A Civilização Swahili

por Victor Matveiev.

As costas africanas do oceano índico são povoadas por uma civilização extremamente rica e complexa, os swahili, conjunto de grupos étnicos articulados por uma língua e uma série de elementos culturais que fundem as tradições africanas, o islã, a cultura indiana, entre outras.in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 4



O período compreendido entre os séculos XII e XV da era cristã é particularmente interessante na história das ilhas e da costa oriental da África. Foi a época em que se formou na região uma comunidade étnica cuja melhor denominação seria população "swahili". Foi também a época em que atestou-se plenamente a existência de alguns Estados, cujos primeiros registros datam do século X da era cristã. Outro fato importante é que, nesse período, o desenvolvimento histórico e cultural da África oriental não sofreu qualquer influência externa perturbadora, enquanto o surgimento de conquistadores portugueses no começo do século XVI interrompeu o processo de desenvolvimento, modificando sensivelmente suas condições e características. Como o período também se caracteriza por grande desenvolvimento cultural, é razoável considerarmos que a civilização swahili estava então em seu apogeu, sobretudo se atentar os para a sua subseqüente decadência.
No século XII, os Swahili não constituíam uma comunidade homogênea no plano étnico ou social. No plano étnico, sobre um fundo formado por um população de língua bantu, acrescentavam-se elementos do interior do continente e do exterior, tais como árabes, persas e indianos, provenientes da costa setentrional do mar da Arábia e do oceano Indico. No plano social, havia disparidades, na medida em que existia uma classe dirigente isolada e distinta da massa de homens livres. A estrutura formal da sociedade continuava fundamentada em clãs ou grupos étnicos, mas continha elementos de diferenciação por classes. Pois, embora considerados iguais aos outros, os membros da classe dirigente sobressaíam por serem ricos e porque suas funções tradicionais lhes conferiam influência especial.
Ao lado da classe dirigente, encontravam-se outros indivíduos que eram ricos, mas não tinham acesso ao poder e à influência atribuída pela tradição, pois sua riqueza se originava do comércio. Gente comum formava a massa da população swahili. Além disso a sociedade swahili, no início do século XII, também incluía escravos, cuja existência é possível supor pela leitura dos autores árabes que descrevem sua exportação. Mas seu papel dentro da sociedade não é claro; pode ser que fossem exclusivamente objeto de um comércio inter- -regional. No fim do século XV, os escravos parecem ter tido função econômica, segundo o relato de um anônimo português que os descreve em atividades agrícolas em Kilwa 1.
A civilização swahili reflete esse processo de diferenciação social; uma cultura tradicional, a do povo, distinguia-se de outra, a da classe dirigente. Mas, devido à falta de fontes, nossos conhecimentos sobre essa civilização são falhos.
A economia e os intercâmbios comerciais
A civilização swahili baseava-se em três atividades econômicas principais: a agricultura, a pesca marítima e o comércio.
A agricultura e a pesca
A agricultura - atividade da maior parte do povo - ao lado da pesca e da coleta de frutos do mar constituíam as fontes essenciais de subsistência da população. AI-Mas'üdi, autor do século X, enumera as seguintes culturas no país: banana, durra (variedade de sorgo), inhame (al-kalari), cóleo (da família da hortelã), coco 2. Outras fontes falam da cana-de-açúcar e do tamarindo. No século XV, o autor português anônimo citado conta que em Kilwa Kisiwani havia coco, laranjas, limões, várias leguminosas, cebolinha e ervas aromáticas, nozes de areca, várias espécies de ervilhas, milho (provavelmente durra ou sorgo). Também fala da pecuária (gado grande de chifres, ovelhas, cabras) e da cultura do algodão. Essas informações e a descoberta de fusos de terracota atestam a prática da fiação e da tecelagem. No plano agrícola, o coqueiro tinha papel especial para os habitantes da costa oriental da África e das ilhas.
A pesca e a coleta de frutos do mar eram tão importantes quanto a agricultura; são mencionadas pelos autores árabes, que aludem freqüentemente ao consumo de peixes, frutos do mar e moluscos pela população local. Mas o oceano não fornecia recursos apenas para a alimentação. Fontes árabes informam-nos sobre a coleta e a venda de pérolas, conchas, carapaças de tartarugas marinhas, âmbar. O peixe não só era consumido no local onde era pescado como também era vendido, o que leva a supor uma atividade pesqueira em grande escala. Sabe-se que as conchas eram utilizadas para a manufatura de pratos, colheres e colares. De modo geral, os relatos árabes falam dessas atividades em todo o litoral, sem maiores detalhes geográficos. No entanto, em sua descrição de algumas cidades, al-Idrisi faz da pesca a principal atividade de Malindi 3.
A pesca e a coleta de frutos do mar estarão estreitamente ligadas ao desenvolvimento da navegação em suas duas formas: por um lado, na arte da construção de navios e, por outro, no desenvolvimento das técnicas de navegação, em particular da astronomia. Um estudo dos conhecimentos astronômicos da época mostra, com efeito, que eles só puderam ser desenvolvidos por meio da navegação no oceano Indico; logo, há motivos para se acreditar que os navegadores africanos tenham dado sua contribuição nesse sentido 4.
Pode-se supor que a construção de navios não se limitava à fabricação de mtumbwi (barcos talhados a machado) e de mitepe (almadias costuradas). O autor anônimo português viu no porto de Kilwa muitos navios grandes, cujas dimensões eram aproximadamente as de uma caravela de 50 toneladas; infeliz- mente, não indicou a quem pertenciam. A existência de diversas categorias de navios pode ser indiretamente deduzida do fato de haver, na língua kiswahili, grande variedade de termos para designar "navio" - o que indica, provavelmente, uma diferenciação específica, segundo a utilização que deles se fazia -, além do fato de existir grande número de tipos de embarcação até o início do século xx. Caso essa hipótese seja verdadeira, ela invalida a tese de que os habitantes da África oriental não praticavam o comércio marítimo no oceano Indico.
O comércio e o desenvolvimento da vida urbana
Os Swahili do povo viviam em cabanas de troncos e barro, cobertas de folhas de palmeiras ou gramíneas. Essas cabanas se agrupavam em aldeias ou cidades. B provável que as fontes árabes se refiram a esse setor da população swahili, quando descrevem a caça ao leopardo ou ao lobo, a exploração de minério de ferro para a venda, a arte de enfeitiçar animais ferozes para torná-los inofensivos (por exemplo, para que não atacassem o homem), os cães ruivos utilizados na caça aos lobos e aos leões e um tambor enorme, semelhante a um barril, ao qual os Swahili devotavam um culto e cujo som era assustador 5.
Mas a cultura da costa da África oriental não se resume a isso. Os árabes também nos informam a respeito de outro tipo de civilização existente no litoral: a civilização urbana, mais refinada e ligada ao desenvolvimento do comércio marítimo. As diferenças de nível cultural foram notadas por autores árabes, e Abu'l-Kãsin al-Andalusi indica que, nas populações como as da África oriental, só os habitantes das cidades "extasiam sua alma com o estudo da filosofia" 6. Parece que as cidades constituíam-se essencialmente de cabanas, mas também devia haver construções em pedra, onde moravam os membros ricos e influentes da sociedade swahili. As cidades eram principalmente centros comerciais para onde afluíam mercadorias indígenas e onde aportavam navios estrangeiros. Eram também centros de propagação do Islã.
Como as estimativas do valor das mercadorias eram variáveis, o comércio era extremamente lucrativo: não sendo produzidos na região, os bens importados eram objetos de luxo, e aos olhos do comprador adquiriam mais valor do que realmente tinham. Por outro lado, a abundância de produtos preciosos, como o ouro e o marfim, e a certeza de sempre se poder obtê-los faziam com que seu valor diminuísse. Além disso, a posição geográfica vantajosa - praticamente todo o litoral da África oriental faz parte da zona das monções - favorecia a navegação no oceano Indico e possibilitava a existência do comércio naquela parte do mundo.
No século XII, supõe-se que as correntes comerciais da África oriental passassem pelo arquipélago Lamu e por Zanzibar. Escavações arqueológicas em Zanzibar mostram que o principal centro de comércio da área era a cidade de Manda, na ilha de mesmo nome, que floresceu nos séculos IX e X da era cristã e continuou ativa até o século XII ou mesmo XIII 7. Após esse período, a maior parte do comércio começou a passar por Kilwa. A riqueza e o brilho da cidade de Manda podem ser atestados pela grande quantidade de bens importados que lá foram descobertos: cerâmicas islamos-sassânidas, celadons de Hue e esgrafitos. Muitas delas, esmaltadas ou não, lembram as que foram descobertas nas escavações de Siraf.
A descoberta de escórias de minério de ferro atesta a existência de fundições. No entanto, é difícil avaliar a importância dessas fundições apenas pelo testemunho arqueológico. Pode ser que as indicações de al-Idrisi a respeito da cidade de Malindi - "O ferro é seu principal recurso e principal objeto de comércio" 8 - dissessem respeito a toda a região e que de Malindi se transportasse o ferro até Manda, cujo bem de exportação mais importante, fonte de riqueza da cidade, era o marfim.
AI-Idrisi também descreve outras cidades do litoral e das ilhas, mencionando as seguintes: Marka (Merca), Brava, Malindi, Mombaça, Pangani (EI-Banas) e Ungudja (antigo nome de Zanzibar). Segundo uma nova identificação que parece convincente, a cidade situada após Pangani, com o nome de Butakhna, seria Kilwa 9. Isso permite supor que Kilwa já existia há algum tempo, mas que ainda não se tornara um dos grandes centros comerciais da costa. Fontes árabes mais antigas também citam Sofala, de onde era exportado o ouro. Comparando-se as informações, é possível localizar esses sítios na região de Kilwa.
As pesquisas arqueológicas efetuadas em Kilwa Kisiwani mostram o quadro de uma vida comercial bastante ativa 10. Foram encontrados um grande número de cauris, usados como dinheiro, de cerâmicas de importação, do tipo esgrafito, com decorações incisas em amarelo com reflexos acobreados ou recobertas de esmalte verde-escuro, de objetos de vidro, e, em quantidade menor, contas de vidro, de cornalina e de quartzo, e louça de esteatita de Madagáscar. O principal produto de exportação era o ouro. Em meados do século XII, começou-se a importar da China porcelana song e, em menor quantidade, celadons.
Os produtos de importação mais característicos de Gedi eram cerâmicas islamíticas "pretas e amarelas", esgrafitos com decorações incisas amarelas e verdes, e vários tipos de celadons. Gedi e Mogadíscio - que já devia existir - não são mencionadas nas fontes árabes. Malindi e Mombaça eram centros comerciais menos importantes de onde se exportava ferro e peles de leopardo; de Malindi também se exportava peixe.
No começo do século XIII, Yãkut escreveu que Mogadíscio era uma das cidades mais importantes da África oriental e que seus habitantes eram árabes muçulmanos que viviam em comunidades. Na época, Mogadíscio exportava ébano e sândalo, âmbar cinzento e marfim. O autor também notou a miscigenação de sua população e mencionou igualmente a existência das cidades de Mtambi e Mkumbulu, na ilha de Pemba.
"Cada uma dessas cidades tem seu sultão, independente do vizinho. Na ilha há muitas aldeias e cidadezinhas. Seu sultão afirma que é árabe e. que seus ancestrais são originários de Kufa, de onde partiram para vir a esta ilha" 11.
Kilwa foi mencionada pela primeira vez com este nome na obra de Yãkut; Yãküt foi também o primeiro a falar da cidade de Mafia, que ele situa não numa ilha, mas no litoral, e da ilha de Tumbatu, em seu relato sobre Zanzibar (Landjuia-Ungudja). Segundo ele, Zanzibar teria sido um Estado independente, e a cidade de Ungudja, centro comercial freqüentado por navios; os habitantes de Tumbatu seriam muçulmanos.
Nessa época, Kilwa e provavelmente a ilha de Mafia eram governadas pela Dinastia Shirazi. Em meados do século XIII, assistiu-se à luta entre Kilwa e o povo Shanga, que possivelmente era a população da ilha Sanjo ya-Kati. A causa provável do conflito era a rivalidade pelo domínio das correntes comer- ciais que passavam pela região. Como atesta a Crônica de Kilwa, esta cidade teria finalmente conseguido a vitória 12, o que aparentemente teve por conseqüência o desenvolvimento do comércio e da civilização swahili, que remonta ao início do século XIV e coincide com a ascensão ao poder, em Kilwa, de uma dinastia associada ao nome de Abü al-Mawãhib.
Naquela época, Gedi continuava a negociar os mesmos produtos alimentícios; como no período precedente, os principais clientes tanto de Gedi quanto Manda eram as cidades persas, principalmente a de Siraf.
O volume de mercadorias importadas por Kilwa aumentou sensivelmente. Entre elas encontrava-se grande quantidade de esgrafitos, geralmente verde-escuros, mais raramente amarelos com reflexos verdes; porcelanas chinesas da época song, entre as quais alguns celadons; objetos de vidro, principalmente garrafas e frascos, às vezes ornados com motivos em relevo, e que serviam, provavelmente, para conservar perfumes e quermes (khõl).
Os objetos de vidro encontrados em Gedi se parecem, na forma e na decoração, com os encontrados nas escavações de Kilwa. São, principalmente em Gedi, em sua maioria, garrafas e frascos, provavelmente originários do Iraque ou do Irã. Importavam-se cada vez mais louça de esteatita e contas de vidro de Madagáscar, sobretudo três variedades de contas, ornadas com pequenas incisões, e, mais raramente, contas em forma de bastonetes.
O comércio parece ter alcançado o apogeu no século XIV. A fonte mais importante em língua árabe sobre esse período é a obra de Ibn Battuta, que visitou a África oriental13 em 1332. Ele descreveu Mogadíscio como grande centro comercial; explicou que era costume que o comerciante estrangeiro, ao chegar, procurasse entre os habitantes da cidade um agente de confiança, para tomar conta de seus negócios. Essa prática também é mencionada por Yãkut, mas ele não entra em muitos detalhes. Além dos produtos descritos por Yãkut, Mogadíscio também comerciava seus makdashi, ou seja, "tecidos de Mogadíscio". A rede comercial de Mogadíscio não era a mesma que a das cidades mais meridionais. Assim, os makdashi eram vendidos até no Egito, enquanto do Egito e de Jerusalém vinham outros tipos de tecido. As outras cidades da África oriental não mantinham relações com o Egito ou com a Síria.
No século XIV, Manda já havia perdido sua importância; a de Malindi, Mombaça e outras cidades continuava insignificante. De acordo com as pesquisas efetuadas por H. N. Chittick, foi somente nessa época que a cidade de Patta surgiu, na ilha de mesmo nome 14.
Os intercâmbios: centros, produtos, quantidade
No século XIV, Gedi começou a importar novos produtos: manteve até meados do século XIV a importação de esgrafitos, pouco a pouco substituídos por cerâmicas verde e azul de esmalte muito fino e brilhante, que aparentemente provinham do Irã. Também encontravam-se entre as mercadorias vários tipos de celadons, de porcelanas brancas e todos os tipos de contas: de barro vermelho, redondas ou alongadas, de cerâmica, de vidro, ornadas com pequenas incisões ou com forma de bastonete etc.
O centro comercial mais importante era Kilwa, onde o volume de cerâmica importada tinha aumentado muito. Havia pouca cerâmica islamítica: as mais típicas eram vasos de má qualidade, com desenhos negros e esmalte amarelo-fosco, provavelmente fabricados em Aden, de onde eram importados. Durante a segunda metade do século XIV, apareceram cerâmicas islamíticas monocrômicas, de forma semi-esférica, borda arredondada, com o corpo esmaltado de verde-claro.
Importavam-se cada vez mais porcelanas da China, principalmente celadons, freqüentemente azulados. Encontrou-se grande número de celadons em forma de lótus. A porcelana de barro branco-azulado, de estilo antigo, era mais rara. No entanto, havia muitas cerâmicas chinesas verde-pálidas, com desenhos negros incisos sob o esmalte. Também era maior a quantidade de contas em forma de bastonete, comparada ao número daquelas com incisões; ao mesmo tempo, começaram a surgir contas alongadas azul-cobalto. Os vasos de esteatita deixaram de ser importados, embora, aparentemente, os objetos de vidro continuassem os mesmos.
No século XV, encontravam-se em Gedi os mesmos objetos de importação do século precedente, ou seja, cerâmicas islamíticas verdes e brancas, recobertas de fino esmalte brilhante. Pela primeira vez apareceram porcelanas de barro branco-azuladas, cujos motivos são de um estilo característico da época ming, no século XV.
A importação de contas de vidro apresentava praticamente as mesmas características do século precedente, mas não se importavam mais tantos objetos de vidro. Geralmente, considera-se o século XV em Kilwa como época de relativa decadência devido às lutas internas pelo poder entre as várias facções da camada superior da sociedade. As importações, porém, continuavam a aumentar, principalmente as de cerâmicas islamíticas monocrômicas, cuja qualidade havia melhorado um pouco. Sua cor ia do verde-azulado ao verde. Havia o dobro de porcelana chinesa que de cerâmica islamítica; aqui também os objetos de porcelana mais difundidos eram celadons e objetos de barro branco- -azulado. Também encontrava-se um grande número de recipientes de vidro, principalmente garrafas. Quanto às contas de vidro, eram quase todas vermelhas, em forma de bastonetes.
Os produtos de exportação, como já dissemos, eram sobretudo o marfim e o ouro, além de escravos. (Ibn Battuta descreve razias cujo objetivo era capturar escravos), presas de rinocerontes, âmbar cinzento, pérolas, conchas e, nas regiões setentrionais, peles de leopardo.
Outra mercadoria importante, que era em parte importada e, em parte, fabricada na região, eram os tecidos de algodão, que representavam, aparentemente, grande volume na massa de intercâmbios. Sabe-se que no século XV quantidades consideráveis de tecidos de algodão chegavam a Mombaça e a Kilwa, de onde eram reexpedidas para Sofala 15. Pode-se imaginar a importância dessa mercadoria pelo registro encontrado na Crônica de Kilwa de que a ilha de Kilwa fora comprada, e o preço havia sido uma quantidade de tecido correspondente ao seu perímetro.
O comércio marítimo que ligava a costa da África oriental e as ilhas aos países da costa setentrional do oceano Indico favoreceu os contatos entre os habitantes dessas regiões, enriquecendo-os. Essas relações comerciais eram parte de um processo mundial. e constituíam um ramo da grande via comercial que ligava o Ocidente ao Oriente, onde os portos da África oriental não eram terminais, pois outra ramificação conduzia a Madagáscar. Sem dúvida, existia contato entre o litoral e os territórios auríferos do interior, próximos do lago Niassa; dali vinha o ouro que chegava a Kilwa. A partir do século XIV, algumas regiões auríferas de Sofala passaram para o domínio dos sultões de Kilwa, que começaram a nomear governadores para a região. A Antigüidade dos contatos é atestada por descobertas arqueológicas de objetos provenientes do litoral ou até de países não-africanos. G. Caton-Thompson já notara que as contas amarelo-limão descobertas nas escavações do Zimbábue eram parecidas com as contas de vidro encontradas em várias regiões da Índia no século VIII da era cristã 16. O vidro azul-claro e verde encontrado também no Zimbábue pode ter a mesma origem: parece muito com o vidro da Índia ou da Malásia.
Da mesma forma, o exame atento das cerâmicas locais de Gedi (classes 1 e 2) e sua semelhança com uma das variedades de cerâmica encontradas no Zimbábue permitiram a J. S. Kirkman concluir que existiam relações entre o litoral e os proprietários das minas de ouro no interior do continente 17. As regiões auríferas próximas do rio Zambeze, no interior do continente e no território da atual República de Zâmbia, foram sem dúvida as primeiras com as quais se estabeleceram relações comerciais, o que pode ser comprovado pela descoberta de cauris que eram trocados por ouro e marfim, em Gokomera e Kolomo.
No atual território da República Unida da Tanzânia, na região de Engaruka, as escavações numa aldeia ligada ao comércio permitiram que se descobrisse o mesmo tipo de cauris e de contas de vidro (dos séculos XV e XVI) que as encontradas em Kilwa e outras cidades do litoral.
Finalmente, al-Idrisi, no século XII, observou a existência do comércio de caravanas com as regiões do interior.
"Como não tinham animais de carga, eles próprios transportavam as mercadorias. Carregavam-nas sobre a cabeça ou nas costas até duas cidades, Mombaça e Malindi, onde vendiam e compravam" 18.
Os primeiros meios de troca utilizados nas relações comerciais foram principalmente os cauris, encontrados em todas as escavações, no litoral e no interior. Aparentemente as contas de vidro e, mais tarde, a porcelana da China também desempenharam esse papel. Nas regiões de comércio mais intenso apareceu um novo meio de troca, na forma de moeda metálica, cujos centros de fabricação parecem ter sido Kilwa e Mogadíscio. De acordo com as pesquisas de G. N. Chittick, as moedas de bronze e prata surgiram em Kilwa com o advento da Dinastia Shirazi, no final do século XII 19. Ao contrário das moedas de Kilwa, o único exemplar encontrado em Mogadíscio traz a data de 1332 20. As moedas encontradas no litoral não se distribuíam de forma eqüitativa ao longo da costa. G. S. P. Freeman-Grenville 21 observa que nenhuma foi encontrada entre Mnarani e Kilwa Masoko, e atribui essa ausência à falta de pesquisas arqueológicas na área. Seja por esse motivo, seja por que não se cunhavam moedas e, assim, elas não eram utilizadas na região, o fato é que só foram encontradas nos grandes centros comerciais, em Kilwa Kisiwani e Kisimani Mafia, em Kwa na ilha Djwani, nas ilhas de Zanzibar e de Pemba, além de alguns exemplares no Quênia. A presença de moedas permite supor que o comércio local tenha se desenvolvido sensivelmente na costa e nas ilhas circunvizinhas, tomando necessária a adoção dessa forma de pagamento. As moedas deviam ter um valor de troca maior que o dos cauris, e sua introdução parece demonstrar a importância das operações comerciais. Essa hipótese é confirmada pelo fato de a mercadoria principal de Kilwa ser o ouro, cujo valor intrínseco era muito alto. Por outro lado, a abundância de ouro, considerado como mercadoria, devia ser obstáculo à sua transformação em meio de troca. As regiões onde foram encontradas moedas podem servir como indicação da extensão geográfica do comércio local. Além disso, é provável que a explicação para a ausência de informações sobre o local, a data de cunhagem e o valor nas moedas de Kilwa seja dada pelo fato de que, anteriormente, quando os pagamentos eram feitos em cauris, o que importava era o número de unidades.
Grande fonte de lucros, o comércio foi a base da riqueza das cidades do litoral e do desenvolvimento social e cultural da sociedade swahili. Por sua própria natureza, permitiu contatos com várias civilizações, como a árabe, a persa e a indiana. Apesar da enorme quantidade de objetos provenientes da China encontrados nas escavações, este país não participou diretamente do comércio com a África antes do século XV. De acordo com as pesquisas recentes de V. A. Velgus, um dos especialistas mais competentes em fontes escritas chinesas, os navios chineses além de não alcançarem o golfo Pérsico, não ultrapassavam, a oeste e ao sul, as ilhas de Sumatra e Java; não chegavam, portanto, à costa da África oriental 22. As primeiras indicações da chegada de esquadras chinesas à costa da África oriental datam de 1417-1419 e de 1421-1422; eram comandadas por Cheng-Ho.
A civilização swahili (do século XIII ao século XV)
Esta riqueza e estes contatos influenciaram o desenvolvimento econômico, social e cultural da África oriental. Por um lado, as aldeias transformaram-se em cidades. Por outro, formou-se na sociedade swahili um grupo influente, que começou a competir pelo poder com a antiga nobreza, cujos domínios e influência eram associados a funções sociais tradicionais. Para reforçar sua posição, o novo grupo tinha necessidade de uma nova ideologia, o islamismo, conhecido através de contatos com árabes e persas. As circunstâncias históricas permitiram que o Islã se difundisse na África oriental, partindo do princípio que, em caso de necessidade, as pessoas adaptam suas necessidades a uma realidade estrangeira, porém já existente, antes de, analogamente, criar a sua própria. As condições concretas dessa difusão não são conhecidas; pode-se, no entanto, afirmar que o Islã não foi imposto à força, como durante a conquista árabe. Também não houve proselitismo em favor da religião muçulmana. É possível, então, pensar a conversão ao islamismo como voluntária, exprimindo a necessidade profunda da sociedade em adotar uma nova ideologia.
A penetração do Islã começou, aparentemente, entre o fim do século VII e o início do VIII. No século X, al-Mas'üdi mencionou a presença de muçulmanos, que falavam uma língua africana, na ilha de Kambala. Atribui-se a essa época a difusão do Islã pelas ilhas da costa da África oriental: no século XIII, a nova religião começou a se espalhar pelo próprio litoral. Era, evidentemente, diferente da religião muçulmana dos países árabes. Provavelmente, como demonstrou J. S. Trimingham a respeito de período mais recente, o que impor- tava, no início, era simplesmente ser considerado muçulmano, e esta religião coexistia com os cultos tradicionais 23. Este fato é por si mesmo muito importante, pois ilustra o enfraquecimento e o desaparecimento de velhos laços sociais, que cederam lugar a novos. Além disso, pode-se supor que o Islã também era traço de realce na diferenciação com os outros africanos não-muçulmanos. No início, o Islã marcava essencialmente as aparências, mas com o tempo sua influência tornou-se mais profunda, à medida que o número de adeptos aumentava. A prova externa destas mudanças foi o crescimento do número de mesquitas.
O progresso e difusão do Islã
O começo da expansão do Islã deve, sem dúvida, remontar às últimas décadas do século XII, e seu desenvolvimento ocorreu nos séculos XIV e XV. Assim, em 1331-1332, Ibn Battüta descreveu Mogadíscio como uma cidade bastante islamizada. Dos habitantes de Kilwa acrescentou ainda que "suas maiores qualidades são a fé e a justiça"; seu sultão recompensava os devotos e os nobres 24. Sabemos da existência de mesquitas nesta época em Mogadíscio, Gedi, Kaole, Kilwa, Sanjo Magoma etc.
A conversão ao Islã representava, aparentemente, a passagem a uma nova etapa, inevitavelmente a outras formas de conduta e de vida. A manifestação concreta da mudança consistia na adoção de vestimentas, nomes e títulos muçulmanos. Este último ponto tinha importância particular na tomada de consciência dos novos laços sociais, embora tenha sido um processo gradual, que passou por uma fase de coexistência dos títulos antigos (africanos) e novos (muçulmanos) - por exemplo, o de mfalme e sultão -, resultando, por fim, no desaparecimento dos primeiros. Também é possível supor que, na prática, as prescrições e proibições do Islã não foram adotadas em sua totalidade, e que os costumes e ritos ligados aos cultos tradicionais perpetuaram-se.
Os primeiros a abraçar o islã foram, provavelmente, os ricos comerciantes, seguidos pela antiga nobreza e, finalmente, por certas camadas populares, ou seja, membros da comunidade que ambicionavam chegar ao nível de seus opulentos correligionários.
A aparição e difusão do Islã levaram à adoção, nesta área da África, de traços de civilização aplicáveis ao contexto local. Dando crédito a Ibn Battüta, que menciona cádis em Mogadíscio e Kilwa 25, pode-se concluir que a sociedade swahili começou a aplicar alguns elementos, mas não todos, do sistema jurídico muçulmano.
A introdução e a difusão do Islã num clima de intensas atividades comerciais explicam a utilização de muitos termos da língua árabe, principalmente no comércio, na religião e na justiça. Adotou-se para a língua kiswahili, pelas necessidades do comércio e da religião, para os registros dos ritos que deveriam ser observados, é para a codificação dos direitos e privilégios das diversas camadas da sociedade swahili, uma escrita baseada na grafia árabe. Como demonstrou V. M. Misiugin, é preciso saber kiswahili para ler a escrita, isto é, ela só pode ter sido criada pelos Swahili. A criação remontaria, segundo o próprio Misiugin, a um período entre o século X e o XIII 26.
Urbanismo e arquitetura
Outra conseqüência da difusão do Islã, além do surgimento de mesquitas no território swahili, foi o desenvolvimento das construções em pedra.
As escavações dirigidas por J. S. Kirkman e G. N. Chittick permitem que comecemos a traçar um quadro geral da evolução da arquitetura nas ilhas e na costa da África oriental. Seu início remonta ao século XII em Gedi, Zanzibar e Kilwa. O primeiro período caracteriza-se por uma técnica de construção que consistia em assentar blocos de coral com argila vermelha. O único monumento da época, mencionado nas fontes escritas, é a grande mesquita de Kilwa, infelizmente reconstruída várias vezes, nada restando da obra original. Outro vestígio do século XII, que traz a data de 1107, é uma inscrição da mesquita de Kizimkazi em Zanzibar, que hoje orna uma mesquita do século XVIII.
Do século XIII, conhecemos três mesquitas em Kisimani Mafia, a parte norte da grande mesquita de Kilwa, uma pequena mesquita na ilha de Sanjo ya Kati, dois minaretes próximos a Mogadíscio - um tem a data de 1238 -, e, no mihrãb da mesquita de Fakhr al-Din, há a indicação do ano de 1269. Houve poucas mudanças nas técnicas de construção em relação ao século anterior: grandes e de forma rudimentar, os blocos de coral, de 25 a 30 cm, eram fixados com cal obtida da calcinação do coral 27.
No século XIV, Kilwa, principal centro comercial, passou por período de grande desenvolvimento na sua arquitetura 28. Começaram a utilizar pedras de tamanho mais ou menos idêntico, fixando-as com argamassa. Conseguia-se, assim, simplificar ainda mais a construção, apesar de sua qualidade ser natural- mente inferior à do século precedente. As pedras só eram talhadas com cuidado para o acabamento do mihrãb e esquadrias de portas e janelas. Surgiram novos elementos arquitetônicos: cúpulas esféricas ou pontudas, arcos semi-circulares, colunas de pedra, baixos-relevos ornamentais. No entanto, parece: que essas realizações limitaram-se a Kilwa; em outros locais, os tetos continuaram planos.
O monumento mais notável da época é o palácio-fortaleza ou centro comercial - de Husuni Kubwa. A menção ao nome do sultão al-Hasan Ibn Sulaymãn II (1310-1333) levou G. N. Chittick a propor o século XIV como data de construção deste edifício, que serviu de modelo para a arquitetura das casas das camadas ricas da população. De modo geral, as habitações tinham face norte ou leste, com pátios adjacentes em frente. A morada comportava vários quartos longos e estreitos. A comprida parede do primeiro deles - provavelmente o vestíbulo - era contígua ao pátio, com uma porta de acesso.
Os outros quartos eram paralelos ao primeiro. Seu número variava, mas geralmente havia uma peça principal após o vestíbulo e, em seguida, um dormitório. Nos fundos, à direita, situavam-se os banheiros, ao lado dos quais se encontravam instalações destinadas às abluções. Como não havia janelas, a não ser na fachada voltada para o pátio, os quartos interiores eram sempre escuros. Este tipo de moradia era comum em Gedi, Kisimani Mafia, Kaole e Kilwa. O conjunto de Husuni Kubwa compunha-se, em grande parte, de habitações deste tipo; o resto do terreno era ocupado aparentemente por uma piscina. Este monumento, único na arquitetura da África oriental, é verdadeira obra-prima, apesar de sua finalidade ainda não ter sido esclarecida.
Outro monumento notável do século XIV é a grande mesquita de Kilwa, reconstruída nessa época.
Durante o século XIV, Kilwa foi coberta de casas de pedra e tornou-se uma grande cidade, mostrando, incontestavelmente, sua crescente opulência. O desenvolvimento da construção prosseguiu na primeira metade do século XV, acompanhado por um aperfeiçoamento das técnicas. Derramava-se argamassa misturada a cascalho num molde, método utilizado até para a construção de cúpulas. As colunas, até então monolíticas, passaram a ser feitas de uma mistura de pedras e argamassa. Manteve-se o tipo básico de casa, que passou, por vezes, a mostrar um ou dois andares. Detalhe característico da época consistia em utilizar vasos esmaltados de porcelana da China ou da Pérsia no corpo da construção, para decorar abóbadas e cúpulas. A casa com uma mesquita dentro dos limites de Makutani é típica da arquitetura da época em Kilwa.
No reinado do sultão Sulaymãn Ibn Muhammad al-Mãlik al-'Ãdil (1412-1442), a grande mesquita de Kilwa - uma das obras-primas da arquitetura swahili da África oriental - acabou de ser reconstruída, adquirindo seu aspecto atual.
Muitas são as opiniões sobre esta arquitetura. G. S. P. Freeman-Grenville, por exemplo, partindo da semelhança entre a estrutura de certas construções de Kilwa (principalmente o palácio do século XVIII) e das casas comuns de taipa 29, conclui sobre a origem local, africana, das construções em pedra. Os arqueólogos J. S. Kirkman e G. N. Chittick supõem que os árabes e os persas estejam na origem desta evolução; observam, no entanto, que vários detalhes das construções são incompatíveis com as regras do Islã aplicadas nos países árabes. J. S. Kirkman descobriu na mesquita de Gedi motivos de decoração em forma de pontas de lança, inadmissível na Arábia ou no Irã. G. N. Chittick escreve que
"no plano material, e mais especialmente na arquitetura, a população da costa desenvolveu uma civilização original em muitos aspectos, que podemos definir como 'proto-swahili'" 30.
Esta opinião é próxima da de J. E. Sutton e P. S. Garlake:
"Por sua estrutura e seu estilo de construção religiosa e civil, por suas técnicas de construção, com suas moldagens em pedra talhada e motivos de decoração, a arquitetura swahili conservou, ao longo dos séculos, tradições originais que a distinguem da dos árabes, persas e de outros países muçulmanos" 31.
Eles, no entanto, parecem querer enfatizar a origem não-africana desta arquitetura, seu caráter "não-criador", pois precisam que se trata mais "de obras de mestres pedreiros do que de arquitetos" 32. Apesar de não dispormos da obra de Sutton e Garlake, gostaríamos de observar que o que aparentemente chamam de caráter "não-criador" poderia refletir o esforço consciente dessa arquitetura em adotar certos modelos; se considerarmos, por exemplo, a evolução das técnicas de construção, podemos constatar sua adaptação racional aos materiais da região, que se soube utilizar da melhor maneira possível.
De acordo com as fontes portuguesas, as ruas de Kilwa eram estreitas e ladeadas de casas de taipa, cobertas com ramos de palmeira. Nos bairros de casas de pedra, as ruas também eram estreitas e havia bancos de pedra ao longo das paredes das habitações.
A construção mais importante da cidade era o palácio, que provavelmente tinha dois ou até mesmo três andares em algumas partes. As portas das edificações eram de madeira, assim como outros elementos decorativos, de madeira ricamente esculpida. Este tipo de decoração era bem comum em vários pontos do litoral, principalmente em Bagamoyo e Zanzibar. Duarte Barbosa 33 sublinha o alto nível desta arte, o que leva a supor que sua origem recorra a séculos anteriores. Como se sabe, os portugueses se impressionaram com o aspecto das cidades, cujas construções em nada ficavam a dever às de Portugal, e com a riqueza de seus habitantes, a elegância das roupas, de seda ou de algodão, ricamente bordadas em ouro. As mulheres usavam brincos de pedras preciosas e, nos braços e tornozelos, correntinhas e braceletes de ouro e prata.
O alto nível de desenvolvimento da civilização swahili pode ser avaliado pela descoberta, nas escavações, de luminárias de terracota, presumivelmente usadas para iluminar as partes escuras das casas, o que leva a supor que as pessoas tinham o hábito de ler, escrever, fazer contas etc. Também se utilizavam velas. Compunham o mobiliário tapetes e esteiras e, às vezes, tamboretes e camas suntuosas com incrustrações de marfim, madrepérola, prata ou ouro. Na casa dos abastados encontrou-se cerâmica importada: faianças e porcelanas do Iraque, do Irã, da China e também do Egito e da Síria. A cerâmica local era utilizada em geral para a preparação de alimentos, e pela população mais pobre. No período entre os séculos XII e XV, havia dois tipos principais de cerâmica com muitas variantes quanto à forma e à decoração; vasos com base redonda ou pontuda, que se destinavam ao uso sobre o fogo; e vasos largos e pouco profundos, parecidos com tigelas ou pratos fundos, provavelmente utilizados para a alimentação.
As estruturas do poder
Centros de intercâmbio comercial e de difusão do Islã, as cidades swahili da África oriental eram também freqüentemente unidades administrativas, capitais de pequenos Estados dirigidos por dinastias muçulmanas locais. O melhor exemplo desses centros é Kilwa, bem conhecida como sede administrativa de uma dinastia, graças às duas versões de sua Crônica 34. Segundo esta fonte a dinastia - cujos membros não eram africanos, mas persas - era originária da cidade de Shiraz. Em quase todas as cidades da África oriental existem mitos semelhantes, mas permanece a questão sobre a origem da camada dirigente das cidades swahili, que constituía um grupo social rico e islamizado. A resposta a essa questão seria significativa para se poder determinar se a civilização swahili é africana ou se foi trazida à África por estrangeiros.
Do mito à realidade histórica
Atualmente há duas teorias a respeito de tal matéria. De acordo com a primeira, a civilização que se desenvolveu na costa da África oriental é obra de persas e árabes; eles teriam construído as cidades, introduzido o Islã, difundido sua própria cultura, que seria de nível superior à dos africanos; ou, ao menos, estariam na origem desta evolução, a que teriam dado o primeiro impulso. A população local se atribui papel passivo, então; os recém-chegados teriam se cercado de grande número de empregados domésticos, mulheres, protegidos etc., africanos e leriam sido assimilados mais ou menos rapidamente. Ao invés de se desenvolver, a herança cultural dos africanos teria, aos poucos, se degradado, de forma que, não fossem as contribuições do exterior, todo o desenrolar da história da África teria ocorrido em circuito fechado.
Elaborada no fim do século XIX por J. Strandes 35, esta teoria baseia-se na filosofia da história de Hegel, segundo a qual todos os povos do mundo se dividem entre os que exercem uma ação histórica, sendo capazes de criar, e os que, fora da história, passivos, incapazes de criar, esperam ser guiados pelos povos ativos. Esta concepção errônea pode ser encontrada, atualmente, com algumas variações, nos trabalhos de historiadores como J. Gray 36, G. Mathew 37, R. Oliver 38 e G. S. P. Freeman-Grenville 39, ou nos de arqueólogos como J. S. Kirkman 40, para citar apenas nomes ligados à historiografia da África oriental. A outra concepção, desenvolvida no Ocidente pelo arqueólogo G. N. Chittick 41 e na União Soviética por V. M. Misiugin 42, ainda é objeto de estudos complementares. Aproxima-se, aliás, do ponto de vista de historiadores africanos, como Joseph Ki-Zerbo 43 e Cheikh Anta Diop 44. Baseia-se na hipótese de uma participação ativa e dirigente dos africanos em sua própria história. Afirma, fundamentando-se em pesquisas sérias e objetivas, que as dinastias dos principados urbanos são de origem incontestavelmente africana.
O sistema de transmissão de poder
V. M. Misiugin pesquisou a Crônica da cidade de Pate, demonstrando que lá existia, antes do advento da Dinastia Nabkhani, um Estado dirigido pelos Wapate, antiga aristocracia que gozava do privilégio do poder real e portava o título de mfalme.
“Em virtude das regras jurídicas consagradas pela tradição para o título e a função de mfalme, a dinastia reinante de Pate devia conservar, como necessidade de sobrevivência, um sistema de divisão em grupos por grau de parentesco. Nesse sistema os homens do clã Wapate que portavam e transmitiam o título de mfalme pertenciam ao mesmo grupo de idade [à mesma geração] - o ndugu. Nestas condições, o título de mfalme era transmitido, não de um indivíduo para o outro, mas de uma geração a outra, ou seja, a todo o ndugu. Como os Wapate eram uma aristocracia fechada, o ndugu devia ser bastante restrito, mas contava alguns indivíduos. O título de mfalme não era vitalício; passava de um indivíduo a outro do ndugu, à medida que cada um atingia a maioridade. Um homem atingia formalmente a maioridade ao se casar. Em razão do caráter fechado do clã aristocrático, os homens casavam com mulheres do mesmo clã, que, por sua vez, faziam parte do ndugu da mesma geração. A transmissão do título de mfalme ocorria durante a cerimônia do casamento. De acordo com a tradição, todos os Wapate portavam, por certo tempo, o título de mfalme, que conferia o poder supremo. Os homens, então, deviam desempenhar as funções ligadas ao título, enquanto as mulheres eram depositárias deste poder. Assim, Sulaymãn, fundador da dinastia nabkhani, recebeu o título de príncipe, conforme a tradição, por ter esposado uma mulher al-Bataviyuni [Wapate]. O título de príncipe foi-lhe conferido, não porque sua esposa fosse filha do príncipe da época - o que era uma circunstância fortuita -, mas porque ela pertencia ao ndugu da geração seguinte" 45.
Não se pode, no entanto, pela sobrevivência da regra do ndugu, concluir que a sociedade swahili permaneceu no estado clânico:
"A regra do ndugu significa, originariamente, que, em determinada época, os Wapate, que tinham preponderância econômica sobre os outros clãs, reservaram para si um elemento do sistema de relações de parentesco, privando, no mesmo ato, os outros do direito ao poder supremo" 46.
Conseqüentemente, o advento de Sulaymãn, fundador da Dinastia Nabkhani, e o fato de ter chegado ao poder pelo casamento testemunham a Antigüidade da divisão social em classes entre as populações do litoral. No entanto Sulaymãn não pertencia ao grupo de príncipes Wapate; só era ligado ao clã por sua mulher, através da qual havia recebido o título. Dessa forma, o grupo de príncipes corria o risco de perder o direito ao título, já que pelo regulamento do ngudu, este deveria ser transmitido aos irmãos do marido, que poderiam não ser casados com mulheres wapate. A esposa do príncipe, que pertencia ao clã Wapate, tornava-se, então, depositária do direito abstrato ao título de príncipe, cuja função efetiva era desempenhada pelo marido. Assim, as origens do marido não tinham muita importância; o essencial era que se tornara parte do sistema existente, próprio do litoral africano e originariamente africano.
Tentamos aplicar estes princípios de pesquisa ao estudo da Crônica de Kilwa, e, ao que parece, a regra do ngudu também comandou o modo de transmissão do poder nesta cidade. Isso fica mais claro particularmente na passa- gem do primeiro capítulo, onde é mencionado Muhammad Ibn 'Ali, primeiro príncipe reinante, sucedido por seu terceiro irmão, Baskhãt Ibn 'Ali, e depois pelo filho deste último, 'Ali (Ibn Baskhãt), que, segundo a Crônica, se apropriou do poder em detrimento dos tios paternos, Sulaymãn, al-Hasan e Dãwüd. É clara a alusão à regra de sucessão, que foi transgredida: o poder não deveria ter sido entregue a 'Ali Ibn Baskhãt, mas sim aos tios.
Indicação análoga pode ser encontrada no terceiro capítulo da Crônica, que trata dos respectivos direitos dos irmãos al-Hasan Ibn Sulaymãn al-Matün e Dãwud ao título de sultão. Dãwüd, nas funções de sultão, considerava-se representante do irmão durante sua ausência e reconhecia que deveria a ele se submeter, caso voltasse. Essa observação nos parece ainda mais interessante pelo fato de os dois irmãos pertencerem à dinastia Abu al-Mawãhib, originária do Iêmen e à qual se atribui o florescimento da civilização de Kilwa.
É também interessante observar que a Crônica de Kilwa (em sua variante swahili), como a Crônica de Pate, relata que o primeiro sultão da cidade era um persa que esposou a filha do chefe local.
Pode-se concluir, pela adoção da regra do ngudu como modo de transmissão do poder, que a organização estatal nas cidades africanas era de origem local, assim como a regra do ndugu era uma instituição social de origem puramente africana.
A ascensão ao poder através do casamento com a filha do chefe local não é fenômeno exclusivo de Pate e Kilwa; G. S. P. Freeman-Grenville cita em sua obra muitos outros casos idênticos. Parece, então, possível admitir a hipótese de que a mesma situação de Pate predominou em todo o litoral, sob o aparente domínio do Islã, de seus costumes e regras.
O Islã e a ideologia do poder
A influência do Islã estava ligada ao papel cada vez mais importante das camadas sociais swahili enriquecidas pelo comércio. A situação destas camadas sociais parece ter-se tornado tão boa que a velha aristocracia também tentou reforçar sua posição através do Islã, principalmente por alianças matrimoniais com muçulmanos ricos, que, por sua vez, para se igualarem aos aristocratas locais, tendiam a dizer-se de descendência árabe, às vezes até de famílias árabes ou persas célebres na história dos países muçulmanos.
"Assim, os antigos mitos swahili que narram a chegada de grupos muçulmanos, mais ou menos numerosos, às cidades da África oriental nos séculos VII e VIII e, depois, nos séculos IX e X, são substituídos pelos relatos da chegada, provenientes da Arábia e da Pérsia, dos fundadores das dinastias reinantes em muitas cidades swahili e da fundação destas cidades por árabes e persas" 47.
Tais mitos não são fenômenos isolados, podendo-se encontrar muitos deles no Kitãb al-Zanüdj 48, bem como em outras épocas e outros lugares, dentro e fora da África. Sem dúvida, em virtude de um mito do gênero, a dinastia etíope ainda hoje afirma descender do rei Salomão e da rainha de Sabá. No Sudão oriental, os povos africanos atribuem sua origem a "tribos" árabes que teriam surgido na África. A fundação do Estado do Kanem é atribuída a seu primeiro rei, Sefe, que a tradição identifica com o rei iemenita Sayf Dhu Yazan. A família dos Keita, que governa o Mali, remonta suas origens aos parentes do profeta Maomé. Até na Nigéria subsiste um mito segundo o qual os ancestrais dos Yoruba seriam cananeus vindos da Síria e da Palestina. Como se pode observar, esses mitos sempre atribuem a origem de povos inteiros, a fundação de Estados, a instalação de dinastias reinantes a estrangeiros de raça branca, que teriam chegado à África em épocas remotas, e nunca a fatores ou acontecimentos puramente africanos. Trata-se evidentemente de fenômeno de ordem geral que caracteriza, em alguns casos, as sociedades no momento em que se transformavam em sociedades de classes.
Outra evidência indireta desse fenômeno é fornecida por pesquisadores, como A. H. J. Prins 49, que dá exemplos de grupos que se pretendem de origem árabe ou shirazi, quando não há dúvida sobre sua origem africana.
Conclusão
Parece que a civilização da África oriental, a civilização swahili, foi fruto do desenvolvimento comercial. O comércio, expandindo-se, permitiu seu crescimento e progresso; mas foi também seu ponto fraco, pois não estava ligado ao desenvolvimento das forças produtivas da região. Ao se estudar o nível de ocupação da população, constata-se que a sociedade swahili permaneceu no estágio de desenvolvimento das forças produtivas em que sem dúvida se encontrava antes da expansão de suas atividades comerciais, o que se evidencia pela raridade de utensílios de ferro ou outros metais exumados pelas escavações.
Quase todos os bens produzidos ou obtidos pela sociedade swahili - tanto os produtos de caça quanto o ouro ou o ferro - não se destinavam ao consumo interno, mas à exportação. Ora, o comércio por si só era insuficiente para assegurar a base dessa civilização e seu desenvolvimento. Bastava que as rotas comerciais fossem interditadas, os circuitos comerciais interrompidos para, com a ruína do comércio, essa civilização perder seus elementos fundamentais. Como se sabe, foi exatamente o que aconteceu com as cidades da África oriental.
Avalia-se serem várias as circunstâncias que contribuíram para a decadência da sociedade swahili. A invasão dos Zimba e, parece, a diminuição das chuvas, com a conseqüente modificação no regime das águas constituíram obstáculo ao desenvolvimento das cidades do litoral. Mas a causa principal da decadência, no nosso entender, foi a destruição do comércio marítimo pelos portugueses. Bem armados, equipados com artilharia e concebidos para a guerra marítima, os navios portugueses representavam uma força invencível. Sua constante presença na região sob o comando de Rui Lourenço Ravasco, a captura de vinte navios carregados de mercadorias, a destruição de numerosas embarcações da flotilha de Zanzibar, a pilhagem e destruição de cidades litorâneas da África oriental, principalmente de Kilwa, foram golpes dos quais o comércio marítimo da região jamais se recuperou e sob os quais também pereceu a civilização swahili.
Notas
1 FREEMAN-GRENVILLE, 1962b, p. 217.
2 AL-MAS'ÜDi", 1861-1877, v. 1, p. 334; v. 3, p. 7, 11, 29. Ver também MATVEIEV, 1971, p. 26-7.
3 MATVEIEV & KUBBEL, 1965.
4 MISIUGIN, 1972, p. 165-77.
5 MATVEIEV & KUBBEL, 1965, p. 305. 6 Ibid., p. 194.
7 CHITTICK, 1967a, p. 4-19.
8 MATVEIEV & KUBBEL, 1965, p. 304.
9 TOLMACHEVA, 1969, p. 276.
10 As descrições das escavações arqueológicas realizadas na África oriental e da arquitetura swahili baseiam-se nas seguintes obras: KIRKMAN, 1954a, CHITTICK, 1961, 1966, e 1967b, 1974, v. 2.
11 YÃKÜT, 1866-1873, v. 4, p. 75-6; v. 5, p. 302 e 699.
12 Kilwa chronicle, in FREEMAN-GRENVILLE, 1962a.
13 IBN BATTUTA, 1853-1859, v. 2, p. 176 et seqs.
14 CHITTICK. 1967a. p. 27-9.
15 STRANDES, I., 1899, p. 97-100; 1961.
16 CATON-THOMPSON, 1931, p. 81.
17 KIRKMAN, 1954a, p. 72-3 e 78-9.
18 MATVEIEV, & KUBBEL, 1965, p. 305.
19 CHITTICK, 1965. 20 CHITTICK, 1971.
21 FREEMAN-GRENVILLE, 1957, 1960a.
22 VELGUS, 1969.
23 TRIMINGHAM, 1964, p. 24-8 e 46-7.
24 IBN BATTUTA, 1853-1859, v. 2, p. 194.
25 Id., ibid.; p. 183-4:
26 MISWGIN, 1971, p. 100-15.
27 Essas indicações baseiam-se no artigo de CHITTICK, 1963a, p. 179-90.
28 Para qualquer informação sobre arquitetura, técnicas de construção e resultados de escavações arqueológicas em Kilwa, consultar principalmente o notável trabalho de CHITTICK, 1974.
29 FREEMAN-GRENV1LLE, 1962. p. 92.
30 CHITTICK. 1971, p. 137.
31 SU'ITON. J. E. & GARLAKE, P. S. Tanzania notes and records. n. 67. 1967. p. 60.
32 Ibid.
33 BARBOSA, 1918, V. 1. p. 17-31.
34 FREEMAN-GRENVILLE, 1962a e 1962b.
35 STRANDES, 1899.
36 GRAY, J. M., 1962, p. 622.
37 MATHEW, 1953 e 1956.
38 OLIVER & MATHEW, 1963; OLIVER, 1962.
39 FREEMAN-GRENVILLE, 1958 e 1962a.
40 KIRKMAN, 1954b.
41 CHITTICK, 1974.
42 MISIUGIN, 1966.
43 KI-ZERBO, 1972, p. 10-2, 190-2.
44 DIOP, 1955, p. 19.
45 MISIUNGIN, 1966, p. 61.
46 Ibid., p. 63.
47 Ibid., p. 67.
48 CERULLI, 1957.
49 Prins, 1961, p. 11-2.