As Relações Intercontinentais da África no período Pré-colonial

Jean Devisse e Shuhi Labib.

Neste artigo, os autores analisam as relações que a África possuía com outros continentes antes da chegada dos comerciantes europeus, quebrando o antigo mito de uma África hermética, fechada e inacessível.in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 4



A África vista pelo resto do mundo
É difícil dizer o que os africanos, no interior do continente, pensavam de si mesmos, nos quatro séculos que vão de 1100 a 1500, à luz de seus referentes culturais, em constante mudança, e de suas tradições seculares. Mas não se deve desanimar; apesar das dificuldades que apresenta, essa investigação é fundamental. Começa-se a discernir que transformações as sucessivas aculturações provocaram do ponto de vista da percepção do espaço na África. Seria fascinante saber, por exemplo, como um comerciante africano do século XV visualizava seu próprio meio ambiente. Em todo caso, hoje podemos afirmar com segurança que os negociantes do Takrür, no Mali, mais precisamente, os Wangora 1, tinham uma idéia razoável da geografia do mundo muçulmano, e talvez até mesmo de todo o mundo conhecido na época. No século XV, os comerciantes wangara eram letrados, ou pelo menos havia entre eles grande número de letrados com um conhecimento bastante preciso do meio em que viviam. Os Wangara usavam o termo Saheli (o Sahel) ou Kogodugu (terra do sal) para referir o norte, de onde vinham os comerciantes árabes ou berberes com seus camelos carregados de barras de sal. Os termos Worodugu (terra da cola) e Tukoro (floresta) designavam o sul, cujas florestas, de difícil acesso, forneciam as preciosas nozes-de-cola. Estendendo-se de leste a oeste do continente, o Gbe Kan ("terras limpas"), escassamente arborizado, era percorrido pelos negociantes wangara a pé, a cavalo ou em lombo de burro.
Graças às peregrinações de seus soberanos, vários povos da região sudanesa tinham conhecimento preciso do Magreb, do Egito e até da própria Arábia, desde o século XIII. Embota não seja possível fazer uma estimativa em termos numéricos, a julgar pelos documentos disponíveis, a existência de embaixadores negros residentes no Cairo por volta do final do século XV sugere uma forte presença de sudaneses naquela cidade. As margens do oceano Indico, os Zandj e os Swahili deviam conhecer muito bem o mundo árabe oriental, a Índia e talvez mesmo a distante China. É bastante provável que comerciantes negros do Sudão e da África oriental fossem em missões comerciais até as cidades e províncias árabes. Ensinava-se geografia nas escolas de Tombuctu, e sem a menor dúvida os manuais de base eram os mesmos utilizados no Cairo. Al- -'Umari conta que um soberano como o mansa Kanku Musã, do Mali, tinha idéia muito clara da extensão das terras dos povos negros e do lugar que nelas ocupava seu império.
Por enquanto, temos mais informações sobre a maneira pela qual as culturas periféricas conheciam e, acima de tudo, "viam" o continente africano. Falar em culturas periféricas é agrupar sob a mesma denominação o mundo muçulmano, tanto africano quanto não-africano - veremos adiante as importantes implicações disso -, e os mundos asiático, bizantino e ocidental.
Os muçulmanos conheciam a África. Mas, no séculos XIV, sua tradição cultural, transmitida de geração em geração, ainda refletia idéias antiquadas e conhecimento incompleto. Essa visão escolástica, como veremos, contrastava com o processo de descobrimento do continente que, já ativo no século XI, desenvolveu-se notavelmente durante o XIV. Até mesmo o grande Ibn Khaldun reconhecia que suas fontes para tratar de regiões inteiras ainda eram Ptolomeu e al-Idrisi 2. Sobre as regiões equatoriais, escreve revelando perplexidade:
"Os filósofos concluíram que, devido ao calor e ao clima seco que caracterizam as duas primeiras partes do mundo 3, as regiões equatoriais e as mais ao sul eram despovoadas". Contudo, afirma o grande historiador, "a observação e a tradição mantida sustentam o contrário. Que posição tomar?" Depois de pesar os argumentos aduzidos de ambos os lados, ele conclui que "pode existir uma civilização nas regiões equatoriais e mais ao sul, como se conta, mas trata-se de muito pouca coisa" 4
Para compreenderem os a atitude mental assumida, frente à África e aos mares que a circundam, pelas culturas baseadas em religiões monoteístas, deve- mos levar em conta dois conjuntos de idéias presentes em todos os escritores - judeus, cristãos ou muçulmanos - nos séculos que nos interessam. O primeiro decorre da crença de que a terra é totalmente cercada pelas águas de um oceano. "A água foi retirada", diz ainda Ibn Khaldün, "de certas partes do mundo onde Deus quis criar os seres vivos e que desejou povoar com a espécie humana..." 5 A África, o mais meridional dos continentes conhecidos, era banhada por mares muito extensos e ainda inexplorados 6. Para os herdeiros da cultura grega, fossem árabes ou ocidentais, as regiões equatoriais, com seu calor tórrido, constituíam, tanto em terra quanto no mar, os limites do mundo em que o homem podia suportar viver. Além disso, todos esses legatários das culturas mediterrâneas pensavam, ainda nas palavras de Ibn Khaldün, que "o berço da civilização fica entre a terceira e a sexta parte do mundo" - nem ao norte nem ao sul 7. Não se encontrarão melhores informações sobre o oceano Atlântico e suas ilhas no ensinamento tradicional dos estudiosos de gabinete, tanto muçulmanos quanto cristãos 8. As ilhas Afortunadas - as ilhas Canárias -, no oceano Atlântico, constituíam o limite ocidental do mundo conhecido. Muitos autores árabes, até o século XIV, consideravam-nas desabitadas. Dhu ‘l-karnayn (Alexandre, o Grande) certa vez as visitou, mas não conseguiu navegar mais para oeste, "ou por causa das pesadas brumas, ou por receio de se perder e perecer" 9.
Os viajantes muçulmanos passaram a ter uma perspectiva completamente diferente, pelo menos depois do século X, à medida que foram penetrando ao sul do trópico de Câncer, pelo mar, nas costas orientais, ou por terra, na África ocidental 10. Muitas observações desmentiram os estereótipos da cultura livresca; a partir do século XIV, essas informações diretas derivam basicamente de Ibn Battüta e al-'Umari 11. Do oceano Indico, ademais, o mundo islâmico aprendeu todo o saber asiático relativo à navegação e à astronomia.
Para os autores voltados principalmente para a África ocidental, muitos problemas que gostaríamos de ver abordados e resolvidos continuam sem resposta, devido tanto ao mistério com o qual as culturas africanas, ciosas de sua autonomia, visivelmente se envolvem, quanto às limitações impostas pelas autoridades à entrada irrestrita de comerciantes e missionários muçulmanos na área do Sahel e da savana.
Pelo menos, das praias do Mediterrâneo à curva do Níger, às nascentes do Senegal e do Níger, à atual República do Chade e ao norte da atual República Federal da Nigéria, um espaço contínuo se oferecia à visita, à reflexão e à descrição dos autores árabes. A região que deles se conservou desconhecida -basicamente a área da floresta - apresentava características muito mais estranhas, se comparada com a "norma mediterrânea", do que o deserto ou a estepe. A região da floresta, com seus mecanismos climáticos tão particulares, seria precisamente o espaço que os europeus, que não sabiam praticamente nada do interior do continente, viriam a descobrir. A África ainda hoje sofre as conseqüências da heterogeneidade das áreas descobertas, quase aleatoriamente, por partes distintas.
No Ocidente cristão, pouco interesse havia pela África enquanto tal 12. Os comerciantes desejosos de penetrar os segredos ocultos pela "cortina muçulmana" lançavam um olhar utilitarista sobre o continente. Alguns seguiram com muita atenção os esforços dos cartógrafos para reunir a informação recebida dos árabes e transmitida através da Espanha em mapas com nexo, nos quais a forma da África, ao norte do trópico de Câncer, aparece mais ou menos correta. Os maiorquinos, que herdaram a ciência árabe por intermédio dos judeus provenientes da Espanha, consolidaram o conhecimento assim recebido na mais famosa das primeiras grandes cartas marítimas 13. Em 1339, o célebre mapa de Angelino Dulcet (ou Dalorto) revelou aos cristãos a existência de um "rex Melli", possuidor de muito ouro. Pelo final do mesmo século, os acurados mapas dos Cresques, pai e filho, mostram claramente que, para os seus autores, a chave para o sul encontrava-se em Tlemcen, e também que se começava a conhecer as rotas que levavam à "terra dos negros" 14.
Junto com esse esforço por sintetizar o conhecimento existente, fizeram-se várias tentativas - sem dúvida numerosas, e provavelmente fadadas ao esquecimento - de chegar à terra dos negros pelas rotas comerciais saarianas. A expedição do genovês Malfante a Tuat, em 1447, pertence a essa série de tentativas, que produziu escassos resultados 15. Por outro lado, desde o final do século XII, os egípcios proibiram com eficácia a penetração cristã ao sul do Cairo e no mar Vermelho. Mas, durante muito tempo ainda, os cristãos estariam mais interessados nos muçulmanos que viviam na África do que no continente propriamente dito.
Essa situação se manteve até que a expansão portuguesa, pela primeira vez, levou os europeus a terem contato com grande número de negros não-muçulmanos. A fundação do Colégio de Miramar, nas ilhas Baleares, em 1276, e de um centro de estudos do árabe e do islamismo na Ifrikiya, no final do século XIII, corresponde aos desejos e esperanças por parte de dominicanos e franciscanos de converter os muçulmanos. Como efeito secundário, o conhecimento a respeito da África ganhou algumas características novas.
Era muito raro os papas intervirem no próprio continente africano. Em certos casos, nos fins do século XI, houve interferências papais com o fim de preservar os últimos vestígios do cristianismo, que então desaparecia da ifrikiya. De outras vezes, elas visaram garantir, mediante representações diplomáticas enviadas a soberanos muçulmanos, a sobrevivência das igrejas ou - caso do Marrocos - até mesmo dos bispados criados para as comunidades européias de comerciantes e mercenários residentes no Magreb. Ocasionalmente, tais representações assumiam caráter mais indiscreto, constituindo intervenções diretas na vida do Magreb 16. Os cristãos da península Ibérica iriam deixar uma marca decisiva no conhecimento da África. Buscando metais preciosos e batendo-se com os muçulmanos, acreditavam ter encontrado no "Preste João" - figura familiar aos cruzados, que o resto da Europa então começava a esquecer - um "aliado" africano contra o Islã.
Embora os asiáticos conhecessem a costa da África oriental desde muito antes da grande e decisiva expansão do século XV, deram pouca importância - segundo os documentos atualmente disponíveis - ao continente africano 17.
Uma área em expansão: da diplomacia mediterrânea às trocas afro-européias
Até há bem pouco tempo, os historiadores restringiram sua atenção às relações diplomáticas e às guerras entre a África islâmica e o Ocidente. Não cabe aqui repetir o que é fartamente conhecido. Basta simplesmente observar que, embora a resistência islâmica às investidas dos cristãos não fosse bem coordenada, os cristãos, por sua vez, não estavam capacitados a agir de maneira coesa e unificada. De oeste para leste, sob várias dinastias, que governavam territórios das mais diversas dimensões, os Estados muçulmanos da Espanha, do Marrocos, de Tlemcen, da ifrikiya e do Egito, depois do desaparecimento dos Almóadas, estiveram freqüentem ente em luta uns com os outros. Poderosa força unificadora do ponto de vista espiritual e cultural, o Islã não constituía, em termos políticos e militares, um elemento de coesão capaz de suplantar as divergências de interesses entre os príncipes. Da mesma forma, porém, a diferença de interesses econômicos levava os Estados cristãos, de Castela até a Itália, a um conflito aberto, a despeito de sua ideologia comum.
Aparentemente, a história diplomática, militar e política da região mediterrânea durante esses séculos não tem muita lógica. Gênova constantemente apoiou o reino de Granada contra o de Castela. Granada, apesar de seus apelos, recebeu pouca ajuda do Marrocos ou do Egito. A rivalidade entre os habitantes dos dois lados do estreito de Gibraltar pelo controle dessa via fundamental de acesso ao Atlântico explica os conflitos diplomáticos entre os Marínidas e Granada 18. Os interesses do Egito, Estado cliente de Castela e Aragão, mostram as razões de sua fraca ajuda a Granada. Os Marínidas entraram em conflito com seus vizinhos de Tlemcen, enquanto os Haféssidas tentavam repelir estes últimos para oeste e também impedir qualquer expansão marínida mais vigorosa. As relações difíceis e contraditórias entre venezianos e genoveses, por um lado, e Mamelucos e Otomanos, por outro, também serão incompreensíveis se nos prendermos à aparência das relações diplomáticas. A realidade situa-se em outros níveis, é de outra escala.
Os muçulmanos, senhores do comércio entre a Ásia e a Europa simplesmente em razão de sua esfera de influência político-econômica, também puseram a economia saheliana em estreito contato com o sistema mundial de trocas. Tanto direta como indiretamente, a África setentrional obteve importantes recursos - especialmente ouro - das regiões meridionais, talvez até das áreas às bordas da floresta. Esse processo se desenvolveu vagarosamente, do século VII ao X, tornando-se mais rápido nos séculos XI e XII. As rotas meridionais ou "oblíquas" agora estavam ligadas às principais artérias do comércio muçulmano 19. Envolviam a África ocidental à época dos impérios do Mali e de Gana; mas também o Air, o Chade, o Darfür e o curso médio do Nilo 20. Na região saheliana, as conseqüências foram profundas 21; no norte, a partir do século XI, organizaram-se Estados em cada ponto de convergência das estradas que vinham do sul, entrando cada um deles em competição com os vizinhos. Entre os príncipes desenvolveu-se uma concorrência econômica, que, em geral, não trouxe nenhum benefício para os súditos, exceto nos casos - como o de Tlemcen, por exemplo - em que surgiu uma burguesia comercial. A partir do século XII, os Estados cristãos começaram a tirar vantagens dessa concorrência e do enfraquecimento político e militar que ela acarretava. O espaço muçulmano e seus anexos meridionais então se viram ligados a uma área muito mais vasta, em plena expansão econômica - os países do Mediterrâneo ocidental - e, mais tarde, à Europa como um todo. Os mais notáveis efeitos dessa "revolução" foram sentidos do século XIII até o XV 22. O Mali e o Songhai organizaram minucioso sistema de controle das exportações e de taxação sobre os bens importados. Ademais, a diversificação das rotas de exportação e dos clientes, sistematicamente procurados pelos mansa do Mali e pelos soberanos de Gao, certamente contribuiu em boa medida para desenvolver todo tipo de relações entre o Sahel e seus parceiros rivais do norte do continente. O freqüente envio de embaixadas, as viagens e troca de cartas começam a dar-nos idéia da ativa e hábil diplomacia dos soberanos negros, que tentavam evitar as conseqüências desastrosas de um monopólio por parte dos compradores de seus produtos 23. Essa situação nova teve repercussões profundas e cada vez maiores nas relações entre a África setentrional e a tropical, assim como na condição interna dos reinos muçulmanos do norte. Os sucessos e reveses das dinastias marínida, watássida e sádida no Marrocos, por exemplo, estiveram muito ligados a dificuldades ou melhoras nas relações com o sul.
A pressão militar e comercial dos cristãos ampliava-se. A quantidade de tratados e o número de vezes que foram renovados comprovam a obstinação dos comerciantes e soberanos do norte e a fraca resistência oposta pelos magrebinos. A multiplicação de empórios ou feitorias, mais ou menos isolados do seu contexto magrebino e em permanente rivalidade entre si, mostra a importância que a Europa atribuía a seu comércio com a África. Desde essa época, a África, até a faixa da floresta, passou a fazer parte do espaço de exploração econômica do sul pelo norte 24. Somente o Egito conseguiu controlar o comércio europeu em seus portos, de tal modo que suas sucessivas dinastias dele tiraram diversas vantagens 25.
Concorrentes ferozes, os europeus não aplicaram os mesmos métodos no seu comércio com a África. Todos procuravam obter a balança comercial que lhes fosse mais vantajosa, mas suas possibilidades econômicas e estratégicas eram bastante variadas. Veneza manteve-se fiel, até o fim do século XV, a um tipo de comércio que começava a ceder lugar a formas mais modernas. Os comerciantes venezianos compravam especiarias asiáticas no Egito e na Síria,. para revendê-las a alto preço. Confiantes de que dispunham do monopólio de vendas num mercado que não podia ser saturado, eles não cuidavam de importar grandes quantidades, e assim pediam por sua mercadoria os preços mais exorbitantes. Desse ponto de vista, o Egito e os países do Mediterrâneo oriental revestiam-se da maior importância para Veneza 26. Quando surgiram dificuldades no século XV, porém, os venezianos não se recusaram a fornecer vidros, têxteis, cobre e coral a Trípoli e Túnis, em troca de ouro. Outro fator que lhes deu grandes possibilidades de enriquecimento foi o monopólio sobre o açúcar que vinha do Oriente, de Chipre e Creta. Assim, durante muitos anos o Egito e a bacia oriental do Mediterrâneo, como pontos terminais das rotas comérciais asiáticas e médio-orientais, interessavam-lhes mais do que a África propriamente dita 27.
No século XIV, os genoveses vendiam trigo 28 e escravos a essas mesmas regiões orientais. Da Inglaterra obtinham tecidos de lã de muito má qualidade, mas que podiam ser vendidos a baixo preço 29. Sem ter muito lucro em cada operação, conseguiram multiplicar o volume de vendas, constituindo assim importante comércio em termos de valor 30. Da mesma forma que os catalães, mas por mais tempo e em escala maior, os genoveses fretavam seus navios a muçulmanos para o transporte de pessoas e bens entre o Egito e a. Espanha. A África magrebina e a bacia oriental do Mediterrâneo tinham grande importância para eles. A conquista otomana, porém, expulsou-os dessa última região, e eles passaram a se apoiar inteiramente no comércio com a África setentrional. Para competir com os venezianos na venda de açúcar, pediram preços muito inferiores e, pela primeira vez na história, desenvolveram um comércio a granel desse produto. Mas isso exigiu que viessem a controlar, direta ou indiretamente, as áreas produtoras de açúcar. Foram os espanhóis - muçulmanos ou cristãos - os primeiros a fornecer grandes volumes de açúcar 31. Isso naturalmente os induziu a uma aproximação com os genoveses, que mais tarde se associaram estreitamente à política portuguesa dos descobrimentos, introduzindo o plantio de cana-de-açúcar nas ilhas atlânticas ocupadas pelos portugueses e comerciando o açúcar produzido nas ilhas da Madeira e Canárias. Como era de esperar, essa política dos genoveses fez os italianos irromperem no estreito de Gibraltar e no Atlântico, despertando seu interesse pelas novas técnicas de construção naval, então pesquisadas sobretudo em Portugal, e levou-os a uma participação mais ou menos direta na exploração marítima 32.
Esses fatos merecem ser enfatizados, pois explicam todos os mecanismos da futura expansão portuguesa no Atlântico e prefiguram as conseqüências que tal expansão teve para a África. Os catalães, últimos a entrar em cena, não alcançaram o mesmo nível de poder dos seus fortes rivais italianos; limitaram-se a multiplicar as pequenas operações, com baixo rendimento 33. Outros portos e países ocidentais se esgotaram tentando seguir esses exemplos.
Mas não é este o ponto mais interessante. O importante não foram as pequenas quantidades de nozes-de-cola, de pimenta-malagueta e de outros produtos mais ou menos decorativos, inclusive o marfim 34: foram o ouro e os escravos arrancados do seio africano que tornaram a presença da África bastante evidente na economia mediterrânea. Nenhuma investigação exaustiva se fez ainda sobre esses temas; portanto resta-nos descrever em linhas gerais os resultados já obtidos.
Do século IX ao XII, o ouro africano contribuiu sobremaneira para a excelência das cunhagens fatímida, omíada, almorávida, almóada e haféssida 35. Continuou a afluir para o norte da África, com algumas variações, das quais pouquíssimo sabemos, até o final do século XV. Proporcionou aos governantes, que controlavam sua circulação com maior ou menor êxito, não apenas a matéria-prima para a cunhagem de moedas, mas também o prestígio político e o luxo de suas cortes, de que falam os escritores árabes. Mas fatos novos vieram pouco a pouco modificar essa situação em proveito dos europeus.
Agora se sabe que, pelo final do século X, os cristãos espanhóis tinham começado a obter ouro do sul 36; os métodos são, ainda, muito rudimentares. Porém, a partir do século XIII, as coisas mudaram, e os lucros se acumularam 37. Estimou-se que o comércio com a Tunísia rendesse então aos cristãos de 20 mil a 60 mil dinares anuais, e o comércio com Bidjãya (Bougie) de 12 mil a 24 mil. Em 1302 e nos anos seguintes, Maiorca recebeu cerca de 2 mil dinares de ouro 38, saldo do comércio com Bidjãya. Em 1377, Gênova importou o equivalente a 68 mil libras de ouro, cuja maior parte passara por Granada ou pela Espanha cristã 39; 75 anos mais tarde, Gênova obtinha cerca de 45 mil ducados por ano através dos mesmos circuitos 4°. O valor global das exportações catalãs para todo o Magreb - e não apenas os lucros -, é estimado no século XV, em 400 mil ou 500 mil dinares anuais 41, tendo Barcelona um rendimento anual da ordem de 120 mil dinares 42. Lamentavelmente, não dispomos de estimativas para o comércio oriental de Veneza e Gênova, que certamente lhes rendeu muito dinheiro. Não surpreende, em tais circunstâncias, que uma ativa classe de comerciantes surgisse nos principais portos cristãos do Mediterrâneo e em algumas grandes cidades, como Milão e Florença. Já que lucro gera lucro, o poder desses "capitalistas", que aumentou graças à organização de sociedades de negócios, capacitou-os a empreender a construção naval 43 em larga escala e a armar frotas de tonelagem cada vez maior. Pela mesma época, sabe-se, após a metade do século XIII retomou-se no Ocidente a cunhagem de moedas de ouro, que estivera interrompida durante vários séculos 44. Não há dúvida de que tal fato resultou, em parte - numa extensão ainda por ser avaliada -, do ouro africano obtido em portos muçulmanos. O estudo dos aspectos científicos e econômicos dessas moedas está em curso e certamente ampliará nosso conhecimento sobre tais questões. Porém, seja como for, mesmo se levando em conta o ingresso do ouro oriental vindo da África meridional através do Egito, a quantidade de ouro que chegava à Europa continuava insuficiente para atender às necessidades do Ocidente num período de plena expansão econômica 45. A "sede de ouro" constituiria um poderoso fator a motivar os europeus para a conquista e a dominação econômica do mundo. O interesse pelo ouro africano demonstrado pelos cristãos do Mediterrâneo, que leva Malfante e muitos outros à busca de rotas auríferas no interior do continente, nesse contexto se torna mais compreensível. Os ganhos obtidos no comércio, a que os próprios reis não ficavam insensíveis 46, não constituíam o único meio dos ocidentais para a obtenção do ouro africano. Os tributos impostos pelos conquistadores cristãos em troca de uma proteção muito ilusória também produziram confortáveis lucros, para os governantes nesse caso 47.
No século XII, os reis de Túnis pagavam 33 mil besantes de ouro por ano à Sicília 48. Depois de 1282, Aragão tentou, sem sucesso, impor a renovação desse tributo. (No século XIV, a ifrikya voltou a pagar, porém, pequenas somas - da ordem de 20 mil dinares - e de maneira irregular.) A aliança naval com os catalães, que os Marínidas solicitaram em 1274 por curto espaço de tempo, custou aos marroquinos cerca de 40 mil dinares 49. Em 1309, o apoio de Aragão custou-lhes mais 7 mil dinares. Para apreciarmos o valor desses "presentes", é o caso de lembrar que uma embaixada de Granada voltou do Cairo, no século XIV, com uma dádiva de 2 mil dinares egípcios para o soberano násrida 50. Mostrou-se, há pouco tempo, que os granadinos, destinatários de parte do ouro africano, remetiam de 10 mil a 40 mil dinares por ano a Castela 51 - sem contar as antecipações efetuadas por ocasião de uma vitória militar castelhana. No século XV, essas somas foram reduzidas, talvez porque o ouro se tivesse tornado mais escasso em Granada. Bidjãya prometeu dar 1 mil dinares anuais - sem dispor deles - a Aragão, em 1314 e 1323, e pagou 8 mil dinares em 1329. Ao mesmo reino de Aragão, Tlemcen pagou somas variando de 2 mil a 6 mil dinares por ano, entre 1275 e 1295.
Tais pagamentos, está claro, refletiam em ampla medida a relação de força entre muçulmanos e cristãos. Outros métodos, como o de alugar frotas ou tropas, provaram-se ainda mais lucrativos. Há muitos exemplos de locação de navios. Em 1304, o Marrocos fretou uma frota aragonesa por 30 mil dinares. Em 1302, e novamente em 1309, Jaime II de Aragão -ofereceu aos Marínidas barcos totalmente equipados e armados, a 500 dinares mensais de aluguel por navio. Fez igual proposta aos Haféssidas, em 1309, sendo que o lucro real resultou em cerca de 250 dinares mensais. C.-E. Dufourcq calcula que, mantendo-se esse ritmo, o custo de construção de um navio se amortizaria em quatro ou cinco meses 52. Em 1313, Tlemcen alugou seis galeras por um ano, contra o pagamento de 35 mil dinares. Em 1377, Pedro IV de Aragão forneceu a Granada navios equipados com besteiros por 900 dinares ao mês 53. Quanto aos soldados, a partir de meados do século XIII os catalães forneceram uma tropa cristã aos Haféssidas. Parte do preço de locação dos mercenários era entregue ao rei de Aragão, que assim tinha um lucro de aproximadamente 4 mil dinares anuais 54; um sistema equivalente organizou-se em Tlemcen 55, e também no Marrocos, onde o preço pago era de 10 mil dinares de ouro, em 1304. C.-E. Dufourcq estimou que, a partir do fim do século XIII, a renda obtida por esses meios pela coroa aragonesa somava 15 mil dinares, isto é, mais de 10% de suas rendas totais 56.
Com base nessa informação, e enquanto aguardamos um quadro mais completo, é possível pensar que proporção não desprezível do ouro africano ingressou no circuito comercial europeu. Ainda que as somas envolvidas representassem apenas uma porção muito pequena da quantidade de ouro - possivelmente entre 4 t e 8 t - importada anualmente do oeste e do sul da África pelo norte do continente, e ainda que tais somas fossem ridiculamente pequenas se comparadas com as necessidades reais da economia européia, constituíam considerável ingresso. Além disso, a pressão exercida pelos europeus nos empórios comerciais mostra que todos os interessados estavam conscientes dos lucros que ali podiam obter. A pressão econômica acompanhava-se de novo esforço para o estabelecimento de comunidades religiosas, especialmente no Marrocos 57, numa época em que as velhas estruturas da Igreja africana acabavam de desaparecer na ifrikiya 58, e as tímidas tentativas feitas por Roma para estabelecer relações com a Etiópia, no século XV, praticamente não estavam tendo resultados.
Não nos surpreende que os reinos muçulmanos da África setentrional aceitassem tal situação, se observamos que ela em muito os beneficiava. As taxas alfandegárias percebidas sobre as importações européias montavam, em geral, a 10%, isto sem contar os privilégios garantidos em tratados. Somente o comércio catalão rendia 6 mil dinares por ano aos cofres dos Marínidas, bem como outras rendas consideráveis a Tlemcen. Durante o século XV, a alfândega haféssida em Túnis teve um rendimento anual de 150 mil dinares 59. Ainda compensava para essas dinastias, embora a Europa se enriquecesse às custas de seus países, pagar pelas tropas necessárias para garantir a segurança nas estradas, especialmente ao sul de Tlemcen, e para a administração fiscal. Os mais clarividentes dos governantes do Magreb acusaram a colonização comercial européia de desestabilizar, mais e mais, suas economias; a maior parte de seus colegas, porém, deixou-se ir com a corrente.
Desde o século VII, as incursões em território inimigo e a captura de escravos - sendo alguns deles vendidos e outros aproveitados nas mais diversas tarefas - constituíram um dos traços constantes das relações belicosas entre muçulmanos e cristãos. Nos séculos X e XI, tal "mercado" foi particularmente favorável aos muçulmanos da Espanha. A tendência reverteu-se, a contar do século XII, à medida que aumentou a pressão militar e naval dos cristãos sobre os muçulmanos. Esse desequilíbrio deixou ás cristãos com um número crescente de escravos a empregar ou vender, que incluía não apenas magrebinos, mas também negros da África setentrional ou mesmo de regiões mais ao sul 60.
Sabemos, com certeza, que escravos "sudaneses" ou núbios eram importados por todos os países da África setentrional. Isto já é bem conhecido no tocante ao Egito, porém menos, por enquanto, no que se refere à África ocidental 61. Não há dúvida de que os primeiros contatos entre cristãos e negros ocorreram por intermédio do mundo muçulmano. A iconografia, por exemplo, revela o lugar dos "mouros negros" nos exércitos da Espanha muçulmana que se batiam com os cristãos 62; no século XII, Ibn 'Abdün conta-nos, em seu manual, Hisba, que esses negros eram encontrados na Sevilha almorávida e reputados perigosos 63.
Durante os séculos XIV e XV, esse vergonhoso tráfico esteve basicamente em mãos dos mercadores cristãos. Os catalães eram mestres em tal comércio; desde o século XIV os mercadores do norte da Espanha enviavam escravos negros para o Roussillon. Em 1213 uma mulher negra, escrava e cristã, foi vendida por um comerciante genovês a um de seus colegas. No século XV, segundo as fontes de que dispomos, a bacia ocidental do Mediterrâneo e Veneza em menor medida aumentaram suas importações de mão-de-obra negra, e a Cirenaica desempenhou papel essencial nesse tráfico, pelo menos de 1440 a 1470. Na segunda metade do século, 83% dos escravos que viviam em Nápoles eram negros. Também havia muitos negros na Sicília 64.
Um fato importante foi o surgimento, no mercado mediterrâneo, de negros da "Guiné" 65. A competição entre os europeus então se acirrava. Já em 1472 as cortes portuguesas requeriam do rei que a reexportação de escravos - o tráfico se iniciara em meados do século, com incursões nas castas da Mauritânia - fosse estritamente fiscalizada; essa nova mão-de-obra devia servir prioritariamente ao desenvolvimento agrícola de Portugal e das ilhas sob seu controle. Mas isso seria desconhecer o espírito de empreendimento dos italianos e dos catalães. De 1486 a 1488, Bartolomeo Marchionni, um florentino residente em Portugal, notou que aumentava o comércio na Costa dos Escravos 66; aumentavam as importações de cativos. Os genoveses - cujo controle sobre as finanças e a navegação lhes atribuía importante papel na economia portuguesa - e os catalães reexportavam e revendiam essa força de trabalho. O mercado escravo de Valencia esteve bem suprido a partir de 1494. Em 1495-1496 nele se venderam cerca de 800 cativos, que incluíam considerável número de negros obtidos através de Portugal 67. Alguns desses escravos eram de origem senegalesa 68.
As conseqüências de tal afluxo foram muito sérias. A primeira delas foi a queda nos preços: os escravos negros passaram a ser vendidos aos preços mais baixos, e sua sorte foi descrita como a mais miserável de todas. Tornou-se habitual considerar o trabalho dos negros, que era árduo e confiável, como particularmente adequado para as tarefas agrícolas mais pesadas; o efeito disso logo se fará notar. Algumas classes sociais das sociedades mediterrâneas adotaram atitude desdenhosa e altiva perante esses negros desafortunados, atitude esta que não era compartilhada, então, pelos europeus do norte 69.
No século XV, o crescimento econômico que a África conhecera no século anterior foi comprometido pelos graves acontecimentos que se sucediam na sua periferia. A luta pelo controle do oceano índico e a expansão otomana estive- ram entre os fatores de ruptura do antigo equilíbrio. A expansão européia rumo ao Atlântico viria a constituir outro fator, com ainda mais graves conseqüências para a África, responsável pela brutal interrupção, por séculos a fio, do crescimento que se iniciara no século XIV.
A África, a Ásia e o oceano Índico
Os volumes anteriores mostraram que as relações com os ricos centros produtores asiáticos levaram à abertura de grandes rotas comerciais, por terra e mar, todas elas orientadas para a Ásia ocidental. Os muçulmanos detinham o controle de tais rotas desde o século VII, porém havia competição acirrada entre a que terminava no sul do golfo Pérsico, alimentando o comércio mesopotâmico e sírio, e a que ia dar no mar Vermelho, passando pelo Nilo, responsável pelo desenvolvimento dos portos do delta. Esses dois pontos terminais mantiveram-se permanentemente em rivalidade. Durante a época de que tratamos, como ocorressem distúrbios de toda sorte na Ásia e também ruísse a dominação muçulmana na Mesopotâmia, o Egito ficou em vantagem, e conheceu assim seu mais faustoso período de controle sobre o comércio oriental, do califado fatímida ao mameluco 70.
O Mediterrâneo foi abandonado de fato aos cristãos a partir de 1100. Contudo os esforços militares e comerciais destes para atingir, através do Egito, a principal rota internacional de comércio com o mar Vermelho não deram frutos. Por seu lado, porém, os egípcios e seus sucessivos soberanos raramente dispuseram de acesso direto ao grande comércio do oceano Indico. Quase sempre precisaram passar pela mediação das várias dinastias que se sucediam em Aden, o eixo de tal comércio.
De qualquer forma, a partir do século XII, os especialistas nesse grande comércio, os Karimi71, asseguraram o tráfico de especiarias, pedras preciosas, ouro e cobre entre a Ásia e África, por um lado, e Aden e o Egito, por outro. Sua prosperidade foi se consolidando incessantemente durante três séculos. Até a conquista otomana, os Kanmi e os mercadores muçulmanos, que os imitavam, gozaram de grande prosperidade, que veio a favorecer os portos mediterrâneos do Egito, aonde os ocidentais iam comprar aqueles raros e preciosos produtos.
Sob os Aiúbidas (1171-1250), 'Aydhãb tomou-se um dos mais movimentados portos do mundo 72. Ibn Djubayr visitou-o, em peregrinação, no ano de 1183. Até desistiu de contar as caravanas que viu, tão numerosas eram. A unificação política e naval do mar Vermelho nunca foi muito durável, porém, e nem os Aiúbidas nem seus sucessores tiveram êxito no promovê-la. O verdadeiro fator de unificação era constituído pelos comerciantes, em especial os Karimi, baseados em Aden, que transportavam, compravam e vendiam. produtos da Ásia, da África e do Mediterrâneo. Os Karimi atuavam como intermediários diplomáticos quando surgiam conflitos entre os senhores do Egito e os dinastas de Aden. Também negociavam acordos entre príncipes asiáticos e egípcios. As autoridades egípcias davam a esses indispensáveis auxiliares salvo-condutos para eles e seus bens, bem como o direito de importarem livremente produtos ocidentais no Egito. Assim se garantia o fluxo de especiarias e de escravos para os entrepostos do Nilo. A hegemonia econômica egípcia estendeu-se, sob os Mamelucos, até os portos na costa ocidental do mar Vermelho - Sawakin, Massawa e Assab.
Aden também era o principal ponto de passagem obrigatória de um outro comércio - o comércio com a costa da África oriental, que se estava desenvolvendo em grau menor ou menos conhecido que o asiático e com lucros aparentemente também menores 73. É provável, contudo, que os numerosos sinais de interesse de membros da família fatímida e casas comerciais egípcias por esse comércio africano estejam relacionados à necessidade de ouro que tinha o Egito no século XII, quando se esgotavam as minas de Wãdi al-Allãk e era impossível ou difícil obter o metal precioso da África ocidental 74.
De acordo com al-ldrisi, no século XII já existia intensa atividade comercial na costa da África oriental. Exportava-se ferro com grande lucro, especial- mente para a Índia, cujo aço, por ser de alta qualidade, exigia importações consideráveis de matéria-prima. Por volta de 1240, Ibn al-Wardi escreveu, a respeito da região ao redor de Sofala: "é um território imenso, cujas montanhas abrigam jazidas de ferro, exploradas por seus habitantes. Os indianos vêm e compram-lhes esse metal a preço bastante elevado". Os séculos XIII e XIV assistem ao desenvolvimento desse comércio costeiro. Marfim, coletado no interior e muito prezado nos mercados muçulmanos, chineses e indianos, peles de animais, ferro e ouro constituíam os mais importantes produtos de exportação. A madeira sem dúvida deverá integrar essa lista, quando estudos comparáveis aos já realizados sobre o Mediterrâneo confirmarem o importante papel da África nesse comércio internacional, superado apenas pela Ásia 75.
O ouro proveniente do sul, exportado através de Sofala porém negociado em Kilwa, predominava nesse tráfico. R. Summers avalia a produção sul-africana em 10 t anuais no correr desses séculos, começando a declinar no século XV 76. Mas, ainda que aceitemos cifras mais modestas, deve-se admitir que esse ouro certamente desempenhou na economia mundial um papel - por ora pouquíssimo estudado - comparável ao do ouro africano ocidental.
Muitos produtos chegavam, de navio, a essa costa; alguns de particular interesse devido à sua procedência: cauris 77, plantas novas que rapidamente se aclimataram na África 78, vestimentas e contas de vidro, vendidas aos africanos a preços elevados 79. Tratava-se fundamentalmente de um comércio de cabotagem, em navios de formas e tonelagens variadas, que provavelmente utilizavam Kilwa como porto de base. As áreas mais ao sul, até o canal de Moçambique, onde as condições meteorológicas eram muito diferentes das conhecidas no norte do oceano Indico, não foram exploradas de forma sistemática pelos navegadores muçulmanos antes do século XV. O "sul", na verdade, manteve-se envolto em mistério, primeiro porque, de acordo com Ptolomeu, tinha um caráter mais oriental do que verdadeiramente meridional; depois porque nele se situaria um território misterioso - Wakwak -, rico de promessas e ameaças, à espera do viajante intrépido. Também havia um "fim do mundo" do qual se sabia muito pouco.
Aproveitando as monções de verão, navios muçulmanos zarpavam todo ano de Mombaça ou Malindi para a Ásia. Esses barcos tiveram importante papel no desenvolvimento das técnicas de navegação, que melhoraram consideravelmente do século XIII ao XV. A navegação astronômica, que muito devia às invenções e observações dos chineses; o uso da bússola, que provavelmente chegou aos árabes e mediterrâneos, pela mesma época, da China; a ciência dos ventos, das correntes e das variações da fauna e da flora marinhas; a elaboração de cartas de navegação, nas quais os pilotos muçulmanos anotavam suas observações: tudo isso constituiu um capital científico e técnico precioso, do qual os portugueses viriam a beneficiar-se, à sua chegada a Mombaça 80.
Em suma, esse comércio, que obviamente contrariava, e muito, os interesses dos africanos do interior, enriqueceu todos os intermediários, africanos e não-africanos, estabelecidos nos empórios costeiros 81. Marinheiros africanos eram utilizados em barcos de cabotagem e em outros que regularmente faziam o percurso entre a Ásia e a África, pelo menos a crer em certas pinturas em manuscritos. Outros deixaram a África, talvez de maneira mais ou menos voluntária, para estabelecer colônias na Arábia meridional e até mesmo na costa ocidental da Índia, onde começa a ser estudada sua importância histórica 82.
Mais de 50 cidades, do cabo Gardafui até Sofala, demonstravam a vitalidade do fenômeno urbano na zona swahili já antes da chegada dos árabes. A partir do século XII, como comprovam a arqueologia e o estudo crítico das fontes, pequenos grupos de emigrantes do mundo muçulmano vieram ter a essas cidades e às ilhas litorâneas, embora inexistisse qualquer esforço uniforme ou sistemático de colonização. A vinculação dessas cidades com o comércio de larga escala, então em desenvolvimento, do oceano Indico, passando por Aden ou na linha direta África-Asia favorecida pelas monções, fez que se desenvolvesse nas cidades costeiras uma rica aristocracia de mercadores, muçulmanos em sua maioria, que por vezes desafiaram o poder das autoridades tradicionais. Da mesma forma que na África ocidental, essas cidades constituíam cadinhos étnicos e culturais, cuja fisionomia ia gradualmente sendo trans- formada pelo Islã e onde as línguas árabe e swahili se mesclavam. As próprias cidades litorâneas disseminando-se por outros lugares mais ao sul contribuíram para tornar inextricável o problema das origens dessa população tão mesclada 83
As classes dominantes da região desfrutavam de um grau de prosperidade confirmado pela arqueologia. Belas mesquitas e palácios construídos em pedra, magníficos vidros importados do golfo Pérsico, cerâmicas de além-mar e da China, são todos indicadores claros dessa riqueza. Os soberanos e as classes opulentas entesouravam em seus palácios preciosas faianças de Sultanabad e Nishapur, porcelana chinesa de cor verde-pálida (celadon) do período song, esplêndidos pratos decorados do período ming, pérolas e pedras preciosas da Índia, estatuetas de ouro ou marfim, jóias de jade e cobre, assim como tapetes do Oriente Médio.
É claro, porém, que desses exemplos atípicos não se deve concluir que toda a população daquelas cidades fosse rica. As cidades sem dúvida constituíram pólos de atração: permitiram a importação de técnicas novas e a emergência de um modo de vida que contrastava com o dos africanos do interior, tal como foi descrito por al-Mas'üdí, no século X. Também não há dúvida de que contribuíram para o desenraizamento e empobrecimento daqueles que a elas acorreram desprecavidos.
Recente estudo de H. N. Chittick e R. I. Rotberg 84 apresenta-nos uma das mais prósperas de tais cidades, Kilwa, que Ibn Battüta descreveu como sendo "uma das mais belas do mundo", com edifícios de quatro e cinco andares, descritos pelas fontes chinesas do século XV 85. De fato os chineses visitaram, em grande número, essa costa da África durante o século XV. Faz-se menção da chegada de africanos à China, possivelmente a partir do século VI ou VII 86; pinturas do período tang mostram negros africanos em grutas budistas, uma compilação do século XIII faz referência provavelmente ao território swahili. Mas apenas as descobertas arqueológicas é que indicam vestígios da "presença chinesa" na África oriental, a partir do século VIII 87. E não há provas de que tais vestígios se devam a relações diretas antigas entre chineses e africanos. Tudo mudou no século XV: já em 1402 um mapa core ano apresentava uma imagem aproximadamente correta, não-ptolomaica, do sul da África; em 1470, as crônicas ming incluíam a descrição precisa de uma zebra; e uma pintura chinesa de 1444 retrata uma girafa - certamente a que chegara à corte imperial alguns anos antes (como veremos a seguir). Além do tráfico de escravos, as fontes chinesas mencionam mais quatro importantes artigos de exportação da África oriental: ouro, âmbar, sândalo e marfim.
Uma armada chinesa, de navios enormes para a época 88, sob o comando de Cheng-Ho, muçulmano de Yunnan, fez sete grandes viagens cruzando o oceano Indico, entre 1405 e 1433; esses navios se detiveram duas vezes em costas africanas, uma entre 1417 e 1419, e outra entre 1431 e 1433. Durante a primeira viagem, a frota singrou até Malindi, para levar de volta a delegação enviada em 1415 a Pequim para presentear a corte imperial com uma girafa 89. As cidades de Brava e Mogadíscio são mencionadas nos relatos da segunda viagem. Tais viagens são consideradas como o coroamento dos empreendi- mentos marítimos chineses, porém foram subitamente interrompidas devido a acontecimentos domésticos na China. Não obstante, graças ao tráfico marítimo árabe, persa e gujaráti entre a China, o sudeste asiático e a África oriental, produtos chineses, tais como porcelana e seda, continuaram sendo vendidos nos mercados da África oriental depois dessas expedições, da mesma forma que antes delas 90. Na ilha de corais de Songo Mnara, próxima a Kilwa, G. Mathew descobriu faianças vitrificadas de origem tailandesa, assim como grandes quantidades de porcelana chinesa datando do final do período song até o início do período ming (aproximadamente de 1127 a 1450 da era cristã)91. Na China, entre 1440 e 1449, Wang Ta-Yuan escreveu um livro em que mencionava as ilhas Comores e Madagáscar.
Por volta de 1450, um estável sistema de trocas comerciais entre a costa oriental da África, o noroeste de Madagáscar - então ligado a Kilwa por um tráfico regular -, o Egito, a Arábia e a Ásia contribuía para a prosperidade dos empórios comerciais e da região do oceano Indico como um todo. Em 1487, Pero da Covilhã, encarregado pelo rei de Portugal de missão secreta no Mediterrâneo oriental, obteve informações sob.re as dimensões do comércio da costa oriental, até a altura de Sofala. A 24 de julho de 1488, Bartolomeu Dias contornou o extremo sul da África, convencendo-se assim de que a forma do continente nas suas partes meridionais não era a que lhe fora atribuída desde os tempos de Ptolomeu. Em 1497-1498, a armada de Vasco da Gama esteve atracada durante 32 dias, para reparos, na costa sudeste da África. Os navegantes observaram que se usavam flechas e azagaias de ferro, que se produzia sal por evaporação da água do mar, que as adagas tinham cabos de marfim, e que algumas das mulheres - cujo número superava o dos homens - portavam ornamentos labiais. A 2 de março de 1498, Vasco da Gama encontrou, pela primeira vez, africanos de fala árabe, em Moçambique, e surpreendeu-se com a qualidade de suas vestes. A 7 de abril, o sultão de Mombaça deu calorosa acolhida aos portugueses. Dezessete dias mais tarde, estes parti- ram para a Índia, guiados por Ibn Madjid, autor de uma carta marítima 92. Em agosto de 1499, alguns sobreviventes dessa primeira expedição regressaram a Portugal. Uma era completamente nova na história do oceano Indico e da costa oriental da África iria ter início - era precedida por grandes insurreições na costa atlântica.
O domínio do Atlântico e suas conseqüências para a África
O "Mediterrâneo atlântico"
Assim comumente era chamada no século XVI a parte oriental do Atlântico delimitada pelas costas ocidentais da península Ibérica e pela África, Madeira, Açores e Canárias.
As fontes árabes deixam-nos perceber que os autores, restritos a transmitir o conhecimento até então adquirido, tudo ignoravam sobre essa região do mundo, assim como sobre a África continental 93; mesmo as ilhas Canárias eram muito pouco conhecidas, apesar de ativamente freqüentadas por comerciantes e navegadores 94. Temos todas as razões para acreditar, porém, que em muitos casos foram navios muçulmanos os primeiros a ligar as costas às ilhas, embora não exista registro escrito de sua passagem 95. Não se pode colocar em dúvida a importância do mar para os habitantes da costa. Ibn Sa'id observa que "o atum é o componente alimentar básico dos povos do Marrocos e al-Andalus: ele é cortado em dois, transversalmente, e depois pendurado para secar" 96.
No século XI, al-Bakri nota a produção de âmbar na costa da África negra 97, e no século XII al-Idrisi menciona o comércio de sal que ocorria entre Awili e o Senegal 98. A área explorada provavelmente não era multo extensa, pOIS os viajantes não se aventuravam a distanciar-se muito do litoral 99. O uso do mar como meio de evolução e como fonte de alimentos é tão incontestável que os primeiros viajantes portugueses assinalaram a presença de povos que se nutriam de peixe na costa da África ocidental, profundamente desprezados pelos caçadores do interior.
A conquista do "Mediterrâneo atlântico" pelos europeus não se deveu a uma superioridade técnica destes. As verdadeiras razões têm outros fundamentos. No século XII, a armada almóada gozava de reputação tal que Salah al-Dtn (Saladino) pediu seu apoio contra as frotas cristãs que operavam no Mediterrâneo oriental. No final do século XIII, o poder naval marínida se exaurira após as grandes batalhas travadas pelo estreito de Gibraltar. E fator ainda mais decisivo foi que os cristãos então controlavam quase todas as principais áreas do Mediterrâneo ocidental em que se produzia madeira para a construção de navios 100.
Além disso, nos portos cristãos, a acumulação do capital necessário à construção naval fez-se em mãos de comerciantes e de seus sócios, mais freqüentemente do que nas dos detentores do poder político. A política de construção naval assim se vinculou diretamente à acelerada expansão econômica de 1200 a 1600. Este processo se estendeu ao Atlântico norte após 1277. As frotas genovesas, e depois também as venezianas, ligaram a Itália mercantil - fazendo escalas em portos como os das ilhas Baleares, Sevilha, Lisboa, Madeira e Baiona - à Inglaterra e à Flandres industriais. Aqui, o papel predominante coube ao poder econômico 101. Os muçulmanos não reagiram ao crescente desafio europeu, tanto devido à fraqueza dos reinos do Magreb - à exceção dos interlúdios haféssida e sádida - quanto porque, de modo geral, o mar não constituía fator essencial para o bom sucesso dos empreendimentos econômicos muçulmanos. As caravanas carregavam muito mais ouro do que podiam comportar as caravelas 102; e os comerciantes e autoridades dos países magrebinos não tinham nenhum interesse econômico evidente, nos séculos XIV e XV, para competir com os cristãos no mar ao custo de pesados investimentos. Isso explica por que foram tão desiguais os esforços para a conquista do "Mediterrâneo atlântico": foi necessário quase um século de investimentos 103, de esforços persistentes e de fracassos, para se consumar tal conquista ao termo do século XIV, embora as dificuldades técnicas sequer se comparassem com as que aguardavam os exploradores ao sul do cabo Bojador. E também explica o papel predominante dos italianos nessa fase de expansão 104. Durante esse estágio inicial, Portugal não dispunha de comerciantes e banqueiros capazes de desembolsar o capital necessário 105. A maior parte das viagens de "descoberta" feitas nessa área pelos europeus jamais será do nosso conhecimento; de vez em quando, casualmente os historiadores trazem uma delas à baila. Por questão de prudência, tem sido cada vez mais comum entre os historiadores o uso do termo "redescoberta" para referir a primeira expedição européia bem documentada que tenha levado à ocupação de um território determinado 106. Hoje se tornaram evidentes as razões por que os cristãos se estabeleceram tão rapidamente no "Mediterrâneo atlântico". A busca de ouro pode ter sido um fator importante 107, mas fica evidente que muito mais determinante foi a expectativa de se obter uma produção em larga escala de certas colheitas úteis - trigo, uvas e cana-de-açúcar - nas ilhas do Atlântico. Madeira 108, as ilhas Canárias e por certo tempo os Açores, antes de ocorrer a expansão ao sul do cabo Bojador, foram tomados pelos canaviais. O papel do comércio de açúcar como instrumento da expansão ainda não foi satisfatoriamente estudado. Já no século XIII, o Marrocos exportava açúcar para Flandres bem como para Veneza. Os canaviais marroquinos, antes de conhecer uma verdadeira explosão sob os Sádidas, já se desenvolviam sem interrupção desde o século IX; porém, até a época dos Sádidas, o rendimento da produção, os investimentos e a organização das vendas não bastavam para garantir ao Marrocos um lugar significativo no concorrido comércio açucareiro. Os esforços marroquinos deram-se um pouco tarde, quando, sob a pressão dos genoveses, pesados investimentos já haviam induzido um notável aumento da oferta de açúcar nas ilhas. Essa expansão ocorreu poucas décadas antes do desenvolvimento da produção açucare ira americana, no século XVI.
A exportação da mão-de-obra africana esteve diretamente vinculada a esse esforço. Antes dos negros africanos, já no século XIV os guanchos das ilhas Canárias foram sujeitos à escravidão relacionada ao açúcar e à agricultura de lucro 109.
Ao sul do cabo Bojador
A exploração de uma região marítima
O Atlântico dos ventos alísios e dos anticiclones, como bem mostrou R. Mauny, propunha à navegação problemas técnicos distintos dos que se conheciam anteriormente 110. De 1291 a 1434, pelo menos do lado cristão, muitas das tentativas de exploração naval ao sul do cabo Bojador fracassaram. A tese de R. Mauny, segundo a qual os navios que se aventurassem multo ao sul do Bojador não teriam condições de retomar, voltou recentemente a ser contestada 111; mas permanece o fato de que no século XV, para terem êxito, essas viagens requeriam considerável esforço e investimento e pesados sacrifícios em homens e material. A experiência adquirida no "Mediterrâneo atlântico" ajudou a levantar soluções; mas estas se revelaram insuficientes, e foi necessário desenvolver pesquisas científicas e técnicas no Mediterrâneo ocidental, com base muitas vezes nas realizações dos árabes, para se conseguir dominar as novas condições 112. As necessidades financeiras eram ainda maiores do que nos tempos precedentes 113. Além disso, era necessário dominar as técnicas de navegação astronômica ou, ao menos, da utilização de bússolas e de cartas marítimas 114, bem como construir- navios pequenos e fáceis de manobrar 115. As caravelas eram duas ou três vezes menores em tonelagem que os cargueiros venezianos. Adaptavam-se bem aos ventos do Atlântico e podiam remontar rios, porém somente foram úteis durante o curto período em que pouca importância tinha a questão da tonelagem a transportar. No século XVI, serão substituídas por pesados galeões no comércio com a Ásia.
Reunidas todas as condições para o sucesso, a exploração sistemática desenvolveu-se muito rapidamente e, embora basicamente relacionada à Europa, sob certos aspectos teve um seriíssimo efeito sobre a vida africana no século XV. Descoberto pela primeira vez na totalidade de sua conformação periférica, o continente em si mereceu pouca atenção de seus descobridores. Os portugueses, desapontados por encontrar tão pouco ouro, já que este na sua maior parte continuava em mãos muçulmanas no norte e no leste, rapidamente reduziram a África ao papel de fornecedora de mão-de-obra. Assim, uma vez rompido o isolamento secular da costa oeste, começou a exportação para a América de parte considerável da população africana. As perspectivas econômicas do Novo Mundo pareciam infinitas; a Ásia, a que finalmente os europeus atingiram desviando-se do Islã, agora fornecia especiarias, pedras preciosas, tecidos e porcelana. A América e a Ásia eclipsaram o continente negro nas preocupações dos brancos.
Antes de dar prosseguimento a esse ponto, convém chamar a atenção para um texto de al-'Umari, que, como tantos outros, despertou muita controvérsia, nem sempre de natureza científica. O mansa Kanku Müsã, relata al-'Umari, falava de seu antecessor no trono do Mali nos seguintes termos:
"Ele não acreditava que fosse impossível cruzar o oceano. Queria atingir o outro lado do mar e estava entusiasmado por fazê-lo. Equipou 200 embarcações, que levariam os homens, e outras tantas abasteceu com ouro, água e provisões suficientes para vários anos. Então disse aos encarregados das embarcações: 'Não regresseis antes de atingir o outro lado do oceano ou sem que se esgote vossa água ou provisão'. Eles zarparam. Passou o tempo. Passou muito tempo, e ninguém regressava. Finalmente um barco, um único, regres- sou. Perguntamos a seu mestre o que ele tinha visto e conhecido, e ouvimos: 'Navegamos durante muito tempo, até que no meio do mar apareceu um rio com fortíssimas correntezas. Eu estava no último barco. Os outros continuaram navegando e, ao chegar a esse ponto, não conseguiram retomar e desapareceram. Não sabemos o que aconteceu com eles. Quanto a mim, regressei daquele lugar sem me aventurar na correnteza'. O sultão rejeitou essa explicação. Mandou então preparar 2 mil embarcações, mil para ele e seus homens e as outras para água e provisões. Nomeou-me para substituí-lo, embarcou com seus companheiros e zarpou. Foi a última vez que os vimos, a ele e a seus companheiros" 116.
Já se tentou ver nesse interessantíssimo documento a prova de uma possível descoberta da América pelos malienses antes de Colombo 117, por vezes mesmo de um tal domínio do mar que teria levado os negros do Atlântico até o oceano Indico 118. Nessa disposição "competitiva", é claro que são poucas as chances de se chegar a conclusões firmes e confiáveis. Contestando tais interpretações, R. Mauny várias vezes insistiu que as condições técnicas de que então dispunha a África ocidental tornavam impossível tal viagem, e que, de qualquer modo, esta não teria deixado conseqüências conhecidas ou efeitos duradouros 119. Deixando de lado essas questões, gostaríamos de sugerir algumas linhas complementares de reflexão. Antes de mais nada, é preciso desarmar o "debate técnico". A navegação existia certamente desde muito tempo em todas as costas da África, e não há razão para se supor que os africanos refletissem o menos que outros povos sobre as técnicas requeridas para vencer as dificuldades reais e consideráveis que o mar apresentava. A pesca, a cabotagem e as atividades desenvolvidas ao longo das costas, descritas pelos primeiros navegadores europeus, não deixam margem para dúvidas a esse respeito: uma certa parte do mar, tanto a leste quanto a oeste, era dominada pelos africanos. e verdade, porém, que o mar não ocupava lugar de destaque na economia ou na organização política dos poderes africanos. A África vivia dentro de si mesma: todos os centros de decisão econômica, política, cultural, religiosa situavam-se a longa distância das costas 120.
Por isso é ainda mais interessante ver um mansa preocupar-se com o Atlântico. Deve-se notar, em primeiro lugar., que a aculturação muçulmana provavelmente ainda não afetara as classes dominantes do Mali. O legado ptolomaico com as inibições que entranhava provavelmente não influenciaria as idéias do mansa: o oceano era uma área por explorar, como o deserto ou a floresta 121. Depois, tendo em conta o papel desempenhado pelas províncias marítimas do Mali, os esforços desse reino para diversificar as relações econômicas do Sahel com seus parceiros e, finalmente, o número de tentativas muçulmanas ou européias efetuadas no século XIII e em princípios do XIV, não parece nada surpreendente que um mansa tentasse explorar e dominar esse oceano, que outros estavam começando a descobrir. O próprio tom da narrativa mostra que o mansa Müsã, por sua vez, considerava irrealista essa operação, talvez apenas porque tivesse falhado. As conseqüências econômicas de sua peregrinação, com a maciça exportação de ouro que efetuou, não foram menos desastrosas que a tentativa de seu predecessor. Reposta em tal contexto, essa tentativa merece ser levada a sério, com um estudo de suas causas e das possíveis conseqüências humanas - por exemplo, um pequeno desembarque na América do Sul 122. Conseqüências econômicas, segundo todas as evidências, não existiram 123.
Expansão, decepção. exploração
Logo que conseguiram o firme controle das reitorias das costas do Marrocos, de onde importavam tecidos, cavalos e ouro, os portugueses contornaram o cabo Bojador, em 1434. Levaram nove anos até dominar as técnicas de retorno pelos Açores; em 1443, a expansão ao longo das costas africanas tornou-se possível; 54 anos mais tarde atingiram o sul do continente, e ao se completarem 60 anos navegavam regularmente o oceano Indico. Durante a segunda metade do século XV, três posturas se superpõem, relativamente à África: expansão, decepção e exploração.
A brutalidade e a pilhagem marcaram os primeiros estágios da expansão, que se tornou mais organizada depois de 1450; o comércio então substituiu as incursões. Com uma importância variável, Arguin e a Mina (São Jorge da Mina, atual Elmina) constituíram os portos de escala do comércio português na costa africana. De lá partiam pequenas quantidades de produtos bem vendidos na Europa, como o couro, o âmbar e a goma. Mas os artigos mais procurados pouco a pouco vão se revelar decepcionantes quanto ao volume, em relação às experiências iniciais. A expansão começou sob o controle da coroa e parcialmente em seu proveito. Quando se tornou por demais onerosa, atribuíram-se concessões individuais 124. Mas a coroa portuguesa jamais abandonou por completo sua política de controle direto, embora não tivesse meios para exercê-la e, menos ainda, para defender seu teórico monopólio contra os demais países europeus 125.
Decepções de toda espécie logo se acumularam. A primeira ligava-se à própria natureza do comércio: expedições anuais feitas com reduzido número de pequenos navios dificilmente trariam elevados lucros. As tentativas de penetrar no interior do continente fracassaram todas. Em 1481, João II de Portugal, querendo encontrar uma via fluvial que levasse ao ouro, ordenou, sem sucesso, que fizessem explodir os rápidos de Felu, no rio Senegal. Em 1483, outra decepção: o curso do Zaire (Congo), cuja largura parecia oferecer fácil acesso ao interior, é barrado pelas intransponíveis corredeiras de Yelada. Em 1487, os portugueses tentaram instalar uma feitoria em Wadane, para obter parte do ouro que se sabia passar por ali, na rota de Tombuctu para o Marrocos, e depararam com uma hostilidade geral. O comércio de Kantor, no Gâmbia, era tão rigidamente controlado pelo Mali que não podia ser muito lucrativo. Mais ao sul, pelo menos até a costa dos Grãos, os estrangeiros não eram muito bem acolhidos nem os ancoradouros eram favoráveis a seus navios.
A atenção dos europeus esteve monopolizada, durante muito tempo, pela procura do ouro africano 126. Hoje sabemos que os portugueses fracassaram em sua pretensão de canalizar para as costas o grosso da produção aurífera 127. Considerando toda a costa atlântica, o montante que os portugueses obtiveram nunca excedeu e talvez sequer tenha atingido 1 t por ano 128. Relativamente às necessidades da economia européia, em rápido crescimento, passados os primeiros anos, a decepção foi grande. Os portos do Mediterrâneo, como pouco a pouco vamos descobrindo, continuaram a receber ouro africano, transportado em caravanas. A malagueta e a pimenta-do-reino 129 do Benin substituíram o ouro por algum tempo; mas, no que diz respeito ao comércio internacional dos fins do século XV, embora a malagueta ainda vendesse bem, a pimenta africana perdeu sua competitividade assim que apareceu no mercado sua similar asiática.
Em suma, do ponto de vista econômico, o comércio era muito modesto, embora os relatos dos séculos anteriores levassem a esperar maravilhas da África. Quantidades bastante pequenas de prata, escassa ao sul do Saara 130, de tecidos 131 manufaturados nas feitorias do Marrocos, de cavalos e de cobre conseguiam manter equilibrada a balança comercial.
Não foram menores os desapontamentos fora da esfera econômica. O reino do célebre Preste João, a quem portugueses e espanhóis tanto sonhavam, desde o século XIV, em ter como aliado contra os muçulmanos, não foi localizado, nem no norte nem no oeste da África. Em meados do século XV, um franciscano anônimo declarava fervorosamente situar-se na África o reino da salvação. Diogo Cão pensou ter encontrado o seu caminho quando, em 1483, descobriu a embocadura do rio Zaire (Congo). Mas nenhuma parte da África negra se revelou cristã ou sequer disposta a lutar contra o Islã.
O desapontamento inicial causado por um clima insólito daria resultados positivos no futuro, na medida em que iria aguçar o senso de observação tanto dos navegadores quanto dos comerciantes 132. As contínuas chuvas de verão da zona do Benin, assinaladas em primeiro lugar por Cada Mosto, contrastavam com as condições áridas das regiões mais ao norte 133, determinando a completa interrupção de toda a atividade agrícola numa estação que, na Europa, era a da colheita. E, no entanto, como observou CadaMosto, eles semeavam antes das chuvas e colhiam depois que elas passavam - estranho tipo de agricultura, aos olhos de um mediterrâneo. A observação do regime dos ventos, necessária para a navegação, revelou um mecanismo desconcertante: o surgimento e o desaparecimento dos ventos alísios do nordeste e do sudeste 134.
O fato de que as temperaturas variassem bem pouco não era menos espantoso. Os costumes dos habitantes, a constrangida e às vezes irônica observação de suas cerimônias religiosas tradicionais, deram origem aos primeiros comentários etnológicos, como, por exemplo, os de Valentim Fernandes 135. A palavra feitiço, que mais tarde viria a ter injustificada popularidade, ainda não havia aparecidol36.
Tais observações poderiam levar a descobertas úteis, como aconteceu na navegação, mas a esse respeito o mar trouxe melhores resultados que a terra 137. A princípio os portugueses haviam pensado em aclimatar plantas européias, como a uva e o trigo, e homens ao solo africano; mas o meio ambiente geográfico repeliu os transplantes agrícolas, e o clima desanimou os homens 138. Já começara a revolução contra o legado cultural ptolomaico 139, mas os africanos não viram esvair-se os preconceitos inerentes a ele.
A transposição da agricultura européia para a África logo se comprovou inviável, mas restava a possibilidade de novos cultivos de cana-de-açúcar em terras virgens, como as da ilha de São Tomé, ocupada em 1470, já que o mercado açucareiro continuava acrescer. Desse projeto surgiu, como algo mais ou menos natural, a idéia de "deslocar a mão-de-obra necessária"; assim os negros capturados foram levados para outras ilhas produtoras de açúcar no "Mediterrâneo atlântico" 140.
O comércio de escravos, com efeito, já estabelecera seu ritmo anual nas costas africanas uns 30 anos antes de começar essa deportação para as ilhas 141.
A partir de 1440, escravos capturados em vários pontos da costa onde hoje se situa a Mauritânia estavam sendo objeto de um escambo, justificado por Gomes Eanes de Zurara em termos que bem nos poderiam parecer cínicos, não tivesse ele revelado, primeiramente, as profundas contradições dos europeus:
"E aqui haveis de notar que estes negros, posto que sejam mouros como os outros, são porém servos daqueles por antigo costume, o qual creio que seja por causa da maldição que depois do dilúvio lançou Noé sobre seu filho Caim [Cam] [...] pero negros fossem, assim tinham almas como os outros, quanto mais que estes negros não vinham da linhagem de mouros, mas de gentios, pelo qual seriam melhores de trazer ao caminho da salvação" 142.
Como a motivação do lucro ressarcia-lhes a consciência 143, muito poucos parecem ter tido escrúpulos quer na troca de um mouro branco por vários negros, quer na escravização direta dos negros 144. Em 1444, organizou-se uma companhia em Lagos, Portugal, para explorar o tráfico de escravos. No mesmo ano, nessa cidade, 240 escravos foram divididos entre o infante D. Henrique, o Navegador, a Igreja de Lagos, os franciscanos do cabo São Vicente e comerciantes.
Em 1448, estabeleceu-se em Arguin um "comércio regular" que consistia na troca de bens contra seres humanos. Arguin provavelmente garantiu o fornecimento de várias centenas de escravos por ano até o final do século XV. Mais ao sul, a organização não foi menos "lucrativa": após 1460, cerca de 1 mil escravos foram levados do território entre o cabo Verde e Sine-Salum. Para as regiões ainda mais ao sul, é difícil fazerem-se estimativas relativas ao século XV 145.
O número de cativos chegados de Lagos, em Portugal, à Casa dos Escravos régia de Lisboa, é avaliado por C. Verlinden em cerca de 880 por ano 146. Castela, que reconhecera já em 1474 o monopólio português sobre esse tráfico, comprava escravos em Lisboa. No final do século é certo que havia um fluxo regular de cativos para Portugal, embora não possamos fornecer dados seguros quanto ao seu número 147. A organização do sistema do escambo estabilizou-se por volta do final do século XV. O valor pelo qual se trocava um escravo, muito oscilante nos primeiros anos desse comércio, fixou-se então num nível uniforme praticamente por toda parte: mais ou menos 6 escravos por 1 cavalo 148. Na costa, como no interior do continente, o cavalo era objeto muito valorizado nas trocas; mas, em algumas regiões, especialmente nas equatoriais, o cobre gradualmente substituiu o cavalo 149. Durante séculos, desgraçadamente, o tráfico negreiro constituiria de longe a mais lucrativa de todas as transações comerciais efetua das por europeus nas costas da África.
Em resumo, no século XV, os europeus causaram grande impacto nos vários arquipélagos da costa atlântica da África, porém penetraram muito pouco no interior do continente. Não afetaram de forma duradoura os antigos sistemas comerciais nem o equilíbrio básico de poderes. Sua tentativa de entrar em contato com o mansa do Mali enviando-lhe uma embaixada entre 1481 e 1495 não parece ter tido maiores resultados. É difícil atribuir a essa medida qualquer influência sobre a migração dos Fulfulde (Fulbe) rumo ao sul, que começou por volta de 1480-1490.
As relações dos europeus com o rei Nkuwu do Kongo, embora mais próximas, conservaram-se ambíguas e não tiveram conseqüências decisivas nessa época. Em 1483, após uma embaixada portuguesa, o monarca pediu que lhe enviassem uma missão. Recebeu-a em 1491; ela incluía alguns franciscanos, que o batizaram no dia 3 de maio daquele ano, carpinteiros, criadores de gado e pedreiros para ensinar seus ofícios e supervisioná-los. Sérias dificuldades surgiram, porém, em 1493 ou 1494, quando o rei, tendo que escolher entre a poligamia e a nova fé, preferiu a apostasia. A introdução do cristianismo não teve melhor sucesso, por essa época, na costa do golfo do Benin ou na Senegâmbia 150. Com exceção do Marrocos, que constitui um caso muito particular 151, estabeleceu-se uma estrutura institucional cristã somente nas ilhas - as Canárias, por exemplo, tiveram um bispo nessa época.
Em contrapartida, não tardou a fazer-se sentir a influência indireta da presença dos europeus nas costas africanas, ainda que num espaço geográfico relativamente restrito. Na Senegâmbia, os portugueses encontraram um equilíbrio dual estabelecido aparentemente desde muitos anos. Por um lado, realizando uma espécie de bloqueio do ferro, conforme observaram os viajantes portugueses, os mansa do Mali impuseram por certo tempo sua hegemonia à região de Casamance, até o norte do Gâmbia; e, por outro, abandonaram a região situada entre o Senegal e o Gâmbia ao poderoso Estado diolof (jolof). A introdução do ferro europeu, embora em pequenas quantidades, alterou esse equilíbrio. O comércio português foi ainda mais eficaz no dissolver as relações políticas e sociais então existentes, o que primeiro aconteceu na Senegâmbia, repetindo-se depois o feito, após 1500, na costa do Benin e, especialmente, no Kongo. O buurba do Diolof (Jolof) conseguira, provavelmente desde alguns séculos, o reconhecimento de seu poder pelo Cayor e pelo Bawol. A partir de 1455, o buurba pediu cavalos aos recém-chegados, e por volta de 1484 essa prática tornou-se regular 152. Mas por essa ocasião o governante do Diolof (J olof), que até então tinha seu interesse voltado para o comércio doméstico, passava a ocupar-se do comércio que se desenvolvia nas costas. Porém, como os tempos futuros haveriam de mostrar, no novo comércio a vantagem geográfica seria do Cayor e do Bawol.
As conseqüências sociais dessa nova situação, contudo, logo se revelaram no mínimo tão importantes quanto as políticas. A sociedade da Senegâmbia descrita pelos escritores ao tempo da descoberta incluía um número de ocupações das mais típicas - como a dos griots, tecelões, ferreiros e sapateiros - mas não comerciantes. Na falta destes últimos, foi o rei quem organizou o comércio com os recém-chegados, e tal atividade lhe proporcionou meios para reforçar seu poder, que à época, por muitas razões, começava a ser contestado. E, do lado dos portugueses, cavalos e ferro - muito embora se reiterasse, de público, a hipócrita proibição de exportar este metal para terras não-cristãs - como que exigiam uma "moeda de troca": o escravo.
As fontes disponíveis mostram, sem sombra de dúvida, que existia "escravidão" nas sociedades da segunda metade do século XV, provavelmente devido a uma série de razões que os historiadores vão gradualmente descobrindo - guerras, dívidas, fome -, mas a estrutura desse tipo de sociedade não se baseava na escravidão, e a condição desses subalternos, na Senegâmbia, era provavelmente de natureza essencialmente privada. É óbvio, porém, que as coisas mudaram bem depressa, desde que se tornou necessário "negociar com escravos" para pagar as importações. O poder real e aristocrático obteve lucros pessoais com essa prática, mas também desonra social e moral. Com toda a probabilidade, num curto espaço de tempo as relações sociais e as relações com os povos vizinhos viram-se profundamente alteradas.
Na Senegâmbia ainda existem centros de resistência ao Islã; fora do antigo Takrür, poucas chefarias foram convertidas. Entre os Diolof (Jolof) , o Islã começa a difundir-se nas camadas populares como um elemento possível de contestação do poder tradicional, enquanto os reis, da mesma forma que os dirigentes da dinastia marroquina dos Watássidas, começavam a permitir que os europeus se envolvessem em problemas internos, entre reinos bem como entre diferentes estratos sociais.
Notas
1 Wangara: esse termo é grafado de várias maneiras pelos escritores árabes - Wankãra, Wanghãra, Wangãra, Wangarãta e talvez mesmo Amdjara (al-Mas'udi, no século X). Os Wangãra são confundidos, por vezes, com os Gangara, a quem se atribuem, sem muita precisão, algumas ruínas antigas do Sahel. Os Wangara não aparecem nas fontes árabes antes do século XI ou XII. A eles eram atribuídas então a extração e a comercialização do ouro no alto Níger. No século XIV, seu nome freqüentemente era associado ao de Djenné, e, segundo Ibn Khaldün, sua área de influência estendia-se até regiões muito a leste. Mais tarde, o nome Diula (Jula) tendeu a substituir o anterior, e ainda é utilizado para designar os comerciantes de língua manden (mandingo) da zona de savana até a República de Gana.
2 IBN KHALDUN, 1967-1968, p. 100.
3 De acordo com a tradição ptolomaica e muçulmana erudita, o mundo dividia-se em sete partes ou "climas", da região sul (equatorial) à norte (boreal). As "duas primeiras partes" aqui mencionadas correspondem aproximadamente, na África, às regiões equatorial e tropical norte.
4 IBN KHALDUN, 1967-1968, p. 103-4.
5 Ibid., p. 90 et seq.
6 Ibid., p. 111-2. "A primeira parte do mundo situa-se imediatamente ao norte do equador. Ao sul, há só a civilização mencionada por Ptolomeu; depois, os ermos e os desertos de areia até o círculo de água a que se chama Oceano."
7 IBN KHALDÜN (ibid., 101-17) fala da parte da África ocidental freqüentada por comer- ciantes marroquinos. Nas suas regiões meridionais, essa parte da África constitui uma reserva de escravos "Lamlam", diz ele, "com escarificações no rosto. Mais adiante, ao sul, os homens que existem estão mais perto de animais do que de seres racionais [. . .]. Não é possível incluí-los entre os seres humanos" [p. 166]. O modo de vida desses homens deve-se a "seu distanciamento da zona temperada [distancíamento que] os faz, em sua natureza, acercarem-se dos animais selvagens e, na mesma proporção, afastarem-se da espécie humana".
8 Sobre as ilhas Canárias, ver, por exemplo, AL-IDRISI; in CUOQ, 1975, p. 127; IBN SA'ID, in CUOQ, 1975, p. 202-12.
9 IBN SA'ID, in CUOQ, 1975, p. 202.
10 A exceção, no que se refere à África ocidental, foi a hipotética viagem de Ibn Fãtima ao longo da costa africana, tal como é relatada por Ibn Sa'id (in CUOQ, 1975, p. 212) e outros, o que discutiremos adiante.
11 Não é nossa intenção descurar das grandes investigações empreendidas, no século X, por al-Mas'üdi, no XI, por al-Bakri, e, no XII, por al-Idrisi. O notável estudo que T. Lewicki consagrou a este último comprova a seriedade com que ele compilou as informações coletadas, sob sua chefia, por uma grande equipe. Ver LEWICKI, 1966.
12 Ver MEDEIROS, 1973. Entre as curiosidades pitorescas, conhecidas em latim como mirabilia, devem incluir-se a referência de Dante ao Cruzeiro do Sul e as alusões de Petrarca às ilhas Canárias (cf. HENNIG, 1953-1956, v.l, p. 369 et seq.). Igualmente, a referência de Raimundo Lúlio, num famoso romance do final do século XIII, a "Gana" e aos negros que rodeavam essa cidade - numerosos, idólatras, alegres e amantes da justiça -, deve ser considerada, da mesma forma que tantos detalhes comparáveis que lemos em outros autores, como um vôo de fantasia literária.
13 Ci. VERNET, 1958.
14 Naturalmente, aqui só é possível indicar de modo sumário os aspectos mais destacados dessa questão. Ela já foi abordada em numerosas publicações, e merece a atenção dos pesquisadores, pois está muito longe de se esgotar o levantamento de todas as observações contidas nesses documentos.
15 LA RONCIERE, C. de, 1924.1927, v. I, p. 144 et seq. A versão do texto publicada por La Ronciere mereceria cotejamento com o manuscrito. Quanto à interpretação dessa viagem dada por esse autor, ver HEERS, .1971, p. 66 et seq.
16 Foi este o caso em 1251, quando Inocêncio IV pediu a criação de santuários cristãos na costa do Marrocos; ou ainda em 1290, quando Nicolau IV se dirigiu numa encíclica a todos os cristãos da África setentrional; ou em 1419, quando Martinho V se dirigiu à hierarquia cristã no Marrocos.
17 DUYVENDAK, 1949; FILESI, 1962a e 1962b; CHOU YI LIANG, 1972.
18 O tratado assinado em 1285 por Castela e os Marínidas marcou uma profunda alteração no equilíbrio de forças. Os Marínidas renunciaram a suas reivindicações quer à terra espanhola quer à presença naval em suas costas. Em troca - fato que para nós se reveste de considerável importância cultural -, obtiveram a liberação de 13 carregamentos de livros de Córdoba para Fés. DUFOURCQ, 1966, p. 206.
19 Os Fatímidas, e em seguida os Omíadas da Espanha, os Almorávidas e depois os Almóadas beneficiaram-se sucessivamente das vantagens da hegemonia sobre os mais importantes pontos terminais das rotas do sul. Ver ROBERT, D., ROBERT, S. & DEVlSSE, 1970; DEVISSE, 1972.
20 Falta muito para que se esclareça a história da circulação de pessoas e bens nessa região.
21 Já desenvolvemos este raciocínio; ver DEVISSE, 1972.
22 LOPEZ, 1974, p. 252.
23 Ver DEVISSE, 1972; ver também ABITBOL, 1979, p. 370.
24 DEVISSE 1972, p. 369.
25 Ver CAHEN, 1965.
26 Sobre as conseqüências que essa opção teve para os venezianos, ver ROMANO, TENENTI & TUCCI, 1970, p. 109 et seq.
27 A partir do século XV, os venezianos, também pressionados pela expansão otomana, passaram a dar grande importância ao comércio com Trípoli - e em especial à importação de ouro -, fato de que apenas começamos a nos dar conta.
28 O controle da exportação do trigo do mar Negro pelos genoveses constituía um dos seus trunfos frente aos Mamelucos, da mesma forma que em tempos passados os bizantinos se serviam desse controle como meio de pressão sobre os Fatímidas do Egito. Seria interessante saber se existiram outras formaS de "diplomacia frumental" no Magreb, por exemplo, que tivessem constituído um meio de pressão sobre países sujeitos a colheitas irregulares. O estudo do comércio de grãos no interior da África nesse período ainda não foi realizado. Existem apenas algumas referências a respeito em documentos do século XIV. Em 1477, um navio levou 640 t de cereais de Orã a Gênova; também no século XV, o trigo era transportado da costa atlântica do Marrocos até Portugal.
29 Os tecidos europeus chegavam até bem longe no sul. Ibn Battuta (in CUOQ, 1975, p. 305) refere-se a eles ao descrever as roupas dos mansa do Mali.
30 Em 1445, 90 kg de cauris são arrolados entre as mercadorias confiscadas dos genoveses pelo reino de Granada. A respeito, ver HEERS, 1957, p. 120.
31 Desse ponto de vista, a queda do reino de Granada, em 1492, certamente constituiu um revés severo, embora temporário, para a política genovesa de venda de açúcar e provavelmente contribuiu para a intensificação da produção nas ilhas do Atlântico. Ver HEERS, 1971, p. 89 et seq. e 170.
32 VERLINDEN, 1966b.
33 Sobre o comércio catalão, ver DUFOURCQ, 1966.
34 Grottanelli (1975) mostrou que os europeus importavam objetos de marfim da África antes mesmo da expansão portuguesa. Esse fato, muito pouco estudado e que mereceria a atenção dos pesquisadores, sugere que a influência da arte africana na Europa é anterior ao século XV.
35 Muito se publicou a esse respeito. Ver especialmente o Jornal of Economic and Social History of the Orient e as publicações da Royal Numismatic Society, inglesa, e da Amencan Numismatic Society of New York.
36 BONNASSIÉ, 1975-1976, v. 1, p. 372 et seq.
31 VILAR, 1974, p. 42.
38 DUFOURCQ, 1966, p. 429.
39 HEERS, 1957, p. 101.
40 Ibid., 1971, p. 177; ARIÉ, 1973, p. 363. .
41 DUFOURCQ, 1966, p. 555-6. O autor atribui a Ifrikiya um valor de mais ou menos 125 mil dinares, de 30 mil a 70 mil dinares para o Magreb central, e de cerca de 200 mil para o Marrocos.
42 Ibid., p. 556. .
43 Tornou-se difícil a construção naval para os muçulmanos, devido à falta de madeira, desde que perderam o acesso aos abundantes recursos desse material nas ilhas do Mediterrâneo e na Espanha.
44 Gênova teve uma moeda estável de 1330 até o final do século. Em 1443, depois de um período de crise, reformou seu sistema monetário em relação ao ouro. As outras cidades italianas, especialmente Veneza e Florença, adotaram igual medida. A partir de 1310 Maiorca cunhou I real de ouro de 3,85 g. Sob Afonso X, Castela passou a usar o peso do dinar almóada (4,60 g) para seu dobrão de ouro.
45 C.-E. DUFOURCQ (1966) calcula que entrassem em Aragão cerca de 70 Kg de ouro africano por ano. J. Heers considera que 200 Kg do metal chegassem anualmente a Gênova, Sobre o montante de ouro em circulação na economia, comparado com suas necessidades reais, ver VILAR, 1974, p. 32-3.
46 Ao assinarem acordos com seus iguais muçulmanos, os reis cristãos às vezes obtinham a devolução de parte das taxas alfandegárias pagas na África por seus comerciantes: em 1229-1230, o rei de Aragão recebeu aproximadamente 500 dinares de Tlemcen; em 1302, Bidjãya prometeu restituir-lhe um quarto de suas taxas aduaneiras, cerca de 1 500 dinares por ano; no início do século XIV a Ifrikiya restituía a Aragão 50% desses valores.
47 Sobre os efeitos monetários de tais negociações, ver VILAR. 1974, p. 42-3.
48 YVER, 1903. p. 135,
49 DUFOURCQ. 1966, p. 179
50 ARIÉ. 1973, p. 119.
51 Ibd. P. 214
52 DUFOURCQ, 1966, p. 541.
53 ARIÉ, 1973, p. 269.
54 DUFORCQ, 1966, p. 103.
55 Ibid., p. 149 et seq.
56 Ibid., p. 560 et seq.
57 JADIN, 1966, p. 33-69. As ordens mendicantes chegaram ao Marrocos, e bispos foram designados para Fés e Marrakech com o fim de assistirem os mercenários cristãos.
58 Ibid.; MAH.JOUBI, 1966.
59 DUFOURCQ, 1966, p. 563 et seq.
60 Durante os séculos XII e XIII, várias fontes revelam a presença de negros na Sicília: 23 escravos na Catânia em 1145, por exemplo, e um negro cristão escravo em Palermo, em 1243; no século XII, os muçulmanos dados pelo rei normando à abadia de Monreale, na Sicília, incluem cerca de 30 nomes que poderiam ser de negros. (Essas informações, parcialmente inéditas, são de jovens pesquisadores da Universidade de Paris-VIII.)
61 Ver, por exemplo: AL-YAKÜBÍ (891), in CUOQ, 1975, p. 49; AL-ISTAKHRÍ (951) ibid., p. 65; AL-MUKADDASI (946-988), ibid., p. 68; AL-BIRUNI (973-1050), ibid., p. 80; AL-BAKRI (1068), ibid., p. 82; AL-ZUHRI (1154-1161), ibid., p. 115 et seq.; AL-IDRÍSÍ (1154), ibid., p. 127 et seq.; IBN 'IDHÃRI AL-MARRÃKUSH (século XIV), ibid., p. 220; AL-'UMARI (1301-1349), ibid., p. 255 et seq.; IBN BATTUTA (1356), ibid., p. 380 et seq.; IBN KHALDÜN (1375-1382), ibid., p. 329 et seq.; AL-MAKRIZI (1364-1442), ibid., p.380 et seq.; AL-MAGHILI (1493-6), ibid., p. 399 et seq. Ver também MAUNY, 1961, p. 336-43, 377-9 e 442-4.
62 Ver, em especial, STEIGER, 1941; GUERRERO-LOVILLO, 1949.
63 IBN 'ABDÜN. 1947, § 204.
64 VERLINDEN, 1966a. O autor dá outros exemplos além desse. Ver também VERLINDEN, 1977, p. 200 et seq.
65 Mencionados, pela primeira vez, em Barcelona, no ano de 1489; VERLINDEN, 1966a, p. 338.
66 De 15 de junho de 1486 a 31 de dezembro de 1493, chegaram a Lisboa 3 589 escravos, dos quais pelo menos 1 648 estavam destinados a mercadores florentinos. VERLINDEN, 1962, p. 29; ver também RAU, 1975.
67 Ver CORTÉS-ALONSO, 1964. Foram vendidos em Valencia, em 1489, 62 canarinos, e outros 90 em Ibiza, nas ilhas Baleares; 21 em Valencia em 1493, 130 no ano seguinte, 99 em 1496 e os últimos 26 em 1497. A respeito do tráfico dos guanchos, ver VERLINDEN, 1955a, p. 357, 550, 561, 562-7 e 1028. Os números de negros africanos foram: mais de 200 em 1484; cerca de 50 em 1490; quase 350 em 1491; aproximadamente 180 em 1492; perto de 180 em 1493; mais ou menos 150 em 1494; uns 650 em 1495; cerca de 150 em 1496; e por volta de 110 em 1497. Os fornecimentos foram interrompidos nessa data até 1502.
68 CORTÉS-ALONSO, 1964, p. 56 et seq. Em geral, tinham muito pouca idade: 9, 12 ou 15 anos.
69 Esperamos contribuir para ampliar este material publicando, em futuro próximo, um longo estudo sobre a iconografia dos negros no Ocidente.
70 LABIB, 1965.
71 Ocasionalmente se vincula o nome dos Karimi ao do Kanim (Kanem) chadiano. Tal vinculação tem o endosso das pesquisas mais recentes. A respeito, ver Encyclopaedia of Islam, nova ed. v. 4, p. 640-3, verbete "Karimi". Em tamul, karya significa "negócio"; não é fora de propósito achar aí uma relação interessante. Ver também GOITEN, 1966, especialmente capo 17 e 18; e GARCIN, capítulo 15 deste volume.
72 Sobre o crescimento desse porto, ver GARCIN, 1972; PAUL, 1955.
73 Ver os volumes 2 e 3 desta História geral da África. Enquanto aguardamos a publicação de outros estudos sobre tal questão, vale a pena notar que, segundo Goitein, nem todo o comércio passava por Áden. GOITEIN, 1966, p. 355, e 1967 passim. Fontes árabes e chinesas também fornecerão importantes informações adicionais; ver WHEATLEY, 1959.
74 O problema da importação do ouro do sul ainda não foi abordado com toda a atenção que merece, devido à falta de colaboração entre os especialistas. Basta, no entanto, agrupar as publicações mais importantes para se compreender que, por volta do ano 1000, sua mineração e exportação certamente já tinham começado. Ver, em particular, SUMMERS, 1969, que parece convencido de que a produção se iniciou em tempos antigos, e também HUFFMAN, 1974a, que apresenta importante bibliografia. Este último autor insiste em que a mineração de ouro em larga escala data do século XI. No outro extremo, vamos encontrar os artigos bastante eruditos de EHRENKREUTZ, 1959 e 1963, de leitura imprescindível para a apreciação da cunhagem fatímida em sua real amplitude e justa qualidade; essa amplitude e qualidade pressupõem uma provisão de ouro em tal abundância que, naquele tempo, nem o Egito, nem a Núbia, nem a África ocidental poderiam fornecer aos Fatímidas. Mas é necessário assinalar que ainda são muito poucos os especialistas que concordam fosse tão antigo esse comércio do ouro com o Egito.
75 LOMBARD, M., 1972, p. 153-76.
76 SUMMERS, 1969, p. 195.
77 Ibn Battüta estende-se sobre o comércio dessa concha das ilhas Maldivas na costa oriental. Sobre. os cauris a biografia é extensa no que respeita à África ocidental; quanto ao oceano Indico, ver, por exemplo, PELLIOT, 1933, p. 416-8.
78 Ver ainda IBN BATTUTA. Para um relato mais recente, ver CHITTICK & ROTBERG, 1975; UNESCO, 1980a.
79 Em Kilwa e Sofaia, comerciantes swahili adquiriam tecidos de algodão, de seda e de lã com seu ouro. No século XIII, 67% das taxas aduaneiras arrecadadas em Kilwa eram provenientes dos tecidos de algodão importados. Parece que nessa região da África, da mesma forma que na parte ocidental, os ornamentos de cobre eram tão valorizados quanto os de ouro. Estudos recentes de W. G. L. Randles e R. Summers enfatizam, porém, a cautela com que os muçulmanos se dedicaram à coleta de ouro no sul. Os dois autores notam o contraste desse ritmo mais lento - embora, no total, tenham se encontrado quantidades consideráveis do metal precioso - com a busca febril do mesmo ouro a que se lançaram os portugueses, quando se estabeleceram no sul do continente.
80 Estudos a esse respeito multiplicam-se. Ver, por exemplo, BARRADAS, 1967; TlBBETTS, 1969.
81 Kilwa cunhava moedas desde o século XIII.
82 Ver UNESCO, 1980.
83 Foi só muito tardiamente, talvez mesmo não antes do século XV, que as tradições relativas à fundação dessas cidades foram deformadas para que coubesse atribuir-lhes origem asiática. O "mito shirazi", ainda bastante difundido em nossos dias, é, na sua formulação rígida, de elaboração muito mais recente. Ver o capítulo 18 deste volume. Dentre muitos outros trabalhos relevantes, alguns aguardando publicação, ver: HIRSCHBERG, 1931; GROTRANELLI, 1955.
84 CHITTICK & ROTBERG, 1975.
85 Sobre outra dessas cidades, Shungwaya, ver GROTRANELLI, 1955.
86 CHOU YI LIANG, 1972. Ver também HIRTH, 1910; ROCKHILL, 1915; FRIP, 1940-1941; LO JUNG-PANG, 1955; FILESI, 1962a, 1962b.
87 CHOU YI LIANG, 1972.
88 Tais navios eram de 1500 t, enquanto a capacidade dos primeiros barcos portugueses a singrar o oceano Indico era de 300 t.
89 Ver DUYVENDAK, 1938.
90 Ver FREEMAN-GRENVILLE, 1955; KIRKMAN, 1967; CHITRICK & ROTBERG, 1975.
91 MATHEW, 1956.
92 O texto árabe dessa carta foi publicado por FERRAND, 1921-1928; cf. nota 80.
93 Sobre o Atlântico, ver a Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 934. Os textos de al-Idrisi (in CUOQ, 1975, p. 143) e de Ibn Khaldün (in MONTEIL, 1967-1968, p. 115) bastam para evidenciar a má qualidade da informação que lhes chegava. Cabe assinalar que os escassos conhecimentos dos árabes sobre os mares a oeste da África contrastam agudamente com seu domínio do oceano Indico e de suas costas.
94 No século XII, os "aventureiros de Lisboa" talvez tenham chegado às ilhas Canárias (MAVNY, 1960, p. 91; 1965). No século XIII, a viagem de Ibn Fatima, segundo o relato que devemos a Ibn Sa'id (in CUOQ, 1975, p. 212), mostra que os muçulmanos então tentavam explorar a costa africana. O relato de Ibn Fâtima revela que essa expansão não era, absolutamente, desinteressada, e que não se tratava de interesse científico. Ao sul do Marrocos, o navegador descobriu uma região que temos dificuldade de localizar - um deserto arenoso porém "excelente para o cultivo da cana-de-açúcar". No século XIV, al-'Umari (in CUOQ, 1975, p. 281) conta-nos que um vizir de A1meria tentou explorar a costa africana.
95 Parece-nos haver algum exagero nas teses propostas por um autor chinês (HUI LIN LI, 1960-1961) a partir de fontes chinesas. A identificação dessas regiões proposta por esse autor precisaria ser corroborada por testemunhos científicos mais consistentes.
96 In CUOQ, 1975, p. 212.
97 Ibid., p. 83.
98 Ibid., p. 128.
99 A propósito do Atlântico norte, J. Heers (1966, p. 230) reconhece a importância das descobertas dos pescadores, sobre segmentos inteiros de futuras rotas transoceânicas, e dá o exemplo dos pescadores lisboetas que, no século XVI, chegaram até a baía de Hudson.
100 LOMBARD, 1972, p. 153-76.
101 Durante o século XV, o volume de tráfico nessa rota marítima representou aproximadamente 40 vezes o volume do antigo tráfico por via terrestre entre Itália e Flandres, através da Champagne.
102 Ver GODINHO, 1969.
103 HEERS, 1966, p. 273-93.
104 GODINHO, 1962; RAU, V., 1967, p. 447-56.
105 VERLINDEN, 1955b, p. 467-97 e 1961.
106 CORTESÃO, A., 1971, 1972 e 1973; FALL, 1978. Este último, com vários argumentos importantes, sustenta que existe forte probabilidade de que numerosos outros navegantes, muçulmanos e cristãos, tenham ultrapassado o cabo Bojador antes dos portugueses.
107 Quanto à expedição dos irmãos Vivaldi, opiniões opostas são expressas por V. de M. Godinho (1962 e 1969) e J. Heers (1957 e 1971). É certo que os portugueses necessitavam de ouro; entre 1387 e 1416, o preço desse metal subiu 12%. A cunhagem de moedas de ouro somente se retomou em Portugal no ano de 1436, sendo que moldes muçulmanos foram utilizados até 1456.
108 Por volta de 1455, Cada Mosto registrou que os canaviais da Madeira estavam em plena produção. Em 1508, a ilha produziu 70 mil arrobas de açúcar.
109 Ver GODINHO, 1962 e 1969. No final do século XV, escravos guanchos eram vendidos em Sevilha (PEREZ-EMBID, 1969, p. 89), ampliando-se seu número depois de 1496. Acerca de sua venda pelos cristãos de Salé, ver o testemunho de Ibn Khaldun (in MONTEIL, 1967-1968, p. 115).
110 MAUNY, 1960.
111 Por LONIS, 1978, entre outros.
112 Ver BEAUJOUAN, 1969; MOTA, 1958; e POULLE, 1969.
113 HEERS, 1966.
114 Usadas desde 1317 no mar Mediterrâneo, as cartas marítimas somente começaram a incluir o Atlântico no curso do século XV. A primeira a dar uma configuração satisfatória da África ocidental e de seu oceano data aproximadamente de 1470; a primeira a mencionar as ilhas do Cabo Verde e de São Tomé é de 1483. Ver LA RONCIERE, C. de, 1967; LA RONCIERE, M. de, 1967.
115 GILLE, 1970.
116 AL-'UMARÍ in CUOQ, 1975, p. 274-5. Sobre esse texto, pode encontrar-se uma bibliografia, já antiga, in HENNIG, 1953-1956, v. 3, p. 161-5.
117 WIENER, 1920-1922; ver também HAMIDULLAH, 1958, p. 173-83. Este autor retoma de M. D. W. Jeffreys (1953a) um argumento que não se pode considerar definitivo no atual estágio de nossos conhecimentos - a saber, o de que o "rio" mencionado seria o Amazonas. Isso significa desconhecer dois fatos: primeiro, que antes de chegarem a esse "rio no mar" os navios se teriam deparado com várias correntes marítimas, das quais as mais fortes os impeliriam para o Caribe e não para o Brasil; segundo, que o empuxo do Amazonas repeliria os barcos para o mar, em vez de puxá-los para a costa do que hoje é o Brasil. É verdade, porém, que essas correntes, se fossem seguidas, poderiam fazer navios cruzarem o Atlântico de leste a oeste, na latitude de Dakar, rumo à América, mas tornariam impossível o retorno. Será este o sentido da narrativa de al-'Umari? Ver também RILEY, 1971.
118 HUTTON, 1946.
119 MAUNY 1971.
120 Devemos salientar, porém, o forte interesse do Mali por suas "províncias marítimas" da Casamance, da Gâmbia e, mais provavelmente ainda, da atual República de Serra Leoa. Tal interesse tem se evidenciado cada vez mais, especialmente pelos trabalhos recentes de jovens historiadores africanos.
121 Para aprofundar a discussão desse tema, conviria empreender uma coleta sistemática das tradições manden (mandingo) relativas ao oceano, o que jamais foi feito, pelo menos que seja do nosso conhecimento. Valerá a pena citarmos aqui a resposta atribuída por Zurara àqueles que foram encarregados pelo infante D. Henrique de explorar as regiões ao sul do cabo Bojador: "Como passaremos - diziam eles - os termos que poseram nossos padres, ou que proveito pode trazer ao infante a perdição de nossas almas junta- mente com os corpos, que conhecidamente seremos homicidas de nós mesmos? [. . .] Isto é claro - diziam os mareantes - que depois deste cabo não há aí gente nem povoação alguma [...] As correntes são tamanhas, que navio que lá passe, jamais nunca poderá tornar". ZURARA, 1896, 1899.
122 Sobre algumas tentativas infundadas e infelizes nesse campo, ver JEFFREYS, 1953. 123 O volume 5 desta História geral da África traz um estudo da controvertida questão da existência de um milho africano pré-colombiano, e da possível introdução de um milho americano por navegadores muçulmanos ou negros, que teriam descoberto a América antes de Colombo.
124 Arguin haveria de permanecer sob constante e firme controle régio. Ao sul do Gâmbia, em várias ocasiões assinaram-se contratos com armadores privados de navios. Em troca do pagamento de uma taxa e da exploração anual de certa extensão da costa, era-lhes permitido ficar com os lucros obtidos no local.
125 O exemplo mais famoso, no século XV, foi a viagem de Eustache de Ia Fosse e de seus companheiros à Costa do Ouro (1479-1480), que terminou em tragédia: foram capturados e ameaçados de enforcamento, por se haverem aventurado a ir até Elmina sem autorização real. Ver DELAFOSSE, 1897.
126 Em 1447, a expedição de Antonio Malfante a Tuat teria sido financiada pelo banco genovês dos Centurioni, que àquele tempo estava interessado em abrir uma rota terrestre até as especiarias asiáticas, passando pela Rússia e pela Ásia.
127 Ver GODINHO, 1969; DEVISSE, 1972.
128 Cabe aqui recordar que R. Mauny (1960) avaliou o comércio de ouro entre a África ocidental e o norte do continente em menos de 4 t anuais.
129 Ver MAUNY, 1961, p. 249-50.
130 Na África, a prata valia mais que o ouro e era importada dos países cristãos. O próprio Magreb, por razões econômicas internacionais, então constituía excelente mercado para a prata. FERNANDES, 1938, p. 97.
131 Fabricavam-se tecidos, embora os primeiros viajantes já notassem, com compreensível interesse, que os habitantes da África andavam nus ou com muito pouca roupa.
132 Ver DAVEAU, 1969.
133 Em Arguin "chove apenas três meses por ano, em agosto. setembro e outubro". CADA MOSTO, 1895.
134 Logo se teria que calcular os tempos de zarpar em função desses ventos. No começo do século XVI, Duarte Pacheco Pereira notou que havia apenas "três meses por ano nos quais os navios que devem ir às índias têm que estar prontos para partir, ou seja, em janeiro. fevereiro e março; e, dos três, o melhor é fevereiro". Talvez devêssemos observar que, nos meses de inverno, navegava-se pouco no Mediterrâneo.
135 FERNANDES, 1951, v. 2, p. 71, 73, 77, 83, 101. O autor descreve, entre outras coisas de interesse, os "ídolos" adorados pelos africanos.
136 Sobre "feitiço", ver ARVEILLER, 1963, p. 229-30. O adjetivo português feitiço, que originalmente significa "artificial", não era usado no sentido do francês factice (factício), atestado no século XIII. Feitiço originou uma série inteira de palavras em outras línguas. "Fetichista" vem, em francês, da tradução (1605) de um livro holandês de viagens, de 1602, de P. de Marees; na mesma língua, "fetiche" somente aparece em 1669. A palavra teria que ser estudada em português e castelhano.
137 Foi antes de mais nada por razões utilitárias que o Ocidente saiu de seu etnocentrismo - a constatação das diferenças geográficas levou à busca das causas a que elas se deviam; mas a abordagem científica demorou muito tempo para completar a rica, e rápida, coleta de observações.
138 Duarte Pacheco Pereira observou que o clima na costa do Benin era pouquíssimo saudável durante todo o ano, sendo particularmente insuportável nos meses de agosto e setembro, quando chovia sem parar. "Todos estes rios - dizia - abundam de febres, que são muito nocivas a nós, brancos."
139 Duarte Pacheco Pereira: "Toda a costa africana, do Benin ao Congo, tem muitas árvores e gentes; tal região está perto do círculo equatorial, que os antigos diziam inabitável; nós, graças à experiência, descobrimos o contrário..."
140 VERLINDEN, 1955a, p. 630-1.
141 Ibid., p. 617; e 1967, p. 365-77.
142 ZURARA, 1896, 1899, p. 90.
143 Uma bula de 8 de janeiro de 1454, dirigida pelo papa Nicolau V ao rei Afonso V de Portugal, autorizava-o a privar da liberdade "todos os mouros e outros inimigos de Cristo", sem excetuar os "guineenses". Ver VERLINDEN, 1955a, p. 618.
144 Uma vantagem adicional era que os negros convertidos retomariam a seus países e difundiriam o cristianismo. Antes disso, teriam dado toda a informação de que dispusessem sobre essa África tão pouco conhecida, onde haveria ouro em abundância.
145 O florentino Bartolomeo Marchionni, que recebera a concessão para o tráfico de cativos na Costa dos Escravos de 1486 a 1488, pagava por esse contrato 45 mil ducados anuais.
146 VERLINDEN, 1955a, p. 617 et seq.; ver também p. 358-62.
147 Na obra mais bem informada a esse respeito (CURTIN, 1969, p. 17-21) supõe-se que 175 mil escravos tenham sido levados da África no século XV. Acrescente-se a estes o número dado por C. Verlinden (1977). Numerosos estudos publicados por autores portugueses e espanhóis também devem ser consultados, entre eles, CORTÉS-ALONSO, 1963, 1964 e 1972; SILVA, 1979. Ver também MOTA, 1981.
148 Cada Mosto mostra que, de início, 15 escravos eram trocados por 1 cavalo, no norte. Esse número variava de 10 a 12 na Senegâmbia. No final do século XV, em Sine-Salum, a proporção ainda flutuava de 6 a 15 por cavalo.
149 A importância deste problema, que excede as costas africanas, é tratada pelo professor D. McCall em uma monografia em fase de preparação.
150 Houve missões franciscanas na Guiné-Bissau a partir de 1469. Em 1489, tentou-se converter um chefe seereer, que foi assassinado pela própria escolta de portugueses quando regressava da Europa. Em 1484, os dominicanos estabeleceram-se no Benin.
151 De acordo com um tratado firmado pelo Marrocos e seus vários parceiros europeus, em 1225, os cristãos tinham sido autorizados a se instalar numa série de lugares desse país. As ordens mendicantes tentaram, sem sucesso, converter os habitantes; bispos tiveram suas sés em Marrakech e Fés; e abriram-se igrejas, nas feitorias da costa, para atender aos grupos de mercenários cristãos. Sobre esses pontos, ver JADIN, 1965, p. 36-68.
152 Ver BOULEGUE, 1968.