antigüidade não houve vínculos de nenhuma espécie entre o Egito e o resto do continente africano. Como nesse campo as informações são escassas e as conclusões fundamentam-se, por vezes, em indícios insuficientes, deve-se proceder com um rigor científico maior do que o habitual, aceitando apenas os fatos cientificamente estabelecidos.
Por exemplo, alguns podem considerar confirmada a influência, em determinados aspectos, da civilização egípcia em outras civilizações africanas. Porém, ainda que viesse a ser comprovada, essa influência não constituiria uma prova de contatos antigos. Eva L. R. Meyerowitz admite como prova da influência egípcia o fato de os Akan terem adotado o abutre como símbolo da autocriação 2. Destaca também a semelhança entre o deus Ptah e Odo-mankoma, deus akan, ambos bissexuais, que, após criarem a si mesmos, criaram o mundo com suas próprias mãos. Embora esta seja uma associação interessante 3, não é indício concludente da existência de contatos entre o Egito antigo, de um lado, e o Akan antigo ou a região do golfo de Benin, de outro. Do mesmo modo, por muito tempo atribuiu-se uma provável origem egípcia ao culto da serpente, estudado em todas as civilizações africanas por vários especialistas notáveis. Tal hipótese, porém, não leva em conta o fato de as culturas antigas observarem seu meio ambiente com muita atenção, sendo perfeitamente capazes de criar seus cultos a partir da própria observação. Existem ainda outras interpretações. J. Leclant 4, por exemplo, refere-se à hipótese; algumas vezes sugerida de que o culto da serpente teria chegado a Méroe, e talvez a outras partes da África, vindo da Índia. Esses poucos exemplos bastam para ilustrar a importância de se adotar uma abordagem cautelosa. Antes de enfocar os vestígios - quer sejam seguros, hipotéticos ou improváveis - das relações do Egito com o restante do continente na Antigüidade, devemos observar que, seja qual for a tese finalmente adotada com respeito ao povoamento antigo do Egito 5, parece haver uma considerável discrepância cronológica e tecnológica entre este último e as civilizações periféricas 6. Embora do ponto de vista tecnológico fizesse parte da África, a cultura egípcia desligou-se do seu meio meridional e ocidental. Evidentemente o Egito passou a desconfiar ainda mais dos seus vizinhos do norte quando estes se tornaram uma ameaça. O Egito faraônico sentia-se culturalmente defasado em relação a seus vizinhos. E não há dúvidas de que os ultrapassou, embora as causas desse avanço sejam de difícil compreensão. A partir daí, ainda que permanecesse a solidariedade étnica, profundas diferenças quanto ao modo de vida acabaram por distanciar os egípcios dos povos vizinhos. É de fundamental importância perceber as razões desse processo - sobretudo se se admite uma identidade étnica entre os egípcios e seus vizinhos do sul - uma vez que esclareceriam em que medida a escrita foi adotada como instrumento de coesão social e cultural no vale do Nilo. Esse é o problema que a pesquisa deveria focalizar. A adoção e a utilização da escrita seriam fatos ligados a fenômenos biológicos e naturais, um acidente essencial relacionado ao espírito do povo, ou simplesmente o produto necessário de uma cultura num determinado estágio de integração política e social?
O Simpósio do Cairo (1974) enfatizou a estabilidade étnica e cultural do Egito durante os 3 mil anos de governo faraônico. O baixo vale do Nilo foi como uma esponja que, por mais de trinta séculos, absorveu as infiltrações ou imigrações oriundas de várias periferias, exceto nas épocas em que se intensificava a pressão de povos estrangeiros. A oeste, e também ao sul, povos que mantinham entre si diferentes graus de parentesco eram confinados em seu habitat pelas fortificações das fronteiras egípcias, ou então considerados úteis ao vale enquanto fornecedores de alimentos ou homens para a sua defesa. A não ser por esse sentimento de particularidade egípcia, que se desenvolveu gradualmente e era talvez característico apenas das classes altas da sociedade, torna-se difícil saber como os egípcios se comportavam em relação aos seus vizinhos mais próximos. Considerava-se que estes - assim como todos os outros povos com os quais os egípcios mantinham contato - tinham a obrigação natural de contribuir com homens e riquezas para a civilização faraônica. Desde o início, o tributo constituía um dos símbolos de submissão dos povos vizinhos do Egito, e o não-pagamento implicava o envio de expedições punitivas. No entanto, a atitude dos vizinhos nem sempre era de resignação e passividade. O Egito nem sempre estava em condições de ditar-lhes ordens; suas relações com a África variaram com os séculos.
Os vizinhos do ocidente: Saarianos e Líbios 7
Admite-se, de modo geral, que durante o período pré-dinástico decresceram os freqüentes intercâmbios humanos com o Saara. Pouco se sabe a respeito desses intercâmbios, chegando-se por vezes a argumentar que não existiram 8. É certo que durante o período dinástico o Egito exerceu influência sobre o Saara, embora também pouco se saiba sobre isso 9.
Para os egípcios do período dinástico, de fato - segundo as pesquisas mais recentes -, os saarianos eram principalmente os líbios, que paulatinamente se concentraram no norte de um dos desertos mais vastos e inóspitos do mundo. Era outra a situação no Neolítico, quando a rápida expansão do
deserto - intensificada durante o período dinástico - forçou os líbios, pastores e caçadores, a recuarem para a periferia do seu habitat anterior, quando não os levou abater, famintos, à porta do paraíso nilótico, cujo acesso lhes era proibido. Sua pressão continuou a se exercer ininterruptamente, mas poucas vezes com êxito, exceto, talvez, na parte ocidental do Delta, onde a população saariana é, sem dúvida, antiga e homogênea. Nos grandes oásis cercados por desertos - Kharga, Dakhla, Farafra e Siwa -, a aristocracia egípcia dedicava-se à caça, assumindo uma obrigação que originalmente cabia ao rei. Combater e aniquilar os habitantes do deserto (mesmo a inofensiva lebre) significava ajudar a manter a ordem cósmica, pois o deserto pertencia a Seth e ao caos primordial, que ameaçava constantemente voltar à Terra e destruir a ordem (Maât), desejada pelos deuses e pela qual o faraó era responsável. Assim, a caça não era simplesmente um agradável passatempo das classes privilegiadas. Tinha um significado religioso profundo.
Quando se caminhava para o sul, com destino ao Chade, ou para o norte, rumo ao Fezzan e ao Níger, era preciso atravessar aqueles oásis. Contudo, não dispomos hoje de nenhuma prova de que tais rotas tivessem sido regularmente utilizadas durante o período dinástico.
Seria certamente importante realizar pesquisas sobre essas rotas, mais do que pelo próprio interesse que lhes é inerente. A arqueologia e a toponímia poderiam vir a descobrir se os egípcios utilizaram ou não as principais rotas africanas para o Tibesti, Darfur, Bahr el-Ghazal e Chade, ou para o Fezzan e Ghudamis.
De qualquer maneira, pelo menos a partir da XIX dinastia, os líbios passaram a constituir uma reserva de mão-de-obra e de soldados para o Egito. Os cativos líbios, identificáveis pela pluma que usavam sobre a cabeça, tinham boa reputação como soldados, principalmente como aurigas. Freqüentemente marcados a ferro, não eram utilizados nas grandes operações coletivas nem no trabalho doméstico 10. Eram arregimentados pelo exército, onde sua proporção aumentava com o passar dos séculos e onde encontravam outros imigrantes, os núbios. Como criadores de gado, forneciam animais para o consumo dos egípcios 11; esses animais eram recolhidos sob a forma de tributo, ou tomados durante as razias. Os líbios desempenhavam, assim, um papel econômico comparável ao dos núbios.
Naturalmente, a historiografia egípcia julgava severamente as invasões líbias, quando ocorriam 12. Nos séculos XIII e XII antes da era cristã, assim como durante o Antigo Império, os líbios, levados pela necessidade, tentaram penetrar no Egito. Séti I e Ramsés II erigiram uma rede de fortificações contra os invasores e aprisionaram os mais ousados. Após duas tentativas frustradas de retomar à parte ocidental do Delta, de onde tinham sido afugentados, os líbios obtiveram de Ramsés III, no século XII antes da era cristã, permissão para se fixar naquela região. Em troca, passaram a ter maior participação na defesa militar do Egito. No século X, e por quase dois séculos os líbios governaram o Egito sob a XXII e a XXIII dinastias. Essa nova situação provocou fortes reações no Alto Egito, onde se fizeram tentativas de destituir os governantes líbios com o apoio do reino de Napata. A rivalidade entre guerreiros e políticos negros e brancos deu início a uma situação que se prolongaria por muito tempo na vida do Egito. A réplica imediata dos núbios foi estabelecer uma dinastia etíope criada por Peye (Piankhy).
Ao se considerarem as relações entre o Egito e outras nações, sejam elas africanas ou não, é preciso não esquecer o papel, ainda quase desconhecido, desempenhado pelo Delta. As prospecções arqueológicas nessa região do Egito, ainda insuficientes, não nos permitem ir além de algumas suposições.
Durante o período dinástico, o Delta foi palco de freqüentes migrações - por vezes maciças - de povos vizinhos do oeste, do norte e do nordeste 13. Em maior ou menor grau, isso sempre afetou a vida do Egito. Basta recordarmos as relações do Egito com Biblos (vital para o fornecimento de madeira), o episódio dos hicsos, o êxodo dos hebreus, os ataques dos líbios e dos povos do mar, para compreendermos que o Delta sempre foi uma área de conflito nos tempos do Egito faraônico. Particularmente ao procurar desenvolver um comércio exterior complementar com a África, a Ásia e o Mediterrâneo, o Egito viu-se obrigado a exercer um rígido controle sobre a costa do Delta. Desde o início do período faraônico, o compromisso da política comercial e militar egípcia com o norte e o nordeste opunha-se, até certo ponto, ao desejo de fazer contatos com o continente africano e de penetrar no seu interior. É preciso ter em mente essa contradição fundamental sempre que se for lidar com a história egípcia. O Egito, país mediterrânico e marítimo, tinha de controlar um espaço útil aberto para o Mediterrâneo e para o norte do mar Vermelho. Varadouros bem construídos entre este e o Nilo, ao norte da Primeira Catarata, bastavam para garantir a conexão indispensável entre as bacias econômicas ocidental e oriental. Como povo africano, porém, os egípcios provavelmente se viram tentados a penetrar profundamente o interior ao longo do Nilo, ao menos até a Quarta Catarata. Teriam enfrentado, então, dificuldades como as que são discutidas em outros capítulos deste livro. Também devem ter sido atraídos pelo Chade, atravessando os vales antigos que conduzem à margem esquerda do Nilo, e pela Etiópia, rica em marfim. O maior obstáculo encontrado ao sul talvez tenham sido as extensas regiões pantanosas, que os egípcios devem ter tido dificuldades em alcançar ou atravessar, e que durante toda a Antigüidade protegeram o segredo dos vales extremos do alto Nilo. Embora tenhamos hoje condições de acompanhar com certa facilidade a história das relações do Egito com o norte e dos varadouros entre o mar Vermelho e o Nilo, lamentavelmente nos faltam dados arqueológicos sobre as relações que os egípcios mantinham, por terra, com o sul distante.
Portanto, no momento temos que recorrer a hipóteses mais ou menos prováveis baseadas em textos, na lingüística, na etnologia ou, simplesmente, no senso comum. Mas por muito tempo os próprios egiptólogos consideraram a história do Egito mediterrânica e branca; assim, torna-se necessária, agora, uma mudança das técnicas e dos materiais de pesquisa - e principalmente da mentalidade dos pesquisadores - para que se possa restituir a terra dos faraós ao seu contexto africano.
Os vizinhos do sul: Os egípcios, As bacias do alto Nilo e suas relações com a África
As mais recentes escavações arqueológicas, cujas descobertas muitas vezes ainda permanecem inéditas, revelaram semelhanças entre a região de Cartum e o baixo vale do Nilo no período neolítico, semelhanças essas difíceis de explicar.
Com o Antigo Império, porém, essa aparente similaridade deixou de existir. Já na I dinastia, fortificações protegiam o sul do Egito contra os vizinhos meriodionais. Cada vez mais, no decorrer de toda a sua longa história, diferenças políticas e culturais e interesses conflitantes separaram os territórios ., ao norte da Primeira Catarata daqueles que se situavam ao sul da Quarta Catarata. Apesar disso, as complexas e variadas relações entre os egípcios e os povos do sul, a quem chamavam de nehesi, nunca foram inteiramente rompidas.
De qualquer maneira, a Baixa Núbia interessava aos egípcios pelo ouro que produzia, e as regiões nilóticas localizadas mais ao sul, pelas rotas que conduziam ao interior africano através do Nilo Branco, dos vales saarianos 14 ou do Darfur. O acesso ao sul foi uma preocupação constante por toda a história do Egito, o que provavelmente também explica a importância atribuída ao controle dos oásis ocidentais, outra rota de acesso paralela ao Nilo. Desde o início do Antigo Império, o Sudão, assim como a Líbia, representou para os egípcios uma fonte de mão-de-obra 15, de animais e de minerais. Os núbios, famosos pelos seus arqueiros, ocupavam uma posição de destaque no exército egípcio. Empregados igualmente como trabalhadores agrícolas (no Faium do Médio Império, por exemplo, as aldeias dos colonos núbios eram chamadas de "aldeias dos núbios"), eram rapidamente assimilados pela vida sócio-cultural egípcia. Ao final da I dinastia, é bem possível que tenham ocorrido na Núbia mudanças que perturbaram suas relações com o Egito. A lenta emergência do Grupo C, que parece só se ter constituído plenamente na V dinastia, deixa uma lacuna de cinco séculos no nosso conhecimento sobre essas relações.
O final da V dinastia marca o início das relações do Egito com o Sudão. Nesse mesmo período, criou-se um novo cargo político e econômico conhecido como "governador do sul". O detentor era responsável pela defesa da entrada meridional do Egito, pela organização dos intercâmbios comerciais e pelo favorecimento da circulação. das expedições mercantis. Esse cargo requeria certas qualificações, tais como o, conhecimento do comércio e das línguas faladas pelos habitantes da região. Uni, um governador do sul na VI dinastia, tinha sob seu comando recrutas vindos de diferentes partes da Núbia: nehesi (núbios) de Irtet, Madja, Yam, Wawat e Kau.
No final do Antigo Império as relações comerciais entre o Egito e o Sudão interromperam-se. O príncipe de Edfu, entretanto, relata na parede de seu túmulo em Mealla que tinham sido enviados cereais a Wawat com o propósito de evitar a fome. Fato que vem provar a continuidade das relações entre o Egito e a Núbia naquela época. Além disso, os soldados núbios desempenharam um importante papel nas batalhas do Médio Egito durante o PrImeIro Período Intermediário. Miniaturas em madeira pintada representando um grupo de vigorosos arqueiros núbios mostram a importância que os egípcios atribuíam ao soldado sudanês.
Nessa época, porém, o desenvolvimento do Grupo C na Baixa Núbia - talvez tenha sido responsável, ao lado dos conflitos ocorridos durante o Primeiro Período Intermediário, pelo declínio das relações entre egípcios e sudaneses.
Pouco se sabe, no momento, sobre os povos do Grupo C. Durante muito tempo pensou-se que se haviam infiltrado lentamente no vale do Nilo; atual- mente, porém, são considerados simples. sucessores dos povos do Grupo A. Seja qual for a razão, o fato é que as relações entre esses povos e os egípcios sempre foram difíceis. Diversas peças de cerâmica, descobertas perto de Djebel Kekan, junto de Khor Baraka em Agordat (Eritréia), hoje no museu de Cartum, assemelham-se a cerâmicas do Grupo C encontradas na Baixa Núbia. Isso nos leva a perguntar se os povos desse grupo não teriam sido forçados, por alguma razão (seca, presença de forças egípcias na Núbia), a abandonar a Baixa Núbia, provavelmente durante a XII dinastia. Esses povos teriam então deixado suas habitações no vale do Uadi el-AIaki, rumando para as montanhas do mar Vermelho, onde vivem hoje as tribos Beja. Da mesma maneira, alguns povos de língua núbia vivem hoje nos montes Nuba, no sul do Kordofan. Pode-se admitir, então, que o Sudão tenha testemunhado uma migração do Grupo C, partindo do norte em direção ao sul e oeste.
O Império de Kerma, no sul, menos diretamente afetado pela invasão egípcia, sofreu influência do Egito no plano cultural desde - 2000, mas conservou identidade própria até o seu término, por volta de -1580. Os egípcios acabariam por dar a essa cultura, conhecida desde - 2000, o nome de Kush termo que empregavam para caracterizar o reinado que se estabeleceu ao sul da Segunda Catarata após - 1700.
No início do Médio Império, os reis do Egito, ameaçados pelos beduínos asiáticos, ao que tudo indica, pediram ajuda aos habitantes do Sudão. Menturhotep III, fundador da XI dinastia, talvez fosse negro, fato que poderia explicar o reatar de relações entre Egito e Sudão, interrompidas durante o Primeiro Período Intermediário. É bem provável que alguns egípcios tenham chegado ao interior do Sudão. Pelas estelas 16 encontradas em Buhen, sabemos que várias famílias viveram por longo tempo na Núbia durante o Médio Império; tinham nomes egípcios e cultuavam os deuses locais 17. Os reis desse período construíram catorze fortificações na Núbia a fim de proteger as fronteiras e as expedições comerciais. Quando os hicsos tomaram as regiões setentrional e central do Egito, Kush reforçou sua independência e seu poder. O reino de Kush constituía um perigo em potencial para os faraós. Um texto egípcio recentemente descoberto revela que durante a batalha contra os hicsos, Kamósis, o último faraó da XVII dinastia, foi informado da captura de um mensageiro enviado pelo rei dos hicsos para propor ao soberano de Kush que se aliasse a ele contra os egípcios. Com a XVIII dinastia, a pressão contra o Sudão uma vez mais se fortaleceu, e as relações ampliaram-se numa escala sem precedentes 18. Simultaneamente, tomou impulso a egipcianização das regiões entre a Segunda e a Quarta Catarata. No reino de Tutmósis III modificou-se a forma dos sepulcros da região. Em lugar de túmulos, construíram-se sepulcros com formas egípcias, e, em vez de sepulcros de pedra, construíram-se pequenas pirâmides semelhantes às encontradas em Deir êl-Medina. Daí a semelhança das cidades de Buhen e de Aniba com as cidades do Egito. Do mesmo modo, localizaram-se ushabtis e escaravelhos nos sepulcros do Sudão. Os desenhos e os nomes dos túmulos dos príncipes foram gravados em estilo tipicamente egípcio. O sepulcro de Heka-Nefer 19, príncipe de Aniba no reinado de Tutancâmon, lembra os túmulos de pedra egípcios. Simpson chegou a supor que sobre esse sepulcro tivesse sido erguida uma pirâmide no estilo daquelas de Deir el-Medina. O túmulo de Dhuty-Hetep, príncipe de Debeira no reinado da rainha Hatshepsut, assemelha-se aos de Tebas.
A Núbia e o Egito até então nunca estiveram tão próximos. Em -1400 foi construído o templo de Soleb. O papel militar, e por vezes administrativo, exercido pelos sudaneses tornou-se mais importante do que nunca, culminando .com a ascensão da dinastia etíope. Mas, embora egipcianizados, os habitantes dos altos vales não se tomaram egípcios: uma cultura distinta continuava a se expressar, se bem que em moldes egípcios, mesmo na época da XXX dinastia.
Esta dinastia restabeleceu para o Egito uma dimensão africana que está registrada em duas passagens da Bíblia: quando Deus protege os hebreus contra o ataque dos assírios, ao incutir no rei, durante um sonho, o temor de que viesse a ser atacado por Tir-Hakah 2° rei da Etiópia, e quando o rei dos hebreus, Ezequias, propõe uma aliança entre o faraó e o seu povo 21.
Durante muitos séculos esteve sob o domínio da civilização egípcia, de seus hábitos, linguagens, crenças e instituições. Toda a história da Núbia carrega a marca dos seus vizinhos do norte.
São esses os últimos grandes momentos de unidade. A conquista de Tebas pelos assírios coincidiu com a ascensão do Império Meroíta no sul. A defesa dessa região contra os ataques do norte tornou-se indispensável, visto que os exércitos egípcios, a partir dessa época, passaram a incorporar enormes contingentes de mercenários hebreus, fenícios e gregos. Por falta de investigações suficientes, pouco se sabe sobre as relações, por certo difíceis, entre o Novo Império nilótico e o Egito.
Punt
A exemplo do que ocorre com outros problemas da história africana, gastou-se muita tinta, nem sempre de boa qualidade, com o propósito de se localizar o legendário reino de Punt, com que os egípcios mantiveram relações pelo menos durante o Novo Império e que aparece nas imagens de Deir el-Bahari. Foram feitas tentativas para localizar essa nação no Marrocos, na Mauritânia, no Zambeze e em outras regiões 22. Hoje existe quase um consenso quanto à localização de Punt no Chifre da África, embora ainda persistam muitas dúvidas com relação a seus limites precisos 23. Há uma teoria instigante segundo a qual Punt se localizaria na parte da costa da África que se estende do rio Poitialeh, ao norte da Somália, até o cabo Guardafui. Trata-se de uma região montanhosa com plantações dispostas em terraços que lembram aqueles representados em Deir el-Bahari e onde as árvores crescem em abundância, incluindo-se o bálsamo, de que se extrai o incenso.
Os navios da rainha Hatshepsut teriam atracado numa enseada da região hoje conhecida como Goluin, de onde o antigo rio Elephas corria em direção ao oceano. Essa localização e a referência aos navios da rainha Hatshepsut que rumavam para Punt sugerem que os egípcios utilizavam uma rota marítima para chegar à terra estrangeira. Recentemente R. Herzog tentou mostrar que isso não correspondia aos fatos e que as relações egípcias com Punt se davam por terra. Essa teoria provocou fortes reações em contrário 24.
Uma pesquisa recente 25 levou à descoberta, na costa do mar Vermelho - ao norte de Quseir, na desembocadura do Uadi Gasus - de vestígios de ligações egípcias com Punt. O pesquisador assim transcreveu uma das inscrições: "Rei do Alto e do Baixo Egito, Kheperkare 26, amado do deus Khenty-Khety, filho de Rá, Sesóstris, amado de Hátor, senhora de Pwenet [Punt]". Outra inscrição contém a seguinte passagem: "(...) a Mina de Punt, para alcançá-la em paz e retornar em paz". Essas inscrições, respaldadas por outras, confirmam que as expedições a Punt se faziam por mar. Lamentavelmente, devido ao local em que foram encontradas, não oferecem indicações referentes à posição geográfica de Punt.
Assim, ao que parece, já se chegou virtualmente a um acordo quanto ao fato de os navios egípcios irem a Punt em busca do valioso incenso e de diversos outros produtos antes fornecidos pela Arábia do Sul. Houve até mesmo uma tentativa de reconstituição da rota percorrida por esses navios 27.
Há quem afirme que vários faraós tentaram alcançar regiões mais distantes. Uma expedição a Punt no reinado de Ramsés III é descrita no papiro de Harris: "A frota (. . .) cruzou o mar Muqad". Os navios alcançaram o sul do cabo Guardafui, chegando talvez até o cabo Hafun no oceano Indico. Mas essa rota era bastante perigosa devido às tempestades que se abatiam sobre a área. Talvez possamos concluir que o cabo Guardafui era, ao sul, o ponto extremo alcançado pelos navios que se dirigiam a Punt, e que os limites meridionais de Punt ficavam próximos do cabo Guardafui. Quanto aos limites setentrionais, pode-se dizer que se foram modificando com o correr dos séculos.
Segundo P. Montet, o problema pode ser considerado sob um outro ângulo. Escreve ele 28: "(...) o país de Punt situava-se certamente na África - segundo uma estela do período saíta, o regime do Nilo era afetado quando chovia nas montanhas de Punt - mas se estendia até a Ásia, conforme a expressão geográfica Pune da Ásia, da qual o único exemplo (ainda inédito) foi encontrado em Soleb. A luz dessas indicações, temos condições de identificar nas duas praias da terra do deus as margens do estreito de Bab el-Mandeb. Mais uma prova é o fato de a árvore da qual se extrai o incenso crescer tanto na Arábia Felix como na África" 29.
Podemos distinguir etapas sucessivas nas relações entre Egito e Punt. A primeira antecedeu o reinado da rainha Hatshepsut. Naquela época, os egípcios possuíam muito poucas informações sobre Punt. Obtinham incenso através de intermediários, que multiplicavam as lendas sobre esse país distante com a intenção de aumentar o preço do produto. Os poucos egípcios que, ao que se sabe, concluíram a viagem a Punt eram homens arrojados. Um habitante de Assuã, no Antigo Império, diz: "Parti onze vezes em expedição com meu senhor, mais os príncipes e tesoureiros do deus Khui e do deus Téti, em direção a Kush, a Biblos e a Punt" 30.
A segunda etapa começou com a rainha Hatshepsut. Uma frota de cinco navios, segundo o artista que ornamentou o templo de Deir el-Bahari, foi envIada com ordens para trazer árvores que produziam incenso. Perehu e sua esposa - que era disforme 31 -, a filha e um grupo de nativos são representados recebendo a expedição e trocando cumprimentos, presentes e produtos sabidamente provenientes de Punt. Três grandes árvores foram plantadas no JardIm do deus Amon e atingiram uma altura tal que o gado podia passar por debaixo delas.32 Sob as árvores aparecem, amontoados, outros presentes, tais como marfim, cascos de tartaruga, gado com chifres longos e curtos, "mirras com as raízes envoltas na terra de que foram arrancadas (como faz hoje um bom jardineiro), incenso seco, ébano, peles de pantera, babuínos, chimpanzés, galgos, uma girafa, etc."
Numa câmara do mesmo templo há uma representação do nascimento divino de Hatshepsut, em que sua mãe, Amósis, é despertada pelo aroma do incenso originário da terra de Punt. Nesse caso, a associação do nome de Punt com a origem divina da rainha é um indício da amizade que a rainha do Egito mantinha com Punt, cujos habitantes adoravam Amon.
As pinturas que retratam essa expedição fornecem-nos informações sobre a vida na terra de Punt, seus habitantes, suas plantas e seus animais, suas cabanas de forma cônica construídas sobre estacas, em meio a palmeiras, ébanos e mirras.
A julgar pelas pinturas de Punt encontradas nos templos, nada há de novo para ser registrado após o reinado da rainha Hatshepsut. Os textos mencionam a chegada dos habitantes de Punt ao Egito. A partir de então, Punt aparece nas listas de povos vencidos, o que, em vista da grande distância que separa os dois países, parece bastante improvável. Exigia-se que os chefes de Punt levassem presentes ao faraó. Este encarregava um dos seus subordinados de receber os chefes e os presentes. Há alguns indícios de comércio, nos portos do mar Vermelho, entre habitantes de Punt e egípcios, assim como de trans- porte de mercadorias de Punt, por via terrestre, entre o mar Vermelho e o Nilo (tumba de Âmon-Mósis em Tebas e tumba n. 143).
Pouco antes do final do reinado de Ramsés IV, cessaram as relações com Punt. Mas a lembrança desse país ficou gravada na memória dos egípcios.
Talvez devêssemos incluir entre os testemunhos dessas relações antigas o fato de um "encosto para cabeça" receber, em somali moderno, o nome de barchi ou barki, semelhante à designação que recebia em egípcio antigo. Além do mais, os somalis denominam o ano-novo "Festa do faraó".
O restante da África
Os esforços de um povo ou de seus líderes para estabelecer relações com outras nações têm origem numa diversidade de fatores que, em última instância, podem geralmente ser reduzidos a termos simples. As necessidades constituem um poderoso estímulo à exploração e à procura de relações estáveis. O Egito precisava dos produtos africanos, como marfim, incenso, ébano e, de modo mais geral, madeira. Quanto à última, uma fonte alternativa era, evidentemente, o Oriente Próximo. Todavia, a utilização da madeira originária do interior da Africa só pode ser comprovada através de um exame da totalidade dos testemunhos egípcios.
As relações do Egito com o restante da África são vistas freqüentemente como um fluxo unilateral, como uma difusão da cultura egípcia para o exterior. Tal óptica ignora o fato de o Egito ter dependido materialmente da venda de determinados produtos africanos. Conseqüentemente, as influências devem ter sido recíprocas. Nesse campo tudo ainda está por fazer, e a investigação é trabalhosa. A ecologia sofreu transformações entre os tempos remotos do Império e o aparecimento dos gregos no Egito. A reconstituição da antiga rede de intercâmbio de mercadorias a partir de textos e representações - que fornecem, no máximo, indícios indiretos -- exige extensa e minuciosa pesquisa fundamentada na arqueologia e na lingüística. O que ciências como a arqueologia nos têm ensinado nos últimos anos sobre o antigo comércio da obsidiana - mineral muito apreciado nos tempos pré-históricos - deve nos incitar à paciência e à cautela, mas também infundir-nos a esperança de chegar a resultados ainda insuspeitados.
Uma expedição marítima pelas costas da África ao tempo do faraó Necau II (- 610 a - 595) atraiu a atenção de pesquisadores, mas nem todos concordam quanto à exatidão histórica dos fatos registrados, um século mais tarde, por Heródoto.
"A Líbia é circundada pelo mar, exceto na região fronteiriça com a Ásia; quem por primeiro comprovou esse fato, ao que sabemos, foi Necau, rei do Egito. Após concluir a abertura do canal que liga o Nilo ao golfo Arábico, Necau enviou navios tripulados por fenícios, incumbindo-os de, na viagem de volta, contornarem as Colunas de Hércules até atingir o mar, ao norte, e daí rumarem para o Egito. Assim, os fenícios partiram do mar Vermelho e navegaram pelo mar Austral. Sempre que chegava o outono, em qualquer parte da Líbia que estivessem, desembarcavam e semeavam a terra, e ali aguardavam a safra; em seguida, realizada a colheita, partiam. Assim, passados dois anos, ao terceiro contornaram as Colunas de Hércules e voltaram para o Egito. Lá, relataram que durante a viagem viram o sol à sua direita (há quem acredite nisso, mas não eu). Foi assim que se obteve a primeira informação sobre a Líbia." 33
No texto, Líbia significa, naturalmente, todo o continente africano, e as Colunas de Hércules são o estreito de Gibraltar. Os fenícios partiram do seu próprio país, recentemente conquistado por Necau II. Assim, o problema continua sem solução. J. Yoyotte 34 acredita na autenticidade do relato e dos fatos que descreve. Há poucos anos criou-se na França uma associação - a Associação Punt -, com o objetivo de realizar novamente a viagem pela África tal como foi descrita por Heródoto, usando para isso um navio especialmente construído segundo as técnicas egípcias antigas. Mas não faltam os céticos, para os quais as passagens de Heródoto não se referem à circunavegação do continente, ou que contestam a própria autenticidade de toda a questão. Como no caso do périplo de Hanão, a batalha entre os pesquisadores do assunto parece estar longe de terminar.
Necau II, bastante recente na linhagem dos faraós, empreendeu várias outras obras. A ele atribui-se o primeiro grande trabalho de construção de um canal, cujo traçado ainda é objeto de dúvida entre os historiadores. Esse canal talvez ligasse o Mediterrâneo ao mar Vermelho; o mais provável, porém, é que unisse o Nilo ao mar Vermelho que, de fato, esteve aberto à navegação por vários séculos e que, na área Islâmica, foi da maior Importância para as relações entre o Egito e a Arábia.
Deveríamos também atribuir à curiosidade e ao gosto pelo exótico a expedição de Harkhuf, a mando de Pépi II, a qual suscitou conclusões contraditórias e inaceitáveis? Como veremos mais adiante 35, Harkhuf levou para Pépi II um anão dançarino originário da terra de Yam. Alguns chegaram a concluir, com base na hipótese insustentável de que o anão era um pigmeu 36, que este exemplo único prova a existência de relações entre o Egito, o Alto Nilo e o Chade. É bem verdade que a expedição de Harkhuf pertence ao domínio da história, ao passo que muitas outras se revestem de um caráter lendário ou fictício 37. Contudo, pouco se sabe sobre o antigo habitat dos pigmeus, sendo, portanto, arriscado afirmar que eram encontrados em grande número nas regiões superiores das bacias do Nilo 38. Além disso, não há provas de que o tal anão fosse um pigmeu, e até o momento não se sabe com certeza onde se situava a terra de Yam 39.
Como se vê, os indícios de contatos relacionados à curiosidade científica ou ao gosto pelo exótico são incertos e inconsistentes. A observação bastante comum de que a fauna africana está presente na iconografia egípcia não constitui de modo algum, no estádio atual dos nossos conhecimentos, prova decisiva da existência de relações entre o Egito e o interior da África. O babuíno, animal sagrado de Tot, e as peles de pantera, que faziam parte dos paramentos sacerdotais no ritual do culto de Osíris oficiado por Hórus, e também das vestes dos faraós, podem ter sido provenientes de países fronteiriços ou mesmo de trocas eventuais entre mercadores. Uma avaliação segura da extensão do conhecimento que os egípcios tinham da África só será possível após intensa pesquisa no sentido de investigar a cronologia e o significado qualitativo e quantitativo das diversas referências a animais encontradas em textos e imagens egípcios.
Quer as relações com a África tenham sido estabelecidas por necessidade, quer por curiosidade, os indícios coletados são por demais inconsistentes e sua interpretação é muito difícil e controversa para que possamos, nesse momento, chegar a qualquer conclusão. Existem, entretanto, vários caminhos abertos para uma investigação frutífera.
O leitor não deve, portanto, ficar com a impressão de que o que segue é aceito sem restrições ou está provado, embora seja perfeitamente justificável registrar algumas hipóteses e enfatizar a conveniência de se realizarem mais pesquisas.
É lícito que se pergunte - e até hoje quase ninguém o fez - se os egípcios tinham condições de utilizar o estanho nigeriano. Nos tempos antigos, havia dois pólos conhecidos de produção de estanho: a Cornualha e as Índias Orientais. Seria absurdo supor que Nok teve origem nas antigas minas de estanho em Bauchi, com um mercado no vale do Nilo? 40 Por ora, trata-se meramente de uma hipótese acadêmica, mas que merece ser investigada: se os resultados fossem positivos, elucidariam muitos aspectos das relações entre o Egito antigo e a África mais ao sul, atualmente tão difíceis de compreender. Para tanto, seria fundamental um exame minucioso, em todos os níveis e com a ajuda de todas as disciplinas, de quaisquer vestígios remanescentes nas regiões de passagem, como Darfur e Bahr el-Ghazal. Nesse campo, como em tantos outros, quase tudo está por fazer. Através de pesquisas extensas e minuciosas, os etnólogos poderiam acrescentar novos dados a essa difícil questão.
Muito se tem perguntado se o encosto para cabeça com base de coluna inventado pelos egípcios não se teria difundido, juntamente com sua civilização, por outras regiões da África 41. Mais uma vez, é preciso ter cautela e evitar a tentação do difusionismo. Seria esse encosto - assim como outros exclusivamente africanos - originário do Egito? Não estariam presentes' em outras culturas distantes da África? Não seriam eles de natureza funcional, podendo, por conseguinte, terem sido inventados em diferentes lugares, distantes uns dos outros?
Em outro campo, seria possível concluir - como fazem alguns pesquisadores talvez um pouco precipitados - que toda e qualquer forma de "realeza sagrada" na África é de origem egípcia, resultado de um relacionamento físico e histórico entre o Egito antigo e seus criadores africanos? 42 Não seria plausível pensar em desenvolvimentos espontâneos mais ou menos distantes no tempo?
Quais teriam sido as rotas percorridas pelo culto ao carneiro, animal sagrado de Âmon adora.do em Kush, no Saara, entre os Ioruba e os Fon? Por enquanto, devemos nos limitar a registrar todas essas semelhanças e presenças, evitando as conclusões apressadas 43. Em diversos campos, é possível apontar semelhanças entre as técnicas, práticas e crenças do Egito antigo e as da África, de origem mais ou menos recente. Um dos exemplos mais atraentes é, à primeira vista, o do "duplo" da pessoa física (chamado de Ka no antigo Egito), a quem os egípcios atribuíam grande importância, assim como o fazem hoje várias sociedades da África. As formas de pós-vida desses "duplos" entre os Bantu, os Ule ou os Akan, por exemplo, tentam-nos a associá-las com as concepções egípcias da época dos faraós 44.
Há muito tempo tem-se observado que os Dogon enterram sua cerâmica para magia - e não são, de maneira nenhuma, os únicos a fazê-lo. Esse costume foi comparado ao dos egípcios, que colocavam em gamelas fragmentos de cerâmica inscritos com os nomes dos inimigos, enterrando-as em locais específicos. Também se chegou a comparar os ritos de inumação egípcios com os que eram oficiados por ocasião dos funerais dos reis de Gana no século XI antes da era cristã, conforme a descrição de al-Bakri.
Seria interminável a lista de práticas semelhantes acumuladas durante décadas por estudos de caráter mais ou menos científico. A lingüística, por si só, oferece um vasto campo de pesquisa, em que as probabilidades, até o momento, superam as certezas.
Tudo isso nos leva a concluir que a civilização egípcia provavelmente exerceu influência - embora não se saiba ainda em que medida - sobre as civilizações africanas mais recentes. Ao se procurar abordar essas últimas, seria prudente considerar também a influência em sentido contrário, isto é, até que ponto o, Egito foi influenciado por elas. Uma influência que se prolongou por mais de 5 mil anos não constitui prova de contatos sincrônicos, do mesmo modo que vestígios de contatos não constituem prova de sua continuidade. Trata-se de uma investigação fascinante que está apenas começando.
Em termos gerais, os laços entre o Egito e o continente africano nos tempos faraônicos é um dos temas mais importantes a desafiar os historiógrafos africanos de hoje. Coloca em questão grande número de postulados científicos ou filosóficos - como, por exemplo, a aceitação ou rejeição da hipótese de que os mais antigos povos do Egito eram negros, sem exceção, e a aceitação ou rejeição da teoria do difusionismo. Questiona também a metodologia ou a pesquisa, por exemplo, referente à circulação das invenções, do cobre e do ferro, dos tecidos aos suportes para a escrita. Levanta dúvidas quanto à possibilidade, até agora tranqüilamente aceita, de um pesquisador isolado ser bem-sucedido num campo tão vasto sem a ajuda de disciplinas correlatas.
Sob qualquer ponto de vista, este problema constitui um teste para a consciência científica, a precisão e a imparcialidade dos africanos que se empenharem em esclarecê-lo, com a ajuda, agora mais lúcida do que no passado, de pesquisadores estrangeiros.
Notas
1 Ver LECLANT, J. 1956a. pp. 31-2.
2 MEYEROWITZ, E. R. p. 31.
5 Observe-se que o problema da autocriação não se limita a Ptah (um semideus, mas patrono de todos os artesãos) , estendendo-se também a Rá e outras deidades. Ao que parece, existiu no Egito um mito geral subjacente, entre vários grupos locais e, talvez, em diferentes períodos.
6 Ver LECLANT, J. 1956b. Cap. 10.
7 Ver Cap. 1 e a súmula do Simpósio do Cairo.
6 H. J. HUGOT (1976. p. 76) assinala que quando o Egito foi unificado, por volta de -3200, o Neolítico saariano atingia seu ponto culminante, rejeitando categoricamente a hipótese ocasionalmente formulada de que o homem neoIítico egípcio seria de origem saariana (p. 73).
7 Quero registrar aqui meus agradecimentos ao professor T. GOSTYNSKY, autor de uma monografia sobre a Líbia antiga, que ele gentilmente enviou à Unesco a fim de facilitar a elaboração deste capítulo. Utilizei-a em diversas ocasiões.
8 Em várias passagens do Relatório Final do Simpósio do Cairo (1974). Uma das pesquisas atuais mais promissoras baseia-se em gravações em pedras e em pinturas "do Atlântico ao mar Vermelho". Embora referindo-se particularmente à Pré-história, o estudo contém grande quantidade de dados precisos.
9 HUGOT, H.-J. 1976. p. 73. Note-se. porém, a advertência (p. 82) contra conclusões apressadas de estudiosos que, por exemplo, querem reconhecer em determinados temas das pinturas rupestres do Saara (carneiros com discos solares, feiticeiros com máscaras zoomórficas, etc.) vestígios de influência da XVIII dinastia. Ele observa: "é precipitar-se e descuidar facilmente da maneira de administrar a prova científica necessária à validação de uma hipótese".
10 Snefru orgulhava-se de ter capturado 11 mil líbios e 13100 cabeças de gado.
11 As Inscrições mencionam importações de várias dezenas de bovinos, ovinos caprinos e Jumentos.
12 De –3000 a -1800, os egípcios conseguiram, segundo seus cronistas, conter as invasões líbias. Todas as expedições mencionadas durante esse longo período vão do Egito para a Líbia. O próprio fato de terem ocorrido revela a presença de problemas nas relações entre Egito e Líbia. De - 1800 a - 1300 as fontes nada dizem a esse respeito.
13 Como enfatizado no Simpósio do Cairo, a história antiga do Delta ainda está para ser descoberta. De fato, as porções do Egito setentrionais cuja pré e proto-história são conhecidas não vão muito além do Cairo atual. No Antigo Império não se dispunha de maiores informações. A faixa litorânea deve ter permanecido por longo tempo como uma extensa área fora da esfera egípcia. No IV milênio, de fato, formado o Estado Egípcio, o Baixo Egito expandiu-se de Heliópolis até o Faium, e o Alto Egito, do sul do dalum ate EI-Kab. Assim, o Delta esteve menos envolvido, e o Alto Egito, considera o "mais africano” deteve-se com o surgimento do arenito – corretamente qualificado como núbio -, que marcou o ingresso num outro mundo, tanto étnico como político, o de Ta-Séti, a Terra do Arco.
14 O faraó Snefru declarou ter trazido consigo 7 mil homens do sul, de uma terra chamada Ta-Séti (Seti: tipo arcaico de arco. GARDINER, A. H. 1950. p. 512. Ta-Séti: terra dos homens que carregam o arco Séti.) É interessante notar que todas as tribos sudanesas da bacia do Congo carregam o mesmo arco.
15 A partir de -2500, fornalhas destinadas a fundir o cobre local foram instalada. peIos egípcios em Buhen, ao sul do Uadi Halfa.
16 VERCOUlTER, J. 1957. pp. 61-9. A datação adotada por J. VERCOUlTER neste artigo foi recentemente colocada em discussão: para J. VERCOUlTER, as estelas pertencem antes ao segundo Período Intermediário e são praticamente contemporâneas dos hicsos.
17 POSENER, G. 1958. p. 65: Esse reino [Kush] foi colonizado pelo Estado faraônico.
18 Trata-se do período em que, por razões ainda hoje não esclarecidas, a iconografia egípcia mostra uma grande alteração na maneira de representar os negros africanos. Muitas hipóteses foram levantadas, inclusive a de que os contatos com o restante do continente se expandiram naquela época.
19 SIMPSON, W. K. 1963.
20 2 Reis, 19:9, e Isaías, 37:9.
21 REICHHOLD, W. O autor oferece uma tradução interessante de uma passagem do capítulo 17 do Livro de Isaías, a do envio de um mensageiro ao faraó negro: "Vai, mensageiro veloz, até o povo alto e bronzeado, ao povo sempre temido, à nação poderosa e conquistadora cuja terra os rios dividem".
22 R. HERZOG (1968. pp. 42-5) apresenta uma lista completa das teorias sobre o assunto.
23 Id., ibid. .
24 Ver, por exemplo, KITCHEN, K. A. 1971. No entanto, descobertas arqueológicas recentes em países localizados entre Punt e o Egito não podem justificar a rejeição, sem um estudo aprofundado, da hipótese de R. HERZOG.
25 SAYYD, Abd el-Halim. (Mana'im). 1976.
26 A inscrição refere-se a Sesóstris 1 (cerca de -1970 a -1930), e textos egípcios mencionam expedições a Punt bem anteriores a essa data, durante o Antigo Império.
27 Pesquisa realizada por K. A. KITCHEN, 1971
28 MONTET, P. 1970, p.132
29 KITCHEN (1971. p. 185) observa que a teoria é inaceitável, já pela simples presença da girafa entre os animais característicos de Punt.
30 BREASTED, J. H. 1906. I, § 361.
31 Principalmente por sua esteatopigia.
32 D. M. M. DIXON (1969. p. 55) é da opinião de que o êxito da plantação da mirra que a expedição de Hatshepsht trouxe para o seu templo foi apenas temporário. "Apesar do êxito parcial e temporário, as experiências de transplantação foram um fracasso. As razões exatas desse fracasso só serão esclarecidas quando se estabelecer a identidade botânica da(s) árvore(s) que produz(em) o incenso - o que não poderá ser feito com base nas representações egípcias convencionais. Enquanto isso, tem-se sugerido que, devido a interesses comerciais próprios, os puntitas teriam frustrado deliberadamente a experiência egípcia." Se o êxito tivesse sido de curta duração, os reis que sucederam Hatshepsut não teriam prosseguido com a importação das árvores, como fizeram, por exemplo, Amenófis II (tumba n. 143, em Tebas) , ou Ramsés II e Ramsés III, que ordenaram sua importação.
33 Heródoto. IV, 42.
34 YOYOTTE, J. 1958. p. 370.
35 Ver capítulos 8, 9 10 e 11
36 P. MONTET (1970. p. 129) faz uma observação mais cautelosa sobre o assunto: “Antes de Harkhuf, um viajante de nome Bawerded trouxe consigo um anão dançarino nativo da terra de Punt".
37 GIRGÜS, M. 1963.
38 Sobre as variações quanto à localização dos pigmeus, ver PREAUX, C. 1957 pp. 248-312
39 R. HERZOG (1968) é da opinião de que Harkhuf alcançou os pântanos de Swadi ou as colinas de Darfur. SAVE-SODERBERGH (1953, p.177) situa a terra de Yam ao sul da segunda Catarata e acredita que o oásis da Líbia” ao sul do Nilo teriam servido como pontos de muda para expedições que se dirigiram ao sul e que prenunciam as futuras caravanas do Darfur.
40 Para uma crítica à esta suposição, ver o artigo de SCHAEFFER, em FEA. Na sua opinião, o estanho utilizado pelos egípcios teria vindo da África.
41 Uma observação sobre os encostos para cabeça com base de coluna dos antigos egípcios e sobre as afinidades etnográficas reveladas pelo seu uso, feita por E. T. HAMY no livro de G. PARRINDER, p. 61, dá-nos um bom exemplo de um encosto de cabeça africano, em exposição no Museu Britânico. Um outro foi descoberto no Fezzan: DANIELS, C. M. 1968b.
42 Ver HUNTINGFORD. G. W. B. In: OLIVER. R. & MATHEW, G. pp. 88-9, e DAVIDSON, B. 1962. p. 44.
43 WAINWRIGHT, 1951
44 SAUNERON (Paris, 1959. p. 113) chama a atenção para a vantagem dessa associação, as recomenda cautela.