Do Rio Volta aos Camarões

Allan F. C. Ryder

Abrangendo a área onde hoje localizam-se Benim, Togo, Nigéria, entre outras, a África Meridional é o berço dos Iorubás, a mais conhecida entre nós das culturas tradicionais africanas, cuja tradição religiosa e social manifesta-se em vários lugares e países da África, América e Europa. in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 4



Ecologia e lingüística
Há oito séculos, a orla marítima da região situada entre o rio Volta e os Camarões não tinha aspecto muito diferente do que tem hoje. Mais para o interior, todavia, os pântanos de água doce que cobrem a maior parte do delta do Níger e também os cinturões de florestas pluviais estavam menos afetados pela colonização intensiva. Desde essa época, as derrubadas de árvores e as queimadas realizadas na estação seca converteram quase metade da floresta original numa savana secundária. Nas atuais República do Togo e República Popular de Benin, onde a área ocupada por florestas era menor que na atual República Federal da Nigéria, a queimada anual da vegetação virtualmente destruiu a floresta primitiva. Também ao leste do Níger, a agricultura eliminou centenas de quilômetros quadrados da floresta pluvial original, substituindo-a por dendezeiros.
A derrubada da floresta primária teve início há milhares de anos, quando as populações negras se instalaram pela primeira vez na região. Acelerou-se sensivelmente com a difusão das técnicas de emprego do ferro, que favoreceu a passagem de uma economia de caça e coleta para uma economia agrícola. No século V da era cristã, já se utilizava o ferro em quase toda a zona florestal, o que resultou num aumento considerável da densidade da população. Essas tradições são particularmente fortes entre os Yoruba - que, historicamente, talvez constituam o grupo mais importante de toda a área -, embora a análise dialetal de sua língua indique que a migração desse povo se orientou da floresta para a savana. Há, pois, contradição evidente entre a análise lingüística e as tradições históricas. Levantou-se a hipótese de que essa contradição se explicaria pela movimentação de populações secundárias da floresta para a savana e vice-versa.
Três grupos principais de dialetos yoruba foram identificados 1. Dois parecem apresentar características de maior Antigüidade e, portanto, de estabelecimento anterior: o central (que compreende as áreas de Ife, Ijesha e Ekiti) e o do sudeste (que compreende as áreas de ando, Owo, Ikare, Ilage e Ijebu). No século XII, todos esses territórios se localizavam dentro da zona florestal. O terceiro grupo, cujos dialetos eram falados pelos habitantes de Oyo, Osun, Ibadã e parte setentrional da área de Egba, formava o grupo do noroeste, associado historicamente ao Império de Oyo, e parece ser menos antigo que os outros. Essa análise é confirmada pelo mito de Ife, que situa a criação da Terra em Ile-Ife, enquanto o mito de Oyo, recolhido por Samuel Johnson, no final do século XIX, postula as origens dos Yoruba em migração vinda do leste 2.
Uma análise semelhante da língua edo mostra que seus vários dialetos podem ser reunidos em dois grupos, um setentrional e outro meridional, sendo que o último comporta o dialeto do reino de Benin, o mais evoluído nos planos político e cultural. No entanto, não se determinou até hoje se essa divisão corresponde a uma seqüência histórica de fixação e dispersão 3. Faz-se necessário um estudo sistemático dialetal da língua igbo, mas há uma hipótese de que a população Ibo se teria expandido para norte, nordeste, oeste e sul a partir do lugar de origem, supostamente perto de Owerri-Umuahia 4.
Foram encontrados vestígios de migrações dos Ijaw (Ijo) na parte central do delta do Níger e imediações. Em resumo, os indícios de que dispomos atualmente levam a crer que a maior parte das populações importantes para a evolução histórica dos últimos milênios provinha das zonas florestais.
No início do período ora estudado, as línguas faladas na região certamente não haviam assumido suas formas atuais, nem se distribuíam segundo o padrão atual. Formalmente, é provável que fossem mais próximas entre si do que hoje em dia; o método glotocronológico, segundo o qual as principais línguas kwa foram formadas com muitos milênios de distância, está amplamente desacreditado. É provável também que essas línguas fossem mais numerosas, pois grande número delas, sem dúvida, desapareceu, suplantado pela expansão de grupos lingüísticos mais vigorosos e bem-sucedidos. Em apoio dessa hipótese pode-se indicar o fato de que, em áreas pouco acessíveis, várias línguas - cada uma delas falada em apenas uma ou duas aldeias - parecem ter sobre- vivido em meio ao avanço dos Yoruba e dos Edo 5. Acontecimentos decisivos ocorreram entre + 1100 e + 1500, como conseqüência da expansão de alguns grupos, que impuseram sua supremacia lingüística, e às vezes política, a vastos territórios, anteriormente ocupados por populações mais fracas ou até desabitados. O exemplo mais impressionante dessa expansão foi a formação de Estados territoriais importantes como os de Oyo, Benin e Ife, mas nem sempre foi isso o que aconteceu; a dispersão dos Ibo, por exemplo, não levou à constituição de um grande Estado ibo, mas a uma série de povoações independentes, organizadas por grupos de linhagem.
As sociedades baseadas em grupos de linhagem
Esse é o nome dado às sociedades onde não há poder centralizado, nas quais os clãs ou as linhagens vivem lado a lado, em completa independência. A autoridade do patriarca ou chefe do grupo de linhagem não era absoluta, e cada grupo explorava área mais ou menos vasta do território. Algumas técnicas agrícolas eram rudImentares e a procura de bons solos provocava migrações.
No período aqui abordado, nota-se um crescimento da população associado ao progresso técnico e ao surgimento de regime alimentar mais rico. Por isso, não se pode dissociar a cultura intensiva do inhame e a abundância de dendezeiros do estabelecimento maciço dos Ibo na floresta a leste do Níger. Em certos pontos do território ibo, as derrubadas chegaram a provocar a devastação da floresta 6. Essa expansão também teve como resultado a exploração mais intensiva do solo e o surgimento de grandes aglomerações em aldeias. Sem que se possa explicar como, dessas aldeias originaram-se Estados, cidades bem estruturadas, com uma autoridade política bem individualizada.
Entre os Ibo, muitas linhagens mantiveram-se independentes, contrastando com outras sociedades, onde o grupo de linhagem era dirigido por um poder central - um rei com corte e funcionários. Pode-se, portanto, distinguir as sociedades baseadas em grupos de linhagem das cidades-Estado e dos reinos, cujo poder político era mais elaborado. A forma de sociedade mais comum é a "comunidade dispersa, definida por território", resultado de uma conjuntura em que a reserva de terras periféricas disponíveis para uma população em expansão é insuficiente; para se fixarem em novas terras, alguns grupos precisam separar-se dos parentes mais próximos e solicitá-las a outros grupos, com os quais têm poucos ou nenhum laço de parentesco.
Na floresta encontram-se, ao lado de reinos e cidades, muitos grupos de linhagem que mantiveram sua independência e que vivem sob a autoridade - mais ritual do que política - dos patriarcas. Talvez os Akposo da República do Togo tenham conseguido preservar sua organização por grupos de linhagem graças ao terreno acidentado onde vivem. Mas a maioria dos povos se viu constrangida a abandonar essa forma de organização e a fundir linhagens vizinhas em comunidades mais vastas, do tipo de aldeias, para formar um sistema de defesa eficaz contra seus inimigos. Às vezes o inimigo era a população autóctone, lutando para proteger seu território dos invasores. As tradições ife relativas a um longo conflito, em tempos remotos, com os Igbo 7 podem se referir a uma situação similar. Os Owo têm uma lenda semelhante, de luta contra um povo conhecido como os "Efene". No entanto, a defesa não foi a única razão para o surgimento de comunidades reunidas em aldeias em oposição à forma dispersa de ocupação.
Por exemplo: a parte dos Ijaw (Ijo) que migrou do delta de água doce para a região de pântanos salgados foi, conseqüentemente, forçada a trocar sua economia baseada na agricultura e na pesca por outra, baseada na pesca em água salgada e na produção de sal por ebulição. Em seu ambiente anterior, os Ijaw (Ijo) viviam em grupos autônomos, governados por uma assembléia de todos os adultos do sexo masculino, presidida pelo decano. Na nova aldeia de pescadores, composta de várias linhagens sem laços de parentesco e em competição com outras aldeias pela ocupação de terras insuficientes, a idade deixou de ser critério para o exercício da autoridade e foi substituída pela competência pessoal e pelo fato de se pertencer à linhagem dominante, geralmente a do ancestral fundador.
Além de propiciar o surgimento de novas formas de organização, a aldeia favoreceu o surgimento de instituições que se contrapunham à afiliação a linhagens. As mais comuns eram as classes de idade e as sociedades secretas. As primeiras reuniam os homens e, bem mais raramente, as mulheres, em grupos etários que serviam ao conjunto comunitário da aldeia. Os habitantes de sexo masculino eram divididos basicamente em dois grupos: os jovens e os mais velhos. Por vezes, havia um sistema tríplice, no qual se distinguia, além dos jovens e adultos maduros (que constituíam as forças combatentes da aldeia), o grupo dos mais velhos, que formavam o conselho de governo. As cerimônias de iniciação, que precediam a entrada em cada classe etária, permitiam afirmar a solidariedade em nível de aldeia, em contraste com a solidariedade em nível de linhagem; também contribuíram bastante para libertar os membros das sociedades secretas de seus vínculos familiares, levando-os a privilegiar a fidelidade ao corpo social 8.
Assim como a felicidade do grupo familiar era - acreditava-se - garantida pelos espíritos dos antepassados, a quem o decano da linhagem rendia homenagem em nome de sua família, também o chefe da aldeia mantinha relações privilegiadas com as forças espirituais que poderiam trazer o bem ou o mal a toda a comunidade. Os cultos de Ama-teme-suo e Amakiri, entre os Ijaw, ilustram bem como se deu a emergência de conceitos religiosos especificamente relacionados à comunidade. O de Ama-teme-suo é particularmente impressionante, pois encarna "a verdadeira essência e a alma da própria comunidade, e pode-se dizer que dele dependia o destino da aldeia" 9.
A aldeia, como estrutura social, era comum no século XII? O fato de os Estados territoriais mais antigos de que temos algum conhecimento terem se formado por volta dessa época atesta que, pelo menos em certas regiões, principalmente na floresta seca, as aldeias já estavam bem estabelecidas. As evidências arqueológicas, atualmente, não ajudaram a encontrar uma resposta categórica para a questão, pois quase nunca existem meios para determinar se um depósito antigo provém de uma aldeia ou de colônias dispersas. Daí não se poder afirmar que tipo de ocupação do solo produziu o carvão vegetal extraído dos poços de Ile-Ife, que a datação pelo carbono-14 situa entre +560 e +980. Há a mesma incerteza quanto ao sítio de Yelwa, às margens do Níger, cujos depósitos arqueológicos indicam uma ocupação prolongada, desde + 100 até + 700. Somente pesquisas minuciosas e extensivas em vastas áreas poderiam demonstrar inequivocamente a existência de aldeias e determinar a época de sua formação 10. O problema também poderia ser abordado através do estudo cuidadoso das tradições relativas às origens, às migrações e às instituições religiosas, sociais e políticas. Pesquisas desse tipo entre os Ijaw permitiram retraçar a dispersão desse povo pelo delta do Níger e demonstrar que ela começou, com relativa certeza, o mais tardar no final do século XII. Também podemos atribuir a esse mesmo período a introdução de povoamentos do tipo de aldeias entre os Ijaw, pois, como se mencionou anteriormente, foi a dispersão no novo ambiente que deu origem à nova estrutura política.
Se as evidências arqueológicas não permitem estabelecer distinção entre uma ocupação agrícola dispersa e uma aldeia, no primeiro milênio da era cristã, é ainda mais difícil afirmar a existência de unidades políticas mais importantes que a aldeia nessa época. É, no entanto, razoável supor que elas existissem, não sendo necessário procurar influências externas, nem mesmo sudanesas, para explicar a transformação de uma aldeia em cidade-Estado na região de florestas da Africa ocidental. O modelo proposto por R. Horton para descrever a transformação de uma comunidade organizada por grupos de linhagem em uma aldeia compacta mostra como, no decorrer do processo, os primeiros órgãos de um "Estado" podem começar a aparecer por adaptação interna 11.
A liderança perde seu caráter transitório, as linhagens fundadoras adquirem maior autoridade, assiste-se ao surgimento de instituições com um espírito comunitário, e não mais familiar, e os princípios de integração política, baseados na residência e legislação comuns, tornam-se fundamentos do princípio de soberania.
Reinos e cidades
Uma vez estabilizada, a aldeia crescia rapidamente, se o solo fosse fértil, tornando-se uma comunidade importante; a partir de então, fazia-se necessário montar uma organização militar eficaz. É bem provável que, mesmo nas regiões florestais, as rotas e os intercâmbios comerciais tenham sido importantes .,: para o desenvolvimento das cidades. Uma vez constituída, a cidade se tornava um centro econômico ativo, que atraía comerciantes. Tudo leva a crer que as cidades se formaram num clima de rivalidade, quando não de hostilidade. As mais combativas aumentaram seu território absorvendo outras cidades e outros territórios. No entanto, a floresta, além de frear o expansionismo, contribuiu para limitar os domínios da cidade; poucas foram as que tiveram um raio de ação para além de 60 km da capital; as que ultrapassaram esse limite, dependiam de "vassalos" ou de chefes de linhagem.
Nossa insistência em sublinhar a origem autóctone do Estado da região florestal não deve ser interpretada como a negação de qualquer influência externa. Um Estado pode ter-se inspirado em alguma prestigiosa fonte exterior para elementos de seu fausto e cerimonial, ou mesmo para tomar de empréstimo um chefe. Nos Estados da região florestal há alguns exemplos cuja autenticidade é inquestionável; o emprego generalizado de espadas cerimoniais e de títulos de chefaria do Beni é um entre tantos outros. Assim, não há razão para supor que esse tipo de intercâmbio não ocorresse entre os Estados da região florestal e os da savana.
Na época em que Gana dominava o Sudão ocidental, certamente já existiam relações comerciais com os países da floresta. Essas permutas entre a floresta e a savana também podem ter favorecido o intercâmbio de traços culturais e instituições entre as duas regiões. Nos séculos XII e XIII, a expansão dos povos da savana na direção da floresta é atestada pela amplitude do comércio de nozes-de-cola, ouro e cobre. Os Manden (Mandingo ou Wangara) e os Haussa logo entraram em contato com os povos da floresta, estabelecendo relações de guerra e comerciais 12.
Um exemplo de evolução para Estado sem qualquer influência exterior perceptível pode ser encontrado na transformação da aldeia autônoma dos Ijaw em comunidade com características de um Estado. Nas aldeias de pesca- dores, na parte oriental do delta do Níger, os chefes adotaram o título eloqüente de amanyamabo ("proprietário da aldeia"). A necessidade de trocar seu peixe e seu sal por alimentos que não podiam cultivar, estimulou o comércio dessas aldeias com os Ijaw e os Ibo do interior. Esse comércio, por sua vez, reforçou a autoridade das instituições estatais; a aldeia cresceu, transformou-se numa cidade, cujo chefe tornou-se rei ou "proprietário da cidade".
Os Yoruba
O conjunto de Estados que agrupava os povos de língua yoruba era o mais importante da região, pois estendia-se do Atakpame, a oeste, até Owo, a leste; de Ijebu e Ode Itsekiri, ao sul, até Oro, ao norte. Suas origens são mais obscuras que as dos Estados ijaw, pois o prestígio de dois Estados yoruba - Ife e Oro - impregnou as tradições dos outros. Sugeriu-se, por exemplo, que a reivindicação dos Popo (Gun) de serem descendentes dos Ife teria origem no século XVII, quando seu território foi conquistado pelos Oro, e tornou-se importante para os conquistadores estabelecerem o vínculo com os Ife, para justificar seu domínio sobre um povo "yoruba" 13. É claro que todas as afirmações tanto de povos quanto de dinastias que pretendem descender dos Ife devem ser encaradas com cautela. Mais uma vez, é instrutivo voltarmos aos Estados ijaw, dos quais muitos pretendem ser originários do Benin. A este respeito, escreveu-se:
A pretensão de derivar sua ascendência do Benin e de outras regiões mais distantes reflete, de fato, uma atitude singular dos Ijaw em relação às origens, isto é, profundo preconceito contra indivíduos e grupos que não conhecem seus antepassados. Assim, um grupo que não mais se lembra do local de origem tende a escolher um que era considerado poderoso, antigo e distante o suficiente para não ameaçar sua autonomia" 14.
Esse gosto pela ascendência não é, com certeza, peculiaridade dos Ijaw; os Yoruba e muitos outros povos que reivindicam origem ife inspiram-se, provavelmente, em considerações do mesmo tipo. Em alguns lugares, a investi dura de um dirigente proveniente de Ife, ou mesmo de outro Estado yoruba, parece ter levado toda a população a pretender ascendência ife 15.
Admitindo-se que o berço dos Yoruba corresponda às regiões onde se falam grupos de dialetos do centro e do sudeste, é nessa área que devemos procurar as origens das instituições estatais yoruba. A pretensão dos Ife de serem os fundadores do primeiro Estado yoruba é com certeza convincente. Todas as numerosas versões - .mesmo as provenientes de Oro - da lenda de Oduduwa, fundador desse Estado, reconhecem a supremacia de Ife, e não há outras lendas rivais que tentem atribuir essa distinção a qualquer outro Estado. Estabeleceu-se, pelo método do carbono-14, que o carvão vegetal descoberto no sítio da cidade de Itayemu data do período compreendido entre I + 960 e + 1160, o que confirma as considerações precedentes, pois esses vestígios são anteriores aos de todos os outros sítios urbanos yoruba 16. Outro argumento em favor da reivindicação ife é a relativa proximidade do núcleo urbano das bordas setentrionais da floresta, o que teria exposto seus habitantes, mais cedo que os demais, a uma pressão das populações estabelecidas na savana.
As origens
Segundo a lenda de Ife, uma primeira geração de Estados yoruba constituiu-se no tempo dos netos de Oduduwa, que se teriam dispersado a partir de Ife; esses Estados eram: Owu, Ketu, Benin, lIa, Sabe, Popo e Oro. É no entanto, pouco provável que sua criação tenha ocorrido simultaneamente e da forma descrita na lenda. O caso de Popo já foi discutido. A lista de reis de Sabe contém apenas 21 nomes, enquanto a de Ketu enumera 49 e a de Ife, 47. Por outro lado, Ijebu, que não consta entre os primeiros Estados yoruba da lenda, parece ser o mais antigo, com uma lista de 52 reis. Com certeza, ainda resta muito a aprender sobre a ordem e o modo como nasceram esses Estados.
Um Estado yoruba típico tinha dimensões bem modestas, sendo quase , sempre formado por uma única cidade e as aldeias próximas. Nos últimos séculos, só a área de Ekiti contava pelo menos 16 ou 17 reinos, e nada indica que eles alguma vez tenham sido em número menor ou mais extensos. Parece que as cidades de Egbado nunca constituíram um Estado de grandes dimensões ou uma federação, enquanto os Egba, assim como os Ijebu, formaram uma federação de pequenas cidades-Estado, ao invés de um reino centralizado. , Os 130 km de extensão do eredo correspondem, provavelmente, aos limites i do território de Ijebu propriamente dito. Parece que mesmo Ife não chegou a dominar um vasto território 17. Os Akoko, estabelecidos no limite nordeste da influência yoruba, nunca ultrapassaram o nível de aldeia em sua estrutura política.
Em meio a essa multidão de pequenos Estados, a grande exceção foi o reino de Oro, embora seu caráter "imperial" só tenha se desenvolvido um tanto tarde, talvez no começo do século XVII. Esse caso único pode, talvez, ser explicado pela topografia - savana típica -, onde prosperou o Império Oro, que permitia uma facilidade de movimentos maior que na floresta e, portanto, o deslocamento da cavalaria e de grandes contingentes de infantaria, por distâncias maiores. De fato, acredita-se que o desenvolvimento de Oro tenha sido mais influenciado pelos Estados vizinhos da savana - Borgu e Nupe - que pelos Estados yoruba da região florestal. Ele teve de se afirmar primeiro frente a seus rivais do norte, antes de poder lançar-se à conquista dos Yoruba. Pela lista de reis de Oro, supõe-se que o reino tenha sido fundado no começo do século XV. O abandono da capital, sob a pressão dos Nupe, durante o segundo quarto do século XVI, está bem determinado. A evidência arqueológica mais antiga até hoje descoberta parece remeter a um período posterior à reocupação da capital, por volta do final do século XVI. Em resumo, é pouco provável que Oro tenha atingido grande importância no fim do século XV.
Ife
Considerando a posição central que essa cidade ocupa na história geral dos Yoruba, é surpreendente que a história de Ife seja tão pouco conhecida.
Afora a abundância relativa de detalhes sobre Oduduwa - legendário fundador do Estado - e sobre seus sucessores imediatos, os relatos que encontramos na tradição oral são fragmentários, com relação aos períodos subseqüentes. Os vestígios arqueológicos conseguem preencher algumas lacunas, mas as pesquisas neste campo ainda mal se iniciaram. Uma primeira fase da história do Estado começaria por volta do século XI, caracterizada por um tipo de habitat disperso, pelo emprego comum de pisos de cacos de cerâmica justapostos, por uma indústria de contas de vidro e por uma refinada arte da terracota, especializada na elaboração de figuras naturalistas, principalmente de cabeças humanas. .Estas levaram alguns etnólogos a estabelecer uma ligação entre as culturas de Ife e de Nok, apesar do milênio que separa uma da outra. A grande semelhança da arte da terracota de Ife com a encontrada em outros centros de cultura yoruba é ainda mais reveladora. Cabeças de um estilo próximo ao de Ife foram descobertas em Ikinrum e Ire, perto de Oshogbo, em Idanre, perto de Ikare, e, mais recentemente - o que é particularmente interessante -, em Owo, onde grande número de esculturas em terracota foram: exumadas entre os vestígios do século XV. A disseminação da prática desse estilo por vastas áreas poderia testemunhar a grande influência exercida por Ife, mas é possível que se trate simplesmente de fenômeno cultural difundido entre os Yoruba, mais associado a ritos religiosos que à realeza de Ife. Em outras palavras, Ife é apenas um dos muitos centros que produziram esse tipo de objeto, e cada vez é mais difícil sustentar que teria a exclusividade desse estilo. Da mesma forma, os pisos de cacos de cerâmica, descobertos juntamente com figuras de terracota, não são exclusivos dessa cidade, pois outros semelhantes foram encontrados em Owo, Ifaki, Ikerin, Ede, Itaji, Ekiti, Ikare e, ainda mais longe, em Ketu e em Dassa-Zumé, na República Popular de Benin, e também no distrito de Kabrais, na República do Togo. Em Yelwa, foram encontradas num sítio ocupado até cerca de +700; em Daima, perto do lago Chade, entre depósitos do século VIII; e em Benin, entre os vestígios do século XIV. Os pisos de cacos de cerâmica mais antigos descobertos até agora em Ife datam de cerca de + 1100; os mais recentes têm impressões de espigas de milho, o que significa -que não podem ser anteriores ao século XVI 18. O desaparecimento das técnicas de fabricação do piso e aparentemente também da arte da terracota deve-se provavelmente a uma catástrofe que teria abalado os Ife no século XVI. As 25 cabeças de "bronze" de Ife (trata-se, na verdade, de latão e de cobre), que estilisticamente e de forma impressionante se parecem com as terracotas, podem ter sido feitas nos anos imediatamente anteriores ao desastre, quando, em virtude das importações de cobre e latão pelos portugueses, os metais destinados à fundição e à moldagem se tornaram relativamente abundantes. Atualmente podemos apenas conjeturar sobre a natureza dos acontecimentos que destruíram essa cultura; a hipótese mais verossímil parece ser a de conquista por uma dinastia estrangeira.
Se essa interpretação da história de Ife for correta, a dinastia que reina atualmente é a mesma que se estabeleceu no século XVI, construiu o palácio na sua atual localização e também os primeiros muros ao redor do centro da cidade. e possível que a nova dinastia tenha preservado algumas instituições políticas e sociais de sua predecessora, mas nada indica que o regime anterior seja mais semelhante ao seguinte no plano político que no artístico. Não é possível, portanto, descrever exatamente a forma de governo que existia em Ife antes do século XVI. Também se ignora se o parentesco com a civilização ife, reivindicado por bom número de Estados yoruba, data de um período antigo ou mais recente da história de Ife.
Se o desenrolar das cerimônias de entronização e os emblemas reais de hoje são muito semelhantes na maioria dos países yoruba, inclusive em Ife, eles diferem sensivelmente das insígnias que usam por efígie os personagens que supostamente teriam pertencido a famílias reais da primeira fase da história de Ife. Podemos, então, concluir que a realeza yoruba dos tempos modernos provém de época mais recente, mesmo que originariamente os Estados se tenham constituído segundo os modelos da Ife dos tempos antigos.
Não se exclui a hipótese de que a grandeza e a decadência dos Estados do Sudão ocidental nos séculos XV e XVI tenham influenciado direta ou indiretamente a formação dos Estados yoruba na zona florestal do golfo da Guiné. Nessa época formaram-se, ou melhor, reconstituíram-se muitos grandes Estados localizados ao norte dos que tratamos neste capítulo, sendo os mais importantes os de Borgu, Idah e Kwararafa (Kororofa) 19. Seu surgimento e sua expansão podem, certamente, explicar as desordens sofridas nesse período pelos Estados vizinhos do sul. Sabemos que os Nupe expulsaram os Yoruba da antiga Oyo no começo do século XVI, e que, antes de voltarem à sua capital, três quartos de século mais tarde, os Oyo haviam reorganizado suas forças militares, reforçando a cavalaria, força de combate dos exércitos dos Estados da savana. Os Oyo tomaram dos Nupe o culto Egungun dos ancestrais e, possivelmente, algumas particularidades de seu Estado reconstituído também tiveram a mesma origem.
O reino do Benin
O Benin foi o primeiro Estado desta costa em que estiveram os portugueses, com o qual logo estabeleceram tanto laços diplomáticos quanto comerciais. Localizado a sudoeste de Ife, acredita-se que o Benin tenha se tornado reino bem cedo, talvez desde o século XII. No século XV, ele parece ter sofrido uma transformação que, em certos pontos, lembra a de Ife no século XVI. Não se exclui que tenha existido uma espécie de Estado entre os Edo (Bini) antes do século XIII, mas tanto a tradição do Benin como a dos Yoruba atribuem o estabelecimento definitivo de um reino a um descendente da prestigiosa família reinante em Ife. Diz a tradição que alguns chefes do Benin pediram ao rei de Ife, Oduduwa, que lhes mandasse um príncipe, e o rei enviou-lhes o filho Oronyan. Isso aconteceu provavelmente por volta de + 1300. Ainda segundo a tradição, os poderes dos primeiros soberanos dessa dinastia de Ife eram limitados pelos poderes hereditários dos chefes autóctones, denominados uzama. No entanto, é possível que a própria dinastia tenha conferido aos uzama os títulos e a organização, pois há semelhanças entre esses títulos e os mais comuns entre os Yoruba, o que só poderia ser explicado por uma imitação de uma parte ou de outra 20. Os seis chefes uzama parecem ter desempenhado papel político bem semelhante ao que seria atribuído mais tarde aos sete portadores do título de oyomesi (oyo missi) de Oyo. Se a hipótese de R. Horton sobre a formação dos Estados for admitida, poder-se-á supor que muitos reinos adotaram variantes desse princípio de base, que prevê um equilíbrio de poder entre o rei e chefes representantes de grupos de linhagem. A tradição afirma que o quarto soberano da dinastia do Benin conseguiu romper o equilíbrio em seu favor, depois de luta armada contra os chefes uzama. Esse soberano instalou-se daí por diante num palácio mais amplo, onde cercou-se de grande corte e criou certo número de títulos não-hereditários para seus homens mais importantes; mesmo assim, nem ele nem seus sucessores ultrapassaram a condição de primus inter pares diante dos poderosos uzama.
No século XV, profundas agitações internas transformaram em autocracia essa monarquia de poder limitado, e o pequeno Estado tornou-se um grande reino. A tradição atribui essa transformação a um soberano chamado Ewuare, que se apoderou do trono, expulsando e assassinando um irmão mais novo; conta-se que a luta provocou a destruição de grande parte da capital. Essa explicação dos acontecimentos - em termos de um primogênito e sucessor legítimo lutando contra um irmão mais novo usurpador - é suspeita, na medida em que parece uma tentativa de preservar a legitimidade indispensável à genealogia de uma dinastia que, em todos os outros pontos, nesse momento, já estava desacreditada. Tendemos mais a ver, na violência que acompanhou a ascensão de Ewuare ao poder e nas transformações radicais que se sucede- ram, a conquista do Benin por uma potência estrangeira.
A cidade
Ewuare reconstruiu a capital de acordo com novo plano e deu-lhe o nome de Edo, denominação que permanece até hoje 21. No centro da cidade, como em Ife, escavaram-se enormes fossos e construíram-se muralhas, cujo traçado não levava em conta as construções mais antigas. No interior dos muros, uma grande avenida separava o palácio da "cidade", ou seja, dos bairros onde habitavam membros de numerosas corporações de artesãos e especialistas do ritual, a serviço do soberano. O palácio propriamente dito comportava três departamentos: o guarda-roupa, os servidores pessoais do soberano e o harém, servidos por um pessoal dividido, por sua vez, em três categorias, análogas às classes de idade das aldeias edo.
Cada corporação da "cidade" estruturava-se do mesmo modo e era filiada ao departamento correspondente do palácio. O pessoal mais graduado do palácio recebia títulos vitalícios. Há motivos para crer que Ewuare convocava para serviços palacianos todos os súditos nascidos livres, impondo-lhes um período de trabalho obrigatório nos postos mais baixos. Após ter completado esse serviço, a maioria voltava às suas aldeias. Ewuare impunha aos súditos nascidos livres uma escarificação facial - que lhes conferia a qualidade de "servidores do aba" - para reforçar o laço pessoal que os unia ao soberano.
O governo de Ewuare
Remodelado por Ewuare, o governo do Benin era composto pelo soberano e três grupos de dignitários: os uzama, cujo cargo era hereditário, os chefes de palácio, e uma ordem (criada por Ewuare) de chefes de "cidades".
Esses dignitários do topo da hierarquia constituíam o conselho, que deliberava , com o soberano qualquer assunto que lhe fosse submetido. Cada um se encarregava do controle de certo número de unidades tributárias em que o reino estava dividido. Os súditos de categoria inferior eram os mensageiros, os efetivos do exército, ou executavam, de várias maneiras, a vontade do rei. Entre outros princípios constitucionais que passaram a ser adotados nessa época, convém citar o direito de sucessão ao trono por primogenitura; Ewuare conferiu ao seu herdeiro presuntivo o título de eddiken, que ele acrescentou à ordem dos uzama. Também no campo da religião, Ewuare, que era tido como grande mágico, reforçou o poder místico atribuído ao soberano, ao introduzir a comemoração anual da festa Igue, durante a qual suas forças vitais eram renovadas.
Outra realização de Ewuare - a criação de um grande reino - envolveu-o em guerras constantes contra os vizinhos. A frente das tropas, submeteu " outras populações edo, grande parte dos Ibo que viviam a oeste do Níger e alguns Yoruba do setor oriental, inclusive, diz-se, as cidades de Akure e Owo.
Entre os territórios conquistados, Os mais distantes conseguiram preservar certo grau de autonomia, pagando trIbutos ao Benim; a outros, Ewuare impôs governos calcados no modelo do Benin, tendo à frente príncipes de sua família; apenas os povos que viviam num raio de aproximadamente 60 km da capital estavam sob o controle direto do Benin. Nessa região central, só o rei tinha o poder de condenar alguém à pena de morte.
A tradição não diz se Ewuare reformou radicalmente o exército, o que poderia explicar o sucesso dessa expansão. Talvez o segredo de suas vitórias fosse a capacidade de mobilizar os súditos, que lhe permitiu reunir forças superiores às dos adversários. No entanto, para integrar grande número de súditos fisicamente fortes à máquina de guerra, era-lhe também necessário empreender numerosas expedições, cujo butim e tributos obtidos se destinavam à manutenção do exército.
Durante mais de um século, os sucessores guerreiros de Ewuare organizaram regularmente incursões militares nas províncias limítrofes ou mesmo mais distantes. A maior parte dos povos do Edo setentrional foi dominada pelo Benin. A influência yoruba, que se estendia para o leste, foi obrigada a recuar, diante da forte pressão de Edo sobre seu território. Ultrapassando Owo e Akure, os exércitos do Benin submeteram vastos territórios de Ekiti.
Acredita-se no Benin que Ijebu, um dos Estados yoruba mais antigos, teria vivido temporariamente sob a tutela de Edo. Apesar de esse fato não ter sido confirmado em Ijebu, alguns aspectos de seu governo - a associação do palácio ifore, por exemplo - têm muitos pontos em comum com o do Benin.
Semelhanças desse tipo também são encontradas em Ondo, outro Estado yoruba limítrofe. A conquista pelo Benin poderia explicar essas semelhanças, mas é possível que alguns Estados yoruba tenham reivindicado - ou pelo menos aceito de bom grado - um soberano do Benin, após Ewuare ter estabelecido
O prestígio de sua dinastia. Foi o caso dos Itsekiri, um ramo oriental dos Yoruba, entre os quais Iginua, neto de Ewuare, instalou-se como soberano. Cercado por um grupo fiel a Edo, ele fundou um reino segundo o modelo do Benin, que reconheceu por muitos séculos a soberania da dinastia-mãe.
As particularidades do Estado do Benin, depois de reformado por Ewuare, foram descritas aqui com abundância de detalhes que poderia parecer excessiva. Isso se deve porque, por um lado, esse soberano teve papel crucial na história dos Edo, e, por outro, porque exerceu grande influência sobre os vizinhos; e também, finalmente, porque o reino do Benin é o único Estado da região de cujas instituições anteriores ao século XVI temos conhecimento razoável, A história antiga do Benin é bem mais detalhada que os rudimentos recolhidos em todos os outros Estados graças à riqueza da tradição oral preservada pela corte, às informações recolhidas pelos visitantes europeus nos séculos XVI e XVII e às pesquisas arqueológicas que vêm sendo realizadas na cidade nas últimas duas décadas, que confirmam a tradição, situando no século XV a construção da grande muralha de Ewuare e a renovação do palácio. A arqueologia também esclareceu a evolução da célebre arte do Benin, a moldagem do latão e do bronze pela técnica da cera perdida. Estabeleceu-se que todos os objetos de latão descobertos entre os vestígios anteriores ao século XVI tinham sido forjados, e não moldados. Embora seja provável que a moldagem pela técnica da cera perdida já fosse conhecida em tempos mais antigos, as evidências arqueológicas e o estudo estilístico de numerosos objetos em latão encontrados, que ainda hoje existem no Benin, indicam que essa arte só floresceu no século XVI, quando grandes quantidades de latão foram importadas da Europa 22.
A arte de Ife e o problema dos bronzes do golfo
Até hoje, a arte africana tem sido estudada quase que exclusivamente do ponto de vista estético, negligenciando-se, freqüentemente, o contexto sociológico no qual foi criada. Com a civilização de Ife-Benin, temos ocasião de estudar uma arte africana em seu contexto histórico-sociológico. Em geral, a escultura em madeira domina a arte negro-africana, de forma que a maior parte das peças que extasiam os este tas é de época recente; a brilhante exceção é a da civilização de Ife-Benin, onde se encontram obras de arte em terracota e bronze: daí a importância dessa região na evolução geral da arte negro- -africana.
Falamos acima que os objetos em latão eram ou forjados, ou feitos pela técnica da cera perdida, conhecida em Ife, provavelmente, desde antes do século XIII. A luz de pesquisas mais recentes, uma ligação natural une a arte da terracota de Ife, ilustrada por figuras naturalistas, principalmente cabeças humanas, à cultura de Nok, que remonta à Idade do Ferro (no século V antes da era cristã). Isso é essencial e sublinha a grande difusão da cultura nok, que não deve ser circunscrita aos planaltos de Bauchi; além disso, temos provas de intercâmbios e contatos contínuos entre os países da savana, ao norte, e os da floresta, ao sul. Assim, os célebres objetos em bronze e latão de Ife e do Benin são o resultado da evolução artística, iniciada pelo menos na Idade do Ferro, numa área cultural muito vasta.
Pouparemos o leitor de todas as elucubrações dos colonizadores, que tentaram descobrir uma origem extra-africana para essas obras de arte, de um naturalismo tão puro que um especialista europeu da arte yoruba observou:
"Se examinarmos a cabeça reproduzida [a de um oni de Ife do século XIII], seremos tentados, à primeira vista, a exclamar: '~, sem dúvida, uma obra da Renascença!' " 23.
Foi o alemão Leo Frobenius quem descobriu as esculturas de Ife, em 1910, durante uma viagem à África. Mas; no fim do século passado, ocorreu um fato sobre o qual não se pode silenciar: Ife foi saqueada por uma coluna inglesa e a cidade foi pilhada pelos conquistadores, que levaram para a Inglaterra muitas esculturas do palácio.
Leo Frobenius apresentou as obras-primas de Ife ao mundo civilizado; logo artistas e etnólogos perderam~se em hipóteses fantasiosas para explicar o assim chamado "milagre de Ife" 24. Em 1939, descobriu-se, não longe do palácio do oni de Ife, um grupo importante de bronzes. A partir daí, muitas descobertas foram feitas, tanto em IFe quanto no Benin.
Características e desenvolvimento da arte do Benin
Em 1949, Bernard Fagg coordenou escavações em Abiri, não muito longe de Ife. Ali, numa sepultura, descobriu três cabeças em terracota; uma era elaborada no mais puro estilo naturalista, enquanto as duas outras eram estilizadas ao extremo. Como ele próprio observa, aparece
"na cultura de Ife um fenômeno estranho, extremamente raro na história da cultura mundial: trata-se da coexistência, na mesma cultura, de uma arte inteiramente naturalista com outra quase completamente abstrata, fenômeno inconcebível nas épocas clássicas do Renascimento, na Europa" 25.
Ele considera uma das cabeças o melhor exemplo do estilo realista ou naturalista de Ife, pois todas as medidas são rigorosamente harmoniosas e "até se pode notar a bossa occipital". O rosto reflete calma, e um equilíbrio interior confere-lhe surpreendente densidade de expressão. Ao lado dessa cabeça, na mesma sepultura, foram encontradas outras duas, extremamente estilizadas:
"dois buracos representam os olhos e um traço horizontal, a boca. A estilização é ainda mais enfatizada [. . .] e ainda assim esses objetos, encontrados na mesma sepultura, são de mesma origem [. . .]. Materiais, técnicas de cozimento, e estado de conservação são idênticos. É evidente que se deve atribuir duas expressões tão diferentes do espírito humano não à contribuição de uma raça estrangeira à África, mas a uma crença mística da antiga religião yoruba" 26.
De fato, a princípio, a arte de Ife e do Benin tinha caráter essencialmente religioso. O que representavam essas cabeças? Na maior parte "das vezes, o oni, chefe religioso de Ife. Elaboradas após sua morte, eram colocadas na sepultura. No museu do palácio do oni encontram-se expostas
"centenas de fragmentos de cabeças e de figuras em terracota, do mesmo estilo que os bronzes. Algumas são artisticamente do mesmo nível, ou até de nível superior aos belos bustos de bronze, e quase todas essas obras e fragmentos foram descobertos não em explorações organizadas, mas por acaso, em dois ou três dos cem templos de Ife. Muitas apresentam evidente caráter ritual, pois essa arte era estreitamente ligada à vida da comunidade" 27.
A tradição afirma ter o aba do Benin requisitado e recebido do oni um hábil escultor, que iniciou os artesãos do Benin na técnica da moldagem de bronzes; assim, Ife é verdadeiramente a cidade-mãe de onde vieram a religião e a arte com a qual se presta homenagem aos ancestrais. Como o culto dos antepassados era o fundamento da religião tradicional, Ife criou uma arte para perpetuar a lembrança "daqueles que velam pelos vivos". O grande número de figuras encontradas nos templos também sugere que algumas fossem objetos de culto nos próprios santuários, não se destinando a serem enterradas. Essa arte, porém, não ficou circunscrita à área do Ife-Benin. Foram feitas descobertas, não somente no delta do Níger mas até no norte, nos confins de Nupe.
Igbo-Ikwu
Descoberto em 1939 no leste da Nigéria, o sítio de Igbo-Ikwu foi explorado em 1959 pelo professor Thurstan Shaw, revelando quase 800 peças de bronze, completamente diferentes das de Ife-Benin. Igbo-Ikwu é um complexo urbano em cujo centro situavam-se o palácio e os templos. Foram encontradas várias construções: uma grande sala, onde havia louça, objetos de culto e tesouros; a câmara funerária de um grande sacerdote, ricamente decorada; um enorme buraco onde havia cerâmicas, ossos e diversos objetos.
Há, certamente, algumas diferenças entre os achados de bronze de Igbo-Ikwu e a.s obras de arte de Ife; no entanto, muitos traços comuns mostram que os dois centros eram parte de uma mesma cultura. De fato, como em Ife, estamos diante de uma monarquia ritual 28.
O virtuosismo dos artistas de Igbo-Ikwu é notável, tanto nas obras de terracota quanto nas de bronze; trabalhavam o material habilmente, dando-lhe a forma pretendida, com uma riqueza de detalhes que beirava a afetação.
Recipientes de bronze em forma de cabaça e vasos de cerâmica ornados de motivos serpentinos foram elaborados com grande maestria.
Acredita-se que Igbo-Ikwu tenha sido a capital religiosa de um vasto reino, onde teriam sido depositados os tesouros, sob a guarda de um rei-sacerdote, Eze Nzi 29. Faltam-nos informações seguras sobre a cultura de Igbo-Ikwu; as pesquisas junto aos detentores da tradição oral ainda prosseguem, enquanto os arqueólogos vêem ampliar-se a área de manufatura de bronzes.
No entanto, Igbo-Ikwu, com sua monarquia ritual e abundância de moldagens pela técnica da cera perdida, parece contradizer a hipótese precedente, a respeito da época em que foi introduzida a fundição de latão, e até mesmo muitos dos postulados relativos à formação dos Estados; pois a datação pelo carbono-14 indica que uma cultura altamente refinada já existia no século IX entre os Ibo, cujas sociedades, como se sabe, eram baseadas em grupos de linhagem.
Em outras palavras, a cultura de Igbo-Ikwu antecede de pelo menos dois séculos a de lfe-Benin e todas as outras culturas com grau comparável de evolução até hoje descobertas na zona florestal. Sem a datação pelo carbono-14, poder-se-ia situar, sem hesitação, os objetos descobertos em Igbo-Ikwu nos séculos XVI e XVII. O reino vizinho de Onitsha, aliás, foi fundado mais ou menos nessa época, sob a influência do Benin; o Estado de Igala, que teria contribuído para a organização das chefarias entre os Umeri, grupo ao qual pertencem os Igbo-Ikwu, só foi criado no século XV. Em que medida é possível confiar na datação pelo carbono-14? Quando obtida através de carvão vegetal, deve-se ter muita prudência, porque um depósito superficial de carvão pode remontar a época bem anterior àquela em que foi enterrado num poço ou qualquer tipo de escavação. Além disso, a confiabilidade das datas indicadas pelo carbono-14 nas proximidades do equador tem sido seriamente posta em dúvida 30. Convém observar que uma das cinco datas atribuídas aos vestígios de Igbo-Ikwu é a de 1445 +/- 70, que coincide com a de 1495 +/- 95, conferida aos objetos descobertos 24 km a leste, entre os quais se encontram sinos de bronze moldados num estilo semelhante ao de Igbo-Ikwu. Esse Estado constitui, portanto, um enigma que merece ser resolvido, ou por um aperfeiçoamento na técnica de datação pelo carbono-14 ou por uma revisão geral nas hipóteses atuais sobre a evolução dos Estados nessa região 31.
Os bronzes de Nupe
Mais ao norte, ao longo do rio Níger, entre Busa e a confluência do Benue, foram descobertos bronzes em vários sítios.
São chamados os "bronzes de Tsoede", nome do fundador do reino nupe no século XVI. De acordo com a tradição, essas peças foram trazidas de Idah, capital de Igala, por Tsoede. A tradição também diz que Tsoede trouxe consigo ferreiros, que ensinaram à gente de Nupe a moldagem pela técnica da cera perdida 32.
Muitas figuras foram encontradas em Tada, Jebba e Gurap. Cada um desses centros tem estilo próprio, mas certa semelhança entre eles atesta a influência de Ife ou do Benin, como escreve F. Willett:
"Na história da fundição de bronze em todo o vale do Níger, há mais do que um ou dois fios a desemaranhar. Trata-se de uma peça de tecido, e será necessário muito tempo para separar os fios da urdidura e da trama" 33.
Thurstan Shaw indicou algumas orientações de pesquisa para encontrar a fonte do cobre utilizado em toda a região do baixo Níger 34. Segundo Shaw, é necessário dar mais atenção ao estudo das relações norte-sul, entre a região e o mundo árabe-muçulmano; o comércio pode ter começado desde antes do século X, e foi precisamente para controlar essa via comercial sul-norte que o poder se deslocou de Ife para a antiga Oyo. Dessa forma, os bronzes encontrados em Jebba (Tada) situam-se na área de contato, no Níger.
Resumindo, serão ainda necessárias muitas pesquisas para estabelecer um quadro cronológico e para melhor compreender as diversas escolas de bronze. Como essa região não produzia cobre, a fonte mais próxima seria a mina de Takedda; daí o dossiê sobre as relações entre o Níger, o Benue e o Sudão ainda estar longe de se concluir.
Os Ijaw e os Ewe
Já falamos sobre a formação dos Estados ijaw, situados no delta do Níger. As tradições de Okrika, Bonny e Nembe levam a crer que foram fundados antes do século XVI. Nembe, por exemplo, teria sido criada em meados do século XV pelos sobreviventes de um conflito interno. Tornou-se cidade-Estado, agrupando povoações de mesma cultura num raio de 15 km Absorveu em seguida um grupo de Itsekiri, que introduziu o culto de Ogidiga ou Ada e se apoderou dos rituais do Estado. Essa migração se deu paralelamente à fundação do reino de Itsekiri pelo Benin, e é interessante notar que, em última análise, as origens do culto de Ada em Nembe parecem se ligar a oda, que significa "espada", símbolo da autoridade do rei do Benin.
A migração dos Ijaw para a parte oriental do delta fez com que entrassem em contato com os Ibibio, os Ogoni e os Ndoki, minorias étnicas que, em condições favoráveis, freqüentemente se inspiraram nas estruturas estatais dos Ijaw. O Estado mais notável foi o antigo Calabar, situado no atual Cross River, fundado pelo ramo efik dos Ibibio. Sua criação, entretanto, parece datar do século XVII. Em épocas anteriores, as margens do Cross tinham sido ocupa- das pelos Ejagham, os Ekoy e os Efutop, povos semibantu, originários da área meridional dos Camarões. Como os Ibo, preservaram uma sociedade baseada em grupos de linhagem, até serem absorvidos pelos Efik.
Conclusão
No final do século XV, quando os portugueses chegaram a essa costa, os Estados mais importantes eram Oyo e Benin. Havia também cidades independentes muito bem estruturadas, que incorporavam grupos de linhagem a governos menos elaborados. Benin e Oyo estavam se tornando reinos poderosos e expansionistas. O processo de formação de Estados acelerara o ritmo da interação cultural entre as populações, favorecendo a difusão das instituições, práticas e objetos cerimoniais, cultos religiosos e, provavelmente, tecnologia. A moldagem pela técnica da cera perdida, por exemplo, segredo cuidadosamente guardado e associado à monarquia divina, acabou, no entanto, se difundindo.
As relações econômicas também adquiriram maior intensidade e complexidade: o palácio do soberano, com suas necessidades de suprimento e serviços especializados, foi um fator determinante dessa evolução. Além disso, os Estados estavam melhor equipados para organizar um comércio exterior, suprir mercados, organizar a coleta e transporte de produtos e garantir a segurança dos comerciantes que viajavam para longe. Os Estados ijaw mandavam grandes almadias para bem longe no interior, com o objetivo de trocar o sal que eles manufaturavam por gêneros alimentícios que não podiam produzir. O rei do Benin podia organizar um comércio de escravos, marfim e pimenta em grande escala. Os tecidos de Ijebu eram fornecidos para os mercados de uma vasta região. Graças à sua posição entre os Estados da região florestal e os da savana, Oyo controlava grande parte do comércio entre uns e outros. Assim, quando, pela primeira vez, os portugueses desembarcaram na costa, no final do século XV, encontraram em Ijebu, Benin e entre os Ijaw Estados bem estabelecidos, cuja economia já estava adaptada às necessidades do comércio internacional. A maneira como enfrentaram o desafio dos contatos comerciais, culturais e políticos com os Estados europeus constitui um dos temas centrais da história de todos os povos dessa região nos quatro séculos seguintes.
Notas
1 ADETUGBO, 1973.
2 JOHNSON, S., 1921.
3 ELUGBE, 1974.
4 OTTENBERG, 1961.
5 Comunicação pessoal do Doutor Carl Hoffman, do Departamento de Lingüística e Línguas Nigerianas da Universidade de Ibadã. A natureza e afinidades internas desse grupo de línguas são ainda mal conhecidas.
6 AUGOA, 1972, p. 189-90.
7 Não se deve confundir os Igbo da lenda de Ife com os Ibo que vivem atualmente na Nigéria oriental.
8 As classes etárias e sociedades secretas existem na maioria das sociedades africanas, do Senegal à Zâmbia, incluindo a Nigéria e os Camarões. As classes de idade são a estrutura ideal nara o trabalho coletivo como a caça e a aradura.
9 ALAGOA, 1972, p.200.
10 O material usado para a construção de habitações foi, a princípio, a madeira e o bambu; por volta de +900, provavelmente, empregava-se a terra batida (ou banco). Nas clareiras e savanas, as aldeias multiplicaram-se rapidamente, em meio a uma rede de trilhas e vias de comunicação.
11 HORTON, 1971.
12 É praticamente certo que, já nos séculos IX e X, o cobre de Takedda chegava a Ife e Benin, assim como a Igbo-Ikwu.
13 LAW, 1973.
14 ALAGOA, 1972, p. 187.
15 A evolução dos Estados pode ser esclarecida por um estudo dos topônimos. Atualmente esse é um campo de pesquisa quase totalmente dominado pela etimologia popular.
16 É preciso reconhecer que as pesquisas arqueológicas em sítios yoruba são ainda muito escassas.
18 O milho, originário do Novo Mundo, foi introduzido na África pelos portugueses, no século XVI.
19 Ainda conhecemos pouco a respeito das relações entre a savana e a floresta. Considerando a importância do comércio, cada vez mais evidente, é possível que as relações fossem mais intensas no passado do que hoje. Ver SHAW, T., 1970, p. 284.
20 A menos que tanto os títulos yoruba quanto os do Benin provenham de uma mesma fonte exterior. Os títulos edo são oliha, edonen, ezomo, era, eholo nire e oltoton. Seus homólogos yoruba são alisa, odofin, ajamo, aro, osolo e oloton.
21 A origem do nome "Benin", como a cidade e o reino são chamados por todos os não-Edo, é cercada de mistério. A etimologia popular não dá uma explicação satisfatória. É possível que os primeiros portugueses que desembarcaram na costa tenham ouvido dos Ijaw o termo beni, que significa "habitantes das águas", e aplicaram-no erroneamente.
22 Uma das peças mais célebres. atribuída à primeira fase das moldagens em latão no Benin. é a cabeça de uma iyoba, ou "rainha-mãe". Se a identificação for correta a cabeça não pode ser anterior. É primeira década de século XVI, quando o soberano Esigie criou o título iyboa especialmente para sua mãe.
23 FAGG, W. B., 1963, p. 105.
24 W. B. FAGG, 1963, p. 105, escreveu: "Já foi dito muitas vezes que estes bronzes eram obras dos egípcios, de artistas ambulantes gregos ou romanos, de um italiano da Renascença ou até de jesuítas portugueses"
25 FAGG, p.106
26 Ibid., p. 106.
27 Ibid., p. 104.
28 SHAW, T., 1970, p. 266.
29 Ver WILLETT, 1967, p. 172-3.
30 OZANNE, 1969.
31 Foram fornecidas várias datas, obtidas pelo carbono-14: 1075 +/- 130 (séculos IX-XIII); 1100 +/- 110 (séculos X-XIII); 1110 +/- 145 (séculos X-XIII). A cronologia de toda a região precisa ser revista; dos estudos já feitos, evidencia-se que o delta do Níger tinha contatos estreitos com o Nupe ao norte e, mais ao longe, com a savana do Sudão central, por onde passava o cobre vindo de Takedda, para que chegasse em Ife-Benin e Igbo-Ikwu. As grandes correntes de comércio entre a savana e a floresta já existiam, provavelmente, desde a Antigüidade remota.
32 O rei Tsoede é uma personagem lendária; uma tradição diz que ele chegou a Nupe numa almadia de bronze. Ele representa uma síntese: situa-se seu nascimento por volta de 1463; em 1493, dizem que foi levado como escravo para Idah; em 1523, teria fugido, para tornar-se rei de Nupe em 1531. Tsoede teria morrido em 1591, o que significa que viveu 128 anos!
33 É evidente que o período em questão é mítico, de acordo com WILLETT, 1967, p. 212: “É possível que Tsoede só pertencesse ao final ou, talvez, bem ao início desse período e que sua existência tenha sido 'esticada' para preencher o 'buraco' que o separa do rei histórico".
34 SHAW, T., 1973.