Fontes e Técnicas de Estudo para a África

por T. Obenga.

Nesta breve apresentação, o autor nos propõe algumas das principias técnicas de estudo em história africana, a aplicação de recursos modernos para a análise do passado histórico do continente, entre outras. in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 1



As regras gerais da crítica histórica, que fazem da história uma técnica do documento, e o espírito histórico, que pede o estudo da sociedade humana em sua caminhada através dos tempos, são aquisições fundamentais utilizáveis por todos os historiadores, em qualquer país. O esquecimento desse postulado manteve durante muito tempo os povos africanos fora do campo dos historiadores ocidentais, para quem a Europa era, em si mesma, toda a história. Na realidade, o que estava subjacente e não se manifestava claramente, era a crença persistente na inexistência de uma história na África, dada a ausência de textos e de uma arqueologia monumental.
Portanto, parece claro que o primeiro trabalho histórico se confunde com o estabelecimento de fontes. Essa tarefa está ligada a um problema teórico essencial, ou seja, o exame dos procedimentos técnicos do trabalho histórico.
Sustentados por uma nova e profunda necessidade de conhecer e compreender ligada ao advento da era pós-colonial, os pesquisadores fundaram definitivamente a história africana, embora a construção de uma metodologia histórica ainda prossiga. Setores imensos de documentação foram revelados, permitindo aos pesquisadores formularem novas questões. Quanto mais os fundamentos da história africana se tornam conhecidos, mais essa história se diversifica e se constrói de diferentes formas, de modo inesperado. Há cerca de quInze anos produziu-se uma profunda transformação dos instrumentos de trabalho e hoje se admite de bom grado a existência de fontes utilizadas mais particularmente para a história africana: geologia e paleontologia, pré-história e arqueologia, paleobotânica, palinologia, medidas de radiatividade de isótopos capazes de fornecer dados cronológicos absolutos, geografia física, observação e análise etno-sociológicas, tradição oral, lingüística histórica ou comparada, documentos escritos europeus, árabes, hindus e chineses, documentos econômicos ou demográficos que podem ser processados eletronicamente.
A variedade das fontes da história africana permanece extraordinária. Dessa forma, devem-se buscar de forma sistemática novas relações intelectuais que estabeleçam ligações imprevistas entre setores anteriormente distintos. A utilização cruzada de fontes aparece como uma inovação qualitativa. Uma certa profundidade temporal só pode ser assegurada pela intervenção simultânea de diversos tipos de fontes, pois um fato isolado permanece, por assim dizer, à margem do movimento de conjunto. A integração global dos métodos e o cruzamento das fontes constituem desde já uma eficaz contribuição da África à ciência e mesmo à consciência historiográfica contemporânea.
A curiosidade do historiador deve seguir várias trajetórias ao mesmo tempo. Seu trabalho não se limita a estabelecer fontes. Trata-se de se apropriar, através de uma sólida cultura pluridimensional, do passado humano. Porque a história é uma visão do homem atual sobre a totalidade dos tempos.
A maioria dessas fontes e técnicas específicas da história africana extraídas das ciências matemáticas, da física dos átomos, da geologia, das ciências naturais, das ciências humanas e sociais, estão amplamente descritas no presente volume. Desse modo, insistiremos aqui nos aspectos e problemas não 1 desenvolvidos em outras partes.
Sem dúvida, o fato metodológico mais decisivo desses últimos anos foi a intervenção das ciências físicas modernas no estudo do passado humano, com as medidas de radiatividade dos isótopos, que asseguram a apreensão , cronológica do passado até os primeiros tempos do aparecimento do Homo sapiens (teste do carbono 14) e das épocas anteriores a 1 milhão de anos (método do potássio-argônio).
Atualmente, esses métodos de datação absoluta abreviam de modo considerável as discussões no campo da paleontologia humana e da pré-história. Na África, os hominídeos mais antigos datam de -5300000 anos pelo método K/ Ar. Essa é a idade de um fragmento de maxilar inferior com um molar intacto de um hominídeo encontrado pelo professor Bryan Patterson, em 1971, em Lothagam no Quênia. Por outro lado, os dentes de hominídeos encontrados nas camadas villafranchianas do vale do Omo, na Etiópia meridional, pelas equipes francesas (Camille Arambourg, Yves Coppens) e americana (F. Clark-Howell) têm 2 a 4 milhões de anos. O nível do Zinjanthropus (nível I) do célebre depósito de Olduvai, na Tanzânia, data de 1750000 anos, sempre através do método do potássio-argônio.
Assim, graças ao isótopo potássio-argônio, a gênese humana do leste africano, a mais antiga de todas no estágio atual dos conhecimentos, constitui a gênese humana propriamente dita, tanto mais que o monofiletismo é uma tese cada vez mais amplamente admitida hoje na paleontologia geral. Em conseqüência, os restos fósseis africanos conhecidos atualmente fornecem elementos decisivos para responder a esta questão primordial das origens humanas, colocada de mil maneiras ao longo da história da humanidade: "Onde nasceu o homem? Há quanto tempo?"
As velhas idéias estereotipadas, que colocavam a África praticamente à margem do Império de Clio, estão agora completamente modificadas. Os fatos, postos em evidência através de várias fontes e métodos - desde a paleontologia humana até a física nuclear - mostram claramente, ao contrário, toda a profundidade da história africana, cujas origens se confundem precisamente com as próprias origens da humanidade.
As informações obtidas de outras fontes - as ciências da Terra, por exemplo - iluminam igualmente a história da África, independentemente de qualquer documento escrito. A vida e a história da população da bacia lacustre do Chade, por exemplo, seriam dificilmente compreensíveis sem a intervenção da geografia física. É conveniente ressaltar o valor metodológico desse enfoque.
Com efeito, a vida e os homens não se distribuem ao acaso na bacia do lago Chade, que apresenta de forma esquemática o seguinte quadro hipsométrico: uma planície central de acumulação situada entre 185 e 300 metros de altitude; em torno, um anel bastante descontínuo de velhos planaltos desgastados, cuja peneplanização foi às vezes camuflada por atividades vulcânicas recentes; unindo esses planaltos de, em medIa, 1000 metros de altitude, e as zonas baixas de acumulação, há encostas geralmente íngremes afetadas por uma erosão ativa num clima úmido. É precisamente a zona de solos detríticos bastante leves que recebe a chuva a que apresenta a maior densidade demográfica, ou seja, de 6 a 15 hab/km2. Sob o clima do Sahel ocorre ainda boa densidade nos aluviões fertilizados pelas infiltrações ou inundações do Chade. Nos altos planaltos do leste e do sul, Darfur e Adamaua, de onde descem os tributários do lago, a população reduz-se a 1 hab/km2. No norte, já saariano, a densidade diminui ainda mais. O aspecto humano da bacia é, por conseqüência, estreitamente ligado a um problema de geografia física, de geomorfologia, que condiciona o desenvolvimento humano.
Dessa forma, a civilização recuou diante do deserto. Ela retrocedeu até o limite da área em que o milho-miúdo e o sorgo podem ser cultivados sem irrigação, na latitude aproximada do Neo-Chade (as culturas irrigadas de legumes, tabaco, trigo duro, são feitas às margens do Logone e do Chari). Agricultores, pastores e pescadores vivem na zona meridional, onde as águas flúvio-lacustres fecundam as terras, tornam verdes os pastos, atraem periodicamente uma multidão de pescadores. Ao contrário, a erosão nas zonas desérticas setentrionais torna o solo instável e a vegetação precária, caracterizada por arbustos espinhosos xerófilos.
Mas tais estruturas geomorfológicas condicionaram ainda outras atividades humanas. Por exemplo, as invasões dos conquistadores expulsaram vá- rias vezes os agricultores autóctones dos planaltos salubres e das planícies férteis, fazendo-os recuar para as zonas (inclinações ou cumes) impróprias para a criação de gado. Desse modo, os Fulbé empurraram os Bum e os Duro para os terrenos menos férteis da Adamaua, e os Kiroi do norte de Camarões para os terrenos graníticos do maciço montanhoso do Mandara. Ora, o trabalho nas terras dos declives outrora submersos é certamente rode e ingrato para estes povos; mas é o que melhor corresponde a suas ferramentas precárias. Por fim, a presença periódica ou permanente de áreas palustres na zona de aluvião cria condições para a existência de imensa quantidade de mosquitos (Anopheles gambiae). Existem, por outro lado, focos da mosca tsé-tsé (Glossina palpalis) às margens do Logone e do Chari, nas formações higrófilas baixas de Salix e Mimosa asperata que cercam os depósitos recentes. A malária e a doença do sono, transmitidas por tais insetos, transformam essas áreas em locais extremamente adversos.
Em resumo, para ter uma visão concreta da vida humana na bacia do Chade, que conheceu antes várias flutuações quaternárias devidas a alterações de clima, o historiador deve necessariamente valer-se de uma série de fontes e técnicas particulares, extraídas das ciências da Terra e das ciências da vida, já que a atual distribuição das populações, seus movimentos migratórios passados, suas atividades agrícolas, pastoris, etc., são estreitamente condiciona- das pelo meio ambiente.
O caso da bacia lacustre do Chade é apenas um exemplo entre outros. Todas as vezes que a curiosidade científica se libertou de certos esquemas restritivos, os resultados foram igualmente esclarecedores. Entre os Nyangatom ou Bumi do vale do Omo, próximos dos Turkana do noroeste do Quênia, existe uma diferença imunológica notável manifesta nos exames de sangue dos homens testados (300 indivíduos em 1971 e 359 em 1972). Tal diferença não era observável entre os sexos, mas entre as aldeias (que reúnem de 20 a 300 habitantes). Essas aldeias, cuja população vive de criação, agricultura, coleta, caça e pesca, obedecem a uma organização clânica rígida, acentuada por uma distribuição em setores territoriais. Mas não existe nessa sociedade nenhum chefe acima do membro mais velho. Desse modo, as diferenças originárias da organização social territorial dos Nyangatom projetam-se na sorologia: o mapa das reações dos soros aos antígenos arbovirais reproduz exatamente a distribuição territorial das populações testadas 2.
Esse exemplo de colaboração dinâmica entre o parasitólogo e o antropólogo pode ser de grande utilidade para o historiador. É importante que ele saiba da existência desse material documental, que pode revelar-se "pertinente" na análise de comportamentos sexuais e no estudo do crescimento demográfico dos Nyangatom.
O problema heurístico e epistemológico fundamental permanece sempre o mesmo na África, o historiador deve estar absolutamente atento a todos os tipos de procedimentos de análise, para articular seu próprio discurso, fundamentando-se num vasto conjunto de conhecimentos.
Esta "abertura de espírito" é particularmente necessária quando se estudam períodos antigos, sobre os quais não se dispõe nem de documentos escritos nem mesmo de tradições orais diretas. Sabemos, por exemplo, que a base da agricultura para os homens do Neolítico era o trigo, a cevada e o milhete, na Ásia, na Europa e na África, e o milho, na América. Mas como identificar os sistemas agrícolas iniciais, que surgiram há tanto tempo? O que permitiria distinguir uma população de predadores sedentários de uma de agricultores? Como e quando a domesticação das plantas se difundiu nos diversos continentes? Quanto a isso, a tradição oral e a mitologia prestam apenas uma pequena ajuda. Unicamente a arqueologia e os métodos paleobotânicos podem dar uma resposta válida a tais questões importantes, relativas a essa inestimável herança neolítica que é a agricultura.
A película externa do pólen é muito resistente ao tempo num solo favorável, não ácido. A paleopalinologia fornece uma análise microscópica de tais vestígios botânicos. Os grãos de pólen fósseis podem ser recolhidos dissolvendo progressivamente uma amostra de terra com o emprego de ácidos quentes (ácido fluorídrico ou clorídrico), que eliminam o silício e o calcário sem atacar o pólen, e em seguida os húmus orgânicos (potássio). O resíduo, centrifugado e colorido, é então colocado em gelatina, restando ao operador apenas reconhecer e contar cada grão para construir uma tabela de porcentagem. Esta fornece o perfil polínico do sedimento estudado. Dessa forma, pode-se detectar a presença da agricultura num sítio, precisar a evolução da paisagem. diagnosticar o clima através das variações da vegetação e determinar a eventual ação do homem e dos animais sobre a cobertura vegetal.
Tais análises permitiram revelar atividades de domesticação de plantas alimentícias na África, atividades essas centralizadas em vários pontos e difundidas por diversas regiões. O sorgo (inicialmente domesticado na savana que se estende do lago Chade à fronteira entre o Sudão e a Etiópia) , o milho-miúdo, o arroz africano, a voandzeia, a ervilha forrageira, o dendezeiro (domesticado na orla das florestas), o finger millet, o quiabo e o inhame africano eram as principais plantas cultivadas na época.
As plantas americanas foram introduzidas há relativamente pouco tempo, como atestam desta vez certas fontes escritas. A mandioca, por exemplo, hoje o alimento básico de vários povos da África central, penetrou o reino do Kongo pela costa atlântica só depois do século XVI. Com efeito, entre as plantas cultivadas no planalto de Mbanza Congo, capital do reino, a Relação de Pigafetta- Lopez (1591) menciona apenas o luko, isto é, a Eleusine coracana, cuja "semente é originária das margens do Nilo, na região em que este rio desemboca no segundo lago" 3; o masa ma Kongo, uma gramínea que é uma espécie de sorgo; o milho, masangu ou ainda masa ma Mputu, "que é o menos apreciado e com o qual se alimentam os porcos" 4; o arroz, loso, que "também não tem muito valor" 5 enfim, a bananeira, dikondo, e o dendezeiro, ba.
Fato menos conhecido, as plantas africanas também se difundiriam para fora do continente. É certo que algumas espécies africanas se expandiram para a Índia, por exemplo, e para outras regiões asiáticas, embora em época tardia. Com efeito, as duas espécies de milho-miúdo (milhete e finger millet) são comprovadas arqueologicamente na Índia por volta do ano 1000 antes da Era Cristã. O sorgo só seria conhecido nessa região posteriormente, porque o sânscrito não possui uma palavra para designá-lo.
Na ausência de qualquer documento escrito ou tradição oral, essas informações da arqueologia e da paleobotânica podem informar o historiador sobre a série de etapas que fizeram nossos ancestrais neolíticos passarem de uma economia de coleta a uma economia de produção. Além disso, esses fatos evidenciam por si mesmos um fluxo de relações entre as civilizações neolíticas, e não um difusionismo.
Restos de cães, porcos, carneiros e cabras sugerem que a domesticação de animais começou, nos centros neolíticos do Oriente Próximo, mais ou menos na mesma época que a cultura "as plantas, entre 9000 e 8000 antes da Era Cristã. A partir disso, foi proposta uma cronologia teórica da domesticação dos diferentes grupos de animais. De início, os necrófagos, como o cão; em seguida, os animais nômades, como a rena; a cabra e o carneiro; e por fim os animais para os quais se impõe uma vida sedentária: o gado grosso e os porcos. Os animais que podem servir de meio de transporte, como o cavalo, o asno e a lhama, teriam sido domesticados em último lugar. Esta cronologia geral, porém, não se refere sempre à África.
O cavalo, que, como o boi e o asno, desempenhou um papel de "motor da história" através dos tempos, só aparece na África, precisamente no Egito, no fim da invasão dos hicsos, cerca de 1600 antes da Era Cristã; como atestam fontes iconográficas e da Sagrada Escritura. Por volta do século XIII antes da Era Cristã, ele foi transmitido, como animal de guerra, aos líbios e mais tarde, no início do primeiro milênio, aos núbios. Com exceção das áreas atingidas pela civilização romana, o resto da África só utilizaria amplamente o cavalo a partir das conquistas árabes na Idade Média. Dois cavalos selados e arreados, ladeados por dois carneiros, faziam parte dos emblemas do rei do Mali, de acordo com o relato do escritor Ibn Battuta (1304-1377).
Quanto ao dromedário, o camelo de uma corcova, sua chegada à civilização africana também não é tardia. Esse animal aparece de forma suficientemente clara numa pintura rupestre, no Saara chadiano, no século III antes da Era Cristã. Os homens de Cambises o introduziram em 525 antes da Era Cristã no Egito, onde ele desempenharia importante papel nas comunicações entre o Nilo e o mar Vermelho. Sua penetração no Saara Ocidental ocorreu mais tarde. De fato, o camelo, que é essencialmente um animal do deserto, onde substitui com freqüência o boi e o asno, foi difundido no Magreb ao que parece pelas tropas romanas de origem síria. Os berberes, refratários à paz romana e a sua forma de organizar a posse da terra, emanciparam-se graças ao camelo. Ele permitiu-lhes estabelecerem-se além do limes, nas estepes e nos desertos. Os negros sedentários dos oásis foram imediatamente repelidos para o sul ou reduzidos à escravidão.
Tendo em vista tudo o que foi exposto acima, chega-se a uma conclusão que constitui um avanço metodológico decisivo: um vasto material documental, rico e variado, pode ser obtido a partir das fontes e técnicas baseadas nas ciências exatas e nas ciências naturais. O historiador se vê obrigado a desenvolver esforços de investigação por vezes audaciosos. Todos os caminhos que se abrem estão doravante entrelaçados. O conceito de "ciências auxiliares" perde cada vez mais terreno nesta nova metodologia, exceto se entendermos por "ciências auxiliares da história", as técnicas fundamentais da pesquisa histórica, originárias de qualquer campo científico e que, de resto, não foram ainda totalmente descobertas. De agora em diante, as técnicas de investigação são parte da prática histórica e fazem com que a história se incline de forma concreta para o lado da ciência.
Dessa forma, a história se beneficia das conquistas das ciências da Terra e das ciências da vida. Todavia, seu aparato de pesquisa e de crítica se enriquece sobretudo tom a contribuição das outras ciências humanas e sociais: egiptologia, lingüística, tradição oral, ciências econômicas e políticas.
Até hoje a egiptologia permanece uma fonte insuficientemente utilizada pela história da África. E conveniente, portanto, insistir no assunto. A egiptologia compreende a arqueologia histórica e a decifração dos textos. Nos dois casos, o conhecimento da língua egípcia é um pré-requisito indispensável. Esse idioma, que permaneceu vivo durante cerca de 5000 anos (se levarmos em consideração o copta), apresenta-se materialmente sob três escritas distintas;
- Escrita hieroglífica, cujos signos se dividem em duas grandes classes: os ideogramas ou signos-palavras (por exemplo, o desenho de um cesto de vime para designar a palavra "cesto", cujos principais componentes fonéticos são nb) e os fonogramas ou signos-sons (por exemplo, o desenho de um cesto, do qual só se retém o valor fonético nb e que serve para escrever outras palavras diferentes de "cesto" mas que têm o mesmo valor fonético: nb, "senhor"; nb, "tudo"). Os fonogramas, por sua vez, classificam-se em: trilíteros, signos que combinam três consoantes; bilíteros, signos que combinam duas consoantes; unilíteros, signos que contêm uma só vogal ou consoante: trata-se. nesse caso, do alfabeto fonético egípcio.
- Escrita hierática, ou seja, a escrita cursiva dos hieróglifos, que apareceu em torno da III dinastia (-2778 a -2423); é sempre orientada da direita para a esquerda e traçada com um cálamo sobre folhas de papiro ou fragmentos de cerâmica e de calcário. Teve uma duração tão longa quanto a dos hieróglifos (o texto hieroglífico mais recente data de +394).
- Escrita demótica, uma simplificação da escrita hierática, surgiu em torno da XXV dinastia (-751 a -656), deixando de ser usada no século V. No plano estrito dos grafemas, reconhece-se uma origem comum entre a escrita demótica egípcia e a escrita meroítica núbia (que veicula uma língua ainda não decifrada).
Considerando apenas esse nível do sistema gráfico egípcio, já se colocam interessantes questões metodológicas. Isso porque, através de uma tal convenção gráfica, dotada de fisionomia própria, o historiador - que se torna um pouco decifrador - capta por assim dizer a consciência e a vontade dos homens de outrora, já que o ato material de escrever traduz sempre um valor profundamente humano. Com efeito, decifrar é dialogar, graças a um esforço constante de rigor e de objetividade. Além disso, a diversidade, as complicações e as simplificações sucessivas do sistema gráfico egípcio constituem em si mesmas parte da história: a história das decifrações, uma das fontes essenciais de toda historicidade. Assim, com o sistema gráfico egípcio a África toma um lugar importante nos estudos gerais sobre a escrita, vista como um sistema de signos e de intercomunicação humana 6.
O problema da difusão da escrita egípcia na África negra amplia ainda mais o aparato metodológico do historiador, abrindo perspectivas totalmente novas à pesquisa histórica africana. Os fatos que se seguem referem-se a esse aspecto. Os gicandi constituem um sistema ideográfico utilizado outrora pelos Kikuyu do Ouênia. Os pictogramas desse sistema oferecem notáveis analogias com os pictogramas egípcios. Também a semelhança estrutural entre os pictogramas nsibidi do território dos Efik (sudeste da Nigéria) e os pictogramas egípcios foi reconhecida e assinalada desde 1912 por um especialista britânico, P. Amaury- Talbot. Muitos dos hieróglifos egípcios apresentam ainda um parentesco escritural claro com os signos da escrita mende do sul de Serra Leoa. Fenômeno semelhante ocorre com a maioria dos signos da escrita loma do norte da Libéria. Existe ainda uma indubitável conexão causal entre os hieróglifos egípcios e vários signos da escrita vai das proximidades de Monróvia (Libéria). A escrita dos Bamun de Camarões, que inclui mais de dois sistemas gráficos, também oferece analogias admiráveis, externas é verdade, com os hieróglifos do vale do Nilo. Como no Egito, os hieróglifos dogon, bambara e bozo podem ser decompostos e, portanto, analisados. Mas o fato mais significativo é que estes signos do oeste africano fazem com que as coisas e os seres escritos com sua ajuda tomem consciência de si mesmos, concepção típica do poder transcendente da escrita, que encontramos literalmente no Egito, na grafia de certos textos relativos ao destino depois da morte.
Assim, permanece grande a possibilidade de ver nascer e se desenvolver uma epigrafia e uma paleografia absolutamente desconhecidas até aqui e cujo objeto será o estudo rigoroso das relações mútuas entre as famílias escriturais da África negra. O historiador tiraria proveito disso, já que, através da história da escrita e das decifrações surge a história dos homens responsáveis por essas grafias. O exame dos sistemas gráficos é em si mesmo uma fonte preciosa da história. O historiador, porém, que nunca deve perder o sentido do tempo, não pode esperar revelações antigas dessas escritas em geral recentes. Sua importância revela sobretudo a estranha profundidade temporal do impacto egípcio. Aparentemente desaparecida desde 394 da Era Cristã, a escrita egípcia nos apresenta, sem descontinuidade, diversos ressurgimentos, do século XVII ao século XIX. A ruptura entre a Antigüidade e o passado recente da África não passa portanto de uma ilusão de nossa ignorância; uma via subterrânea une de facto esses dois pólos.
Conhecer a escrita egípcia, decifrar os textos, é ter acesso direto à língua faraônica. É recomendável que o historiador recorra sempre que possível aos textos originais, pois as traduções, mesmo as melhores, raramente são irrepreensíveis. O historiador que conhece a língua egípcia pode assim ler direta- mente os numerosos e variados textos do Egito antigo: estelas funerárias, inscrições monumentais, atas administrativas, hinos religiosos, obras filosóficas, tratados de medicina e matemática, composições literárias (romances, contos e fábulas).
Uma série de textos mostra claramente que a barreira que se supunha existir entre o Egito faraônico e as demais regiões africanas vizinhas em épocas remotas não está de acordo com a material idade dos fatos.
Pode-se mencionar neste sentido a carta que Neferkarê (Pépi II), faraó da VI dinastia, enviou por volta de 2370 antes da Era Cristã a Herkhouf, chefe de uma expedição econômica feita às regiões meridionais afastadas - a "Terra do Fim do Mundo", como diz o texto referindo-se provavelmente à região dos grandes lagos africanos. Um pigmeu havia sido trazido dessa longínqua expedição, que foi a quarta de uma série. Um outro texto egípcio, O Conto do Náufrago, datado do século XX antes da Era Cristã (no princípio da XII dinastia) fornece informações precisas e muito interessantes sobre a vida dos marinheiros dessa época, a navegação no mar Vermelho as relações econômicas entre a costa oriental africana e o vale do Nilo. A rainha Hatshepsut, que ocupou o trono egípcio durante 21 anos (1504-1483), organizou várias expedições comerciais, entre as quais se destaca a do ano 9 de seu reinado, que se dirigiu à região de Punt (costa somaliana); essa expedição é representada nos esplêndidos baixos-relevos de Oeir el-Bahari, no Alto Egito.
Existe aí uma nova linha de pesquisa, que não pode deixar indiferente o historiador da África. É possível avaliar a importância de introduzir o ensino do e2ípcio anti2o nas universidades africanas. Tal ensino deve contribuir sobremaneira para o estudo vivo do patrimônio cultural africano em toda a sua profundidade espacial e temporal.
Em relação ao parentesco lingüístico do egípcio antigo, afirma o relatório final do importante simpósio internacional sobre O Povoamento do Egito Antigo e a Decifração da Escrita Meroítica (Cairo, 28 de janeiro - 3 de fevereiro de 1974): "O egípcio não pode ser isolado do seu contexto africano e o semítico não dá conta de seu surgimento; é legítimo portanto encontrar seus pais ou primos na África" (relatório final, p. 29, 5).
Em termos claros, a língua faraônica não é uma língua semítica. Convém, por conseguinte, abandonar a orientação que atribui ao antigo egípcio parentesco com o "camito-semítico" ou o "afro-asiático", seguida por certos autores que, em geral, não são nem estudiosos do semítico nem egiptólogos.
O problema fundamental consiste em aproximar, através de técnicas lingüísticas apropriadas, o antigo egípcio e as línguas atuais da África negra, para reconstituir, na medida do possível, formas anteriores comuns a partir de correspondências e comparações morfológicas, lexicológicas e fonéticas. Uma tarefa gigantesca espera o lingüista. Também o historiador deverá estar preparado para uma radical mudança de perspectiva quando for desvendada uma macroestrutura cultural comum entre o Egito faraônico e o resto da África negra. Essa relação é, no sentido matemático dos termos, uma evidência intuitiva que espera uma demonstração formal. Mas aqui, mais do que em outros lugares, o historiador e o lingüista são obrigados a trabalhar juntos. Isso porque a lingüística é uma fonte histórica. particularmente na África, onde as numerosas línguas se imbricam.
Trata-se sobretudo da lingüística comparativa ou histórica. O método empregado é comparativo e indutivo, pois o objetivo da comparação é reconstruir, isto é, procurar o ponto de convergência de todas as línguas comparadas. Este ponto de convergência será chamado de "língua comum pré-dialetal". Mas é preciso ser muito prudente. O "bantu comum", por exemplo, reconstruído a partir do estudo cuidadoso de diversas línguas hoje encontradas, não é nem uma língua antiga nem uma língua real, recuperada em todos os seus componentes. O termo "bantu comum" ou "proto-bantu" designa apenas o sistema constituído pelos elementos comuns às línguas bantu conhecidas; tais elementos remontam a uma época em que essas línguas eram quase Idênticas. O mesmo ocorre com o "indo-europeu", por exemplo. No nível estrito da realidade, a arqueologia lingüística é, no limite, uma pura ilusão, porque, da época mais antiga, pré-histórica, em que se falava a língua comum recuperada, não subsiste nenhum traço histórico ou lingüístico.
O interesse da lingüística histórica reside menos em reencontrar uma língua comum pré-dialetal do que em detectar, por assim dizer, a amplitude lingüística total de diversas línguas aparentemente estranhas umas às outras. Muito raramente uma língua se encerra num espaço claramente definido. Na maioria das vezes, ela ultrapassa sua própria área, mantendo com outras línguas mais ou menos distantes relações às vezes imperceptíveis à primeira vista. O grande problema subjacente é, evidentemente, o do deslocamento das populações. Uma comunidade lingüística não se confunde forçosamente com uma unidade racial. No entanto, ela fornece informações pertinentes sobre uma unidade essencial, na verdade a única: a unidade cultural básica que existe entre os povos lingüisticamente unidos, mesmo que tais povos tenham às vezes origens muito diversas e sistemas políticos completamente diferentes. A família "Níger-Congo", por exemplo, embora não tenha sido ainda bem estabelecida, aponta a existência de laços sócio-culturais muito antigos entre os povos do oeste atlântico, os povos Mande, Gur e Kwa, os povos situados entre o Benue e o Congo (Zaire) , os povos do Adamaua oriental e os Bantu, da África central, oriental e meridional.
A lingüística histórica é portanto uma fonte preciosa da história africana, assim como a tradição oral, que foi durante muito tempo desprezada. Ora, às vezes a tradição oral constitui a única fonte imediatamente disponível. É o caso, por exemplo, dos Mbochi do Congo. A história de suas diferentes chefias só pode ser reconstituída, no espaço e no tempo (um tempo relativa- mente curto, é verdade), com a ajuda da tradição. oral. Esta pode também resolver uma questão onde o documento escrito permanece impotente. Os cronistas (Delaporte, 1753; Droyat, 1776) são unânimes em afirmar que os reis de Loango (África central ocidental) eram sepultados em dois cemitérios distintos: em Lubu e Luandjili. Quando e por que ocorreu uma tal distinção? A esse respeito, os documentos escritos até hoje conhecidos permanecem mudos. Só a tradição oral dos Vili atuais permite explicar essa dualidade. De acordo com ela, foi uma querela extremamente violenta entre a corte de Maloango e os habitantes de Luandjili, uma rica província do reino, que levou o rei e os príncipes da época a mudarem o lugar da sepultura. O cemitério de Luandjili foi então abandonado em favor do de Lubu. Neste caso, a tradição oral presta uma contribuição valiosa ao documento escrito. Na África existem inúmeros casos em que a tradição oral orienta, por assim dizer, a escavação arqueológica, esclarecendo paralelamente a crônica escrita. Durante as escavações de Tegdaoust, cidade do reino de Gana (Sudão ocidental), conduzi das no fim de 1960 pelos professores J. Devisse, D. e S. Robert, então na Universidade de Dacar, os pesquisadores exploraram simultânea e combinadamente as tradições locais, as crônicas árabes medievais e as técnicas propriamente arqueológicas. Assim, um período mal conhecido da história africana (do século VII ao XIII) pôde ser restituído à memória dos homens, graças evidentemente à própria arqueologia, mas também, em parte, à tradição local e aos documentos escritos.
Esses exemplos, que poderíamos multiplicar, mostram que na África, mais do que em outros lugares, a tradição oral é parte integrante da base documental do historiador, que desse modo se amplia. A história africana não pode mais ser feita como no passado, quando a tradição oral - que é uma manifestação do tempo - era afastada da investigação histórica. Não foi ainda suficientemente destacado um ponto importantíssimo: de um lado, a maneira como a tradição oral apresenta o tempo, e de outro, a maneira como ela apresenta os acontecimentos através do tempo. De que modo o griot apresenta a história? Essa é a questão decisiva. O griot africano quase nunca trabalha com uma trama cronológica. Ele não apresenta a seqüência dos acontecimentos humanos com suas acelerações ou seus pontos de ruptura. O que ele diz e reconstitui merece ser escutado em perspectiva e não pode ser de outra forma. O griot só se interessa pelo homem apreendido em sua existência, como condutor de valores e agindo na natureza de modo intemporal. É por isso que ele não se dispõe a fazer a síntese dos diversos momentos da história que relata. Trata cada momento em si mesmo, com um sentido próprio, sem relações precisas com outros momentos. Os momentos dos fatos relatados são descontínuos. Trata-se, a rigor, da história absoluta. Essa história - que apresenta sem datas e de modo global estágios de evolução - é simplesmente a história estrutural. Os afloramentos e as emergências temporais denominadas em outros lugares "ciclo" (idéia de círculo), "período" (idéia de espaço de tempo), "época" (idéia de parada ou de momento marcado por algum acontecimento importante), "idade" (idéia de duração, de passagem do tempo), "série" (idéia de seqüência, de sucessão), "momento" (idéia de instante, de circunstância, de tempo presente), etc., são praticamente deixadas de lado pelo griot africano, enquanto expressões possíveis de seu discurso. É claro que ele não ignora nem o tempo cósmico (estações, anos, etc.) nem o passado humano, já que o que ele relata é, de fato, passado. Mas lhe é bastante difícil esboçar um modelo do tempo. Ele oferece de uma só vez toda a plenitude de um tempo.
Ainda no domínio das ciências humanas e sociais, a contribuição dos sociólogos e cientistas políticos permite redefinir o saber histórico e cultural. Com efeito, os conceitos de "reino", "nação", "Estado", "império", "democracia", "feudalismo", "partido político", etc., utilizados em outros lugares certamente de maneira adequada, nem sempre são automaticamente aplicáveis à realidade africana.
O que se deve entender, exatamente, por "reino do Kongo", por exemplo? O próprio povo usa a expressão nsi a Kongo, literalmente, "o país (nsi) dos Kongo". Temos então um grupo étnico (os Kongo), uma região (nsi) e a consciência que tal grupo tem de habitar essa região, que assim se torna o país (nsi) do grupo étnico em questão. Os limites ou fronteiras são bastante fluidos, pois são função da dispersão dos clãs e subgrupos da etnia considerada. A palavra "reino" corresponde aqui a um território habitado exclusiva- mente por homens e mulheres pertencentes a uma mesma etnia. A homogeneidade étnica, lingüística e cultural é essencial. O "rei" (mfumu) é na realidade o mais velho (mfumu), o tio materno (mfumu) de todas as famílias (nzo) e de todos os clãs matrilineares (makanda) que reconhecem ancestrais- fundadores comuns (bankulu mpangu). Quando se examina a realidade mais de perto, o "reino do Kongo" resume-se, em definitivo, a uma vasta chefia, isto é, a um sistema de governo que engloba pequenas chefias locais. O "rei" é o mais velho dos' anciãos, o tio materno mais idoso entre os vivos; por isso é um ntinu, "chefe supremo". A expressão "reino do Kongo" não designa, portanto, um Estado governado por um rei, no sentido ocidental. Além do mais, esse sentido ocidental (reino de Luís XIV, por exemplo) é um sentido espúrio, tardio, inadequado, em suma, um caso particular de passagem do Estado a Estado nacional através da monarquia "absoluta".
Ao contrário, o "reino de Oanxome" (atual Benin) aproxima-se mais do tipo de monarquia absoluta, desastrosamente encarnada, na França, pelos reinados de Henrique IV a Luís XVI. Existe, com efeito, um território principal e permanente, que, como assinala o professor M. Glélé, possui uma administração central: o rei e seus ministros e os delegados dos ministros. O rei é a própria essência do poder. Ele detém todos os atributos de autoridade e comando. Tem direito de vida e morte sobre seus súditos, os anato, "pessoas do povo", entre as quais o rei, senhor e proprietário de todas as ele destinava aos seus domínios ou oferecia como presente aos príncipes e chefes. O poder central era exercido nas aldeias e regiões pelos chefes, em nome do rei. O "reino de Danxome" apresenta-se portanto como uma organização estatal fortemente centralizada. na qual se insere o sistema de descentralização administrativa constituído pela chefia. Existe assim um poder central que controla um povo (os Danxomenu) através das chefias. No curso da história e ao acaso das conquistas, países anexados se unirão ao antigo núcleo étnico, ao território permanente.
Houve então, num dado momento, um processo de conquista e aculturação-assimilação entre os povos aparentados e vizinhos (Fon, Mahi. Alada. Savi, Juda, etc.). O "reino" torna-se, a partir daí. um Estado pluriétnico estruturado e centralizado graça a uma forte organização administrativa e militar. e também a uma economia dirigida e dinâmica. As vésperas da penetração colonial. o reino de Danxome constituía um verdadeiro Estado-Nação, onde o diálogo e a palavra, a adesão das populações (através das chefias) eram um princípio de governo.
A palavra "reino" não tem portanto a mesma acepção em toda a África. Nesse sentido, os dois exemplos dados. do Kongo e de Danxome. são bastante elucidativos. É necessário, por conseguinte. que o historiador seja bastante cuidadoso ao empregar esse termo. Deve-se notar ainda que. enquanto no Kongo a chefia corresponde a um sistema de governo. no antigo reino de Danxome (Abomey), ela é um modo de descentralização administrativa.
Quanto ao termo "feudalismo", no campo de observação constituído pela Europa ocidental (não entendida apenas em seus limites geográficos). pode-se compreendê-lo no sentido dos medievalistas com tendência jurídica: o feudalismo é o que se refere ao feudo (surgido em torno dos séculos X-XI) e o conjunto de relações (lealdade. homenagem e obrigações) que liga o vassalo ao senhor, proprietário do domínio. Os camponeses que não fazem parte da camada superior da sociedade, não são considerados nesta acepção da palavra.
Os marxistas, ao contrário. dão um sentido mais amplo ao vocábulo "feudalismo": é um modo de produção caracterizado pela exploração econômica das classes inferiores (os servos) pelas classes dirigentes (os senhores feudais). Os servos estão ligados à gleba e dependem do senhor. Este não pode mais matar o servo. mas pode vendê-lo (propriedade limitada ao trabalhador). A servidão substitui a escravidão. mas muitos aspectos da condição desta última estão ainda presentes. Os servos. ou os camponeses, não estão associados à gestão dos negócios públicos e também não assumem funções administrativas. Do ponto de vista da evolução das sociedades européias. o regime feudal é uma etapa intermediária no processo de formação da economia capitalista. No entanto, muitos marxistas ainda misturam a noção política de feudalismo e a noção sócio-econômica de senhoria, que, graças a Marx, os historiadores aprenderam a distinguir desde 1847.
Seja qual for o sentido em que o termo é empregado. pode-se dizer que os regimes medievais europeus se assemelham aos da África negra pré-colonial? Só os estudos sociais comparativos (ainda bastante raros) poderão fornecer respostas adequadas a esta questão e estabelecer as distinções necessárias. O caráter "feudal" da organização dos Bariba (Daomé) já foi assinalado. sobre- tudo como hipótese de trabalho. O estágio pouco avançado das pesquisas sobre a questão do "feudalismo" na África negra exige do historiador uma prudência maior. E parece que as tendências "feudais" apresentadas pelas sociedades da África negra não devem ser definidas em relação a direitos reais devidos à atribuição de um "feudo", mas sobretudo em relação a uma forma de organização política baseada num sistema de relações sociais e econômicas particulares.
Dessa forma, as análises dos sociólogos e cientistas políticos podem constituir fontes exploráveis pelo historiador. Os "arquivos" do historiador, na África, variam enormemente em função dos materiais e períodos históricos, e também da curiosidade do próprio historiador.
Na África, as séries documentais são estabelecidas pelos mais diversos tipos de ciências - exatas, naturais, humanas e sociais. O "relato" histórico renovou-se completamente, na medida em que a metodologia consiste em empregar várias fontes e técnicas particulares ao mesmo tempo e de modo cruzado. Informações fornecidas pela tradição oral, os raros manuscritos árabes, as escavações arqueológicas e o método do carbono residual ou carbono 14 reintroduziram definitivamente o "legendário" povo Sao (Chade, Camarões, Nigéria) na história autêntica da África. A colina de Mdaga, na República do Chade, foi ocupada por um longo período - durante cerca de 2 500 anos, do século V antes da Era Cristã à metade do século XIX da Era Cristã. Sem a exploração global e cruzada de fontes tão diversas, teria sido totalmente impossível chegar a conclusões de tal modo pertinentes e inesperadas.
As noções clássicas da crítica histórica, tais como "ciências auxiliares", "escolha de fontes", "materiais históricos nobres", etc. são doravante abolidas da pesquisa histórica africana, o que assinala uma importante etapa na historiografia contemporânea.
A prática da história na África torna-se um permanente diálogo interdisciplinar. Novos horizontes se esboçam graças a um esforço teórico inédito. A noção de "fontes cruzadas" exuma, por assim dizer, do subsolo da metodologia geral, uma nova maneira de escrever a história. A elaboração e a articulação da história da África podem, conseqüentemente, desempenhar um papel exemplar e pioneiro na associação de outras disciplinas à investigação histórica.
Notas
1 BIRDSELL, J. 1972, p.299.
2 Trabalhos de François RODHAIN, entomologista, e de Serge TORNAY, etnólogo, membros da missão francesa de Omo, dirigida por M. COPPENS (1971-72).
3 PIGAFETTA-LOPEZ, 1591, p. 40: "Venendo sementa dai fiume Nilo, in quella parte dove empie il secando lago".
4 PIGAFETTA-LOPEZ, ibid,: "Ed il maiz che e il piu vile de tutti, che dassi à porci"
5 PIGAFETTA-LOPEZ. ibid.: "il raso e in pocco prezzo".
6 DOBLHOFER. Ernst. 1959.