África e Antigas Civilizações (01)

A História da África - por D. Fage. Um dos mais recentes e excelentes manuais para o estudo da história africana, o livro de Fage traz uma vasta gama de experiências em diversas linhas de estudos africanistas, contrapondo estas tradições num estudo conciso porém profundo, analítico e esclarecedor. in Fage, D. História da África. Lisboa: edições 70, 1997. Os próximos quatro textos, numerados, são de seu livro.



África e Antigas Civilizações

por D. Fage



O desenvolvimento pós-neolítico da sociedade humana em África, sobretudo do que é hoje predominantemente a África negra, ao sul do Sara, foi até agora considerado por nós como um fenómeno interno sem influências exteriores, se exceptuarmos em certa medida o que dissemos sobre a costa índica africana. Ora, a norte do Sara, a África fazia parte do mundo mediterrânico e estava em íntimo contacto com os principais acontecimentos do Próximo Oriente, e uma das grandes civilizações, a do Egipto faraónico, situava-se na própria África; além de que as civilizações mediterrânicas posteriores, como a da Fenícia e a de Cartago, a da Grécia e a de Roma, também se estenderam ao norte de África, enquanto a África do nordeste esteve sujeita à influência e à colonização por parte das antigas civilizações do sul da Arábia. É por isso necessário voltar atrás e estudar a influência que estas civilizações, na periferia do continente, podem ter exercido sobre a evolução da sociedade humana em toda a África.

A primeira grande civilização surgida em África, a civilização dos faraós, teve evidentemente as suas bases em solo africano. O Egipto, porém, era muito diferente de qualquer outra região africana. Constituído como um grande oásis, com terras de aluvião excepcional- mente férteis que a cheia do Nilo renovava todos os anos, estava situado na grande encruzilhada em que a África se encontrava entre a Ásia e o mundo mediterrânico, entre as regiões do Mar Vermelho e do Oceano índico, constituindo um ponto de importância estratégica fundamental, e atraindo os povos e idéias de todas as direcções. Já muito antes de 3000 a.C., a fertilidade das suas terras fazia com que os agricultores produzissem para lá das suas necessidades imediatas, riqueza que permitia manter artífices especializados e comerciantes. Os cemitérios da cultura gerzeense, do 4.o milénio, fornecem simultaneamente as provas de uma enorme riqueza e de uma crescente desigualdade na sua distribuição. É então que subitamente aparece em cena a monarquia absoluta; de início, segundo parece, em dois reinos, um no delta e outro no vale inferior do Nilo, e mais tarde, no Egipto unificado e governado pelos Faraós.

A revolução operada no pensamento e na organização da humanidade representada por esta evolução, ficou notavelmente documentada nas pirâmides. Nos cemitérios de Gerzé, não obstante as crescentes desigualdades de riqueza que se notam entre os membros da sociedade, encontram-se enterrados os membros ricos ou pobres dessas comunidades. Mas, com o aparecimento dos Faraós, a vida comunitária ficou subordinada e seria representada pela vida do monarca, cuja sepultura se revestiu de um esplendor cada vez maior. Ao princípio, as sepulturas reais imitavam os túmulos dos cemitérios de Gerzé, embora com mobilário mais rico e com algumas centenas de servos do monarca a acompanhá-lo para o outro mundo. Depois construiu-se sobre a sepultura uma espécie de grande palácio com o nome de mastaba, com sucessivas mastabas sobrepostas até se chegar à forma da pirâmide que conhecemos. A grande pirâmide de Gizé, construída cerca de 2400 a. C., medindo 150 metros de altura, com 60 milhões de toneladas de grandes blocos de pedra numa região onde a pedra de construção é rara, e erguida por homens que não tinham instrumentos de ferro nem máquinas, marca o apogeu dessa evolução. Os Faraós começaram por ser considerados como a encarnação do deus Hórus, e depois como filho do deus-sol, Amon-Rá. Em ambos os casos, eram os intérpretes da vontade divina e os únicos juízes da existência dos seus súbditos, do uso das terras agrícolas e dos tempos da sementeira e da colheita, dando a conhecer as suas ordens junto do povo mediante uma vasta hierarquia de sacerdotes, ministros, burocratas e escribas.

Não é conhecida a origem exacta destas transformações. Autores há, como por exemplo, Flinders Petrie e w: B. Emery, que pensaram ter resultado da chegada de uma raça dominante proveniente da Ásia, o que parece não .ser o caso, já que as civilizações fluviais do Próximo Oriente parecem ter possuído dinastias equivalentes bastante mais tarde do que o Egipto. É muito possível, na realidade, como supôs Gordon Childe, que a idéia de um domínio absoluto único sobre todos os bens da terra tenha tido uma evolução autônoma nas circunstâncias específicas do delta e do vale inferior do Nilo, com um afluxo permanente de novas populações pressionadas pelo deserto em direcção aos seus oásis, e inteiramente dependentes (muito mais do que quaisquer outras civilizações fluviais) das inundações anuais do rio. Já os agricultores dos tempos de Gerzé produziam três vezes mais do que o necessário para a sua alimentação e de suas famílias. Contudo, uma tal abundância de excedentes podia facilmente dar origem a divisões e a guerras com vista à sua apropriação, impedindo ao mesmo tempo a sua utilização plena. Além de que o controlo exclusivo dos excedentes permitiria que parte deles fosse exportada em troca de outros bens inexistentes no Egipto, ao mesmo tempo que os mandantes e o número sempre crescente dos seus assistentes eram alimentados e recompensados com a outra parte desses excedentes e com a nova riqueza proveniente do comércio, e podiam entregar-se a uma vida de luxo de que os seus palácios, templos e pirâmides são testemunho. Neste caso, a monarquia absoluta e divina do Egipto seria proveniente de um conceito originariamente africano.

E também não se deve esquecer que o delta e o vale do Baixo Nilo, embora admiravelmente dotados para o desenvolvimento de uma agricultura capaz de alimentar uma população densa, estavam, por outro lado, naturalmente privados de muitos materiais, como a pedra, os metais e a madeira, indispensáveis a uma cultura materialmente avançada. Assim, à medida que o Egipto se tornava mais rico e se constituía uma classe dominante, aumentava também a necessidade do comércio exterior; e com o deserto a leste e a oeste, a única via eficiente de transporte das mercadorias não podia ser outra senão a via fluvial e marítima. A falta de madeira para construir grandes navios terá feito com que o antigo Egipto nunca se tenha tornado uma grande potência marítima; como veremos, o seu comércio nos mares Mediterrâneo e Vermelho era realizado por barcos estrangeiros. Porém, embarcações fabricadas com feixes de papiro eram capazes de subir o Nilo até ao interior de África, até à Núbia, a região onde os povos de línguas hamíticas estavam em contacto com os povos negros do Sudão, onde a actividade comercial e militar do Egipto começou cerca de 2500 a.C.

No tempo da XII dinastia faraónica (cerca de 2 000-1 780 a. C.) foi realizada a colonização da Núbia até à área de Semna, junto da segunda catarata, e toda uma série de postos fortificados foi estabelecida nas margens do Nilo, de modo a que pudessem ser encaminha- dos para o Egipto fornecimentos regulares de ouro, madeira e outros produtos tropicais. Esta aventura colonizadora seria interrompida pelos distúrbios contra o governo egípcio, associados ao nome dos Hicsos, invasores nómadas vindos do leste, para ser retomada sob o Novo Império (cerca de l550-l050 a.C.), no momento em que os limites dos núcleos de povoamento e comerciais atingiram a quarta catarata ou mais longe ainda, mediante uma série de expedições militares contra um ou vários chefes núbios. Foi então que se construíram cidades, palácios e templos, colocados sob a autoridade de vice-reis enviados pela corte dos Faraós e onde uma administração egípcia era encarregada de manter a ordem necessária à actividade comercial e à recolha regular dos tributos, de tal modo que ao norte começaram a afluir quantidades cada vez maiores de ouro, escravos, madeira, ébano, marfim, goma e penas de avestruz.

No século IX a.C., estalaram no Egipto desordens civis (em que os soldados núbios desempenharam aliás um certo papel). Tendo diminuído o controlo do Egipto sobre a Núbia, o vice-reino tornou-se um estado independente, o reino de Kush, cuja capital teria sido Napata, logo a seguir à quarta catarata, e cujo poderio superou por algum tempo o do estado egípcio. No tempo dos reis Kashta e Piankhy (à volta de 770-716 a. C.), os exércitos de Kush conquistaram o Egipto, estabelecendo aí a xxv dinastia que reinou até à conquista do Egipto pelos Assírios em 671-666 a. C. Ignora-se a origem destes reis de Kush. Tanto podem ter sido descendentes de colonos ou de funcionários egípcios, como de famílias de chefes submetidas durante o Novo Império. Se assim foi, (eles) assimilaram progressivamente a cultura egípcia, talvez através da influência dos sacerdotes do templo de Amon-Rá instalado em Jebel Barkal. Depois de conquistarem o Egipto, decerto consideraram-se Egípcios, e começaram a ser enterrados em pirâmides. Os seus súbditos incluíam tanto negros como povos de língua hamítica, e depois da sua retirada forçada do Egipto no século VII, a influência egípcia em Kush entrou em declínio. As províncias meridionais de Kush tornaram-se mais importantes do que a região do norte onde a influência egípcia primeiramente se fizera sentir, assim como a sede do governo foi defenitivamente deslocada para uma cidade mais a sul, Meroé, situada entre a sexta catarata e a confluência de Atbara.

Deve ter havido um conjunto de razões para esta deslocação de Kush em direcção ao sul. A mais provável é o reaparecimento de tropas egípcias em Kush, no início do século VI. Embora não tenham reconquistado o reino, causaram destruição na província do norte. Podem, assim, ter acelerado o processo de desertificação iniciado com o aumento da população de Kush e dos seus rebanhos. Outro factor, resultante da conquista assíria do Egipto, consistiu no facto de a metalurgia do ferro se tornar uma importante actividade. A região norte de Kush não possuía madeira adequada para alimentar os fornos de fundição e as forjas, enquanto a região sul era mais arborizada e detinha maiores reservas de minério de ferro. Além disso o comércio ao longo do Nilo declinara com o recomeço das actividades militares egípcias no século VI, enquanto a partir do século III, o comércio no Mar Vermelho iniciou a sua expansão sob a direcção de mercadores gregos de Alexandria, e uma percentagem cada vez maior do comércio externo de Kush começou a dirigir-se para leste a partir de Meroé até à costa da Eritreia. No entanto, no início da era cristã, surgiu aí uma nova potência para controlar o comércio com o interior, o reino semita de Axum que recebeu influências gregas. Em 350 a. C. ou mesmo antes, um exército do rei Ezana de Axum foi enviado contra Kush. Tal facto é geralmente considerado como o fim deste reino, mas na inscrição em que Ezana registou a sua vitória, é de notar que não aparece referência a Meroé, o inimigo é designado por «Noba» e uma das cidades é chamada «Alwa». Ignora-se quem eram exactamente estes Noba. Contudo os Romanos conheceram um povo no norte da Núbia, a partir do século III a. C., a quem chamaram «Nobata», e por volta do século VI o primitivo território de Kush esteve organizado em três reinos, dos quais um mais a norte era designado em latim por «Nobatia» e o mais a sul por «Alodia»; em arábico estes nomes passaram a Nuba e Alua. É possível concluir que a antiga Meroé fora destruída pelos Noba antes da expedição de Ezana, e que estes povos mais tarde constituíram em seu lugar três reinos.

Diz-se vulgarmente que o reino da Núbia governado a partir de Meroé representa uma antiga tradição egípcia de organização política «que se deteriorou até ter um fim miserável e inglório» (Como disse A. J. Arkell). É certo que os aspectos egípcios da cultura meroítica foram desaparecendo. Há indícios por exemplo de que, no início do século IV a. C., o egípcio antigo se transformou numa língua clássica, usada nas inscrições, mas não na vida quotidiana. No século II os hieróglifos egípcios eram usados em inscrições em meroítico (uma língua que não se encontra totalmente decifrada, mas que não parece estar na raiz do núbio moderno, talvez introduzido pelos Noba). Finalmente, empregaram a escrita cursiva. Os últimos reis de Meroé foram enterrados modestamente, em comparação com os anteriores, e em pirâmides ainda menos pretensiosas. Mas, por essa altura, já não havia Faraós no Egipto e o seu país fora submetido ao poder de estrangeiros, Gregos e Romanos, havia já seis séculos. Do ponto de vista africano, é preferível considerar o reino de Meroé como um país onde as tradições egípcia e negra se puderam encontrar e fundir, e onde as regiões interiores do Sudão puderam contactar com os mundos grego-helenísticos e romanos e com o comércio e a cultura do Mar Vermelho e do Oceano índico.

Dois aspectos de Kush-Meroé têm sido considerados como particularmente significativos para a história de África subsariana. Como vimos, pensa-se que a Núbia deve ter sido uma das principais vias por onde o conhecimento da metalurgia do ferro atingiu os povos negros. Os enormes montes de escória ainda hoje visíveis na antiga Meroé revelam sem dúvida alguma que aí existiu um centro importante de metalurgia do ferro, a ponto de influenciar pelo menos os povos vizinhos do Sudão oriental. Em segundo lugar, e embora sujeito a maior controvérsia, supõe-se também que foi essa a via por .onde os aspectos da antiga cultura egípcia, em especial os conceitos de realeza divina e administração hierárquica, alcançaram os povos negros e influenciaram o seu desenvolvimento.

Afirma-se frequentemente que as formas de organização monárquica desenvolvidas entre os povos negros subsarianos e que aparentemente existiam já no primeiro milénio d. C. revelam um modelo comum. O rei, quando não era propriamente um deus, era considerado como descendente dos deuses, e era por isso separado dos homens comuns por uma série de rituais. Ele era raramente visto em público, geralmente dava audiência atrás de uma espécie de cortina, comunicava essencialmente através de porta-vozes e não podia ser visto a realizar simples actos mundanos como comer e beber. Ele era o representante dos deuses para o controlo do uso da terra de que o povo dependia, determinava as épocas de sementeira e colheita, ocu- pando o papel central nas grandes cerimónias apropriadas a cada época. Pensava-se que a fertilidade do solo, a queda regular de chuvas e, portanto, todo o bem-estar da comunidade estavam dependentes dele e da sua contínua prosperidade; a sua falta de saúde era um desastre que ou tinha de ser dissimulado ou por vezes terminava com o seu assassínio ritual. Quando morria era enterrado com grande pompa juntamente com as mulheres e comitiva. Na sua corte havia geralmente um lugar importante para uma grande rainha ou rainha-mãe, que era a mulher principal da família real e não a esposa. Abaixo do rei havia uma hierarquia de grandes funcionários que se ocupavam da corte e que impunham a ordem e os tributos aos súbditos das comunidas clânicas e aldeãs. As mercadorias mais importantes do comércio a longa-distância, como ouro, marfim, cobre e sal eram em regra monopólios reais, e o palácio real era o centro principal dos maiores artesãos do país, tais como ourives, cinzeladores de metais raros, tecelões e músicos.

Este modelo tem sido identificado por etnógrafos e historiadores através da África negra: por exemplo, nos reinos lacustres da África oriental, nos estados de Zimbabué-Monomotapa na região austral e na África ocidental, em monarquias como as de Kanem e Benim. Há evidentemente alguma afinidade com a monarquia divina do antigo Egipto, embora não se saiba exactamente até que ponto, visto que à situação do antigo Egipto foi dada por vezes uma interpretação conhecida apenas através de provas arqueológicas, por analogia com outras partes de África, segundo a moderna pesquisa etnográfica. Contudo, tem-se argumentado que o modelo egípcio foi difundido no resto do continente através de Kush, o seu posto avançado a sul, uma vez que a primeira monarquia divina conhecida em África é a do antigo Egipto. Isto levanta naturalmente a questão de saber se as origens da monarquia em Kush eram de inspiração egípcia desde o início, ou se ela resultou de uma evolução interna que mais tarde sofreu a influência egípcia. Mas, se os principais conceitos de realeza e governo foram difundidos a partir do vale do Nilo, é razoável supor que a difusão se deu a partir de Kush em vez do Egipto, pois existem poucos vestígios da difusão da influência do antigo Egipto através do deserto a oeste e a leste do Nilo, com a única grande excepção da propagação do culto de Amon-Rá para oeste ao longo das rotas caravaneiras que atravessavam os oásis, como Siwa, até ao noroeste de África. É no entanto difícil de compreender a difusão da realeza divina para além de Meroé.

Há poucos vestígios da extensão da influência meroítica acima do Nilo Branco, onde os povos nilo-sarianos nada sabiam da civilização urbana e pouco de comércio a longa distância. São necessárias outras explicações para as duas principais manifestações de governo monárquico, com reis sagrados, que foi registado entre esses povos nilóticos. Um deles é o reino de Shilluk, cujo poder atingiu a norte o que se supõe serem os limites meridionais da autoridade de Meroé. Mas o reino de Shilluk desenvolveu-se apenas por volta do século XVI, o que significa cerca de doze séculos depois da destruição de Meroé, e deveu-se, ao que parece, à invasão e conquista por parte de um ramo dos Luos, um grupo nilótico vindo do sul. Porém, a maioria dos Luos - como em geral todos os povos nilóticos - permaneceram sem pátria; o outro exemplo antigo de realeza divina num contexto nilótico, resultou da conquista, mais ou menos no mesmo período, de agricultores de língua banto pelos Luos, mais a sul na região que hoje é o Uganda. Aí, no reino Bunioro, torna-se bastante evidente que um ramo meridional dos Luos se apropriou de um sistema monárquico que já estava implantado no país, em vez de introduzir a realeza divina entre os Bantos.

Se se quiser considerar a hipótese da difusão a partir de Meroé, é mais plausível supor que esse tipo de monarquia se difundiu através do Nilo Azul, influenciando os Sidamas, povo de língua cushítica habitante da região sudoeste do planalto etíope, cujos reinos Kaffa e Enarea, ou seus precursores, devem ter sido por sua vez influenciados pela África banto. Este facto pode ter ocorrido através de um substrato cushítico dominado por imigrantes Bantos. Só uma explicação deste tipo pode esclarecer como um conjunto de crenças e práticas originárias do vale do Nilo podiam ter chegado a tempo de influenciarem, por volta do século XII ou ainda anteriormente, os reinos bantos do Zimbabué/Monomotapa.

Mas isto é uma simples conjectura. Realmente existem provas consistentes de contactos meroíticos com o mundo exterior, além do Egipto, somente para leste onde, como se viu, a influência meroítica acabou por ser apagada pela potência rival de Axum. Há alguns vestígios muito ténues da propagação da influência núbia para ocidente através do Sudão até cerca do Lago Chade (e daí até Kanem). Mas, segundo as possibilidades de datação, este facto não parece relacionar-se com a antiga Meroé mas com os reinos cristãos que se constituí- ram em seu lugar a partir do século VI d. C. Não há, portanto, nada que sugira uma forte influência de Meroé sobre os reinos do Sudão ocidental, o primeiro dos quais, o antigo Gana, se encontrava no extremo ocidental e decerto existia já no século VIII; todos eles tinham importantes relações exteriores não com o leste mas com o norte, através do Sara, por intermédio dos Berberes nómadas do deserto.

Com efeito, parece mais razoável pensar que, por toda a África e particularmente nos vales dos rios, a realeza divina possa ter resultado de uma evolução mais ou menos natural a partir do desenvolvimento da agricultura. À medida que uma comunidade aumentava e se tornava cada vez mais dependente das colheitas que os seus campos produziam e da água que os alimentava, deve ter havido maior necessidade de um controlo unificado das suas vidas. Desde que surgiu a crença universal na necessidade de prestar culto aos espíritos da terra e da água, tornou-se mais importante a mediação dos antepassados no mundo dos espíritos. O dirigente de cada sociedade, o descendente directo do antepassado fundador do grupo, o homem que primeiro os guiara no desbravamento da terra e discutira a sua utilização com os espíritos, tornou-se o primeiro intermediário com o outro mundo, e desse modo foi investido de qualidades sobrenaturais. Se estes factos aconteceram e se repetiram, a realeza faraónica deve ser encarada como uma evolução ocorrida no antigo Egipto que pode ter sido difundida daí para o resto de África, como um exemplo mais sofisticado do desenvolvimento geral africano, resultante das condições específicas do Baixo Nilo e do Delta. Deste modo, pode ter sido um modelo muitíssimo influente, especialmente via Meroé, a tal ponto que outras monarquias divinas, podem ter sido levadas a adoptar ou adaptar algumas das suas características, por vários meios indirectos.

Já foi mencionado que o antigo Egipto não se orientou para o mar, essencialmente porque faltava madeira para construir barcos adequados a esse meio. Por volta de 3000 a. C., é certo que já se importava madeira do porto de Biblo, no Líbano, em troca de produtos manufacturados como papiro. Havia igualmente comércio de cobre com Chipre, e Creta minóica começou a tornar-se um importante entre- posto marítimo para o Mediterrâneo oriental. Em toda essa área a riqueza do Egipto tornara-se, sem dúvida, um importante estímulo para o comércio e para o crescimento das cidades e da civilização humana, sendo ainda esse desenvolvimento que trouxe a África os dois mais importantes povos marítimos e mercantis do Mediterrâneo oriental, os Gregos e os Fenícios.

Ao iniciar as trocas comerciais entre Creta minóica e o Egipto, as comunidades gregas marítimas começaram a prosperar e a multiplicar-se, colonizando muitas terras ao longo do litoral mediterrânico oriental. A partir do fim do século VII, estabeleceram-se numerosas colónias de emigrantes gregos nos férteis vales da Cirenaica (assim designada por causa da colónia de Cirene). Estas foram essencialmente núcleos agrícolas, que contavam com o Mediterrâneo para os contactos exteriores, pouco influentes aliás no resto de África, da qual estavam na verdade separados, por todos os lados, pelo deserto.

Muito mais importante foi a colónia de comerciantes que se se estabeleceu nessa época em Naucratis, próximo de Roseta, um dos braços do Nilo. Os comerciantes gregos chegaram a dominar o comércio externo egípcio e grande parte da sua actividade comercial, quando ocorreu o declínio da organização interna egípcia depois das invasões assíria e persa. Em 332 a. C., e influência grega no Egipto intensificou-se com a conquista do território aos Persas por Alexandre da Macedónia. Um dos seus generais, Ptolomeu, estabeleceu uma nova dinastia reinante e a capital foi transferida do Nilo para uma nova cidade, Alexandria, no litoral mediterrânico. Sustentada pela riqueza agrícola do Egipto assim como pelo papel dominante que assumiu como charneira do comércio entre o Mediterrâneo, o Mar Vermelho e a costa ocidental do Oceano 1ndico, Alexandria tornou-se em breve a maior das cidades gregas, chegando a possuir, segundo se crê, uma população de 300000 cidadãos e outros tantos escravos. Uma parte da sua riqueza foi utilizada no apoio à actividade intelectual de uma forma activa e verdadeiramente internacional, razão pela qual a filosofia e a ciências gregas se fundiram com a herança das antigas civilizações fluviais do Egipto e da Ásia, constituindo-se assim uma plataforma de conhecimento e reflexão a partir da qual foi possível o progresso posterior. O Judaísmo teve aqui a sua primeira implantação e, em resultado disso, Alexandria tornou-se o principal centro de desenvolvimento da religião e filosofia da cristandade.

Os grandes concorrentes dos Gregos no comércio mediterrânico foram os Fenícios. Fenícia era o nome que os Gregos .davam ao litoral da Síria e do Líbano, habitado por um povo de língua semita que noutro contexto é conhecido sob a designação de Cananeus. Biblo foi um dos seus portos mais antigos: mais tarde Tiro e Sídon tornaram- se as principais cidades. Devido a uma região interior árida e inóspita, os Fenícios procuraram naturalmente no mar o seu sustento, dispondo de uma situação privilegiada para servir de intermediários comerciais entre as civilizações fluviais da Mesopotâmia e do Egipto. Não desenvolveram uma civilização original, mas foram, no entanto, entre outras coisas, os inventores do alfabeto, o mais flexível de todos os sistemas de escritas e actualmente a base de toda a escrita no mundo, com excepção da China e do Japão.

Geralmente, os Fenícios eram suplantados pelos Gregos na concorrência pelo comércio marítimo do Egipto, mas para ocidente man- tiveram o seu predomínio. Aqui, o principal benefício era o acesso à prata e ao chumbo e a outros metais da Península Ibérica e de outras regiões do ocidente europeu ainda mais distantes. Enquanto os Gregos se expandiam para ocidente ao longo da costa do Mediterrâneo, a rota fenícia para oeste acompanhava o litoral africano. Remando contra os ventos predominantes de oeste (só podiam velejar quando o vento soprava de popa) e preferindo navegar de dia, ancorando as galeras junto às praias durante a noite, os Fenícios necessitavam de numerosos pontos de apoio no litoral. Por volta do século VIII a. C., alguns destes pontos a oeste da Cirenaica estavam a tornar-se importantes colónias urbanas.

Até as colónias mais reduzidas, viradas para o mar e pouco interessadas no continente a que voltavam as costas, contribuíram provavelmente para o processo que transformou as tribos Berberes das planícies e vales costeiros em agricultores sedentários pertencentes a uma civilização mediterrânica, enquanto os seus parentes nas montanhas e estepes do interior continuavam a ser pastores nómadas e independentes. As colónias fenícias necessitavam de géneros alimentícios para consumo e fornecimento das galeras e por vezes também para exportação e os agricultores berberes recebiam em troca os produtos manufacturados do mundo mediterrânico. Na realidade, recebiam algo mais: ao compartilharem com os Fenícios os mesmos fundamentos linguístico-culturais afro-asiáticos, os Berberes revelaram-se muito receptivos às influências culturais semitas e a influência fenícia abriu caminho à aceitação das grandes religiões monoteístas, primeiro do Judaísmo e posteriormente do Cristianismo e do Islamismo. Mesmo os pastores do interior não escaparam totalmente ao processo de transformação. As colónias fenícias e as áreas vizinhas de desenvolvimento agrícola ofereciam boas oportunidades para os assaltos e pilhagem, e mais tarde, para a crescente troca de gado, peles e produtos pecuários para o artesanato, além dos cereais que no Inverno alimentavam os homens e o gado.

Houve três áreas principais onde os entrepostos organizados pelos Fenícios constituíram bases para o crescimento de grandes cidades. Uma delas é a actual região do norte da Tunísia, a maior área particularmente adequada a uma agricultura próspera, em toda a África de noroeste. Além disso, a região era ainda importante para os Fenícios devido à sua posição estratégica, controlando o estreito da Sicília, entrada para o Mediterrâneo ocidental. Na própria Sicília, os Fenícios encontraram-se em concorrência directa e tenaz com os colonos gregos: por isso, tornou-se vital para eles assegurar um controlo único a partir da costa e dos portos da Tunísia. Para tal efeito concentraram aí enormes colónias que podiam ficar independentes do auxílio da pátria distante, graças ao apoio certo da agricultura das planícies. Com efeito, enquanto o poder fenício na metrópole sofria cada vez mais com os ataques de povos asiáticos como os Assírios e os Persas, as suas colónias na Tunísia começaram a agir com maior autonomia. Finalmente, por volta do século VI, a maior delas, Cartago, emergiu como uma potência independente que controlava todas as outras colónias em África e no Mediterrâno ocidental. As crescentes responsabilidades imperiais e comerciais de Cartago corresponderam à sua importância como cidade, cuja população se calcula em cerca de 400000 habitantes, e que requeria forças militares e navais consideráveis. Por isso, durante o IV século ela estendeu o seu controlo sobre a planície da Tunísia a fim de assegurar o fornecimento de alimentos e de soldados berberes para o seu exército.

As outras zonas mais importantes do desenvolvimento urbano fenício no noroeste africano foram a região hoje chamada Tripolitana, onde se encontravam as cidades de Léptis Magna, Oea e Sabrata, e a costa atlântica de Marrocos, onde a cidade principal era Lixus (actual Larache). Ignoram-se as razões por que se desenvolveram grandes cidades nessas duas zonas. É certo que Lixus estava situada no litoral mais próximo da região da planície arável do noroeste africano, mas Trípoli actualmente não possui praticamente nenhuma zona agrícola. Contudo, nos tempos antigos era diferente, pois os Cartagineses (e depois deles os Romanos) eram muito dotados para a agricultura em condições de semi-aridez, e na Trípolitana, com a ajuda de um sistema de irrigação mantido por mão-de-obra escrava, conseguiram cultivar cereais e oliveiras, tanto para exportação como para consumo local. De facto, nos tempos antigos Tripoli estava muito próxima do deserto.

Parece provável que uma grande parte da importância da Tripolitana e de Lixus tenha resultado do facto de estarem situadas no término de vias comerciais que se dirigiam para o sul através do Sara até ao Sudão habitado por povos negros. Foi atrás mencionado que os Fenícios, à medida que se estabeleceram ao longo do litoral do norte de África, estavam muito mais interessados em África, do que em garantir o acesso ao seu extremo ocidental. O continente a norte do Sara fornecia poucos produtos comerciáveis que não pudessem ser obtidos mais rapidamente algures no Mediterrâneo. Mas é provável que, à medida que os Fenícios se foram tornando Cartagineses em contacto mais estreito com os Berberes, e mais dependentes deles em alimentos para abastecerem as suas cidades, por esse motivo, como povo comerciante, se tenham interessado pela possibilidade de adquirir bens valiosos ou exóticos vindos de terras mais a sul das suas, ou seja do Sara ou mesmo de mais além.

Os contactos humanos através do deserto subsistiriam desde a altura em que o Sara era uma terra de pastagem com uma população comparativamente mais estável, e subseqüentemente, teriam sido perpetuados através da prática da transumância. Tanto nos limites setentrional como meridional do deserto, os pastores e os agricultores só teriam a lucrar com o intercâmbio dos seus produtos. Por conseguinte, terá sido possível que pequenas quantidades de produtos originários da África tropical passassem de tribo em tribo através do deserto até ao norte de África, enquanto, e inversamente, os produtos mediterrânicos e sarianos tenham alcançado o Sudão. Alguns pastores sarianos compreenderam sem dúvida que o comércio ou a pilhagem praticadas no deserto (ou, com o mesmo fim, os assaltos aos mercadores no deserto) proporcionavam oportunidades vantajosas para enriquecer. Formaram-se bandos, um dos quais era o dos Garamantes do Fezzan, no Sara central a sul de Tripoli, que são descritos por Heródoto no século V a. C. como um povo que «usava carros de quatro cavalos para atacar os Etíopes» (Oito séculos mais tarde, Ptolomeu afirmou que os assaltos dos Garamantes atingiam as terras onde havia rinocerontes). No século I a. C. o geógrafo Estrabão escreveu sobre os assaltos feitos por povos mais ocidentais, os Nigrites, que utilizavam carros e viviam provavelmente no oásis de Tuat e pelos Parusii que habitavam próximo do litoral atlântico. Heródoto refere ainda uma rota de oásis desde o Fezzan até às montanhas de Hoggar, e um grupo de Nazamons da Cirenaica, que atravessou o Sara em direcção a sudoeste até atingir «uma vasta extensão de terreno pantanoso e depois dele uma cidade, em que todos os habitantes eram de pequena estatura e todos negros. Um grande rio com crocodilos corria de oeste para este». Supõe-se, geralmente, que este rio era o Níger.

Diz-se que a actividade dos condutores de carros sarianos, como os Garamantes e Parusii consistia na pilhagem e não no comércio, embora uma conduza facilmente à outra. Encontra-se actualmente a confirmação segura de que os condutores de carros realmente atravessavam o deserto em direcção à terra dos negros. Foi descoberta uma grande quantidade de gravuras rupestres representando veículos com rodas, puxados por quatro animais de quatro patas em posição de atravessar o deserto ao longo de dois caminhos de terra (onde hoje existem estradas transitáveis). Um deles - o que confirma a descrição de Heródoto - corre para sudoeste do Fezzan e Gadames, através da passagem mais estreita do Sara até à curva do Níger, e o outro - confirmando Estrabão - vai desde a parte sul de Marrocos em direcção aos vales superiores dos rios Senegal e Níger. Foram interpretados como provas de rotas comerciais que terminariam respectivamente em Tripoli e Lixus.

Porém, partindo do princípio de que os veículos com rodas eram de facto quadrigas, convém salientar que os carros antigos eram veículos ligeiros inadequados ao transporte de mais de uma ou duas pessoas ou a percorrer distâncias muito grandes; os vestígios não indicariam, nesse caso, um comércio transariano muito significativo, mas apenas a existência de duas estradas ao longo das quais o contacto tribo a tribo, através do Sara, seria mais fácil do que o normal. Mas os desenhos - ou pelo menos alguns deles - poderiam representar carros de bois, constituindo, desta feita, indícios de alguma espécie de comércio regular. Assim sendo, paira um mistério sobre a natureza dos produtos transportados. Não surgiram nas estações arqueológicas na parte do Sudão a ocidente do vale do Nilo quaisquer produtos de procedência mediterrânica de qualquer época remota. O único bem oriundo do sul importado para o norte de África, e com algum impacte nas primeiras fontes literárias é o carbúnculo, uma pedra preciosa cuja identidade não foi determinada e que, de qualquer forma, não necessitaria de ser transportada em carros. Mais tarde, um bem importante levado para o Sudão, oriundo do Sara, foi o sal, mas não teria deixado vestígios para os arqueólogos, e as principais importações do norte de África vindas do Sara incluíam ouro em pó, escravos e artigos como marfim, peles e penas de avestruz. Na época clássica, não teria sido necessária a importação destas últimas, pois os animais corriam ainda livremente no próprio norte de África. Nem os escravos negros nem o ouro em pó necessitariam de carros para serem transportados, nem tão-pouco parecem ter estado presentes no norte de África na época clássica, na medida em que seguiam o percurso regular das caravanas de camelos que comerciavam no Sara por alturas de meados do primeiro milénio d. C. Todavia, parece que os Cartagineses conheciam bastante bem as possíveis vantagens das relações comerciais com o Sudão para pensarem em tomar directamente a iniciativa. Na qualidade de povo marítimo, era pouco provável que desafiassem o poder das tribos que controlavam o deserto; a melhor alternativa seria explorarem as perspectivas de empreenderem o comércio marítimo ao longo do litoral sariano.

Se por um lado dispomos de abundantes vestígios arqueológicos sobre a costa oriental de África no que se refere às actividades, durante o período clássico, de comerciantes vindos do mar, por outro nada se encontrou sobre a costa ocidental abaixo do sul de Marrocos, em que Mogador (Essauira) é a colónia cartaginesa mais conhecida a sul. São meramente literárias as provas de que os Cartagineses foram mais além, e muito questionável a sua interpretação. Heródoto, ao escrever no séc. V, afirma que para além do Estreito de Gibraltar, e possivelmente além da sua colónia mais distante, os Cartagineses negociavam em ouro através da troca muda. Esta forma de comércio sugere ou que o comércio tinha um carácter transitório com pessoas que não estavam acostumadas a lidar com estrangeiros, ou - o mais provável - que os Cartagineses queriam ocultar os seus pormenores de possíveis concorrentes*[A «troca muda» ou «comércio silencioso» tornou-se uma prática muito conhecida quando comerciantes de outras regiões começaram a negociar com povos não acostumados a comerciar com estrangeiros (casos posteriores ocorridos na África ocidental são referidos nos capítulos 3 e 4). Diz-se que funcionava do seguinte modo: os visitantes colocam as mercadorias que trazem para troca e depois afastam-se para longe. As pessoas da região aproximam-se e depositam ao lado das mercadorias uma quantidade do seu produto que consideram como o justo valor de troca e em seguida retiram-se. Os comerciantes voltam e retirar-se-ão de novo se não estiverem satisfeitos com a troca, na esperança de receberem maior quantidade de produtos locais. Quando estão satisfeitos, levam consigo os produtos locais e deixam as suas mercadorias. Se a troca muda acontecia realmente desta forma clássica é outra questão. Há razões para crer que, pelo menos, na África ocidental, as histórias sobre a troca muda ocultavam sistemas de corretagem local (e podem ter sido difundidas para proteger os interesses dos corretores)].

O Periplus do séc. IV, falsamente atribuído a Cilax, refere que os Cartagineses comerciavam, a partir de uma ilha chamada Kerne, com uma grande cidade dos Etíopes, conquanto não o ouro, mas peles, marfim e vinho (embora uma outra fonte do séc. IV associe Kerne ao ouro). Por último, temos o chamado Periplus de Hanão, um dos raros textos cartagineses que sobreviveu, todavia, apenas numa versão em grego. Tanto a sua autenticidade como a sua interpretação são perfeitamente discutíveis, mas trata-se, manifestamente de uma narrativa de uma ou mais viagens do séc. V com o intuito de estabelecer colónias ao longo da costa atlântica, a mais meridional das quais se situava na ilha de Kerne, e averiguar depois a possibilidade de comerciar mais longe.

Kerne seria talvez uma das ilhas próximas da costa ocidental do Sara, tal como Arguim (que os Portugueses viriam a utilizar como feitoria no século xv), ou uma ilha da foz do rio Senegal, uma vez que se diz que Hanão, logo a seguir a Kerne, subiu um grande rio. O principal problema do Périplo de Hanão reside na determinação da distância a que os exploradores cartagineses se aventuraram. Alguns interpretam o texto como revelando que Hanão atingiu a Serra Leoa ou mesmo o Camarões, enquanto outros rejeitam a segunda parte do Périplo considerando-a como uma amálgama de velhos mitos. Na perspectiva da história africana, no entanto, a controvérsia revela-se estéril. Parece evidente que os Cartagineses tenham explorado as possibilidades do comércio marítimo com o Sudão, e que possam ter atingido os seus limites a noroeste, próximo do Senegal. É no entanto irrelevante saber até onde exploraram, visto que é quase certo que estava para além das suas possibilidades efectivas manter um comércio marítimo regular com a África ocidental. A costa do Sara, seca e inóspita, tornou praticamente impossível a manutenção de pontos de apoio regulares que eram tão vitais para as acções marítimas dos Cartagineses e o comércio com os seus poucos habitantes nómadas não seria muito compensador. Os Cartagineses tinham de enfrentar também problemas graves de técnica naútica. Não navegavam apenas no delimitado Mediterrâneo mas no alto mar onde as enormes vagas rebentavam directamente em praias abertas. Além disso, tanto os ventos predominantes como as correntes perto da costa atlântica até ao Cabo Verde vinham do norte. Isso terá facilitado o primeiro reconhecimento da costa para sul, mas terá dificultado enormemente o regresso das galés em direcção ao norte. Os Cartagineses devem ter concluído que as galés mediterrânicas não estavam adaptadas ao estabelecimento de uma navegação regular em ambas as direcções ao -longo da costa atlântica a sul de Marrocos.

Portanto, muito embora a viagem da descoberta de Hanão possa ter sido longa e bem sucedida, não parece ter dado continuidade ao tráfego marítimo com a África ocidental. O comércio que os Cartagineses realizavam com a África negra manteve-se indirectamente através da mediação das tribos nómadas berberes que dominavam o Sara ocidental. A influência cartaginesa em África ficou, assim, efectivamente limitada às áreas agrícolas colonizadas no norte de África próximo das suas cidades. Essa influência foi naturalmente mais forte na região contígua de Cartago e em segundo lugar na Numídia, conjunto de vales e montanhas na Tunísia ocidental e Argélia oriental onde, na época da luta decisiva pela sobrevivência de Cartago contra o imperialismo romano, alguns chefes Berberes formaram grandes reinos para explorar a crescente prosperidade agrícola dos seus povos.

O novo poder romano não esteve inicialmente muito interessado no domínio do noroeste africano. Um objectivo muito mais importante para os interesses romanos em África foi o Egipto, com a sua grande riqueza agrícola e o acesso ao rico comércio da Ásia e do Oceano índico. Na realidade, à medida que o poder imperial romano aumentou, o Egipto caiu quase insensivelmente sob o seu domínio, sendo por fim organizado em província romana em 30 a. C. Muito antes, Roma havia-se envolvido num conflito com Cartago pelo controlo da Sicília, que tinha uma importância estratégica vital para ambos os impérios. Roma continuava a temer - ou a cobiçar - Cartago mesmo depois de ter deixado a Sicília (201 a. C.) e desencadeou ainda, em 149, uma guerra a fim de destruir o poder cartaginês na própria metrópole. Este fim foi alcançado em 146 a. C., quando a velha cidade de Cartago foi totalmente destruída e a terra onde estivera situada foi votada à agricultura.

Mas não terminou aqui a questão. Para prevenir o ressurgimento do poder cartaginês, os Romanos continuaram a ocupar as planícies da Tunísia, com as quais constituíram uma província que denominaram África. Mas isso conduziu-nos a um conflito com os reinos berberes vizinhos, de que resultou a Numídia ter de ser anexada ao Império para assegurar o seu domínio em África. Os Romanos enfrentaram então um problema idêntico ao que, mais tarde, iria afectar todos os imperialistas no continente africano, nomeadamente os Franceses depois da ocupação da Argélia em 1830. As fronteiras do seu domínio imperial eram alvo de ataques contínuos por parte das tribos vizinhas. Finalmente, os Romanos decidiram ocupar quase toda a terra arável do Egipto até Marrocos (chamada Mauritânia mais tarde), e fixar uma fronteira militar contínua, o limes, que procuraram guarnecer com soldados regulares, ao longo da periferia da estepe sariana.

Esses homens, juntamente com outros imigrantes que procuravam novas oportunidades nas colónias, fixaram-se na região e desse modo deram origem a uma nova população sedentarizada Romano-Berbere. Dedicados à exploração agrícola para alimentar a Roma imperial e os seus exércitos, os Romano-Berberes tornaram o norte de África uma parte integrante do Império Romano, como o comprovam actualmente as ruínas de numerosas cidades, fórums, teatros, termas e vilas.

O Império Romano consolidou assim uma anterior tendência característica da história no norte de África, devido às influências egípcia, grega e fenícia. As suas áreas cultivadas e os seus habitantes foram, com efeito, separados do continente africano e atraídos firmemente para a esfera da civilização mediterrânica, uma civilização que tinha já assegurado as suas raízes intelectuais na fusão da filosofia grega com o Judaísmo, da qual resultou o Cristianismo e, em 334 d. C., a conversão do Imperador Constantino. Alexandria continuou a ser um dos maiores centros desta civilização, e foi aí, mais do que em qualquer outro lado, que uma seita judaica dissidente se transformou em igreja cristã. O padre fundador dessa moderna doutrina cristã, Atanásio era um Alexandrino, tal como o seu oponente Ario (c. 256-336) o propagado r da heresia que tem o seu nome (arianismo) e que nasceu na Líbia. A nova Cartago que os Romanos construíram era também um importante centro tanto do Judaísmo como do Cristianismo, e foi aí que surgiu S.to Agostinho (nascido na Numídia em 334, e falecido, como bispo, em Hipona em 430) o maior de todos os primeiros padres cristãos.

O papel do antigo Judaísmo no norte de África, não é facilmente compreendido, por se lhe terem sobreposto o Cristianismo e o Islamismo, parecendo no entanto ter sido bastante importante. Além de ter preparado o caminho para as duas últimas religiões monoteístas semitas, alguns aspectos do Judaísmo parecem ter sido integrados logo de início na cultura berbere, tanto de pastores como de agricultores sedentarizados. Recorde-se que durante o século IX a. C., período importante da colonização fenícia, existiram estreitas relações entre Canaã e os reinos de Israel e Judá. Parece muito provável que, em África, os colonos a quem chamamos Fenícios possam ter incluído pessoas que seriam Judeus se tivessem permanecido na Palestina. Em 65 a. C., o reino da Judéia foi sujeito ao domínio do Império Romano, o que proporcionou contactos posteriores entre o seu povo e as províncias africanas. Quando esse reino foi destruído em 70 d. C. pelos Romanos, seguiu-se a grande Diáspora juntamente com a necessidade de uma definição clara da religião própria dos imigrantes. Não é pois surpreendente que no tempo dos Romanos existissem vestígios de grandes comunidades judaicas no Egipto e noutros pontos do norte de África, não só nas principais cidades mas também no interior, nos oásis do norte do Sara onde entre outras coisas parece ter havido banqueiros, financeiros e metalurgistas associados ao comércio através do deserto. A sua influência sobre as tribos de Berberes na região parece, assim, ter sido enorme.

A história do Cristianismo no norte de África está muito melhor documentada. Esta religião obtivera um apoio considerável muito tempo antes da conversão de Constantino. A aceitação do Cristianismo como religião oficial do Império Romano teve como resultado muito provável a sua propagação ainda mais rápida. Mas criou igualmente uma situação na qual os Egípcios e os Berberes parecem ter sentido a necessidade de usar o Cristianismo como expressão dos seus particularismos locais.

Os que detinham posições de autoridade ou influências na estrutura governativa romana aceitaram naturalmente a igreja oficial do Império (a igreja melquita como se chamou no Egipto). Mas grande parte da população optou por igrejas sectárias, mostrando desse modo que, embora integradas no mundo romano-cristão, se distinguiam dele enquanto elementos egípcios ou berberes desse mundo. Isto foi muito evidente no Egipto onde se desenvolveu a igreja copta, que era de facto uma igreja egípcia, devotada à perspectiva monofisista da natureza de Cristo e que o resto da cristandade declarara herética depois do Concílio de Calcedónia em 451 d. C. No noroeste africano não havia razões doutrinais para um conflito com a igreja oficial; mas na Numídia, em especial, constituiu-se algo semelhante a uma igreja nacional para a população rural, como resultado do conflito acerca da eleição dos bispos que provocou o cisma donatista (séc. IV).

O impacte directo do Império Romano em África para além do limes foi mínimo. Em virtude da segurança e da prosperidade garantidas pelo Império às terras no extremo norte das rotas do deserto, pode perfeitamente ter aumentado o comércio com os povos do Sara e inclusivamente até com os que se encontravam além dele. Mas, como sempre, essas trocas encontravam-se nas mãos das tribos do deserto, que não pertenciam ao mundo romano e estavam interessadas tanto em atacá-lo como em comerciar com ele. Numa tentativa de impedir os assaltos e facilitar o comércio, os Romanos empreenderam operações militares no Fezzan durante o século I d. C., sendo este, contudo, o limite mais meridional do seu poder, e a sua força mantida ali apenas durante algumas décadas.

De facto, nas suas tentativas de resolver o problema da manutenção do limes contra tribos turbulentas, os Romanos deram um passo que posteriormente tornou impossível a continuação do seu império africano. No tempo de Ptolomeu, o camelo, um animal asiático, foi introduzido no Egipto. Os Romanos em breve compreenderam o seu valor como animal de carga que podia ajudar a resolver os problemas logísticos resultantes do abastecimento dos postos de fronteira junto do deserto, e do seu reforço rápido em caso de necessidade. O camelo, no entanto, revelou-se uma arma de dois gumes. Era muito mais útil para as tribos do deserto como animal de sela, aumentando consideravelmente a sua mobilidade, permitindo-lhes concentrar-se rapidamente para um ataque à fronteira e às terras junto dela, e em seguida dispersar imediatamente para o deserto, não deixando nenhum alvo que os soldados romanos pudessem atacar.

Por volta do século V, o Império Romano estava a desmoronar-se por todo o lado, e o norte de África foi praticamente invadido e a província de África foi durante um tempo controlada pelos Vândalos, uma tribo teutónica que tinha atravessado a Europa até à Península Ibérica e passado o Estreito de Gibraltar, vinda de uma região entre os rios Oder e Vístula. Mas, com o tempo, os Vândalos integraram-se na população Romano-Berbere e os seus descendentes tornaram- se súbditos do novo Império Romano de Bizâncio. A maior ameaça ao império em África foram então os cavaleiros Berberes, montados em camelos, que estavam em todo o lado violando e fazendo recuar o limes, desenvolvendo um novo poder político próprio que os historiadores árabes depois chamaram de Zenata, uma confederação de tribos do norte do Sara e das estepes circunvizinhas. O Império bizantino em África ficou limitado ao Egipto e à Cirenaica, à Tripolitana e às províncias África e Numídia. No resto do território, o avanço de pastores sarianos provocou a destruição da antiga civilização agrícola mediterrânica.

Mas se o poder político do mundo mediterrânico em África estava a desmoronar-se por todo o lado, uma das sementes por ele plantada criara raízes em solo africano e tinha-se até propagado ao interior do continente. Esta era a religião e a cultura cristãs. As igrejas nativas africanas do Egipto e do noroeste africano estiveram eventualmente para ser eliminadas, devido ao crescimento do Islamismo, a seguir à conquista árabe da África a norte do Sara no século VII; mas, nessa época, o Cristianismo tinha-se propagado já a outras regiões. As igrejas rivais melquita e monofisista no Egipto procuravam aumentar a sua força por meio da conversão de três reinos que se tinham formado ao longo do Alto Nilo, na Núbia, como sucessores da antiga Meroé. Entre a l.a e a 3.a cataratas estava Nobatia ou Nuba, com a capital em Faras; para lá da 3.a catarata e até à antiga Meroé situava-se Makuria (Makurra) com a capital em Dongola Velha; a seguir a esta encontrava-se Alodia (Alua), com capital em Soba, no curso inferior do Nilo Azul. Durante o século VI, os reis e respectivas cortes nos reinos de Nobatia e Alodia foram convertidos por missionários monofisistas, enquanto os missionários melquitas parecem ter tido um sucesso comparável em Makuria. As classes dominantes na Núbia obtiveram talvez assim um reforço intelectual e cultural devido à sua herança meroítica que os auxiliou a manter a independência dos seus reinos até ao século XIV, altura em que finalmente sucumbiram, depois de séculos de infiltração muçulmana através dos comerciantes do Egipto e das tribos nómadas árabes e beduínas do deserto.

O Cristianismo desfrutou um sucesso mais notável e duradouro em zonas mais meridionais e uma vez mais isto deveu-se a anteriores legados das antigas civilizações. Os habitantes semitas do sudoeste da Arábia (no Iemen actual e regiões vizinhas) tinham desenvolvido no começo do primeiro milénio a. C. uma civilização própria, resultante de dois contributos. Em primeiro lugar, a Arábia do sudoeste controlava as ligações entre o Mar Vermelho e o Oceano índico a ocidente. O seu povo estava, portanto, bem colocado para se dedicar ao comércio na região, e tirar proveito dele, tanto mais que na sua própria terra e no nordeste de África muito próximo de si, tinham acesso às principais fontes de dois produtos muito valiosos, o incenso e as especiarias. Em segundo lugar, a sua região na península da Arábia era a única a receber chuvas regulares durante alguns meses de Verão, quando a monção de sudoeste atingia as montanhas do Iemen. Contudo foi possível desenvolver uma civilização agrícola através da construção de represas e de uma organização política que controlasse a irrigação dos vales, constituindo-se assim alguns reinos importantes, dos quais Sabá (Sheba) é o mais conhecido e foi durante algum tempo o mais poderoso.

Pelo menos no início do século VII a. C., os árabes de sudoeste começaram a expandir-se para a vizinha África. Fizeram-no em parte como negociantes, em busca de fornecimentos de incenso, especiarias e marfim. Mas, à medida que a sua população começou a crescer mais do que a capacidade agrícola bastante limitada da metrópole, torna- ram-se também colonizadores. Nos planaltos da Eritreia e da Etiópia, para lá da árida costa ocidental do Mar Vermelho, encontraram ainda melhores condições para a agricultura do que na sua terra de origem, e a partir daí puderam penetrar cada vez mais em África, a fim de explorar as rotas do comércio em busca de produtos como marfim, ouro e cola. O movimento não incluiu apenas os Sabeus mas também alguns elementos judeo-árabes.

Por volta do século I d. C., os colonos semitas, misturados com os povos cushitas que falavam também línguas afroasiáticas, garantiram a sua independência política, com a criação do reino de Axum. Aqui constituiu-se uma língua e escrita próprias, o Ge'ez (donde provém o moderno amárico) que embora fosse semita, era diferente das outras línguas semitas da Arábia. Por volta do século III d. C., através do seu porto de Adulis, Axum teve por algum tempo o poder suficiente para alargar o seu domínio no Mar Vermelho até ao Iemen. Os comerciantes estrangeiros tinham grande actividade em Adulis desde o século III a. C., fazendo de Adulis o principal porto do Mar Vermelho e do Oceano indico para o comércio dos Gregos de Alexandria, cuja presença depressa provocou a introdução do Cristianismo no reino. O século IV viu Axum no auge do seu poder, no tempo do rei Ezana (cerca de 320-350 d. C.), que ficou famoso não só pela sua expedição a Kush, mas também pelos grandes edifícios e obeliscos que mandou erigir em Axum, e ainda por ter sido o primeiro rei que aceitou o Cristianismo.

A conversão de Ezana marca um momento alto da influência grega em Axum (há inscrições em grego desta época, assim como em língua ge'ez) e representou sem dúvida uma acção política tendente a consolidar os laços comerciais com o Egipto e o mundo bizantino, tão importantes para a prosperidade de Axum. Envolveu igualmente Axum em posteriores aventuras com o Iemen, onde o Cristianismo esteve em competição directa com o Judaísmo. No início do século VI, Dhu Nuves, o último rei himiarita que dominou o Iemen depois do período do domínio de Axum no século III, converteu-se ao Judaísmo e desencadeou a perseguição aos Cristãos. Este facto conduziu à invasão do Iemen por Axum no tempo do rei Ella Asheba em 525 d. C., e a um período seguinte de domínio axumita que durou até à chegada dos Persas sassânidas no fim do século VI.

Porém, se o Cristianismo em Axum foi originalmente uma religião do rei e da classe dominante, adoptado sobretudo por razões políticas e económicas, em breve se tornou muito mais do que isso. A tradição refere que, depois do Concílio de Calcedónia, nos finais do século V, chegaram a Axum monges monofisistas. Parece que foram muito bem sucedidos na pregação entre uma população mista com antecedentes semíticos, cushíticos, judaicos e cristãos, e a sua acção conduziu ao aparecimento de uma igreja nacional distinta, com as Escrituras traduzidas em ge'ez. Quando Cosmas Indicopleustes escreveu, na primeira metade do século VI, considerou Axum um país totalmente cristianizado. A igreja etíope, tornou-se um elemento vital na vida nacional; possuindo uma tradição monástica muito forte, fora capaz de manter pelo menos um mínimo de conhecimento, atingira uma apreciável proporção da população e revelara um desejo de adoptar uma atitude sincrética para com as crenças tradicionais judaicas ou mesmo pagãs. Ela criou uma ampla base sobre a qual a tradição axumita da monarquia centralizada pôde sobreviver da época helenística no Mar Vermelho e ao embate provocado ao declínio pelo crescimento do poder islâmico, controlando o seu comércio e as regiões do litoral. O reino deslocou-se para os planaltos do interior, absorveu cada vez mais populações africanas e desse modo, embora permanecendo firmemente cristão do ponto de vista doutrinal, operou-se numa transformação do reino greco-semita de Axum no reino africano da Etiópia que perdurou até ao século xx.