A Civilização de Madagascar nos séculos XII ao XVI

F. Esoavelomandroso.

Como já diz a própria autora, "Madagascar apresenta um caso de simbiose, cujo estudo é ainda mais interessante que o da história da África. A Arábia, a Índia, a África e a Indonésia encontraram-se nessa ilha, oferecendo ao mundo exemplo eloqüente de mestiçagem biológica e cultural que deu tão belos frutos".in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 4



Os componentes essenciais da população de Madagascar já se encontravam presentes no final do século XII, apesar de outras ondas migratórias terem se seguido entre os séculos XII e XVI. O povoamento de Madagascar faz parte do vasto quadro de relações entre o sudeste da Ásia e a África através do oceano Indico. Tendo reconhecido a importância dessa questão, o Comitê Científico Internacional para a redação da História geral da África, sob o patrocínio da Unesco, organizou, dos dias 15 a 19 de julho de 1974, uma reunião de especialistas em Port Louis (Maurício) para debater o tema "Relações históricas através do oceano Indico" 1.
O problema do povoamento de Madagascar é tratado no capítulo 25 do volume 3. Muitas questões ainda não foram resolvidas; a determinação das contribuições africana, árabe, hindu e Indonésia para o povoamento e a cultura de Madagascar, por exemplo, ainda provoca muitas discussões entre os pesquisadores 2.
Neste capítulo, o enfoque será menos a síntese definitiva da civilização e da história de Madagascar entre os séculos XII e XVI do que a tentativa de esclarecer a lenta e complexa interação étnica e cultural que, no início do século XVI, deu uma identidade original à grande ilha. Parece certo que, após o século XII, Madagascar ainda recebeu árabes, indonésios e africanos. As tradições orais de Imerina e de Betsileo evocam, a este respeito, as guerras que os reis, no comando dos recém-chegados, teriam liderado contra as populações autóctones, designadas pelo nome de "Vazimba", vencidas e rechaçadas para o interior 3. Essas tradições comportam listas genealógicas que remontam ao século XIV e até ao XIII.
No entanto muitos estudiosos acreditam que as migrações neo-indonésias dos séculos XIII e XIV só concernem aos Merina; há muitas dúvidas quanto à existência dos "Vazimba", seus adversários de acordo com as tradições. De fato, para alguns, vazimba significa ancestrais; não se refere, portanto, a determinado povo; o termo serviria para designar, de forma vaga, as populações, sem dúvida negras, que precederam os indonésios nos planaltos. 4
Os sorabe 5, conservados cuidadosamente pelos Antemoro, uma população do sudeste, são também uma fonte sobre o povoa.mento da ilha, pois registram a chegada e a instalação dos árabes vindos de Meca.
As migrações mais recentes parecem ter tido papel determinante na formação de conjuntos políticos bem estrutura dos, apesar de terem encontrado populações já agrupadas em reinos. Mas quando situar a chegada das últimas ondas? Seria necessário proceder a um estudo crítico das várias tradições escritas e orais, principalmente as que vêm das dinastias que tendem naturalmente a insistir na sua Antigüidade.
A partir do século XV e até o início do XVI, as fontes portuguesas descrevem os povos e os reinos da ilha. Os reinos estavam em pleno desenvolvimento quando os portugueses chegaram, mas o problema é saber ainda o período de sua formação. Estariam lá antes do século XII? Como se forma- ram? Existem muitas teorias, mas, é preciso dizer, o atual estágio de nossos conhecimentos e a insuficiência das pesquisas neste campo não fornecem respostas definitivas.
Teriam sido os negros, primeiros ocupantes prováveis, que estabeleceram os fundamentos desses reinos, ou os fundadores teriam sido os imigrantes da Indonésia? O elemento muçulmano desde cedo teve papel importante; em vista da extensão e profundidade desta influência, a tese da origem árabe ou muçulmana dos reinos não foi afastada por certos estudiosos, como veremos.
A origem dos reinos em Madagascar
Não existe um povo "vazimba"; as tradições que o mencionam provavelmente atestam a existência anterior de certas populações difíceis de identificar. Essas mesmas tradições serviram de ponto de partida para a afirmação de que não existiam instituições reais antes da chegada das últimas ondas imigratórias; no território betsileo, as tradições confirmam os dados: as populações autóctones não tinham rei, e só se nomeavam chefes em caso de guerra.
As tradições e as hipóteses
P. Ottino acredita que as populações vindas da Indonésia distinguiam-se por traços de cultura,e não por uma escala cronológica de tempo na ordem de chegada. Segundo esse autor, havia os imigrantes portadores de cultura popular "que remonta às tradições malaiopolinésias" e os oriundos de uma cultura aristocrática, "característica do hinduísmo indonésio, no tocante à separação de papéis do Estado e da realeza"; de fato, as festas dinásticas de imerina são reminiscências das que se encontram nas regiões hinduizadas do arquipélago da insulíndia. Na realidade, muitas tradições insistem no caráter recente desta onda de imigrantes, e distinguem-na das outras. P. Ottino situa a chegada dessa aristocracia no século XII 6. A aristocracia de imerina se distinguiria, então, segundo esta tese, por sua cultura hindu.
Já J. Lombard sublinha que
"a constituição das grandes unidades políticas no sul e no oeste se deu em razão da chegada de grupos arabizados" 7.
A tese da origem "árabe" das instituições reais ou monárquicas tem o endosso de muitos autores, que insistem nas inovações trazidas pelos muçulmanos para as sociedades do sudeste, a única área onde agrupamentos por clã eram conhecidos.
Observemos que podem ter existido diferentes núcleos de poder e que, de qualquer forma, estamos diante de uma simbiose no plano biológico, cultural e político. Por exemplo, encontra-se a influência muçulmana nas instituições políticas dos Merina, mas não se pode ter certeza da época em que houve contatos entre Andriana e os imigrantes estabelecidos no sudeste. J. P. Domenichini observa com exatidão que não se deve perder de vista a contribuição africana. Também sustenta que não é correta a ligação da origem dos reinos à chegada dos muçulmanos; seria preciso analisar as instituições de cada região. Apenas três dos 14 sampy reais vêm do sudeste. Apoiando-se nos relatos das tradições orais sobre a descoberta de outros sampy, e na própria natureza desses feitiços mágicos, o autor conclui que
"a instituição do sampy é anterior à difusão da cultura e da religião muçulmanas em Madagascar, mesmo que mais tarde a instituição tenha sofrido esta influência" 8.
No oeste, P. Ottino situa antes da chegada dos Maroserana o aparecimento dos primeiros reinos
"de pequena extensão territorial e, sem dúvida, sem doutrina de sucessão política claramente definida".
Liga esses reinos pré-sakalava aos primeiros imigrantes bantu matrilineares, populações que viviam da agricultura, enquanto os reinos sakalava provêm de grupos de criadores de gado (bantu patrilineares) 9.
Estes vários estudos devem ser encarados com prudência; eles incitam-nos, sobretudo, a procurar os componentes de uma cultura que esclareceriam as várias contribuições e o mecanismo de suas combinações. Tudo leva a crer que o surgimento dos reinos é posterior ao século XII. Antes dessa data, podem ter existido aqui e ali clãs muito bem estruturados que constituíram as células de base dos reinos. O reino nada mais era que a reunião destes clãs em grandes entidades fortemente hierarquizadas.
No entanto, é verdade que Raminia, fundador do reino islamizado do sudeste, e seus descendentes tiveram grande influência. Segundo P. Ottino, o fundador desse reino seria originário do sudoeste indiano. Ao estudar as dinastias do oeste aparentadas entre si (Maroserana, Andrevola), E. Fagereng atribui-lhes uma origem comum indo-árabe, retomando em parte a hipótese de A. Grandidier criticada por R. K. Kent 10. As tradições destas dinastias associam-nas a estrangeiros que desembarcaram numa época tardia na parte sul da ilha, e que teriam emigrado em seguida para o oeste.
O entrelaçamento de migrações internas é ainda mais difícil de desembaraçar; parece que, uma vez na ilha, os recém-chegados continuaram a deslocar-se. Apesar de as entidades étnicas se terem mantido, a miscigenação é evidente, como testemunha a unidade cultural da ilha.
A chegada dos Merina e a ocupação de imerina: nascimento do reino merina
As terras montanhosas são hoje ocupadas pelos Merina, os Sihanaka, os Betsileo e os Bezanozano; algumas tradições afirmam que sua origem é a mesma, apesar de os Merina, cujo ancestral Andriantomaza liderou a expedição que desembarcou na baía de Antongil, constituírem uma aristocracia entre eles. Deste ponto da costa, os recém-chegados alcançaram pouco a pouco as terras montanhosas 11. O ponto de desembarque- parece ter sido mesmo a baía de Antongil, tanto se vieram diretamente do sudeste asiático a Madagascar quanto se fizeram escalas no continente africano e nas ilhas Comores.
A chegada dos últimos imigrantes da Ásia pode ser situada entre os séculos XIII e XV. É provável que, no fim deste período, tenham desembarcado em pequenas ondas migratórias, espalhando-se na ilha ao longo de uma via marcada por sítios, hoje reconhecidos e estudados. De Maroantsetra chegaram ao interior, parando nas nascentes do Vaharina, na extremidade ocidental das falésias de Angavo. Vohidrazana, ao norte de Tamatave, e Ambatomasina Vohidrazana de Noramanga constituíram algumas etapas desta caminhada 12.
Os relatos dos viajantes árabes do século XIII, e mesmo dos europeus. no XVI, corroboram a hipótese de uma chegada tardia de imigrantes indonésios na costa leste 13.
As tradições dos Betsileo também evocam o mesmo caminho para os imigrantes, da costa às nascentes do Mahatasiatra, conduzidos por Iarivo, fundador das dinastias locais. Foi uma penetração lenta, que nada teve de invasão maciça e brutal, como nos mostra claramente a análise das tradições.
De fato, os recém-chegados não empreenderam guerras contra os antigos ocupantes logo ao chegar. Os Tantara ny Andriana começam evocando a longa coabitação das duas comunidades em Imerina. Teria sido somente após dois reinados - de Andrianaponga a Andriamanelo -, que os hóspedes teriam, segundo a tradição, começado a guerrear contra seus hospedeiros. Num país tão vasto, recoberto provavelmente em grande parte pela floresta e pouco povoado, era possível que grupos humanos dispersos vivessem isolados uns dos outros por bastante tempo, sem concorrência, enquanto nenhum deles manifestasse pretensões territoriais e políticas precisas. No entanto, gradativamente foram estabelecidos contatos e alianças matrimoniais entre os recém-chegados e os autóctones. Embora as tradições orais distingam claramente os Merina, os Betsileo e os Sihanaka dos "Vazimba", em outros relatos passa-se, sem ruptura, de uma genealogia de reis ditos "vazimba" a uma de reis merina. Estes últimos não se apresentariam, desta forma, como herdeiros e sucessores legítimos dos primeiros reis? Não se exclui a possibilidade de que os últimos a chegar tenham encontrado um quadro estatal com o qual colaboraram, confiscando-o e renovando-o em seguida. Mais tarde, houve conflitos entre os tompon-tany (senhores da terra) e os novos vizinhos. Numa tradição citada por R. P. Callet 14, os motivos parecem ter sido as ambições políticas dos Merina, que admitiam com dificuldade a divisão de terras com os primeiros ocupantes, os senhores do solo. O vencedor, o rei Andriamanelo, teria vencido os autóctones graças à superioridade do armamento de ferro de seus soldados, pois os primeiros habitantes ignoravam o uso desse metal. Uma questão importante: quando e como o ferro foi introduzido na ilha? 15 Segundo uma teoria aceita, o ferro teria chegado a Madagascar antes do primeiro milênio de nossa era. O problema é que os últimos imigrantes atribuem a si essa invenção capital.
De minha parte, aceito de boa vontade a teoria de J.C. Hébert, bem engenhosa: segundo ele, os "Vazimba" seriam simplesmente populações do interior com as quais os últimos chegados (os Merina) e também os Sakalava estabeleceram relações jocosas (ziva) que supõem privilégios entre os quais o menos curioso não é o insulto gratuito (ainda hoje manazimba quer dizer insultar)" 16. Assim, "vazimba" poderia design:ar um conjunto de populações mestiças de negros e indonésios que ocupavam as terras montanhosas antes dos Merina. .
As tradições merina e betsileo evocam, em sua maioria, uma fuga dos vencidos para o oeste até o Menabe. Expulsos pelos reis das terras montanhosas, instalaram-se em território sakalava; a lembrança deste deslocamento permanece viva na memória de seus descendentes. Inquiridos sobre sua origem, os Mikea, população que vive na floresta de Befandriana-sul (região de Tulear), afirmam descender dos "Vazimba" rechaçados por reis merina 17. Não se pode, no entanto, admitir sem discussão a hipótese de uma fuga generalizada dos autóctones, que teriam deixado no local apenas os túmulos, ao mesmo tempo temidos e venerados, como prova de sua antiga existência 18. Além disso, a presença do clã dos Antehiroka, descendentes dos "Vazimba" no próprio centro de Imerina, a noroeste de Antananarivo, permite refutar a hipótese de uma expulsão total das primeiras populações. Mesmo que algumas tenham deixado Imerina, o Betsileo ou o Menabe - os Zafisoro, antiga população do oeste, teriam emigrado para leste após a conquista sakalava -, a maioria permaneceu. Os últimos imigrantes tinham, de fato, interesse em se entende com os grupos considerados senhores da terra (tompon-tany), em virtude de sua presença anterior. As alianças matrimoniais multiplicaram-se e um modus vivendi se estabeleceu, pouco a pouco, entre os vencedores e os vencidos. Os primeiros garantiram para si a adesão dos antigos habitantes e os favores das divindades da terra 19. Por sua submissão, os segundos esperaram um tratamento menos rigoroso. No oeste,
"a aliança entre os imigrantes e o grupo tompon-tany dos Andrambe deu origem ao primeiro personagem histórico da dinastia dos Andriambolamena" 20.
Assim nasceu o reino do Menabe, criado pelos Andrambe, onde se instaurou um ritual de orações dedicadas aos ancestrais do rei por um oficiante chamado mpitoka 21.
Desta forma, os recém-chegados merina, betsileo e outros tornaram-se gradualmente os senhores do território e organizaram os reinos, que contaram com a contribuição econômica e cultural dos muçulmanos, os quais, como se sabe, freqüentavam, desde antes do século IX, Comores e Madagascar. A influência árabe e muçulmana, ao mesmo tempo política, econômica e cultural, tomou-se muito forte na grande ilha e ilhas vizinhas, sobretudo nos séculos XII, XIII e XIV.
A penetração do islamismo em Madagáscar e nas ilhas Comores
Com o desenvolvimento dos centros comerciais da costa da África oriental 22 e a ,expansão da cultura swahili, grupos de muçulmanos da costa da África oriental começaram a freqüentar Madagascar e Comores. Um fluxo contínuo de intercâmbio desenvolveu-se, então, entre as duas margens do canal de Moçambique, mais tarde consolidado pelas "colônias" de populações muçulmanas que se instalaram nas ilhas Comores e em certas regiões de Madagascar. Como ocupantes das ilhas, etapas entre os empórios swahili da costa da África oriental e Madagascar, os habitantes das ilhas Comores conservaram melhor as tradições culturais de seus países de origem. Em Madagascar, porém, a situação foi menos definida. O sudeste, região mais afastada dos. centros de civilização swahili, foi pouco a pouco integrado à tradição malgaxe, conservando, no entanto, alguns de seus traços originais. Por outro lado, no nordeste, os descendentes dos grupos islamizados, que mantiveram contato íntimo com os correligionários comerciantes de Comores ou dos empórios da África, conservam até hoje sua verdadeira originalidade que lhes conferem sua ascendência, seus costumes e suas tradições de gente do mar.
As tradições comorianas e malgaxes falam de ancestrais de origem árabe obrigados a abandonar o país devido a suas convicções religiosas. Os sorabe Antemoro relatam a chegada, por volta do século XV, de Ralitavaratra, ancestral dos Antemoro-Anakara 23 detentor de relíquias sagradas - legadas por Moisés à sua família e cobiçadas pelo sultão de Meca, 'Ali Tawarath - que precisou fugir, sendo seguido por cerca de 30 fiéis. Após muitas peripécias, encontraram a "terra prometida" às margens do rio Matitanana. As tradições conservadas pelos Antambohoaka e pelos Antanosy (populações do sudeste malgaxe) evocam também a vinda de Meca de um ancestral comum, Raminia 24. Uma tradição comoriana assinala a chegada a Anjuan, por volta do século XIV, de sunitas que tiveram de abandonar a Pérsia por causa da dominação zaidita 25. Tais relatos refletem claramente a vontade de uns e outros de estarem ligados aos centros mais célebres do Islã para poderem se impor e melhor salientar sua ascendência ao mesmo tempo muçulmana e árabe 26.
Apesar de as tradições insistirem nas causas religiosas para explicar a migração de grupos de árabes para o sul, a atração exercida por Comores e Madagascar foi bastante forte. Era cada vez maior o número de migrantes interessados no comércio do mundo swahili. Ora, numerosos fatores - o estudo das viagens árabes. no oeste do oceano Indico, o conhecimento dos empórios da África oriental, a existência em Comores e no noroeste de Madagascar de tradições culturais bem próximas das do mundo swahili, a descoberta nos sítios do nordeste e sudeste da ilha de objetos que testemunham claramente relações comerciais entre esse território e os portos africanos - exigem outra forma de abordagem do problema das migrações desses povos islamizados. de Pemba e Zanzibar; ainda no século XII, em muitas cidades continuou-se a praticar as religiões tradicionais.
A escala do mundo swahili
Mesmo antes do estabelecimento de colônias muçulmanas, as cidades e ilhas do litoral africano entre Mogadíscio e Sofala já desenvolviam intensa atividade comercial 27. Voltadas mais para o mar do que para o interior, essas escalas, cuja prosperidade se consolidou a partir dos séculos XII e XIII, estenderam sua influência para bem além da costa. Os empórios serviam de escala entre a Arábia - e talvez mesmo a Índia -, de um lado, e Madagascar e Comores, de outro. Além disso, muitos imigrantes islamizados, chegando à região, foram fortemente impregnados pela cultura swahili, exercendo papel essencial na difusão do Islã na ilha.
No entanto, apesar de haver poucas informações na documentação escrita, há motivos para crer que a influência africana foi grande. A arqueologia provou que as cidades costeiras foram, na realidade, fundadas por africanos e não por árabes. Deve-se usar de cautela ao se falar na influência muçulmana, pois os árabes, nesse caso, não estariam necessariamente envolvidos. Não há nenhuma razão para não se admitir a existência de relações antigas entre as populações negras da ilha e as do continente.
Os empórios comerciais
Os empórios do noroeste malgaxe e de Comores apresentavam muitas semelhanças com as cidades da costa da África oriental, tanto por sua configuração como pelo modo de vida de seus habitantes. As ruínas das fortificações, os vestígios de mesquitas, as antigas casas com portas ricamente esculpidas que ainda existem em Anjuan são testemunhos de uma vida profundamente marcada pelo Islã e pela civilização árabe nos empórios de Mutsamudu, Wani, Domoni e Sima 28. Apesar de seus preconceitos, os portugueses deixaram descrições interessantes da vida nas escalas do noroeste de Madagascar no início do século XVI. Referindo-se a um dos empórios mais importantes, o de Nosy Langany, escreveram:
"Sua população [a de Lulangane] era composta por muçulmanos mais civilizados e mais ricos do que os que habitavam todos os outros pontos da costa, pois suas mesquitas e a maioria das casas eram de pedra calcárea com terraços, como as de Kiloa [Kilwa] e Monabza [Mombaça]” 29.
Restos de fortificações comparáveis aos da costa da África oriental foram descobertos no sítio de Mahilaka 30. As baías profundas que recortam o litoral noroeste da ilha, Ampasindava, Mahajamba e Boina, abrigam uma série de estabelecimentos comerciais (Mahilaka, Sada, Nosy Langany, Nosy Boina etc.), que mantinham relações estreitas com Comores e com a África e que participavam da cultura marítima swahili.
O carregamento das embarcações árabes nas costas malgaxes consistia em arroz, objetos de cloritoxisto (recipientes destinados ao uso funerário: taças com pé, panelas trípodes), cujo principal centro de fabricação encontra-se em Iharana (na costa noroeste de Madagascar) 31. Os empórios "malgaxes importavam pérolas indianas, tecidos, cerâmica chinesa - pratos e tigelas, presentes, com freqüência, no mobiliário funerário. As escalas da costa noroeste garantiam a redistribuição dos produtos importados; as escavações em Rezoky e em Asambalahy exumaram objetos característicos de sítios swahili 32. Apesar da concorrência européia a partir do século XVI, as colônias de populações islamizadas continuaram a exercer suas tão lucrativas atividades.
O povoamento das ilhas Comores e o grupo dos Antalaoetse.
Apesar de Comores e, principalmente, a ilha de Anjuan provavelmente terem recebido imigrantes indonésios e bantu, estes foram submersos por ondas sucessivas de populações islamizadas, originárias da costa da África oriental. Segundo um processo clássico, os últimos a chegar se impuseram pela força, pretendendo-se defensores da verdadeira fé num país onde "os crentes, longe das fontes do Islã, tendiam a descuidar de seus hábitos religiosos" 33. Procurando estabelecer o domínio político sobre as primeiras populações, os recém-chegados deram novo impulso a sua religião 34.
As colônias de muçulmanos do noroeste de Madagascar formaram o grupo dos Antalaotse, preponderante economicamente, à semelhança de uma poderosa "burguesia" comercial organizada em verdadeiras cidades-Estado, dirigidas por chefes ao mesmo tempo políticos e religiosos 35.
A civilização malgaxe, do século XII ao século XVI
Convém deixar claro que pouco sabemos da época dita "vazimba" além do que contam as tradições daqueles que rechaçaram as primeiras populações e lançaram as bases dos reinos. Muito se pode esperar da arqueologia, mas os trabalhos mal começaram; os projetos de escavações, sob o patrocínio do Museu e do Centro de Arte e de Arqueologia da Universidade de Antananarivo, começam a tornar-se sistemáticos; importantes trabalhos estão em curso em Androy 36. O leitor deve se reportar ao volume 3 desta obra, onde se trata do primeiro povoamento da ilha e da cultura encontrada pelos imigrantes que chegaram após o século XII.
Entre os séculos XII e XV, à medida que os recém-chegados desembarcavam na ilha, integravam-se aos grupos existentes ou se organizavam segundo o modelo clássico dos autóctones. Desconhecemos o processo em que se deu a interação entre as etnias africanas e asiáticas; em compensação, os documentos escritos mostram-nos os muçulmanos swahili instalando-se em Comores e na ilha, e mantendo contato com a costa swahili.
Cultura material
As pesquisas de campo realizadas por arqueólogos mostram que a agricultura é anterior ao período aqui estudado. Após o século XII, a cultura do arroz, do inhame, da banana e do cacau espalhou-se por toda a ilha. Os animais domésticos, bois e aves, eram de origem africana. Seria arriscado tentar discernir divisões sociais extensivas 37. À medida que a ilha se povoava, multiplicavam-se as aldeias e organizavam-se os clãs. A pesca era muito importante, e a piroga com flutuado r lateral dava aos ilhéus um bom domínio do mar. A cultura do arroz era importante, constituindo, esse produto, a base da alimentação.
A cultura material das regiões do sul, do oeste e de uma parte do norte parece ter sido predominantemente africana. Segundo C. Ravoajanahary, a cultura do arroz em campos inundados é uma técnica Indonésia, enquanto a criação de zebu e a cultura do inhame são tipicamente africanas 38. De acordo com esse autor, foram as últimas ondas migratórias do século XIV
"que introduziram os modelos políticos e rituais que, a partir do século XV, favoreceram a formação dos primeiros reinos malgaxes, a princípio no sudeste, depois paralelamente no sul, oeste e terras montanhosas".
Pode-se supor que as estruturas de base já existissem no século XV as famílias se agrupavam em clãs, por sua vez reunidos em aldeias mais ou menos autônomas.
Os trabalhos arqueológicos trouxeram à luz muitas cerâmicas, a partir das quais ainda não se podem, todavia, tirar conclusões válidas; no máximo, definir alguns estilos de cerâmica próximos do estilo indonésio e outros próximos do estilo africano. Numerosas datações por carbono-14 deverão ser feitas para que se possam preencher lacunas em nosso conhecimento 39.
A realeza e suas instituições - Do clã ao reino
Organizados em torno de chefes ou patriarcas, os clãs parecem ter se formado muito cedo. Os termos foko, troki, firazana designam as principais características do clã: o aspecto comunitário (foko = comunidade) e uma mesma ascendência para os indivíduos que o compunham (firazana = ascendência; troki = seio materno). O clã constituía a unidade básica do reino, e se apoiava nas aldeias ou na terra cultivada. A maioria das tradições põe ênfase nas lutas entre clãs na fase de formação dos reinos. Dentro do clã, a autoridade pertencia aos anciãos, cujo porta-voz era o patriarca, o mais idoso. A cultura e os ritos religiosos sedimentavam ainda mais a unidade lingüística.
Os primeiros reinos e sua evolução
Apesar de a origem árabe dos príncipes que nas ilhas Comores substituíram os fani - primeiros chefes islamizados que sucederam os beja do período pré-islâmico - não ter, aparentemente, apresentado qualquer problema, a das dinastias conquistadoras malgaxes apresenta alguns. Muitas tradições evocam os laços de parentesco que uniam as dinastias do oeste e do sul (Maroserana, Sakalava e Mahafaly, Zafimanara da região do Androy) às do sudeste (os Zafiraminia do Anosy). A área de estabelecimento de grupos arabizados aparece .como o berço de grande número de dinastias malgaxes. A tradição mantém a lembrança de migrações leste-oeste a partir do território antemoro, por um lado (migração dos Zafiramba Tanala), e do Anosy, por outro (migração dos Maroserana). A rota tomada pelos futuros soberanos do Menabe seguia o rio Itomampy, passava ao norte do Onilahy e atravessava o Fiherenana e o Mangoky antes de chegar a Bengy 40.
Tentar agora ver o que nas concepções monárquicas seria uma herança exclusivamente africana ou Indonésia - na medida em que se pode dizer que as instituições da realeza resultaram, em parte, do dinamismo próprio às primeiras sociedades - permitiria definir melhor o papel dos arabizados ou muçulmanos na constituição dos reinos malgaxes. É dessa forma que o estudo dos aspectos africanos da cultura malgaxe levou os historiadores a procurar no continente as origens de certas instituições fundamentais, como o culto de relíquias dos reis mortos (culto dos dady no território sakalava). R. Kent assemelha ao célebre Império de Monomotapa o Reino dos Maroserana Volamena, sem, no entanto, concluir pela origem africana dos últimos. Depois de criticar severamente o "mito dos reis brancos" de origem asiática, defendido por A. Grandidier, R. Kent levanta a hipótese de uma origem muito miscigenada dos Andriana Merina. No seu entender, eles descenderiam dos tompontany, novos imigrantes de origem desconhecida, e talvez até dos arabizados zafiraminia 41. As instituições políticas são, portanto, uma simbiose das contribuições negra, asiática e muçulmana, enriquecida por contribuições de novos imigrantes desconhecidos, talvez Zafiraminia arabizados. E refletem essas muitas influências; a maior parte dos autores hoje concorda em que se deva trazer à luz o importante papel desempenhado pelos árabes na história política e social da ilha. Os textos estabelecem claramente que no século XIV novas concepções foram introduzidas na esfera do poder político, principalmente na divisão do reino em "unidades territoriais homogêneas". Nós próprios observamos a importância que as tradições atribuem às dinastias de Zafiraminia de origem árabe-hindu, assim como a das tradições de outros grupos antemoro, os quais incluíam alguns elementos vindos diretamente de Meca, os Antanpansemac ("povo das areias de Meca") 42.
Com relação a essa questão, muito ainda deve ser feito para que se possa conhecer melhor os fundamentos do poder em Madagascar; no entanto é certo que a realeza se fortaleceu no século XV, com uma influência muçulmana bem marcada.
A religião
É uma simbiose de elementos africanos e indonésios, sem excluir a influência do Islã, que continuou preponderante, principalmente nas ilhas Comores. Geralmente é difícil distinguir os diferentes grupos de migrantes; mas o que importa é a simbiose, que dá grande originalidade a Madagascar.
O panteão
No panteão malgaxe, o primeiro lugar é ocupado pelo principal deus da Indonésia: Zanahary ou Andriananahary, nas regiões litorâneas, Andriananitra (senhor perfumado), no interior. É a divindade mais poderosa, a que criou o mundo, formou a sociedade e concedeu os costumes. É a primeira divindade evocada nas preces, mas é um deus distante; para atingi-lo, os homens apelam para divindades secundárias ou gênios, da água e da floresta. O espírito dos ancestrais também é invocado; as preces são dirigidas aos "Vazimba", senhores da terra. Florestas, rochedos e árvores grandes podem ser lugares de culto.
As oferendas
São feitos sacrifícios para as divindades; é muito freqüente o sacrifício do búfalo, menos, porém, que o do boi, praticado por toda parte e em várias ocasiões da vida 43.
O feiticeiro
Entre as crenças, é preciso mencionar o feiticeiro, temido na sociedade. É difícil concluir se o feiticeiro é de origem asiática ou africana; o nome pelo qual é designado, inpamosary, é asiático, mas encontram-se na África feiticeiros com as mesmas características que em Madagascar.
Os funerais
Como na Indonésia, pratica-se em Madagascar o funeral duplo; entre os Betsileo, os que carregam o morto dançam como possuídos, caminhando para o túmulo em ziguezague.
Todos os elementos que hoje podemos analisar remontam provavelmente a essa época de síntese entre os séculos XII e XVI.
Conclusão
Ainda resta muito a fazer para que se possa elucidar melhor este período da história da grande ilha, período essencial para a formação do povo malgaxe, que desfruta de incontestável unidade lingüística, mas que ainda apresenta problemas.
Agradecemos a Unesco, que, organizando a reunião de especialistas em Maurício, contribuiu para estimular o interesse pelo problema geral das relações históricas através do oceano Indico. Madagascar está a tal ponto envolvida em tais relações que sua cultura e sua história só serão elucidadas à medida que aprofundarmos nossos conhecimentos sobre essas relações. As escavações arqueológicas e as coletas de tradições orais mais diversificadas, e mais sistemáticas no plano regional, ajudarão a compreender a diversidade dos elementos constitutivos da cultura malgaxe.
Este estudo apresenta, inevitavelmente, muitas lacunas. Vários pontos permanecem obscuros; é preciso ainda levantar alguns fady (tabus), principalmente aqueles relativos aos famosos túmulos dos "Vazimba".
Madagascar apresenta um caso de simbiose, cujo estudo é ainda mais interessante que o da história da África. A Arábia, a Índia, a África e a Indonésia encontraram-se nessa ilha, oferecendo ao mundo exemplo eloqüente de mestiçagem biológica e cultural que deu tão belos frutos.
Notas
1 UNESCO, 1980a.
2 Ver volume 3, capítulo 25; ver também KENT, 1970: o autor, com base na análise lingüística, tentou avaliar a contribuição africana tanto no plano político como no cultural.
3 Sobre Imerina, ver CALLET, 1908. Os Tantara, uma das mais importantes compilações de tradições orais do território merina, foram coletados por R. P. Callet entre 1868 e 1883 e contêm indicações preciosas sobre os Merina. Um estudo crítico dos Tantara foi feito por DELIVRÉ, 1974. Sobre o território betsileo, ver RAINIHIFINA, 1975; RATSIMBAZAFI- MAHEFA, 1971.
4 As discussões sobre os "Vazimba" basearam-se, a princípio, em argumentos de ordem lingüística; ver FERRAND, 1891-1902. As antigas populações designadas por esse termo pareciam não conhecer algumas técnicas (metalurgia, criação de gado); ver BOITEAU, 1958. Para um estudo mais recente sobre o povoamento da ilha, ver Ravoajanahary, in UNESCO, 1980a.
5 Os sorabe são manuscritos em língua antemoro, redigidos em caracteres árabes. São as tradições dos katibo (escribas, guardiões da tradição). Estes manuscritos são conservados em bibliotecas na França, Noruega e Inglaterra; ver MUNTHE, 1977.
6 OTTINO, 1975.
7 LOMBARD, J., 1973.
8 DOMENICHINI, 1971.
9 OTTINO, 1975.
10 ver FAGERENG, 1971; OTTINO, 1975; KENT, 1970.
11 RAMILISON, 1951-1952.
12 MILLE, 1970.
13 RALAIMIHOATRA, 1969 e 1971.
14 Ver CALLET, 1908.
15 Ver volume 3, capítulo 25.
16 A hipótese é sedutora. Na África ocidental, as relações jocosas de parentesco têm papel importante; atenuam, em muitos casos, a tensão social. Nas Repúblicas do Senegal, do Mali, da Guiné e da Costa do Marfim, os Manden (Mandingo) e os Fulbe (Peul) fazem festas especiais onde os parentes jocosos trocam presentes e insultos num ambiente em que não existem mais barreiras que separam os ricos dos pobres, os grandes dos pequenos. (Nota do diretor do volume.)
17 Pesquisa de setembro de 1974 organizada pelo Centro Universitário de Tulear. Pesquisas feitas antes e depois desta trazem-nos outros elementos de resposta sobre a origem das populações. Os Mikea apresentam-se como refugiados ou da autoridade da dinastia real de Maroserana ou dos colonizadores. Ver DINA & HOERNER, 1975.
18 Segundo uma tradição betsileo relatada por H. Dubois, não se encontra nenhum traço de "vazimba" nem nas famílias reais nem nas de seus súditos. Os "Vazimba" teriam todos se retirado para oeste. Ver DUBO1S, 1938.
19 HÉBERT, 1958. Hébert relaciona as palavras vazimba e ziza, termo que designa o parente jocoso, e aventa a hipótese de uma aliança do "tipo fizivana" entre os "senhores da terra" e os recém-chegados.
20 Ver LOMBARD, J., 1973.
21 Ibid.
22 Segundo CHITTICK, 1967a. a islamização desta faixa costeira, que se estende de Mogadíscio a Sofala só começou por volta do século X com os estabelecimentos muçulmanos
23 Os Antemoro-Anakara são uma casta nobre antemoro com atribuições religiosas.
24 FLACOURT, 1661.
25 ROBINEAU, 1962.
26 Essa tendência a reivindicar-se de origem árabe é encontrada em quase todas as dinastias islamizadas da África oriental e do Sudão.
27 CHITTICK, 1974.
28 VÉRIN, 1967a.
29 Apud POIRIER, 1954.
30 MILLOT, 1912; VÉRIN, 1973.
31 VERNIER. & MILLOT, 1971.
32 VÉRIN, 1980.
33 ROBINEAU, 1962.
34 Por exemplo, mandando construir mesquitas. É o caso do "xiraziano" Hassani ben Muhammad, que mandou construir no século XV a mesquita de Sima.
35 Cidades-Estado, réplicas das da costa da África oriental e símbolos da cultura marítima swahili; ver MOLLAT, 1980.
36 HEURTBIZE & VÉRIN. 1974; ver DOMENICHINI, 1979a; ver WRIGHT, T., 1977.
37 BOITEAU, 1974.
38 Ver RAVOAJANAHARY, 1980, p. 91-2.
39 Ver VÉRIN, 1980, p. 116-7.
40 Ver LOMBARD, J., 1973.
41 Ver KENT, 1970.
42 FLACOURT, 1661.
43 Qual a origem do sacrifício do boi? Acredita-se que os bois foram introduzidos na ilha pelos negros. É uma prática que remontaria a passado muito distante.