Apresentação



O que sabemos sobre a África Tradicional? Porque ignoramos quase por completo as culturas africanas antes da chegada do Europeu? O Egito pertence a África? Existem "Raças" na África? Antes dos portugueses, quem vivia em Angola? E nas Costas da Nigéria? Os chineses e indianos visitavam a África muito antes das "grandes navegações"...e nós, o que sabíamos sobre isso? Tantas perguntas....e as respostas são raras, difíceis e pouco acessíveis.

Foi com este propósito que esta página foi criada; como podemos estudar a África Tradicional (e não "Pré-colonial", como convencionamos chamar), quais são as culturas que integravam este vasto mundo tão pouco conhecido por nós?

Como afirma Joseph Ki-Zerbo, "Com efeito, a história da África, como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita. E isso porque, até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela "força das circunstâncias", ou seja, pela ignorância e pelo interesse. Abatido por vários séculos de opressão, esse continente presenciou gerações de viajantes, de traficantes de escravos, de exploradores, de missionários, de procônsules, de sábios de todo tipo, que acabaram por fixar sua imagem no cenário da miséria, da barbárie, da irresponsabilidade e do caos. Essa imagem foi projetada e extrapolada ao infinito ao longo do tempo, passando a justificar tanto o presente quanto o futuro".

Pois para ajudar a desconstruir esta imagem que nossa página foi criada. Este é o nosso objetivo!
Seja Bem vindo, leitor!


ÍNDICE

Teoria e Metodologia para História da África
Apresentação
Introdução a História da África
Historiografia Africana
O Lugar da História na África
A Tradição Oral e sua Metodologia
A Tradição Viva
Visões e Percepções Tradicionais
Fontes e Técnicas de Estudo para a África
Teorias Raciais e História da África
Formas e Expressões na Arte Africana

Civilizações da África tradicional - Norte e Nordeste
O Egito Faraônico - Estado, Sociedade e Cultura
O Egito e suas Relações com o Mundo Africano
A Civilização dos Songhai dos séculos XII ao XVI
O Chifre da África e a Etiópia

Civilizações da África Central
A Civilização Swahili
As Origens da Cultura do Zimbabue
A África Equatorial e Angola
Do Rio Volta aos Camarões
As Sociedades da África Meridional
A Civilização de Madagascar nos séculos XII ao XVI...
O Intercâmbio entre as Regiões Africanas no períod...
As Relações Intercontinentais da África no período...
A Expansão Árabe na África e os Impérios do Gana, ...
Sundiata, o Leão do Mali (Link para versão em Quadrinhos!)


História da África, por K. D. Fage
África e Antigas Civilizações (01)
Os Estados e o Comércio no Sudão (02)
Os Estados e o Comércio na Guiné (03)
O Nordeste e a África Banto (04)

Bibliografias
Sugestões Bibliográficas em Português


Grato por estar conosco!

Africanidades

Introdução a História da África

por Joseph Ki-Zerbo.

Neste texto, encontramos uma introdução ao estudo da História Africana, suas características peculiares, o uso das ciências tais como a arqueologia, a linguística, a História Oral no contexto específico da África, etc. Um texto indispensável para entendermos os procedimentos adequados para o estudo desta História e do Africanismo in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 1




A África * tem uma história. Já foi o tempo em que nos mapas-múndi e portulanos, sobre grandes espaços, representando esse continente então marginal e servil, havia uma frase lapidar que resumia o conhecimento dos sábios a respeito dele e que, no fundo, soava também como um álibi: "Ibi sunt leones". Aí existem leões. Depois dos leões, foram descobertas as minas, grandes fontes de lucro, e as "tribos indígenas" que eram suas proprietárias, mas que foram incorporadas às minas como propriedades das nações colonizadoras. Mais tarde, depois das tribos indígenas, chegou a vez dos povos impacientes com opressão, cujos pulsos já batiam no ritmo febril das lutas pela liberdade.
Com efeito, a história da África, como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita. E isso porque, até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela "força das circunstâncias", ou seja, pela ignorância e pelo interesse. Abatido por vários séculos de opressão, esse continente presenciou gerações de viajantes, de traficantes de escravos, de exploradores, de missionários, de procônsules, de sábios de todo tipo, que acabaram por fixar sua imagem no cenário da miséria, da barbárie, da irresponsabilidade e do caos. Essa imagem foi projetada e extrapolada ao infinito ao longo do tempo, passando a justificar tanto o presente quanto o futuro.
Não se trata aqui de construir uma história-revanche, que relançaria a história colonialista como um bumerangue contra seus autores, mas de mudar a perspectiva e ressuscitar imagens "esquecidas" ou perdidas. Torna-se necessário retomar à ciência, a fim de que seja possível criar em todos uma consciência autêntica. É preciso reconstruir o cenário verdadeiro. É tempo de modificar o discurso.
Se são esses os objetivos e o porquê desta iniciativa, o como - ou seja, a metodologia - é, como sempre, muito mais penoso. É justamente esse um dos objetivos desse primeiro volume da História Geral da África, elaborada sob o patrocínio da Unesco.
Por quê?
Trata-se de uma iniciativa científica. As sombras e obscuridades que cercam o passado desse continente constituem um desafio apaixonante para a curiosidade humana. A história da África é pouco conhecida. Quantas genealogias mal feitas! Quantas estruturas esboçadas com pontilhados impressionistas ou mesmo encobertas por espessa neblina! Quantas seqüências que parecem absurdas porque o trecho precedente do filme foi cortado! Esse filme desarticulado e parcelado, que não é senão a imagem de nossa ignorância, nós o transformamos por uma deformação deplorável ou viciosa, na imagem real da história da África tal como efetivamente se desenrolou. Nesse contexto, não é de causar espanto o lugar infinitamente pequeno e secundário que foi dedicado à história Africana em todas as histórias da humanidade ou das civilizações.
Porém, há algumas décadas, milhares de pesquisadores, muitos de grande ou mesmo de excepcional mérito, vêm procurando resgatar porções inteiras da antiga fisionomia da África. A cada ano aparecem dezenas de novas publicações cuja óptica é cada vez mais positiva. Descobertas Africanas, por vezes espetaculares, questionam o significado de certas fases da história da humanidade em seu conjunto.
Mas essa mesma proliferação comporta certos perigos: risco de cacofonia pela profusão de pesquisas desordenadas ou sem coordenação efetiva; discussões inúteis entre escolas que tendem a dar mais importância aos pesquisadores que ao objeto das pesquisas, etc. Por essas razões, e pela honra da ciência, tornava-se importante que uma tomada de posição acima de qualquer suspeita fosse levada a cabo por equipes de pesquisadores Africanos e não-Africanos, sob os auspícios da Unesco e sob a autoridade de um conselho científico internacional e de coordenadores Africanos. O número e a qualidade dos pesquisadores mobilizados para esta nova grande descoberta da África denotam uma admirável experiência de cooperação internacional. Mais que qualquer outra disciplina, a história é uma ciência humana, pois ela sai bem quente da forja ruidosa e tumultuada dos povos. Modelada realmente pelo homem nos canteiros da vida, construída mentalmente pelo homem nos laboratórios, bibliotecas e sítios de escavações, a história é igualmente feita para o homem, para o povo, para aclarar e motivar sua consciência.
Para os Africanos, a história da África não é um espelho de Narciso, nem um pretexto sutil para se abstrair das tarefas da atualidade. Essa diversão alienadora poderia comprometer os objetivos científicos do projeto. Em contrapartida, a ignorância de seu próprio passado, ou seja, de uma grande parte de si mesmo, não seria ainda mais alienadora? Todos os males que acometem a África hoje, assim como todas as venturas que aí se revelam, resultam de inumeráveis forças impulsionadas pela história. E da mesma forma que a reconstituição do desenvolvimento de uma doença é a primeira etapa de um projeto racional de diagnóstico e terapêutica, a primeira tarefa de análise global do continente Africano é histórica. A menos que optássemos pela inconsciência e pela alienação, não poderíamos viver sem memória ou com a memória do outro. Ora, a história é a memória dos povos. Esse retorno a si mesmo pode, aliás, revestir-se do valor de uma catarse libertadora, como acontece com o processo de submersão em si próprio efetivado pela psicanálise que, ao revelar as bases dos entraves de nossa personalidade, desata de uma só vez os complexos que atrelam nossa consciência às raízes profundas do sub-consciente. Mas para não substituir um mito por outro, é preciso que a verdade histórica, matriz da consciência desalienada e autêntica, seja rigorosamente examinada e fundada sobre provas.
Como?
Passemos agora à problemática questão do como, ou seja, da metodologia. Neste campo, como em outros, é necessário evitar tanto a singularização excessiva da África, quanto a tendência a alinhá-la demasiadamente segundo normas estrangeiras. De acordo com alguns, seria preciso esperar que fossem encontrados os mesmos tipos de documentos existentes na Europa, a mesma panóplia de peças escritas ou epigráficas, para que fosse possível falar numa verdadeira história da África. Para estes, em resumo, os problemas do historiador são sempre os mesmos, dos trópicos aos pólos. Torna-se necessário reafirmar claramente que não se trata de amordaçar a razão sob pretexto de que falta substância a ser-lhe fornecida. Não se deveria considerar a razão como tropicalizada pelo fato de ser exercida nos trópicos. A razão, soberana, não conhece o império da geografia. Suas normas e seus procedimentos fundamentais, em particular a aplicação do princípio da causalidade, são os mesmos em toda parte. Mas, justamente por não ser cega, a razão deve apreender diferentemente realidades distintas, para que essa apreensão seja sempre muito firme e precisa. Assim, os princípios da crítica interna e externa se aplicarão segundo uma estratégia mental diferente para o canto épico Sundiata Fasa 1, para a capitular De Villis ou para as circulares enviadas aos prefeitos de Napoleão. Os métodos e técnicas serão diferentes. Aliás, essa estratégia não será exatamente a mesma em todas as partes da África; nesse sentido, o vale do Nilo e a fachada do Mediterrâneo se encontram, para reconstrução histórica, numa situação menos original em relação à Europa do que a África subsaariana.
Na verdade, as dificuldades específicas da história da África podem ser constatadas já na observação das realidades da geografia física desse continente. Continente solitário, se é que existe algum, a África parece dar as costas para o resto do Velho Mundo, ao qual se encontra ligada apenas pelo frágil cordão umbilical do istmo de Suez. No sentido oposto, ela mergulha integralmente sua massa compacta na direção das águas austrais, rodeada por maciços costeiros, que os rios forçam através de desfiladeiros "heróicos" que constituem, por sua vez, obstáculos à penetração. A única passagem importante entre o Saara e os montes abissínios encontra-se obstruída pelos imensos pântanos de Bahr el-Ghazal. Ventos e correntes marítimas extremamente violentos montam guarda do Cabo Branco ao Cabo Verde. Entretanto, no interior do continente, três desertos .encarregam-se de agravar o isolamento exterior por uma divisão interna. Ao sul, o Calaari. Ao centro, o "deserto verde" da floresta equatorial, temível refúgio no qual o homem lutará para se impor. Ao norte, o Saara, campeão dos desertos, imenso filtro continental, oceano fulvo dos ergs e regs que, com a franja montanhosa da cordilheira dos Atlas, dissocia o destino da zona mediterrânea do restante do continente. Sobretudo durante a pré-história, essas potências ecológicas, mesmo sem serem muralhas estanques, pesaram muito no destino Africano em todos os aspectos. Deram também um valor singular a todas essas seteiras naturais que desempenharam o papel de passarelas na exploração do território Africano, levada a efeito pelas populações que aí habitavam há milhões de anos atrás. Citemos apenas a gigantesca fenda meridiana do Rift Valley, que se estende do centro da África ao Iraque, passando através do molhe etiopiano. No sentido mais transversal, a curva dos vales do Sanga, do Ubangui e do Zaire deve ter constituído igualmente um corredor privilegiado. Não é por acaso que os primeiros reinados da África negra se tenham desenvolvido nessas regiões das terras abertas, estes sahels 2 que eram beneficiados simultaneamente por uma permeabilidade interna, por uma certa abertura para o exterior e por contatos com as zonas Africanas vizinhas, dotadas de recursos diferentes e complementares. Essas regiões abertas, que experimentaram um ritmo de evolução mais rápido, constituem a prova a contrario de que o isolamento foi um dos fatores chaves da lentidão do progresso da África em determinados setores 3. "As civilizações repousam sobre aterra", escreve F. Braudel. E acrescenta: "A civilização é filha do número". Ora, a própria vastidão desse continente, com uma população diluída e portanto facilmente itinerante, em meio a uma natureza ao mesmo tempo generosa (frutas, minerais, etc.) e cruel (endemias, epidemias) 4, impediu que fosse atingido o limiar de concentração demográfica que tem sido quase sempre uma das pré-condições das mudanças qualitativas importantes no domínio econômico, social e político. Além disso, a severa punção demográfica da escravidão desde os tempos imemoriais e, sobretudo, após o comércio negreiro do século XV ao XX, contribuiu muito para privar a África do tônus humano e da estabilidade necessários a toda criação eminente, mesmo que seja no plano tecnológico. A natureza e os homens, a geografia e a história, não foram benevolentes com a África. É indispensável retomar a essas condições fundamentais do processo evolutivo, para que seja possível colocar os problemas em termos objetivos e não sob a forma de mitos aberrantes como a inferioridade racial, o tribalismo congênito e a pretensa passividade histórica dos Africanos. Todas essas abordagens subjetivas e irracionais apenas mascaram uma ignorância voluntária.
As fontes difíceis
No que concerne ao continente Africano, é preciso reconhecer que o manuseio das fontes é particularmente difícil. Três fontes principais constituem os pilares do conhecimento histórico: os documentos escritos, a arqueologia e a tradição oral. Essas três fontes são apoiadas pela lingüística e pela antropologia, que permitem matizar e aprofundar a interpretação dos dados, por vezes excessivamente brutos e estéreis sem essa abordagem mais íntima. Estaríamos errados, entretanto, em estabelecer a priori uma hierarquia peremptória e definitiva entre essas diferentes fontes.
As fontes escritas
Quando não são raras, tais fontes encontram-se mal distribuídas no tempo e no espaço. Os séculos mais "obscuros" da história Africana são justamente aqueles que não se beneficiam do saber claro e preciso que emana dos testemunhos escritos, por exemplo, os séculos imediatamente anteriores e posteriores ao nascimento de Cristo (a África do norte é uma exceção). No entanto, mesmo quando esse testemunho existe, sua interpretação implica freqüentemente ambigüidades e dificuldades. Nesse sentido, a partir de uma releitura das "viagens" de Ibn Battuta e de um novo exame das diversas grafias dos topônimos empregados por este autor e por al'Umari, certos historiadores são levados a contestar que Niani, situada às margens do rio Sankarani, tivesse sido a capital do antigo Mali 5. Do ponto de vista quantitativo, massas consideráveis de materiais escritos de caráter arquivístico ou narrativo permanecem ainda inexploradas, como provam os recentes inventários parciais dos manuscritos inéditos relativos à história da África negra exumados de bibliotecas do Marrocos 6, da Argélia e da Europa. Também nas bibliotecas particulares de grandes eruditos sudaneses, encontradas em cidades da curva do Níger 7, há manuscritos inéditos cujos títulos permitem entrever filões analíticos novos e promissores. A Unesco estabeleceu em Tombuctu o Centro Ahmed Baba para promover a coleta desses documentos. Nos fundos de arquivos existentes no Irã, no Iraque, na Armênia, na Índia e na China, sem falar das Américas, muitos fragmentos da história da África estão à espera da perspicácia inventiva do pesquisador. Nos arquivos do primeiro-ministro de Istambul, por exemplo, onde estão classificados os registros dos decretos do Conselho de Estado Imperial Otomano, uma correspondência inédita datada de maio de 1577, enviada pelo sultão Murad III ao Mai Idriss Alaoma e ao bei de Túnis, projetam nova luz sobre a diplomacia do Kanem Bornu daquela época e também sobre a situação do Fezzan 8.
Um trabalho ativo de coleta vem sendo realizado com êxito pelos institutos de estudos Africanos e centros de pesquisas históricas nas regiões Africanas que foram penetradas pela cultura islâmica. Por outro lado, novos guias editados pelo Conselho Internacional dos Arquivos, sob os auspícios da Unesco, propõem-se a orientar os pesquisadores na floresta de documentos espalhados em todas as partes do mundo ocidental.
Apenas um grande esforço de edições e reedições judiciosas, de tradução e difusão na África, permitirá, pelo efeito multiplicador desses novos fluxos conjugados, transpor um novo limiar qualitativo e crítico sobre a visão do passado Africano. Por outro lado, quase tão importante quanto a grande quantidade de documentos novos será a atitude dos pesquisadores ao examiná-los, e assim que numerosos textos explorados desde o século XIX ou mesmo depois, mas ainda no período colonial, reclamam imperiosamente uma releitura expurgada de qualquer preconceito anacrônico e marcada por uma visão endógena. Assim sendo, as fontes escritas a partir das escrituras subsaarianas (vai, bamum, ajami) não devem ser negligenciadas.
A Arqueologia
Os testemunhos mudos revelados pela arqueologia são em geral mais eloqüentes ainda do que os testemunhos oficiais dos autores de certas crônicas. A arqueologia, por suas prestigiosas descobertas, já deu uma contribuição valiosa à história Africana, sobretudo quando não há crônica oral ou escrita disponível (como é o caso de milhares de anos do passado Africano). Apenas objetos-testemunho, enterrados com aqueles a quem testemunham, velam sob o pesado sudário de terra por um passado sem rosto e sem voz. Alguns deles são particularmente significativos como indicadores e medidas da civilização: objetos de ferro e a tecnologia envolvida em sua fabricação, cerâmicas com suas técnicas de produção e estilos, peças de vidro, escrituras e estilos gráficos, técnicas de navegação, pesca e tecelagem, produtos alimentícios, e também estruturas geomorfológicas, hidráulicas e vegetais ligadas à evolução do clima. A linguagem dos achados arqueológicos possui, por sua própria natureza, algo de objetivo e irrecusável. Assim, o estudo da tipologia das cerâmicas e dos objetos de osso e metal encontrados na região nígero-chadiana do Saara demonstra a ligação entre os povos pré-islâmicos (Sao) da bacia chadiana e as áreas culturais que se estendem até o Nilo e o deserto líbio. Estatuetas de argila cozida com talabartes cruzados, ornatos corporais das estatuetas, formas de vasos e braceletes, arpões e ossos, cabeças ou pontas de flechas e facas de arremesso ressuscitam assim, graças a seus parentescos, as solidariedades vivas de épocas antigas 9, para além desta paisagem contemporânea massacrada pela solidão e pela inércia. Diante disso, a localização, a classificação e a proteção dos sítios arqueológicos Africanos se impõem como prioridade de grande urgência, antes que predadores ou profanos irresponsáveis e turistas sem objetivos científicos os pilhem e os desorganizem, despojando-os, dessa maneira, de qualquer valor histórico sério. Mas a exploração destes sítios por projetos prioritários de escavação em grande escala só poderá desenvolver-se no contexto de programas interAfricanos sustentados por poderosa cooperação internacional.
A tradição oral
Paralelamente às duas primeiras fontes da história Africana (documentos escritos e arqueologia), a tradição oral aparece como repositório e o vetor do capital de criações sócio-culturais acumuladas pelos povos ditos sem escrita: um verdadeiro museu vivo. A história falada constitui um fio de Ariadne muito frágil para reconstituir os corredores obscuros do labirinto do tempo. Seus guardiões são os velhos de cabelos brancos, voz cansada e memória um pouco obscura, rotulados às vezes de teimosos e meticulosos (veilesse oblige): ancestrais em potencial. São como as derradeiras ilhotas de uma paisagem outrora imponente, ligada em todos os seus elementos por uma ordem precisa e que hoje se apresenta erodida, cortada e devastada pelas ondas mordazes do "modernismo". Fósseis em sursis!
Cada vez que um deles desaparece, é uma fibra do fio de Ariadne que se rompe, é literalmente um fragmento da paisagem que se torna subterrâneo. Indubitavelmente, a tradição oral é a fonte histórica mais íntima, mais suculenta e melhor nutrida pela seiva da autenticidade. "A boca do velho cheira mal"- diz um provérbio Africano - "mas ela profere coisas boas e salutares".
Por mais útil que seja, o que é escrito se congela e se desseca. A escrita decanta, disseca, esquematiza e petrifica: a letra mata. A tradição reveste de carne e de cores, irriga de sangue o esqueleto do passado. Apresenta sob as três dimensões aquilo que muito freqüentemente é esmagado sobre a superfície bidimensional de uma folha de papel. A alegria da mãe de Sundiata, transtornada pela cura súbita de seu filho, ecoa ainda no timbre épico e quente dos griots * do Mali. É claro que muitos obstáculos devem ser ultrapassados para que se possa peneirar criteriosamente o material da tradição oral e separar o bom grão dos fatos, da palha das palavras-armadilhas – falsas Janelas abertas para a simetria -, do brilho e das lantejoulas de fórmulas que constituem apenas a embalagem circunstancial de uma mensagem vinda de longe.
Costuma-se dizer que a tradição não inspira confiança porque ela é funcional; como se toda mensagem humana não fosse funcional por definição, Incluindo-se nessa funcionalidade os documentos de arquivos que, por sua própria inércia e sob sua aparente neutralidade objetiva, escondem tantas mentiras por omissão e revestem o erro de respeitabilidade. Certamente, a tradição épica em particular é uma recriação paramítica do passado. Uma espécie de psicodrama que revela à comunidade suas raízes e o corpo de valores que sustenta sua personalidade: um viático encantado para singrar o rio do tempo em direção ao reino dos ancestrais. É por isto que a palavra épica não coincide exatamente com a palavra histórica: cavalga-a através de projeções anacrônicas a montante e a jusante do tempo real, com interpenetrações que se assemelham às perturbações do relevo em arqueologia. E os escritos, escaparão eles próprios a essas intrusões enigmáticas? Aqui, como em toda parte, é preciso procurar a palavra fóssil-guia, tentar encontrar a pedra de toque que identifica o metal puro e rejeita a ganga e a escória.
Certamente, no discurso épico, a fragilidade do encadeamento cronológico constitui seu verdadeiro calcanhar de Aquiles; as seqüências temporais subvertidas criam um quebra-cabeças onde a imagem do passado não nos chega de modo claro e estável como num espelho de boa qualidade, mas como um reflexo fugaz que dança sobre a agitação da água. A duração média dos reina- dos ou das gerações constitui um domínio extremamente controvertido no qual as extrapolações feitas a partir de períodos recentes são muito pouco seguras, em razão das mutações demográficas e políticas. Por vezes, um dinasta excepcional e carismático polariza sobre si os feitos mais notáveis de seus predecessores e sucessores que, assim, são literalmente eclipsados. É o que acontece com certos dinastas de Ruanda, como Da Monzon, rei de Segu (início do século XIX), a quem os griots atribuem toda a grande conquista desse reino.
Por outro lado, o texto literário oral retirado de seu contexto é como peixe fora da água: morre e se decompõe. Isolada, a tradição assemelha-se a essas máscaras Africanas arrebatadas da comunhão dos fiéis para serem expostas à curiosidade dos não iniciados. Perde sua carga de sentido e de vida. Por sua própria existência e por ser sempre retomada por novas testemunhas que se encarregam de sua transmissão, a tradição adapta-se às expectativas de novos auditórios - adaptação essa que se refere primordialmente à apresentação da mensagem, mas que não deixa intacto o conteúdo. E não vemos também mercadores ou mercenários da tradição que servem à vontade versões de textos escritos reinjetados na própria tradição?!
Enfim, o próprio conteúdo da mensagem permanece freqüentemente hermético, esotérico mesmo. Para o Africano, a palavra é pesada. Ela é fortemente .ambígua, podendo fazer e desfazer, sendo capaz de acarretar malefícios. É por isso que sua articulação não se dá de modo aberto e direto. A palavra é envolvida por apologias, alusões, subentendidos e provérbios claro-escuros para as pessoas comuns, mas luminosos para aqueles que se encontram munidos das antenas da sabedoria. Na África, a palavra não é desperdiçada. Quanto mais se está em posição de autoridade, menos se fala em público. Mas quando se diz a alguém: "Você comeu o sapo e jogou a cabeça fora", a pessoa compreende que está sendo acusada de se furtar a uma parte de suas responsabilidades 10.
Esse hermetismo das "meias-palavras" indica, ao mesmo tempo, o valor inestimável e os limites da tradição oral, uma vez que sua riqueza é praticamente impossível de ser transferida integralmente de uma língua para outra, sobretudo quando esta outra se encontra estrutural e sociologicamente distante. A tradição acomoda-se muito pouco à tradução. Desenraizada, ela perde sua seiva e sua autenticidade, pois a língua é a "morada do ser". Aliás, muitos dos erros que são imputados à tradição são provenientes de intérpretes incompetentes ou inescrupulosos.
Seja como for, a validade da tradição oral está amplamente provada nos dias atuais. Ela é largamente comprovada pelo confronto com as fontes arqueológicas ou escriturais, como no caso do sítio de Kumbi Saleh, dos vestígios do lago Kisale, ou mesmo dos acontecimentos do século XVI transmitidos pelos Shona, cuja conformidade com os documentos escritos por viajantes portugueses daquela época foi verificada por D. P. Abraham.
Em suma, o discurso da tradição, seja ela épica, prosaica, didática ou ética, pode ser histórico sob um tríplice ponto de vista. Em primeiro lugar, ele é revelado r do conjunto de usos e valores que animam um povo e que condicionam seus atos futuros pela representação dos arquétipos do passado. Fazendo isso, a epopéia não só reflete, mas também cria a história. Quando Da Monzon é tratado de "senhor das águas e dos homens", expressa-se com isso o caráter absoluto de seu poder. Contudo, essas mesmas narrativas mostram-no consultando incessantemente seus guerreiros, seus griots, suas mulheres 11. O senso de honra e de reputação explode na famosa réplica do "canto do arco" em louvor a Sundiata (Sundiata Fasa): "Saya Kaoussa maIo yé" 12. Esse valor também se exprime muito bem no episódio da luta de Bakary Dian contra os Peul do Kournari. Ressentido, o bravo Bakary retirara-se para sua aldeia, Dongorongo; diante das súplicas de seu povo para que retomasse o comando das tropas de Segu, cedeu apenas quando foi tocado na corda sensível do orgulho e da glória: "As velhas palavras trocadas, esquece-as. É o teu nome agora que precisa ser considerado; pois vem-se ao mundo para construir um nome. Se nasces, cresces e morres sem ter um nome, vieste por nada, partiste por nada". Bakary, então, exclama: "Griots de Segu, já que vós vistes, não será impossível. Farei o que me pedis, por meu renome. Não o farei por Da Monzon. Não o farei por ninguém em Segu. Fá-lo-ei somente por minha reputação. Mesmo depois de minha morte, isso será acrescentado ao meu nome". Encontramos um traço similar de civilização e lei, quando Silamaka diz: "Tendes sorte que me seja proibido matar mensageiros".
Em suma, a recomposição do passado está longe de ser integralmente imaginária. Encontram-se aí fragmentos de lembranças, filões de história que freqüentemente são mais prosaicos que os ornamentos coloridos da imaginação épica: "Foi assim que surgiu essa instituição de pastores coletivos nas aldeias bambara. Se eras escolhido e feito pastor, tornavas-te Peul público. Os Peul públicos guardavam os rebanhos do rei. Eram homens de etnias diferentes, e seu pastor chefe chamava-se Bonke". Ou ainda "Nessa época não se usavam babuchas, mas chinelas de couro de boi curtido, com um cordão na parte da frente (em tomo do dedo grande do pé) e um outro no calcanhar". Enfim, a narrativa épica é salpicada de alusões a técnicas, a objetos que não são essenciais ao desenvolvimento da ação, mas que dão indícios sobre o modo de vida. "Ele (Da Monzon) convocou seus sessenta remadores Somono, trinta homens na proa e trinta na popa. A piroga estava ricamente decorada". "As escadas são preparadas e colocadas contra a muralha. Os caçadores de Segu sobem de surpresa e infiltram-se na cidade (. . . ). Os cavaleiros de Segu lançam flechas flamejantes. As casas da aldeia pegam fogo". Saran, a mulher apaixonada por Da Monzon, vai umedecer a pólvora dos fuzis dos guerreiros de Kore. É por um diagnóstico rigoroso - que às vezes se vale da análise psicanalítica e neste caso considera as próprias psicoses do público ou dos transmissores da tradição - que o historiador pode atingir a medula substantiva da realidade histórica.
Por conseguinte, a multiplicidade de versões transmitidas por clãs adversários, por exemplo, pelos griots-clientes de cada nobre protetor (horon, dyatigui), longe de constituir uma desvantagem, representa uma garantia suplementar para a crítica histórica. E a conformidade das narrativas, como no caso dos griots bambara e peul, que pertencem a campos inimigos, dá um realce particular à qualidade desse testemunho. A história falada, por sua própria poligênese, comporta elementos de autocensura, como mostra o caso dos Gouro, entre os quais a tradição esotérica liberal e integracionista, transmitida pelas linhagens, coexiste com a tradição esotérica oligárquica e meticulosa da sociedade secreta. Na verdade, não se trata de uma propriedade privada, mas de um bem indiviso pelo qual respondem diversos grupos da comunidade.
O essencial é proceder à crítica interna desses documentos através do conhecimento íntimo do gênero literário em questão, sua temática e suas técnicas, seus códigos e estereótipos, as fórmulas de execução, as digressões convencionais, a língua em evolução, o público e o que ele espera dos transmissores da tradição. E sobretudo a casta destes últimos, suas regras de conduta, sua formação, seus ideais, suas escolas. Sabe-se que no Mali e na Guiné, por exemplo - em Keyla, Kita, Niagassola, Niani, etc. -, existem há séculos verdadeiras escolas de iniciação.
Essa tradição rígida, institucionalizada e formal é geralmente melhor estruturada e sustentada pela música de corte que se integra a ela, que a escande em partes didáticas e artísticas. Alguns dos instrumentos utilizados, como o Sosso BaIla (balafo de Sumauro Kante), são em si mesmos, por sua Antigüidade, monumentos dignos de uma investigação de tipo arqueológico. Mas as correspondências entre tipos de instrumento e tipos de música, de cantos e de danças constituem um mundo minuciosamente regulado, no qual as anomalias e as adições posteriores são facilmente detectadas. Cada gênero literário oral possui, assim, um instrumento específico em cada região cultural: o baila (xilofone) ou o bolon (harpa-alaúde) para a epopéia mandinga; o bendré dos Mossi (grande tambor redondo de uma só face, feito com uma cabaça e tocado com as mãos nuas) para a exaltação, muitas vezes silenciosa, dos nomes de guerra (zabyouya) dos soberanos; o mvet (harpa-cítara) para os poetas, músicos dos Fang em suas Nibelungen tropicais. Veículos da história falada, esses instrumentós são venerados e sagrados. Com efeito, incorporam-se ao artista, e seu lugar é tão importante na mensagem que, graças às línguas tonais, a música torna-se diretamente inteligível, transformando-se o instrumento na voz do artista sem que este tenha necessidade de articular uma só palavra. O tríplice ritmo tonal, de intensidade e de duração, faz-se então música significante, nessa espécie de "semântico-melodismo" de que falava Marcel Jousse. Na verdade, a música encontra-se de tal modo integrada à tradição que algumas narrativas somente podem ser transmitidas sob a forma cantada. A própria canção popular, que exprime a "vontade geral" de forma satírica, às vezes temperada de humor negro, e que permaneceu vigorosa mesmo com as lutas eleitorais do século XX, é um gênero precioso, que contrabalança e completa as afirmações dos "documentos" oficiais.
O que se diz aqui sobre a música vale também para outras formas de expressão, como as artes plásticas, cujas produções são, por vezes, a expressão direta de personagens, de acontecimentos ou de culturas históricas, como nos reinos de Abomey e do Benin (baixos-relevos) ou na nação Kuba (esculturas).
Em poucas palavras; a tradição oral não é apenas uma fonte que se aceita por falta de outra melhor e à qual nos resignamos por desespero de causa. É uma fonte integral, cuja metodologia já se encontra bem estabelecida e que confere à história do continente Africano uma notável originalidade.
A lingüística
A história da África tem na lingüística não apenas uma ciência auxiliar, mas uma disciplina autônoma que, no entanto, a conduz diretamente ao âmago de seu próprio objeto. Percebe-se bem isso no caso da Núbia, que se encontra amortalhada no duplo silêncio opaco das ruínas de Meroé e da escrita meroítica não decifrada porque a língua permanece desconhecida 13. É claro que há muito a ser feito nesse campo, começando pela catalogação científica das línguas. Na verdade, não é necessário sacrificar a abordagem descritiva à abordagem comparatista e sintética com pretensões tipológicas e genéticas. É por meio de uma análise ingrata e minuciosa do fato lingüístico, "com seu significante de consoantes, vogais e tons, com suas latitudes combinatórias em esquemas sintagmáticos, com seu significado vivido pelos falantes de uma determinada comunidade" 14, que se pode fazer extrapolações retroativas, operação que muitas vezes se toma difícil pela falta de conhecimento histórico profundo dessas línguas. De modo que elas só podem ser comparadas a partir de seu extrato contemporâneo pelo método sincrônico, base indispensável para toda síntese diacrônica e genética. A tarefa é árdua, e é compreensível que duelos de erudição aconteçam em algumas áreas, particularmente no que diz respeito à língua bantu. Malcolm Guthrie, por exemplo, sustenta a teoria da autogênese, enquanto Joseph Greenberg defende com veemência a tese de que as línguas bantu devem ser colocadas num contexto continental mais amplo. Isto se justifica, diz Greenberg, pelo fato de as semelhanças existentes não serem analogias acidentais resultantes de influências externas, mas derivarem de um parentesco genético intrínseco, expresso em centenas de línguas - desde o wolof até o baka (República do Sudão) - pelas similitudes dos pronomes, do vocabulário de base e das características gramaticais, como o sistema de classes nominais. Para o historiador, todos esses debates não são meros exercícios acadêmicos. Um autor que se baseie, por exemplo, na distribuição dos grupos de palavras análogas que designam o carneiro na África central na orla da floresta, constatará que esses grupos homogêneos não ultrapassam a franja vegetal, mas distribuem-se paralelamente a ela. Isto sugere uma distribuição dos rebanhos de acordo com os paralelos dos dois biótopos contíguos da savana e da floresta, ao passo que, mais a leste, o padrão lingüístico ordena-se claramente em faixas meridianas da África oriental para a África austral, o que supõe um caminho de introdução perpendicular à primeira, e ilustra a contrario o papel inibidor da floresta na transmissão das técnicas 15. Esse papel, no entanto, não é idêntico para todas as técnicas. Em suma, os estudos lingüísticos demonstram que as rotas e os caminhos das migrações, assim como a difusão de culturas materiais e espirituais, são marcados pela distribuição de palavras aparentadas. Daí a importância da análise lingüística diacrônica e da glotocronologia para o historiador que deseja compreender a dinâmica e o sentido da evolução.
J. Greenberg, por exemplo, trouxe à luz as contribuições do kanuri ao haussa em relação a termos culturais e a termos da técnica militar, contribuições essas que valorizam a influência do império de Bornu no desenvolvimento dos reinos haussa. Em particular, os títulos das dinastias de Bornu, incluindo termos kanuri como kaygamma, magira, etc., conheceram uma notável difusão até o coração do Camarões e da Nigéria. O estudo sistemático dos topônimos e antropônimos pode também fornecer indicações bastante precisas, contanto que essa nomenclatura seja revista segundo uma abordagem endógena, pois um grande número de nomes foi deformado pela pronúncia ou redação exóticas de não-Africanos ou de Africanos que atuavam como intérpretes ou escribas. A caça à palavra correta, mesmo quando esta foi congelada pela escrita há séculos atrás, é uma das tarefas mais complexas da crítica histórica da África.
Tomemos um exemplo: a palavra "Gaoga" utilizada por Leão, o Africano, para designar um reino do Sudão tem sido freqüentemente assimilada a Gao. Mas a análise desse topônimo a partir do teda e do kanuri permite localizar também um reino chamado Gaoga entre o Uadai (Chade), o Darfur (Sudão) e o Fertit (República Centro-Africana) 16. Quanto à referência ao Iêmen para designar o país de origem de numerosas dinastias sudanesas, um reexame sério desse problema tem sido feito desde H. R. Palmer. Não se deveria interpretar a palavra "Yemen" não mais segundo as evocações religiosas dos cronistas muçulmanos orientados em direção à Arabia Felix, e sim em referência ao antigo país de Yam (daí Yamem)? 17
Também o exame do léxico swahili, recheado de termos de origem árabe, e do léxico das regiões da costa oriental malgaxe (Antemoro, Antalaotra, Anosy), banhada por influências árabes, revela-se uma fonte rica de ensinamentos para o historiador.
De qualquer maneira, a lingüística, que já prestou um bom serviço à história da África, deve desvencilhar-se de início do desprezo etnocentrista que marcou a lingüística Africana elaborada por A. W. Schlegel e Auguste Schleicher, segundo a qual "as línguas da família indo-européia estão no topo da evolução, e as línguas dos negros, no ponto mais baixo da escala, apresentando estas, entretanto, o interesse de - segundo alguns - revelar um estado próximo ao estado original da linguagem, em que as línguas não teriam gramática, o discurso seria uma seqüência de monossílabos e o léxico estaria restrito a um inventário elementar" 18.
A antropologia e a etnologia
O mesmo comentário aplica-se a fortiori à antropologia e à etnologia. Na verdade, o discurso etnológico 19 tem sido, por força das circunstâncias, um discurso com premissas explicitamente discriminatórias e conclusões implicitamente políticas, havendo entre ambas um exercício "científico" forçosamente ambíguo. Seu principal pressuposto era muitas vezes a evolução linear: à frente da caravana da humanidade ia a Europa, pioneira da civilização, e atrás os povos "primitivos" da Oceania, Amazônia e África. Como se pode ser índio, negro, papua, árabe? O "outro", atrasado, bárbaro, selvagem em diversos graus, é sempre diferente, e por essa razão torna-se objeto de interesse do pesquisador ou de cobiça do traficante. A etnologia recebeu, assim, procuração geral para ser o ministério da curiosidade européia diante dos "nossos nativos". Apreciadora dos estados miseráveis, da nudez e do folclore, a visão etnológica era muitas vezes sádica, lúbrica e, na melhor das hipóteses, um pouco paternalista. Salvo exceções, as dissertações e os relatórios resultantes justificavam o status quo e contribuíam para o "desenvolvimento do subdesenvolvimento" 20. O evolucionismo à Darwin, apesar de seus grandes méritos, o difusionismo de sentido único, que tem visto muitas vezes a África como o escoadouro passivo das invenções de outros lugares, o funcionalismo de Malinowski e de Radcliffe-Brown, enfim, que negava toda dimensão histórica às socIedades primitivas, todas essas escolas se adaptavam naturalmente à situação colonial na qual proliferavam como num terreno fértil 21. Suas abordagens, muito pobres afinal para a compreensão das sociedades exóticas, desqualificavam-se ainda mais pelo fato de as sociedades pelas quais tinham maior interesse serem exatamente as mais insólitas, isto é, os protótipos de uma humanidade instalada no elementar. Tais protótipos, contudo, constituíam apenas microrganismos, com um papel histórico não desprezível - por vezes mesmo notável - mas na maioria dos casos marginal em relação aos conjuntos sócio-políticos mais poderosos e melhor engajados no curso da história.
Desse modo, toda a África foi simbolizada por imagens que os próprios Africanos podiam considerar estranhas, exatamente como se a Europa fosse definida no começo do século XX pelos costumes à mesa e pelas formas de moradia ou pelo nível técnico das comunidades do interior da Bretanha, do Cantal ou da Sardenha. Além disso, o método etnológico baseado na entrevista individual, marcado com o selo de uma experiência subjetiva total porque intensa, mas total apenas no nível do microcosmo, desemboca em conclusões "objetivas" muito frágeis para que possam ser extrapoladas.
Enfim, por uma dialética implacável, o próprio objeto da etnologia, sob a influência colonial, desvanecia-se pouco a pouco. Os indígenas primitivos, que viviam da coleta e da caça, e mesmo do "canibalismo", transformavam-se aos poucos em subproletários dos centros periféricos de um sistema mundial de produção cujos pólos estão situados no hemisfério norte. A ação colonial consumia e aniquilava seu próprio objeto. Por isso, aqueles que haviam sido incumbidos do papel de objetos, os Africanos, decidiram iniciar, eles próprios, um discurso autônomo na qualidade de sujeitos da história, pretendendo mesmo que, em certos aspectos, os mais primitivos não são exatamente os que se imagina. Ao mesmo tempo, pioneiros como Frobenius, Delafosse, Palmer, Evans Pritchard, que, sem preconceitos, haviam trabalhado na descoberta de um fio histórico e de estruturas originais nas sociedades Africanas com ou sem Estado, continuavam seus esforços, retomados e aperfeiçoados por outros pesquisadores contemporâneos. Estes acreditam que se podem atingir resultados objetivos aplicando os mesmos instrumentos intelectuais das ciências humanas, mas adaptando-os à matéria Africana. Derrubam assim, de uma só vez, as abordagens errôneas baseadas na diferença congênita e substantiva dos "nativos" ou em seu primitivismo na rota da civilização. Basta reconhecer que se o ser dos Africanos é o mesmo - o do Homo sapiens - seu "ser-no-mundo" é diferente. A partir daí novos instrumentos podem ser aperfeiçoados para apreender sua evolução singular.
Ao mesmo tempo, a abordagem marxista, com a condição de não ser dogmática, e a abordagem estruturalista de Lévi-Strauss contribuem também com observações válidas, mas opostas, sobre a evolução dos povos ditos sem escrita. O método marxista, essencialmente histórico e para o qual a história é a consciência coletiva em ação, insiste muito mais nas forças produtivas e nas relações de produção, na práxis e nas normas; o método estruturalista, por sua vez, quer desvendar os mecanismos inconscientes mas lógicos, os conjuntos coerentes que sustentam e enquadram a ação dos espíritos e das sociedades. Bebendo nessas novas fontes, a antropologia será, esperamos, algo mais que uma Fênix que, em defesa da causa, haja renascido das cinzas de um certo tipo de etnologia 22.
A antropologia deve criticar seu próprio procedimento, insistir tanto nas normas quanto nas práticas, não confundir as relações sociais, decifráveis pela experiência, e as estruturas que as sustentam. Ela enriquecerá assim, umas através das outras, as normas, estruturas e opiniões, por meio da ampla utilização das técnicas quantitativas e coletivas de pesquisa, racionalizando e objetivando o discurso. Não apenas as interações dos fatores globais, mas também a síntese histórica, interessam particularmente à antropologia. Por exemplo, pode-se constatar uma correspondência entre a existência de rotas comerciais com monopólio real de certas mercadorias e as formas políticas centralizadas (em Gana e no Mali antigos, no Império Ashanti do século XVIII, no Reino Lunda do Zaire, etc.). Enquanto isso - contraprova decisiva - em oposição aos Ngonde e aos Zulu, povos de línguas e costumes idênticos (os Nyakusa e os Xhosa) mas que viviam à margem dessas rotas, não atingiram uma fase monárquica 23. A partir disso, podemos tentar inferir uma espécie de "lei" de antropologia ou de sociologia política. Por outro lado, as estruturas de parentesco podem acarretar um grande número de conseqüências sobre a evolução histórica. Assim, quando dois grupos de línguas diferentes se encontram, a forma de união conjugal entre esses grupos geralmente decide qual será a língua dominante, pois a língua materna só poderá impor-se se as mulheres forem tomadas como esposas e não como escravas ou concubinas. Assim, certos grupos Nguni conservaram sua língua de origem, enquanto outros, que desposaram mulheres sotho, perderam sua língua em favor da língua sotho. É também o caso dos pastores peul vindos de Macina e de Futa Djalon, que tomaram suas esposas entre os Mandinga e criaram a província de Uassulu: eles são peul apenas pelo nome e por certos traços físicos, já que perderam sua língua de origem em favor do malinke ou do bambara.
Dessa forma, as principais fontes da história da África mencionadas acima não podem ser classificadas a priori de acordo com uma escala de valores que privilegie permanentemente uma ou outra. Torna-se necessário julgar caso por caso. Na verdade, não se trata de testemunhos de tipos radicalmente diferentes. Todas correspondem à definição de signos que nos chegam do passado e que, enquanto veículos de mensagens, não são inteiramente neutros, mas carregados de intenções francas ou ocultas. Todas necessitam então da crítica metodológica. Cada categoria de fonte pode conduzir às demais: a tradição oral, por exemplo, tem levado muitas vezes a depósitos arqueológicos e pode até auxiliar na comparação de certos documentos escritos. Assim, o grande Ibn Khaldun escreve, na História dos Berberes, sobre Sundiata: "Seu filho Mança Ueli o sucedeu. Mança em sua língua escrita significa sultão e Ueli é o equivalente de Ali". Todavia os transmissores da tradição ainda hoje explicam que Mansa Ule significa "o rei de pele clara".
Os quatro grandes princípios
Quatro princípios devem nortear a pesquisa, se se quer levar adiante a frente pioneira da historiografia da África.
Primeiramente, a interdisciplinaridade, cuja importância é tal que chega quase a constituir por si só uma fonte específica. Assim, a sociologia política aplicada à tradição oral no Reino de Segu enriqueceu consideravelmente uma visão que, sem isso, limitar-se-ia às linhas esqueléticas de uma árvore genealógica marcada por alguns feitos estereotipados. A complexidade, a interpenetração de estruturas às vezes modeladas sobre hegemonias antigas (o modelo mali, por exemplo) aparecem, assim, em sua realidade concreta e viva. Da mesma forma, no caso dos países do delta do Níger, as tradições orais permitem completar o conjunto de fatores de desenvolvimento, demasiadamente reduzidos às influências do comércio negreiro e do óleo de palmeira; as relações endógenas anteriores no sentido norte-sul e leste-oeste até Lagos e a região de Ijebu são atestadas pela tradição oral, que apóia e enriquece admiravelmente as alusões de Pacheco Pereira no Esmeraldo 24.
E foi exatamente um elemento de antropologia cultural (o texto de iniciação dos pastores peul 25) que permitiu a certos pré-historiadores interpretarem corretamente os enigmas dos afrescos do Tassili: animais sem patas do quadro chamado O Boi e a Hidra, o mágico U de Ouan Derbaouen, etc.
Assim, decorridos mais de 10 mil anos, os ritos de hoje permitem identificar as cinco irmãs míticas dos sete filhos do ancestral Kikala nas cinco maravilhosas dançarinas dos afrescos de Jabbaren.
A expansão dos Bantu, atestada pelas fontes concordantes da lingüística, da tradição oral, da arqueologia e da antropologia, bem como pelas primeiras fontes escritas em árabe, português, inglês e pelos africânderes, torna-se uma realidade palpável susceptível de ser ordenada numa síntese cujas arestas se mostram mais nítidas no encontro desses diferentes planos. Do mesmo modo, os argumentos lingüísticos juntam-se aos da tecnologia para sugerir uma difusão dos gongos reais e sinos cerimoniais geminados a partir da África ocidental em direção ao baixo Zaire, ao Shaba e a Zâmbia. Mas as provas arqueológicas trariam, evidentemente, uma confirmação inestimável para tal fato. Essa combinação de fontes impõe-se ainda mais quando se trata de minorar as dificuldades relativas à cronologia. Não é sempre que dispomos de datas determinadas pelo carbono 14. E quando existem, estas devem ser interpretadas e confrontadas com dados de outras fontes, como a metalurgia ou a cerâmica (materiais e estilos). E não é sempre que podemos contar, como ao norte do Chade 26, com enormes quantidades de fragmentos de cerâmicas que permitem construir uma tipologia representada numa escala cronológica de seis níveis. Uma excelente demonstração desta conjugação de todas as fontes disponíveis é a que permite estabelecer uma tipologia diacrônica dos estilos pictóricos e cerâmicos e confrontá-los para extrair uma série cronológica que se estende por oito milênios, sendo o todo sustentado pelas sondagens estratigráficas e confirmado pelas datações de carbono 14 e pelo estudo da flora, da fauna, do habitat e da tradição oral 27.
Às vezes, o mapa dos eclipses datados e visíveis em regiões específicas permite comprovações excepcionais quando tais acontecimentos são relacionados com o reinado deste ou daquele dinasta. Em geral, porém, a cronologia não é acessível sem a mobilização de várias fontes, ainda mais porque a duração média das gerações ou dos reinados é susceptível de variações, a natureza da relação entre os soberanos que se sucedem nem sempre é precisa, o sentido da palavra filho pode não ser biológico mas sociológico, às vezes três ou quatro nomes ou "nomes fortes" são atribuídos ao mesmo rei, ou ainda porque, como entre os Bemba, a lista dos candidatos à chefia incorpora-se à lista dos chefes.
Sem minimizar a importância da cronologia, espinha dorsal da matéria histórica, e sem renunciar aos esforços para assentá-la sobre bases rigorosas, será preciso, no entanto, sucumbir à psicose da precisão a qualquer preço, que corre então o risco de ser uma falsa precisão? Por que obstinar-se em escrever 1086 para a queda de Kumbi Saleh em vez de dizer "no fim do século XI"? Nem todas as datas têm, aliás, a mesma importância. O grau de precisão requerido em cada caso não é o mesmo, nem todas as datas devem ser erigidas em estátua.
Por outro lado, é importante reintegrar todo o fluxo do processo histórico no contexto do tempo Africano, que não é alérgico à articulação do acontecimento numa seqüência de fatos que originam uns aos outros por antecedência e causalidade. De fato, os Africanos têm uma idéia do tempo baseada no princípio da causalidade. Este último, contudo, é aplicado de acordo com normas originais, em que o contágio do mito impregna e deforma o processo lógico; em que o nível econômico elementar não cria a necessidade do tempo demarcado, matéria-prima do lucro; em que o ritmo dos trabalhos e dos dias é um metrônomo suficiente para a atividade humana; em que calendários, que não são nem abstratos nem universalistas, são subordinados aos fenômenos naturais (lunações, sol, seca), aos movimentos dos animais e das pessoas. Cada hora é definida por atos concretos. Em Burundi, por exemplo, país essencialmente rural, o tempo é marcado pela vida pastoril e agrícola: Amakana (hora da ordenha: 7 horas); Maturuka (saída dos rebanhos: 8 horas); Kuasase (quando o sol se alastra: 9 horas); Kumusase (quando o sol se espalha sobre as colinas: 10 horas); etc. Em outros lugares, os nomes das crianças são função do dia do nascimento, do acontecimento que o precedeu ou sucedeu. Os muçulmanos na África do Norte acham muito natural chamar suas crianças pelo nome do mês em que nasceram: Ramdane, Chabane, Mulud.
Essa concepção do tempo é histórica em muitos aspectos. Nas sociedades africanas gerontocráticas, a noção de anterioridade no tempo é ainda mais carregada de sentido que em outros lugares, pois nela estão baseados os direitos Sociais, como o uso da palavra em público, a participação numa dança reservada, o acesso a certas iguarias, o casamento, o respeito de outrem, etc. Além disso, a primogenitura não é, na maioria das vezes, um direito exclusivo na sucessão real; o número dos pretendentes (tios, irmãos, filhos) é sempre grande e a Idade e levada em conta no contexto de uma competição bastante aberta. Decorre daí uma preocupação ainda maior com a cronologia. Mas não há necessidade de saber que alguém nasceu em determinado ano: o essencial é pro.var que nasceu antes de determinada pessoa. As referências a uma cronologia absoluta impõem-se apenas no caso de sociedades mais amplas e mais anônimas.
Essa concepção do tempo social não é estática, pois no contexto da filosofia Africana pandinamista do universo, cada um deve aumentar incessantemente sua forma vital, que é eminentemente social, o que inclui a idéia de progresso dentro e através da comunidade. Como diz Bakary Dian: "Mesmo depois de minha morte, isso será acrescentado ao meu nome". Em algumas línguas, a mesma palavra (bogna em bambara, por exemplo) designa o dom material, a honra, o crescimento.
A contagem das estações do ano é muitas vezes baseada na observação astronômica, podendo abranger uma série de constelações, como a Ursa Maior; entre os Komo (alto Zaire), as Plêiades, que são comparadas a um cesto de machetes, anunciam a hora de afiar tais instrumentos para o arroteamento dos campos. Em caso de necessidade, essa concepção do tempo é mais matemática. Como exemplo, podemos citar os entalhes em madeiras especiais conservadas como arquivos nas grutas da região dos Dogon ou o depósito anual de uma pepita de ouro num pote de estanho na capela dos tronos no reino de Bono Mansu, ou de uma pedra num jarro, na cabana dos reis na região mandinga; sem contar, evidentemente, as importantes realizações nesse campo do Egito faraônico e dos reinos muçulmanos (almóada, por exemplo). Se pensarmos na dificuldade em converter uma seqüência de durações numa sucessão de datas e ainda na necessidade de encontrar um ponto fixo de referência, verificaremos que este último é, na maior parte do tempo, fornecido por um fato externo datado, como o ataque ashanti contra Bono Mansu.
Na verdade, somente a utilização da escrita e o acesso às religiões "universalistas" que dispõem de um calendário dependente de um terminus a quo preciso, assim como a entrada no universo do lucro e da acumulação monetária, remodelaram a concepção "tradicional" do tempo. Em sua época, porém, tal concepção respondia adequadamente às necessidades das sociedades em questão.
Outra exigência imperativa é que essa história seja enfim vista do interior, a partir do pólo Africano, e não medida permanentemente por padrões de valores estrangeiros; a consciência de si mesmo e o direito à diferença são pré-requisitos indispensáveis à constituição de uma personalidade coletiva autônoma. Certamente, a opção e a óptica de auto-exame não consistem em abolir artificialmente as conexões históricas da África com os outros continentes do Velho e do Novo Mundo. Mas tais conexões serão analisadas em termos de intercâmbios recíprocos e de influências multilaterais, nas quais as contribuições positivas da África para o desenvolvimento da humanidade não deixarão de aparecer. A atitude histórica Africana não será então uma atitude vingativa nem de auto-satisfação, mas um exercício vital da memória coletiva que varre o campo do passado para reconhecer suas próprias raízes. Após tantas visões exteriores que têm modelado a marca registrada da África a partir de interesses externos (até nos filmes contemporâneos), é tempo de resgatar a visão interior de identidade, de autenticidade, de conscientização: "volta repatriadora", como diz Jacques Berque para designar esse retorno às raízes. Ao considerar o valor da palavra e do nome na África, ao pensar que atribuir nome a uma pessoa é quase apoderar-se dela - a tal ponto que os personagens venerados (pai, esposo, soberano) são designados por perífrases e cognomes -, compreenderemos por que toda a série de vocábulos ou conceitos, todo o arsenal de estereótipos e de esquemas mentais relativos à história da África, situam-se no contexto da mais sutil alienação. É preciso aqui uma verdadeira revolução copernicana, que seja primeiramente semântica e que, sem negar as exigências da ciência universal, recupere toda a corrente histórica desse continente, em novos moldes 28.
Como observava J. Mackenzie já em 1887, referindo-se aos Tsuana (Botsuana), quantos povos da África são conhecidos por nomes que eles próprios ou quaisquer outras populações Africanas jamais utilizaram! Esses povos passaram pelas pias batismais da colonização e saíram consagrados à alienação. A única saída real é escrever cada vez mais livros de história da África em línguas Africanas, o que pressupõe outras reformas de estrutura...Quantos livros de história da África dedicam generosamente um décimo de suas páginas à história pré-colonial, sob o pretexto de que é mal conhecida! Assim, damos um salto sobre "séculos obscuros" e vamos diretamente a algum explorador famoso ou procônsul, demiurgo providencial e deus ex machina, a partir do qual começa a verdadeira história, ficando o passado Africano confinado a uma espécie de pré-história desonrosa. Certamente, não se trata de negar as influências externas, que agem como fermento acelerador ou detonador. A introdução no século XVI das armas de fogo no Sudão central, por exemplo, favoreceu a infantaria formada por escravos, em prejuízo dos cavaleiros feudais. Tal mutação repercutiu na estrutura do poder através do Sudão central, tendo o kaella ou kaigamma, de origem servil, suplantado junto ao soberano o ministro nobre Cirema. Mas as explicações mecânicas a partir de influências externas (inclusive no caso dos apoios de cabeça!) e as correspondências automáticas entre os influxos exteriores e os movimentos da história da África devem ser banidas em favor de uma análise mais profunda, a fim de revelar as contradições e os dinamismos endógenos 29.
Além disso, essa história é obrigatoriamente a história dos povos Africanos em seu conjunto, considerada como uma totalidade que engloba a massa continental propriamente dita e as ilhas vizinhas como Madagáscar, segundo a definição da carta da OUA. É claro que a história da África integra o setor mediterrâneo numa unidade consagrada por muitos laços milenares, às vezes sangrentos, é verdade, mas na maioria dos casos mutuamente enriquecedores. Tais laços fazem da África, de um lado e do outro da dobradiça do Saara, os dois batentes de uma mesma porta, as duas faces de uma mesma moeda.
É necessariamente uma história dos povos, pois na África mesmo o despotismo de certas dinastias tem sido sempre atenuado pela distância, pela ausência de meios técnicos que agravem o peso da centralização, pela perenidade das democracias aldeãs, de tal modo que em todos os níveis, da base ao topo, é conselho reunido pela e para a discussão constitui o cérebro do corpo político. É uma história dos povos porque, com exceção de algumas décadas contemporâneas, não foi moldada de acordo com as fronteiras fixadas pela colonização, pelo simples motivo de que a posição territorial dos povos africanos ultrapassa em toda parte as fronteiras herdadas da partilha colonial. Assim, para tomar um exemplo entre mil, os Senufo ocupam uma área correspondente a parte do Mali, da Costa do Marfim e do Alto Volta. No contexto geral do continente, terão maior destaque os fatores comuns resultantes de origens comuns e de intercâmbios inter-regionais milenares de homens, mercadorias, técnicas, idéias, em suma, de bens materiais e espirituais. Apesar dos obstáculos impostos pela natureza e do baixo nível técnico, tem havido desde a Pré-História uma certa solidariedade continental entre o vale do Nilo e o Sudão, até a floresta da Guiné; entre esse mesmo vale e a África oriental, incluindo, entre outros acontecimentos, a dispersão dos Luo; entre o Sudão e a África central pela diáspora dos Bantu; entre a fachada atlântica e a costa oriental pelo comércio transcontinental através do Shaba.
Os fenômenos migratórios ocorridos em grande escala no espaço e no tempo não devem ser entendidos conto uma imensa onda humana atraída pelo vazio ou deixando o vazio atrás de si. Mesmo a saga torrencial de Chaka, o mfécane, não pode ser interpretada unicamente nesses termos. O movimento de grupos Mossi (Alto Volta) em direção ao norte, a partir do Dagomba e do Mamprusi (Gana), foi realizado por bandos de cavaleiros que, de etapa em etapa, foram ocupando as várias regiões; no entanto, só podiam concretizar tal ocupação amalgamando-se aos autóctones, tomando esposas nativas. Os privilégios judiciais que eles próprios se outorgavam provocaram rapidamente a proliferação de suas escarificações faciais (uma espécie de carteira de identidade), enquanto a língua, bem como as instituições dos recém-chegados, prevaleceram a ponto de eliminar as dos outros povos. Outros costumes, como os ligados aos cultos agrários ou os que regiam os direitos de estabelecimento, continuavam a ser de competência dos chefes locais, ao mesmo tempo que se instauravam relações de "parentesco de brincadeira" com certos povos encontrados pelo caminho. O grande conquistador "mossi" Ubri, aliás, já era ele próprio um "mestiço". Esse esboço de processo por osmose deve substituir quase sempre o cenário romântico e simplista da invasão niilista e devastadora, como foi longa e erradamente representada a irrupção dos Beni Hilal na África do Norte.
Os excessos da antropologia física, com seus preconceitos racistas, são hoje rejeitados por todos os autores sérios. Mas os "Hamitas" e outras "raças morenas", inventadas em defesa da causa, não cessaram de povoar as miragens e os fantasmas de espíritos ditos científicos.
"Tais categorias", declara J. Hiernaux 30 num texto importante, "não podem ser admitidas como unidades biológicas de estudo. Os Peul não constituem um grupo biológico, mas sim cultural. Os Peul do sul de Camarões, por exemplo, têm seus parentes biológicos mais próximos nos Haya da Tanzânia. Quanto à proximidade biológica entre os Mouros e os Warsingali da Somália, ela deriva tanto da hereditariedade quanto do biótopo similar que os condiciona: a estepe árida."
Há vários milênios, os dados propriamente biológicos, constantemente subvertidos pela seleção ou pela oscilação genética, não dão nenhuma referência sólida para a classificação, nem sobre o grupo sangüíneo, nem sobre a freqüência do gene Hbs, que determina uma hemoglobina anormal e que, associado a um gene normal, reforça a resistência à malária. Isto ilustra o papel importantíssimo da adaptação ao meio natural. A estatura mais elevada e a bacia mais larga, por exemplo, coincidem com as zonas de maior seca e de calor mais intenso. Neste caso, a morfologia do crânio mais estreito e mais alto (dolicocefalia) é uma adaptação que permite uma menor absorção de calor. O vocábulo "tribo" será tanto quanto possível banido desta obra, exceto no caso de certas regiões da África do Norte 31, em razão de suas conotações pejorativas e das diversas idéias falsas que o sustentam. Por mais que se destaque que a "tribo" é essencialmente uma unidade cultural e, às vezes, política, alguns continuam a vê-Ia como um estoque biologicamente distinto e destacam os horrores das "guerras tribais", cujo saldo muitas vezes se limitava a algumas dezenas de mortos ou menos que isso; esquecem, porém, todos os intercâmbios positivos que ligaram os povos Africanos no plano biológico, tecnológico, cultural, religioso, sócio-político, etc., e que dão aos empreendimentos Africanos um indiscutível ar de família.
Além do mais, esta história deverá evitar ser excessivamente factual, pois com isso correria o risco de destacar em demasia as influências e os fatores externos. Certamente, o estabelecimento de fatos chaves é uma tarefa primordial, indispensável até, para definir o perfil original da evolução da África. Mas serão tratadas com especial interesse as civilizações, as instituições, as estruturas: técnicas agrárias e de metalurgia, artes e artesanato, circuitos comerciais, formas de conceber e organizar o poder, cultos e modos de pensamento filosófico ou religioso, técnicas de modernização, o problema das nações e pré-nações, etc. Esta opção metodológica requer, com mais vigor ainda, a abordagem interdisciplinar.
Finalmente, por que esse retorno às fontes Africanas? Enquanto a busca desse passado pode ser, para os estrangeiros, uma simples curiosidade, um exercício intelectual altamente estimulante para a mente desejosa de decifrar o enigma da Esfinge, o sentido real dessa iniciativa deve ultrapassar tais objetivos puramente individuais, pois a história da África é necessária à compreensão da história universal, da qual muitas passagens permanecerão enigmas obscuros enquanto o horizonte do continente Africano não tiver sido iluminado. Além disso, no plano metodológico, a execução da história da África de acordo com as normas estabelecidas neste volume pode confirmar a estratégia dos adeptos da história total, apreendida em todos os seus estratos e em todas as suas dimensões, por todo o arsenal de instrumentos de investigação disponíveis. Dessa forma a história torna-se essa disciplina sinfônica em que a palavra é dada simultaneamente a todos os ramos do conhecimento; em que a conjunção singular das vozes se transforma de acordo com o assunto ou com os momentos da pesquisa, para ajustar-se às exigências do discurso. Mas essa reconstrução póstuma do edifício há pouco construído com pedras vivas é importante sobretudo para os Africanos, que têm nisso um interesse carnal e que penetram nesse domínio após séculos ou décadas de frustração, como um exilado que descobre os contornos ao mesmo tempo velhos e novos, porque secretamente antecipados, da almejada paisagem da pátria. Viver sem história é ser uma ruína ou trazer consigo as raízes de outros. É renunciar à possibilidade de ser raiz para outros que vêm depois. É aceitar, na maré da evolução humana, o papel anônimo de plâncton ou de protozoário. É preciso que o homem de Estado Africano se interesse pela história como uma parte essencial do patrimônio nacional que deve dirigir, ainda mais porque é pela história que ele poderá ter acesso ao conhecimento dos outros países Africanos na óptica da unidade Africana.
Mas esta história é ainda mais necessária aos próprios povos para os quais ela constitui um direito fundamental. Os Estados Africanos devem organizar equipes para salvar, antes que seja tarde demais, o maior número possível de vestígios históricos. Devem-se construir museus e promulgar leis para a proteção dos sítios e dos objetos. Devem ser concedidas bolsas de estudo, em particular para a formação de arqueólogos. Os programas e cursos devem sofrer profundas modificações, a partir de uma perspectiva Africana. A história é uma fonte na qual poderemos não apenas ver e reconhecer nossa própria imagem, mas também beber e recuperar nossas forças, para prosseguir adiante na caravana do progresso humano. Se tal é a finalidade desta História Geral da África, essa laboriosa e enfadonha busca, sobrecarregada de exercícios penosos, certamente se revelará fecunda e rica em inspiração multiforme. Pois em algum lugar sob as cinzas mortas do passado existem sempre brasas impregnadas da luz da ressurreição.
Notas
*Nota do coordenador do volume: A palavra ÁFRICA possui até o presente momento uma origem difícil de elucidar. Foi imposta a partir dos romanos sob a forma ÁFRICA, que sucedeu ao termo de origem grega ou egípcia Líbia, país dos Lebu ou Lubin do Gênesis. Após ter designado o litoral norte-Africano, a palavra África passou a aplicar-se ao conjunto do continente, desde o fim do século I antes da Era Cristã. Mas qual é a origem primeira do nome? Começando pelas mais plausíveis, pode-se dar as seguintes versões: A palavra África teria vindo do nome de um povo (berbere) situado ao sul de Cartago: os Afrig. De onde Afriga ou Africa para designar a região dos Afrig. Uma outra etimologia da palavra África é retirada de dois termos fenícios, um dos quais significa espiga, símbolo da fertilidade dessa região, e o outro, Pharikia, região das frutas. A palavra África seria derivada do latim aprica (ensolarado) ou do grego apriké (isento de frio). Outra origem poderia ser a raiz fenícia faraga, que exprime a idéia de separação, de diáspora. Enfatizemos que essa mesma raiz é encontrada em certas línguas Africanas (bambara). Em sânscrito e hindi, a raiz apara ou africa designa o que, no plano geográfico, está situado "depois", ou seja, o Ocidente. A África é um continente ocidental. Uma tradição histórica retomada por Leão, o Africano, diz que um chefe iemenita chamado Africus teria invadido a África do norte no segundo milênio antes da Era Cristã e fundado uma cidade chamada Afrikyah. Mas é mais provável que o termo árabe Afriqiyah seja a transliteração árabe da palavra África. Chegou-se mesmo a dizer que Afer era neto de Abraão e companheiro de Hércules!
1 Elogio a Sundiata. em língua malinke. Fundador do Império do Mali no século XIII, Sundiata é um dos heróis mais populares da história Africana.
2 Do árabe sahil: margem. Aqui, margem do deserto, considerado como um oceano.
3 O fator climático não deve ser negligenciado. O professor Thurstan Shaw destacou o fato de que certos cereais adaptados ao clima mediterrâneo (chuvas de inverno) não puderam ser cultivados no vale do Níger, porque ao sul do paralelo 18, latitude norte, e em virtude da barreira da frente intertropical, sua aclimatação era impossível. Cf. J. A. H. XII I, 1971. p. 143-53.
4 Sobre esse assunto ver FORD, 1971.
5 Cf. HUNWICK, J. o., 1973. p. 195-208. O autor corre o risco do argumento a silentio: “Se lbn Battuta tivesse atravessado o Níger ou o Senegal, teria feito referência a isso".
6 Cf. Unesco, Coletânea seletiva de textos em árabe proveniente dos arquivos marroquinos, pelo professor Mohammed lbraim EL KElTANI, SCH/VS/894.
7 Cf. Etudes Maliennes, I. S. H. M., n. 3, set. 1972.
8 MARTIN. B. G.. 1969. p. 15-27.
9 Cf. HUARD, P., 1969. p. 179-224.
10 Cf. AQUESSY, H.. 1972. p. 269-97.
11 Cf. KESTELOOT, L., tomos 1, 3, 4.
12 “A morte vale mais do que a desonra."
13 A Unesco organizou em 1974, no Cairo, um simpósio científico internacional para a decifração dessa língua Africana.
14 Cf. HOU1S, Maurice, 1971. p. 45.
15 Cf. EHRET. Christophe. 1963. p. 213-21.
16 Cf. KALAX. Pierre. 1972. p. 529-48.
17 Cf. MOHAMMADOU. Abbo e Eldridge. p. 130-55.
18 Cf. HOUIS, M., 1971. p. 27.
19 O termo etnia, atribuído aos chamados povos sem escrita, foi sempre marcado pelo preconceito racista: "Idólatra ou étnico", escrevia Clément Marot desde o século XVI. A etnografia é a coleta descritiva dos documentos. A etnologia é a síntese comparativa.
20 Cf. COPANS, J., 1971. p. 45: "A ideologia colonial e a etnologia decorrem de uma mesma configuração, e existe entre essas duas ordens de fenômenos um jogo que condiciona o desenvolvimento de ambas".
21 Cf.. RUFFIE, J., 1977. p. 429: "O pseudodarwinismo cultural que inspira o pensamento antropológico do século XIX legitima o colonialismo que, assim, não se caracteriza como produto de uma certa conjuntura política, mas de estrutura biológica; em resumo, um caso particular da competição natural. A antropologia do século XIX justifica a Europa imperialista".
22 A sociologia seria uma ciência intra-social para o mundo moderno, enquanto a antropologia caracterizar-se-ia por uma abordagem comparativa (inter-social). Mas isso não significa ressuscitar categorias contestáveis como a diferença, com seu cortejo de etno-história, etno-arqueologia, etnomatemática...?
23 Cf. THOMPSON. L., 1969 p. 72-3.
24 Cf. ALAGOA, L., 1973.
25 Cf. HAMPATÉ BÂ e DIETERLEN, Germaine, 1961.
26 Cf. COPPENS, Yves, 1960. p. 129 e segs.
27 BAILLOUD, A., 1961. p. 51 e segs.
28 Ver a esse respeito a interessante demonstração de I. A. AKINJOGBIN, 1967. A partir da comparação entre o sistema do ebi (família ampliada), que seria a fonte da autoridade de Oro sobre as famílias, e o sistema daomeano de adaptação ao tráfico de escravos pela monarquia autoritária exercida sobre os indivíduos, o autor explica a disparidade entre os dois regimes. Ver também VERHAEGEN, B., 1974. p. 156: "O fato bruto é um mito. A linguagem que o designa é implicitamente uma teoria do fato".
29 Cf.. LAW, R. C. C., 1971. Para o autor, o declínio de Oro é provocado pelas tensões Intestinas entre categorias sociais subalternas: escravos, intendentes do alafin (rei) nas províncias, representantes das províncias na corte, triunviratos de eunucos reais (do centro, da direita e da esquerda).
30 HIERNAUX, J., 1970. p. 53 e segs.

Historiografia Africana

por J. D. Fage.

A evolução dos estudos históricos da África, desde as antigas concepções orientalistas européias até a sua reformulação atual e recente depois da ascensão dos movimentos negros e do pós-colonialismo, passando pela historiografia arábica e pela produção autóctone in História Geral da África. São Paulo; Ática, 1981 volume 1



Os primeiros trabalhos sobre a história da África são tão antigos quanto o início da história escrita. Os historiadores do velho mundo mediterrânico e os da civilização islâmica medieval tomaram como quadro de referência o conjunto do mundo conhecido, que compreendia uma considerável porção da África. A África ao norte do Saara era parte integrante dessas duas civilizações e seu passado constituía um dos centros de interesse dos historiadores, do mesmo modo que o passado da Europa meridional ou o do Oriente Próximo. A história do norte da África continuou a ser parte essencial dos estudos históricos até a expansão do Império Otomano, no século XVI.
Após a expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798, o norte da África tornou-se novamente um campo de estudos que os historiadores não podiam negligenciar. Com a expansão do poder colonial europeu nessa parte da África - após a conquista de Argel pelos franceses em 1830 e a ocupação do Egito pelos britânicos em 1882 - um ponto de vista europeu colonialista passou a dominar os trabalhos sobre a história da porção norte da África. No entanto, a partir de 1930, o movimento modernizador no Islã, o desenvolvimento da instrução de estilo europeu nas colônias da África do Norte e o nascimento dos movimentos nacionalistas norte-africanos começaram a combinar-se para dar origem a escolas autóctones de história que produziam obras não apenas em árabe, mas também em francês e inglês, restabelecendo assim o equilíbrio nos estudos históricos dessa região do continente.
Assim sendo, o presente capítulo preocupar-se-á sobretudo com a historiografia da África ocidental, central, oriental e meridional. Ainda que nem os historiadores clássicos nem os historiadores islâmicos medievais tenham considerado a África tropical como destituída de interesse, seus horizontes estavam limitados pela escassez de contatos que podiam estabelecer com ela, seja através do Saara em direção à "Etiópia" ou o Bilad-al-Suden, seja ao longo da costa do mar Vermelho e do oceano Indico, até os limites que a navegação de monções permitia atingir.
As informações fornecidas pelos antigos autores no que se refere mais particularmente à África ocidental eram raras e esporádicas. Heródoto, Manetão, Plínio, o Velho, Estrabão e alguns outros descrevem apenas umas poucas viagens através do Saara, ou breves incursões marítimas ao longo da costa Atlântica, sendo a autenticidade de alguns desses relatos objeto de animadas discussões entre especialistas. As informações clássicas a respeito do mar Vermelho e do oceano Índico têm um fundamento mais sólido, pois é certo que os mercadores mediterrânicos, ou ao menos os alexandrinos, comerciavam nessas costas. O Périplo do Mar da Eritréia (mais ou menos no ano +100) e as obras de Cláudio Ptolomeu (por volta do ano +150, embora a versão que chegou até nós pareça referir-se sobretudo ao ano +400, aproximadamente) e de Cosmas Indicopleustes (+647) constituem ainda as principais fontes da história antiga da África oriental.
Os autores árabes eram mais bem informados, uma vez que em sua época a utilização do camelo pelos povos do Saara havia facilitado o estabelecimento de um comércio regular com a África ocidental e a instalação de negociantes norte-africanos nas principais cidades do Sudão ocidental. Por outro lado, o comércio com a parte ocidental do oceano Indico tinha se desenvolvido a tal ponto que um número considerável de mercadores da Arábia e do Oriente Próximo se instalara ao longo da costa oriental da África. Assim, as obras de homens como al-Mas'udi (que morreu por volta de +950), al-Bakri (1029-1094), al-Idrisi (1154), Yakut (cerca de 1200), Abu'I-Fida' (1273- -1331), al'Umari (1301-1349), Ibn Battuta (1304-1369) e Hassan Ibn Mohammad al-Wuzza'n (conhecido na Europa pelo nome de Leão, o Africano, 1494-1552 aproximadamente) são de grande importância para a reconstrução da história da África, em particular a do Sudão ocidental e central, durante o período compreendido entre os séculos IX e XV.
No entanto, por mais úteis que sejam essas obras para os historiadores modernos, pairam dúvidas de que possamos incluir algum desses autores ou de seus predecessores clássicos entre os principais historiadores da África. O essencial da contribuição de cada um deles consiste numa descrição das regiões da África a partir das informações que puderam recolher na época em que escreveram. Não existe nenhum estudo sistemático sobre as mudanças ocorridas ao longo do tempo e que constituem o verdadeiro objetivo do historiador. Aliás, tal descrição nem chega a ser realmente sincrônica, pois se é verdade que uma parte das informações pode ser contemporânea, outras delas, embora pudessem ainda ser consideradas verdadeiras na época em que o autor vivia, muitas vezes poderiam ser provenientes de relatos mais antigos. Além disso, essas obras apresentam o inconveniente de que, em geral, não há nenhum meio de avaliar a autoridade da informação, de saber, por exemplo, se o autor a obteve por sua observação pessoal ou a partir da observação direta de um contemporâneo, ou se ele simplesmente relata rumores correntes na época ou a opinião de autores antigos. Leão, o Africano, constitui um exemplo interessante desse problema. Assim como Ibn Battuta, ele próprio viajou pela África, mas, ao contrário deste, não se pode afirmar com certeza que todas as informações que ele nos fornece tenham provindo de suas observações pessoais.
Talvez fosse útil relembrar aqui que o termo "história" não deixa de ser ambíguo. Atualmente, pode ser definido como "um relato metódico dos acontecimentos de um determinado período", mas pode também ter o sentido mais antigo de "descrição sistemática de fenômenos naturais". É essencialmente nessa acepção que ele é empregado no título em inglês da obra de Leão, o Africano (Leo Africanus, A Geographical History of África; em francês, Description de l' Afrique), significado que só permanece hoje na ultrapassada expressão "história natural" (que, aliás, era o título da obra de Plínio).
Entre os primeiros historiadores da África, porém, encontra-se um muito importante, um grande historiador no sentido amplo do termo: referimo-nos a Ibn Khaldun (1332-1406) que, se fosse mais conhecido pelos especialistas ocidentais, poderia legitimamente roubar de Heródoto o título de "pai da história". Ibn Khaldun era um norte-africano nascido em Túnis. Uma parte de sua obra é consagrada à África 1 e às suas relações com os outros povos do Mediterrâneo e do Oriente Próximo. Da compreensão dessas relações ele induziu uma concepção que faz da história um fenômeno cíclico, no qual os nômades das estepes e dos desertos conquistam as terras aráveis dos povos sedentários e aí estabelecem vastos reinos, que, depois de cerca de três gerações, perdem sua vitalidade e se tomam vítimas de novas invasões de nômades. Trata-se, sem dúvida, de um bom modelo para grande parte da história do norte da África e um importante historiador, Marc Bloch 2, utilizou-o para sua brilhante explicação da história da Europa no início da Idade Média. Ora, Ibn Khaldun distingue-se de seus contemporâneos não somente por ter concebido uma filosofia da história, mas também - e talvez principalmente - por não ter, como os demais, atribuído o mesmo peso e o mesmo valor a todo fragmento de informação que pudesse encontrar sobre o passado; acreditava que era preciso aproximar-se da verdade passo a passo, através da crítica e da comparação.
Ibn Khaldun é, realmente, um historiador muito moderno e é a ele que devemos o que se pode considerar quase como história da África tropical, em sentido moderno. Na qualidade de norte-africano e também pelo fato de ter trabalhado, a despeito da novidade de sua filosofia e de seu método, no quadro das antigas tradições mediterrâneas e islâmicas, ele não deixou de se preocupar com o que ocorria no outro lado do Saara. Assim, um dos capítulos de sua obra 3 é uma história do Império do Mali, que na época em que ele viveu atingia seu auge. Esse capítulo é parcialmente fundamentado na tradição oral da época e, por esta razão, permanece até hoje como uma das bases essenciais da história desse grande Estado africano.
Nenhum Estado vasto e poderoso como o Mali, nem mesmo os Estados de menor importância como os primeiros reinados haussa ou as cidades independentes da costa oriental da África, podiam manter sua identidade ou sua integridade sem uma tradição reconhecida relativa à sua fundação e ao seu desenvolvimento. Quando o Islã atravessou o Saara e se expandiu ao longo da costa oriental trazendo consigo a escrita árabe, os negros africanos passa- ram a utilizar textos escritos ao lado dos documentos orais de que já dispunham para conservar sua história.
Os mais elaborados dentre esses primeiros exemplos de obras de história atualmente conhecidos são provavelmente o Ta'rikh al-Sudan e o Ta'rikh el- -Fattash, ambos escritos em Tombuctu, principalmente no século XVII 4. Nos dois casos, os autores fazem um relato dos acontecimentos de sua época e do período imediatamente anterior, com muitos detalhes e sem omitir a análise e a interpretação. Mas antecedendo esses relatos críticos há também uma evocação das tradições orais relativas a períodos mais antigos. Dessa forma, o resultado não é somente uma história do Império Songhai, de sua conquista e dominação pelos marroquinos, mas também uma tentativa de determinar o que era importante na história pregressa da região, sobretudo nos antigos impérios de Gana e do Mali. Em função disso, é importante distinguir os Ta'rikh de Tombuctu de outras obras históricas escritas em árabe pelos africanos, tais como as conhecidas pelos nomes de Crônica de Kano e Crônica de Kilwa 5. Estes últimos nos oferecem somente anotações diretas, por escrito, de tradições que até então eram, sem dúvida alguma, transmitidas oralmente. Embora uma versão da Crônica de Kilwa pareça ter sido utilizada pelo historiador português de Barros no século XVI, não há nada que prove que a Crônica de Kano tenha existido antes do início do século XIX.
É interessante notar que as crônicas dessa natureza escritas em árabe não se limitam necessariamente às regiões da África que foram inteiramente islamizadas. Assim, o centro da atual Gana produziu sua Crônica de Gonja (Kitab al-Ghunja) no século XVIII e as recentes pesquisas de especialistas como Ivor Wilks revelaram centenas de exemplos de manuscritos árabes provenientes dessa região e de regiões vizinhas 6. Por outro lado, é preciso não esquecer que uma parte da África tropical - a atual Etiópia - possuía sua própria língua semítica, inicialmente o gueze e mais tarde o amárico, na qual uma tradição literária foi preservada e desenvolvida durante quase 2 mil anos. Sem dúvida nenhuma, essa tradição produziu obras históricas já no século XIV, das quais um exemplo é a História das Guerras, de Amda Syôn 7. As obras históricas escritas em outras línguas africanas como o haussa e o swahili, distintas das escritas em árabe clássico importado mas utilizando sua escrita, só apareceram no século XIX.
No século XV os europeus começaram a entrar em contato com as regiões costeiras da África tropical, fato que desencadeou a produção de obras literárias que constituem preciosas fontes de estudo para os historiadores modernos. Quatro regiões da África tropical foram objeto de particular atenção: a costa da Guiné na África ocidental; a região do Baixo Zaire e de Angola; o vale do Zambeze e as altas terras vizinhas; e, por fim, a Etiópia. Nessas regiões, durante os séculos XVI e XVII, houve uma considerável penetração em direção ao interior. Mas, como no caso dos escritores antigos, clássicos. ou árabes, o resultado não foi sempre, e em geral não de forma imediata, a produção de obras de história da África.
A costa da Guiné foi a primeira região da África tropical descoberta pelos europeus; ela foi o tema de toda uma série de obras a partir de 1460, aproximadamente (Cadamosto), até o início do século XVIII (Barbot e Bosman). Uma boa parte desse material é de grande valor histórico, porque fornece testemunhos diretos e datados, graças aos quais podem-se situar várias outras relações de caráter histórico. Há também nessas obras abundante material histórico (entendido como não-contemporâneo), sobretudo em Dapper ( 1688), que, ao contrário da maioria dos demais autores, não era um observador direto, mas apenas um compilador de relatos alheios. Porém, o objetivo essencial de todos esses autores era mais descrever a situação contemporânea do que fazer história. E é somente agora, depois que uma boa parte da história da África ocidental foi reconstituída, que podemos avaliar corretamente muitas das afirmações que eles fizeram 8.
Nas outras regiões que despertaram o interesse dos europeus nos séculos XVI e XVII a situação era um pouco diferente. Isso talvez se deva ao fato de terem sido o campo de atividade dos primeiros esforços missionários, ao passo que o principal motor das atividades européias na Guiné foi sempre o comércio. Enquanto os africanos forneciam as mercadorias que os europeus desejavam comprar, como era em geral o caso da Guiné, os negociantes não se sentiam impelidos a mudar a sociedade africana; eles se contentavam em observá-la. Os missionários, ao contrário, sentiam-se obrigados a tentar alterar o que encontravam e, nessas condições, um certo grau de conhecimento da história da África poderia ser-lhes útil. Na Etiópia, as bases já existiam. Podia-se aprender o gueez e aperfeiçoar seu estudo, bem como utilizar as crônicas e outros escritos nessa língua. Obras históricas sobre a Etiópia foram elaboradas por dois eminentes pioneiros entre os missionários, Pedro Paez (morto em 1622) e Manoel de Almeida (1569-1646), e uma história completa foi escrita por um dos primeiros orientalistas da Europa, Hiob Ludolf (1634-1704) 9. No baixo vale do Congo e em Angola, assim como no vale do Zambeze e em suas imediações, os interesses comerciais eram provavelmente mais fortes que os da evangelização. Ocorre porém que, em seu conjunto, a sociedade africana tradicional não estava disposta a fornecer aos europeus o que eles desejavam, a não ser que sofresse pressões consideráveis. O resultado é que ela foi obrigada a mudar de modo tão drástico que mesmo os ensaios descritivos dificilmente podiam deixar de ser em parte históricos. De fato, importantes elementos de história podem ser encontrados em livros de autores como Pigafetta e Lopez (1591) e Cavazzi (1687). Em 1681, Cadornega publica uma História das Guerras Angolanas 10.
A partir do século XVIII, parece que a África tropical recebeu dos historiadores europeus a atenção que merecia. Era possível, por exemplo, utilizar como fontes históricas os autores mais antigos, sobretudo os descritivos como Leão, o Africano, e Dapper -, de maneira que as histórias e geografias universais da época, como The Universal History, publicada na Inglaterra entre 1736 e 1765, podiam consagrar um número apreciável de páginas à África 11. Houve também ensaios monográficos, como é o caso da História de Angola, de Silva Correin (cerca de 1792), da Some Historical account of Guinea, de Benezet (1772) e das duas histórias do Daomé: Memórias do Reino de Bossa Ahadée, de Norris (1789) e History of Dahomey, de Dalzel (1793). Mas uma advertência se faz necessária aqui. O livro de Silva Correin só foi publicado neste século 12 e a razão pela qual as três obras mencionadas acima foram publicadas naquela época deve-se ao fato de que, no fim do século XVIII, começava a acirrar-se a controvérsia em tomo do tráfico de escravos, que tinha sido o principal elemento das relações entre a Europa e a África tropical havia pelo menos 150 anos. Dalzel e Norris, ambos recorrendo à sua experiência no comércio de escravos no Daomé, assim como Benezet, desempenharam o papel de historiadores, mas seus trabalhos tinham como objetivo fornecer argumentos a favor ou contra a abolição do tráfico negreiro.
Se não fosse por isso, não se tem como certo que esses livros tivessem encontrado compradores, pois nessa época a principal tendência da cultura européia começava a considerar de forma cada vez mais desfavorável as sociedades não-européias e a declarar que elas não possuíam uma história digna de ser estudada. Essa mentalidade resultava sobretudo da convergência de correntes de pensamento oriundas do' Renascimento, do Iluminismo e da crescente revolução científica e industrial. O resultado foi que, baseando-se no que era considerado uma herança greco-romana única, os intelectuais europeus convenceram-se de que os objetivos, os conhecimentos, o poder e a riqueza de sua sociedade eram tão preponderantes que a civilização européia deveria prevalecer sobre todas as demais. Conseqüentemente, sua história constituía a chave de todo conhecimento, e a história das outras sociedades não tinha nenhuma importância. Esta atitude era adotada sobretudo em relação à África. De fato, nessa época os europeus só conheciam a África e os africanos sob o ângulo do comércio de escravos, num momento em que o próprio tráfico era causador de um caos social cada vez mais grave em numerosas partes do continente.
Hegel (1770-1831) definiu explicitamente essa posição em sua Filosofia da História, que contém afirmações como as que seguem: "A África não é um continente histórico; ela não demonstra nem mudança nem desenvolvimento". Os povos negros "são incapazes de se desenvolver e de receber uma educação. Eles sempre foram tal como os vemos hoje". É interessante notar que, já em 1793, o responsável pela publicação do livro de Dalzel julgara necessário justificar o surgimento de uma história do Daomé. Assumindo claramente a mesma posição de Hegel, ele declarava: "Para chegar a um justo conhecimento da natureza humana, é absolutamente necessário preparar o caminho através da história das nações menos civilizadas (...) Não há nenhum outro) meio de julgar o valor da cultura, na avaliação da felicidade humana, a não ser através de comparações deste tipo" 13.
Ainda que a influência direta de Hegel na elaboração da história da África tenha sido fraca, a opinião que ele representava foi aceita pela ortodoxia histórica do século XIX. Essa opinião anacrônica e destituída de fundamento ainda hoje não deixa de ter adeptos. Um professor de História Moderna na Universidade de Oxford, por exemplo, teria declarado: "Pode ser que, no futuro, haja uma história da África para ser ensinada. No presente, porém, ela não existe; o que existe é a história dos europeus na África. O resto são trevas...e as trevas não constituem tema de história. Compreendam-me bem. Eu não nego que tenham existido homens mesmo em países obscuros e séculos obscuros, nem que eles tenham tido uma vida política e uma cultura interessantes para os sociólogos e os antropólogos; mas creio que a história é essencialmente uma forma de movimento e mesmo de movimento intencional. Não se trata simplesmente de uma fantasmagoria de formas e de costumes em transformação, de batalhas e conquistas, de dinastias e de usurpações, de estruturas sociais e de desintegração social..."
Ele argumentava que "a história, ou melhor, o estudo da história, tem uma finalidade. Nós a estudamos (...) a fim de descobrir como chegamos ao ponto em que estamos". O mundo atual, prosseguia ele, está a tal ponto dominado pelas idéias, técnicas e valores da Europa ocidental que, pelo menos nos cinco últimos séculos, na medida em que a história do mundo tem importância, é somente a história da Europa que conta. Por conseguinte, não pode- mos nos permitir "divertirmo-nos com o movimento sem interesse de tribos bárbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que não exerceram nenhuma influência em outras regiões" 14.
Por ironia do destino, foi durante a vida de Hegel que os europeus empreenderam a exploração real, moderna e científica da África e começaram assim a lançar os fundamentos de uma avaliação racional da história e das realizações das sociedades africanas. Essa exploração era ligada, em parte, à reação contra a escravidão e o tráfico de escravos, e, em parte, à competição pelos mercados africanos.
Alguns dos primeiros europeus eram impelidos por um desejo sincero de aprender tudo o que pudessem a respeito do passado dos povos africanos e recolhiam todo o material que encontravam: documentos escritos, quando os havia, ou ainda tradições orais e testemunhos que descobriam sobre os traços do passado. A literatura produzida pelos exploradores é imensa. Alguns desses trabalhos contêm história no melhor sentido do termo, e em sua totalidade, tal literatura constitui um material de grande valor para os historiadores. Uma pequena lista dos principais títulos poderia incluir Travels to Discoverer the Sources of the Nile de James Bruce (1790); os capítulos especificamente históricos dos relatos de visitas a Kumasi, capital de Ashanti, de T. E. Bowdich (Mission from Cape Coast to Ashantee, 1819) e de Joseph Dupuis (Journal of a Residence in Ashantee, 1824); Reisen und Entdeckungen in Nord-und Zentral Afrika (1857-1858) de Heinrich Barth; Documents sur I'Histoire, Ia Géographie et le Commerce de l'Afrique Oriental de M. Guillain (1856); e Saara und Sudan de Gustav Nachtigal (1879-1889).
A carreira de Nachtigal prosseguiu numa fase inteiramente nova da história da África: aquela em que os europeus haviam iniciado a conquista do continente e o domínio de suas populações. Como essas tentativas pareciam necessitar de uma justificativa moral, as considerações hegelianas foram reforçadas pela aplicação dos princípios de Darwin. O resultado sintomático disso tudo foi o aparecimento de uma nova ciência, a Antropologia, que é um método não-histórico de estudar e avaliar as culturas e as sociedades dos povos "primitivos", os que não possuíam "uma história digna de ser estudada", aqueles que eram "inferiores" aos europeus e que podiam ser diferenciados destes pela pigmentação de sua pele.
E interessante citar aqui o caso de Richard Burton (1821-1890), um dos grandes viajantes europeus na África durante o século XIX. Trata-se de um espírito curioso, cultivado, sempre atento e um orientalista eminente. Ele foi, em 1863, um dos fundadores da London Anthropological Society (que tornar-se-ia mais tarde o Royal Anthropological Institute). Entretanto, de modo bem mais acentuado que Nachtigal, sua carreira marca o fim da exploração científica e imparcial da África, que havia começado com James Bruce. Encontramos, por exemplo, em sua Mission to Gelele, King of Dahomey (1864), uma notável digressão sobre "o lugar do negro na natureza" (e não, como se pode notar, "o lugar do negro na história"). Pode-se ler aí frases como esta: "O negro puro se coloca na família humana abaixo das duas grandes raças, árabe e ariana" (a maioria dos seus contemporâneos teria classificado estas duas últimas em ordem inversa) e "o negro, coletivamente, não progredirá além de um determinado ponto, que não merecerá consideração; mentalmente ele permanecerá uma criança..." 15 Foi em vão que certos intelectuais africanos, como James Africanus Horton, responderam a essas colocações, polemizando com os membros influentes da London Anthropological Society.
As coisas ficaram ainda mais difíceis para o estudo da história da África após o aparecimento, nessa época e em particular na Alemanha, de uma nova concepção sobre o trabalho do historiador, que passava a ser encarado mais como uma atividade científica fundada sobre a análise rigorosa de fontes originais do que como uma atividade ligada à literatura ou à filosofia. É evidente que, para a história da Europa, essas fontes eram sobretudo fontes escritas, e nesse domínio a África parecia especialmente deficiente. Tal concepção foi exposta de. forma muito precisa pelo professor A. P. Newton, em 1923, numa conferência diante da Royal African Society de Londres, sobre "A África e a pesquisa histórica". Segundo ele, a África não possuía "nenhuma história antes da chegada dos europeus. A história começa quando o homem se põe a escrever". Assim, o passado da África antes do início do imperialismo europeu só podia ser reconstituído "a partir de testemunhos dos restos materiais, da linguagem e dos costumes primitivos", coisas que não diziam respeito aos historiadores, e sim aos arqueólogos, aos lingüistas e aos antropólogos 16.
De fato, o próprio Newton encontrava-se um pouco à margem do papel de historiador tal como era concebido na época. Durante grande parte do século XIX alguns dos mais eminentes historiadores britânicos, como James Stephen (1789-1859), Herman Merivale (1806-1874), J. A. Froude (1818-1894) e J. R. Seeley (1834-1895) 17, haviam demonstrado muito interesse pelas atividades dos europeus (ou pelo menos de seus compatriotas) no resto do mundo. Mas o sucessor de Seeley no cargo de Regius Professor de História Moderna em Cambridge foi Lord Acton (1834-1902), que havia se graduado na Alemanha. Acton começara imediatamente a preparar The Cambridge Modern History, cujos catorze volumes apareceram entre 1902 e 1910. Essa obra é tão centrada na Europa que chega a ignorar quase totalmente até mesmo as atividades dos próprios europeus pelo mundo. Em conseqüência, a história colonial foi geralmente deixada a cargo de homens como Sir Charles Lucas (ou, na França, Gabriel Hanotaux) 18 que, como Stephen, Merivale e Froude, já haviam se encarregado ativamente dos assuntos coloniais.
Entretanto, com o tempo, a história colonial ou imperial se fez aceitar, mesmo permanecendo à margem da profissão. The New Cambridge Modern History, que começara a aparecer em 1957 sob a direção de Sir George Clark, traz alguns capítulos sobre a África, a Ásia e a América em seus doze volumes e, por outro lado, a coleção de história de Cambridge havia sido enriquecida nessa época com a série The Cambridge History of lhe British Empire (1929- -1959), da qual Newton foi um dos diretores fundadores. Mas basta um exame superficial desse trabalho para perceber que a história colonial, mesmo no que se refere à África, é muito diferente da história da África.
Dos oito volumes dessa obra, quatro são consagrados ao Canadá, à Austrália, à Nova Zelândia e à Índia Britânica. Restam então três volumes gerais, nitidamente orientados para a política imperial (de 68 capítulos, somente quatro referem-se diretamente às relações da Inglaterra com a África) e um volume consagrado à África do Sul, o único lugar da África subsaariana no qual os colonos europeus realmente se estabeleceram. A quase totalidade desse volume (o maior dos oito) é dedicada aos intrincados negócios desses colonos europeus desde sua chegada em 1652. Os povos africanos, que constituem a maioria da população, são relegados a um capítulo introdutório (e essencialmente não-histórico) redigido por um antropólogo social, e a dois capítulos que, embora escritos pelos dois historiadores sul-africanos mais lúcidos de sua geração, C. W. de Kiewiet e W. M. MacMillan, os consideram, por necessidade, sob a perspectiva de sua reação à presença européia. Em outros lugares, a história da África aparecia muito timidamente em coleções mais ou menos monumentais, como por exemplo, Peuples et Civilizations, História Geral, 20 volumes, Paris, 1927-52; G. Glotz, editor, Histoire Générale, organizada por G. Glotz, 10 volumes, Paris, 1925-1938; Propyliien Weltgeschichte, 10 volumes, Berlim, 1929-1933; Historia Mundi, ein Handbuch der Weltgeschichte in 10 Bänden, Bern, 1952 ff; Vsemirnaja lstoriya (World History), 10 volumes, Moscou, 1955 ff. O italiano C. Conti Rossini publicou em Roma, em 1928, uma importante Storia d' Etiopia.
Os historiadores coloniais profissionais estavam, assim como os historiadores profissionais em geral, apegados à concepção de que os povos africanos ao sul do Saara não possuíam uma história suscetível ou digna de ser estudada. Como vimos, Newton considerava essa história como domínio exclusivo dos arqueólogos, lingüistas e antropólogos. Mas se é verdade que os arqueólogos, assim como os historiadores, por força de sua profissão se interessam pelo passado do homem e de suas sociedades, eles estavam quase tão desinteressados quanto os historiadores em dedicar-se a descobrir e elucidar a história da sociedade humana na África subsaariana. Concorriam para isso duas razões principais. Em primeiro lugar, uma das correntes mais importantes da Arqueologia, ciência então em desenvolvimento, professava que, assim como a História, ela deveria orientar-se essencialmente pelas fontes escritas. Consagrava-se a problemas como encontrar o local exato da antiga cidade de Tróia ou detectar fatos ainda desconhecidos através de fontes literárias relativas às antigas sociedades da Grécia, de Roma ou do Egito, cujos principais monumentos haviam sido fontes de especulações durante séculos. A Arqueologia era - e às vezes ainda é - estreitamente ligada ao ramo da História conhecido pelo nome de História Antiga. Em geral, ela se preocupava mais em procurar e decifrar antigas inscrições do que em encontrar outras relíquias. Só muito raramente - por exemplo em Axum e Zimbabwe e em torno desses sítios - admitia-se que a África subsaariana possuía monumentos suficientemente importantes para atrair a atenção dessa escola de arqueologia. Em segundo lugar, uma outra atividade essencial da pesquisa arqueológica se concentrava nas origens do homem, tendo como conseqüência uma perspectiva mais geológica do que histórica de seu passado. É verdade que, em função de especialistas como L. S. B. Leakey e Raymond Dart, uma parte substancial dessa pesquisa acabou finalmente por se concentrar na África oriental e do sul. Mas esses homens buscavam um passado longínquo demais, no qual não se podia afirmar que existissem sociedades; além disso, habitualmente havia um abismo entre as conjeturas sobre os fósseis que esses pesquisadores descobriam e as populações modernas cujo passado os historiadores desejavam estudar.
Enquanto a maioria dos arqueólogos e dos historiadores considerava a África subsaariana, até os anos 50, aproximadamente, não digna de sua atenção, a imensa variedade de tipos físicos, de sociedades e de línguas desse continente despertava o interesse dos antropólogos e lingüistas à medida que suas disciplinas começavam a desenvolver-se. Foi possível a uns e outros permanecerem durante muito tempo encerrados em seus gabinetes de trabalho. Mas homens como Burton e S. W. Koelle (Polyglotte Africana, 1854) em boa hora demonstraram o valor da pesquisa de campo, e os antropólogos, em particular, tomaram-se os pioneiros desse trabalho na África. Mas, ao contrário dos historiadores e dos arqueólogos, nem os antropólogos nem os lingüistas sentiam-se obrigados a descobrir o que ocorrera no passado. Na África, eles encontraram uma abundância de fatos simplesmente à espera de descrição, classificação e análise, o que representava uma imensa tarefa. Freqüentemente eles só se interessavam pelo passado na medida em que tentavam reconstruir uma história que parecia-lhes estar na origem dos dados recolhidos e seria capaz de explicá-los.
No entanto, nem sempre eles percebiam o quanto essas reconstruções eram especulativas e hipotéticas. Um exemplo clássico é o do antropólogo C. G. Seligman que, na obra Races of Africa, publicada em 1930, escrevia sem rodeios: "As civilizações da África são as civilizações dos camitas, e sua história, os anais desses povos e de sua interação com duas outras raças africanas, a negra e a bosquímana..." 19
Inferimos dessa afirmação que essas "duas outras raças africanas" são inferiores e que todo o progresso que tenham conseguido seria resultante da influência "camítica" que sofreram de forma mais ou menos intensa. Em outro trecho dessa mesma obra, ele fala da chegada, "vaga após vaga", de pastores "camitas" que estavam "melhor armados e eram ao mesmo tempo mais inteligentes" que "os cultivadores negros atrasados" sobre os quais exerciam influência 20. Mas, na realidade, não há nenhuma prova histórica que sustente as afirmações de que "as civilizações da África são as civilizações dos camitas", ou que os progressos históricos verificados na África subsaariana se devam apenas ou principalmente a eles. O próprio livro não apresenta nenhuma evidência histórica, e muitas das hipóteses sobre as quais ele se apóia sabe-se agora não terem nenhum fundamento. J. H. Greenberg, por exemplo, demonstrou de uma vez por todas que os termos "camita" e "camítico" não têm nenhum sentido, a não ser, e na melhor das hipóteses, como categorias da classificação lingüística 21.
É certo que não existe, necessariamente, uma correlação entre a língua falada por uma população e sua origem racial ou sua cultura. Assim, Greenberg pode citar, entre outros, este maravilhoso exemplo: "os cultivadores haussa, que falam uma língua 'camítica', estão sob a dominação dos pastores fulani que falam (...) uma língua níger-congolesa" (isto é, uma língua negra) 22. Ele refuta igualmente a base camítica que sustentava grande parte da reconstrução feita por Seligman da história cultural dos negros em outras partes da África, sobretudo das populações de língua bantu.
Escolhemos particularmente Seligman porque ele se situava entre as personalidades mais destacadas de sua profissão na Grã-Bretanha (foi um dos primeiros a empreender sérias pesquisas de campo na África) e porque seu livro tornou-se, de certa forma, um modelo, várias vezes reeditado. Ainda em 1966 ele era divulgado como "um clássico em seu gênero". Mas essa adoção do mito da superioridade dos povos de pele clara sobre os de pele escura era somente uma parte dos preconceitos correntes na Europa no fim do século XIX e no início do século XX. Os europeus acreditavam que sua pretensa superioridade sobre os negros africanos estava confirmada por sua conquista colonial. Em conseqüência disso, em muitas partes da África, especialmente no cinturão sudanês e na região dos grandes lagos, eles estavam convictos de que apenas davam continuidade a um processo de civilização que outros invasores de pele clara, chamados genericamente de camitas, haviam começado antes deles. 23 O mesmo tema reaparece ao longo de muitas outras obras do período que vai de 1890 a 1940, aproximadamente, e que contêm uma quantidade bem maior de elementos sérios de história do que os encontrados no pequeno manual de Seligman. Em sua maioria, essas obras foram escritas por homens e mulheres que tinham participado pessoalmente da conquista ou da colonização e que não eram nem antropólogos, nem lingüistas, nem historiadores profissionais. Tratava-se sim de amadores no melhor sentido da palavra, que se interessavam sinceramente pelas sociedades exóticas que haviam descoberto, e que desejavam obter mais informações a seu respeito e partilhar seus conhecimentos com outras pessoas. Sir Harry Johnston e Maurice Delafosse, por exemplo, trouxeram contribuições notáveis para a lingüística africana (assim como para outros ramos do conhecimento). Mas o primeiro denominou seu grande estudo geral de A History of the Colonization of Africa by Alien Races (1899, obra revista e ampliada em 1913), e, nas seções históricas do magistral estudo de Delafosse sobre o Sudão ocidental, Haut-Sénégal-Niger (1912), o tema geral aparece quando ele invoca uma migração judaico-síria para fundar a antiga Gana. Flora Shaw (A Tropical Dependency, 1906) era fascinada pela contribuição dos muçulmanos à história da África. Margery Perham, amiga e biógrafa de Lord Lugard, refere-se com propriedade ao "movimento majestoso da história desde as primeiras conquistas árabes da África às de Goldie e de Lugard" 24. Um excelente historiador amador, Yves Urvoy (Histoire des Populations du Soudan Central, 1936 e Histoire du Bornou, 1949), equivoca-se completamente a respeito do significado das interações entre os nômades do Saara e os negros sedentários que ele descreve com precisão; ao mesmo tempo, Sir Richmond Palmer (Sudanese Memoirs, 1928 e The Bornu Sahara and Sudan, 1936), arqueólogo inspirado, procura sempre as origens da ação dos povos nigerianos em lugares tão distantes quanto Trípoli ou o Iêmen.
No entanto, após Seligman, os antropólogos sociais britânicos conseguiram de certa forma escapar à influência do mito camítico. Sua formação, a partir desse momento, foi dominada pela influência de B. Malinowski e A. R. Radcliffe-Brown, que se opunham decididamente a qualquer espécie de história fundada em conjeturas. De fato, o método estritamente funcionalista adotado pelos antropólogos britânicos entre 1930 e 1950 para o estudo das sociedades africanas tendia a desencorajar qualquer interesse histórico, mesmo quando, graças a seu trabalho de campo, eles se encontravam numa situação excepcionalmente favorável para obter dados históricos. Porém, no continente europeu (e também na América do Norte, ainda que poucos antropólogos americanos tenham trabalhado na África antes dos anos 50) subsistia uma tradição mais antiga de etnografia que, entre outras características, dava tanto peso à cultura material quanto à estrutura social.
Isso gerou uma grande quantidade de trabalhos de importância histórica, como por exemplo The King of Ganda, de Tor Irstam (1944), ou The trade of Guinea, de Lar Sundstrom (1965). Entretanto, duas obras merecem destaque especial; Volkerkunde von Afrika, de Hermann Baumann (1940) e Geschichte Afrikas de Diedrich Westermann (1952). A primeira era um estudo enciclopédico dos povos e civilizações da África que valorizava bastante as partes conhecidas de sua história e até hoje não foi superado como manual de um só volume. O livro mais recente, África: its Peoples and their Culture History (1959), escrito pelo antropólogo americano G. P. Murdock, fica prejudicado na comparação por faltar ao seu autor experiência direta da África, o que lhe teria permitido avaliar corretamente os materiais de que dispunha, e por ele ter fornecido alguns esquemas hipotéticos tão excêntricos em seu gênero quanto os de Seligman, embora menos perniciosos 25. Quanto a Westermann, ele era sobretudo um lingüista. Sua obra sobre a classificação das línguas da África é, em muitos aspectos, a precursora da de Greenberg; além disso, ele contribuiu com uma seção lingüística para o livro de Baumann. Mas sua Geschichte, infelizmente deformada pela teoria camítica, é também uma compilação muito valiosa das tradições orais africanas tais como se apresentavam em sua época.
A estes trabalhos pode-se talvez acrescentar o de H. A. Wieschoff, The Zimbabwe-Monomotapa Culture (1943), ainda que seja só para apresentar seu mestre, Leo Frobenius. Frobenius era etnólogo e antropólogo cultural, mas era também um arqueólogo disfarçado de historiador. Durante seu período de atividade, que corresponde aproximadamente às quatro primeiras décadas do século XX, ele foi quase com certeza o mais produtivo dos historiadores da África. Ele empreendeu inúmeros trabalhos de campo em quase todas as partes do continente africano e apresentou seus resultados numa série regular de publicações (pouco lidas atualmente). Escrevia em alemão, língua que se tornou pouco importante para a África e os africanistas. Somente uma pequena parte de suas obras foi traduzida, e seu sentido é geralmente difícil de recuperar, porque elas estão repletas de teorias míticas relativas à Atlântida, à influência etrusca sobre a cultura africana, etc.
Aos olhos dos historiadores, arqueólogos e antropólogos atuais, de formação bastante rigorosa, Frobenius parece um autodidata original cujos trabalhos são desvalorizados não apenas por suas interpretações um tanto ousadas, mas também por seu método de trabalho rápido, sumário e às vezes destrutivo. Contudo, ele chegou a alguns resultados que anteciparam claramente os obtidos por pesquisadores que trabalharam com maior rigor científico e que surgiram depois dele, e a outros difíceis ou mesmo impossíveis de obter nas condições atuais. Parece que ele possuía um talento instintivo para ganhar a confiança dos informantes e descobrir dados históricos. Os historiadores modernos deveriam procurar esses dados nas obras de Frobenius e reavaliá-los em função dos conhecimentos atuais, liberando-os das interpretações fantasiosas acrescentadas por ele 26.
As singularidades de um gênio autodidata como Frobenius, que buscava inspiração em si mesmo, contribuíram para reforçar a opinião dos historiadores profissionais de que a história da África não constituía um campo aceitável para sua profissão e desviar assim a atenção de muitos trabalhos sérios realiza- dos durante o período colonial. O crescimento do interesse dos europeus pela África havia proporcionado aos africanos grande variedade de culturas escritas, o que lhes permitia exprimir seu interesse por sua própria história. Foi esse o caso principalmente da África ocidental, onde o contato com os europeus havia sido mais longo e mais constante, e onde - sobretudo nas regiões que se tornaram colônias britânicas - uma demanda pela instrução européia já existia desde o início do século XIX. Assim como os eruditos islamizados de Tombuctu se puseram rapidamente a escrever seus ta'rikh em árabe ou na língua ajami, no fim do século XIX também os africanos que haviam aprendido a ler o alfabeto latino sentiram necessidade de deixar por escrito o que eles conheciam da história de seus povos, para evitar que estes fossem completamente tragados pelos europeus e sua história.
Entre os primeiros clássicos desse gênero, escritos por africanos que - como os autores dos ta'rikh antes deles - haviam exercido uma atividade na religião da cultura importada e dela haviam extraído seus nomes, pode-se citar A History of the Gold Coast and Asante de Carl Christian Reindorf (1895) e History of the Yorubas de Samuel Johnson (terminada em 1897 mas publicada somente em 1921). Trata-se de duas obras de história bastante sérias; até hoje ninguém pode empreender um trabalho sobre a história dos Iorubas sem consultar Johnson. Mas talvez fosse inevitável que a ensaios históricos desta ordem se incorporassem as obras dos primeiros protonacionalistas, desde J. A. B. Horton (1835-1883) e E. W. Blyden (1832-1912) a J. M. Sarbah (1864-1910), J. E. Casely-Hayford (1866-1930) e J. B. Danquah (1895- -1965), que abordaram muitas questões históricas mas, na maioria das vezes, com o propósito de fazer propaganda. É provável que J. W, de Graft-Johnson (Towards Nationhood in West Africa, 1928; Historical Geography of the Gold Coast, 1929) e E. J. P. Brown (A Gold Coast and Asiante Reader, 1929) pertençam às duas categorias. Depois deles, porém, pode-se observar em certos ensaios uma tendência a glorificar o passado africano no intuito de combater o mito da superioridade cultural européia, como por exemplo em J. O. Lucas, The Religion of Yoruba (1949) e J. W. de Graft-Johnson, African Glory (1954). Alguns autores europeus demonstraram uma tendência análoga. É o caso, por exemplo, de Eva L. R. Meyerowitz, que, em seus livros sobre os Akan, tenta outorgar-lhes gloriosos ancestrais mediterrânicos, comparáveis aos que Lucas buscava para os Iorubas 27.
Por outro lado, numa escala mais reduzida, muitos africanos continuaram a registrar as tradições históricas locais de modo sério e confiável. Os contatos com os missionários cristãos parecem ter desempenhado um papel significativo. Assim, floresceu em Uganda uma escola importante de historiadores locais desde a época de A. Kagwa (cuja primeira obra foi publicada em 1906); ao mesmo tempo, R. C. C. Law anotou, para a região ioruba, 22 historiadores que haviam publicado trabalhos antes de 1940 28, em geral (como aliás os autores ugandenses) em línguas nativas. Dentre as das obras desse tipo, uma tornou-se merecidamente célebre: A Short History of Benin de J. U. Egharevba, reeditada diversas vezes desde sua primeira publicação em 1934.
Por outro lado, certos colonizadores, espíritos inteligentes e curiosos, tentavam descobrir e registrar a história daqueles a quem tinham vindo governar. Para eles, a história africana geralmente apresentava um valor prático. Os europeus podiam ser melhores administradores se possuíssem algum conhecimento sobre o passado dos povos que eles haviam colonizado. Além do mais, seria útil ensinar um pouco de história da África nas escolas, cada vez mais numerosas, fundadas por eles e seus compatriotas missionários, ainda que fosse apenas para servir como introdução ao ensino, mais importante, da história da Inglaterra ou da França. Isso possibilitaria aos africanos obter os school certificates e os baccalauréats e ser recrutados depois como preciosos auxiliares pseudo-europeus.
Flora Shaw, Harry Johnson, Maurice Delafosse, Yves Urvoy e Richmond Palmer já foram mencionados anteriormente. Mas há também outros que escreveram sobre a África obras históricas relativamente isentas de preconceitos culturais, ainda que às vezes tenham escolhido (eles ou seus editores) títulos bizarros. Entre esses autores podemos citar: Ruth Fisher, Twilight Tales of the Black Baganda (1912); C. H. Stigand, The Land of Zing (1913); Sir Francis Fuller, A Vanished Dynasty: Ashanti (1921), exatamente na tradição de Bowdich e Dupuis; E. W. Bouill, Caravans of the Old Sahara (1933); numerosas obras eruditas de Charles Monteil (por exemplo, Les Empires du Mali, 1929) ou de Louis Tauxier (por exemplo, Histoire des Bambara, 1942). Parece que os franceses foram mais bem sucedidos que os ingleses na elaboração de uma história realmente africana. Alguns dos mais sólidos trabalhos britânicos - por exemplo, History of the Gold Coast and Ashanti (1915) de W. W. Claridge ou History of the Gambia (1940) de Sir John Gray (exceção feita a alguns de seus artigos mais recentes sobre a África oriental) - possuíam uma forte tendência eurocêntrica. É conveniente notar também que, quando de seu retorno à França, alguns administradores franceses (como Delafosse, Georges Hardy, Henry Labouret 29) elaboraram breves histórias gerais a respeito de todo o continente ou do conjunto da África subsaariana.
Isso se explica, em parte, pelo fato de que a administração colonial francesa tendia a desenvolver estruturas mais rígidas para a formação e a pesquisa do que a administração britânica. Pode-se citar a instituição (em 1917) do Comité d'Etudes Historique et Scientifique de l'AOF - Afrique Occidentale Française. e de seu Bulletin, que levaram à criação do Institut Français d' Afrique Noire, sediado em Dacar (1938), ao seu Bulletin e à série Mémoires que editou; a partir daí, surgiram obras como o magistral Tableau Géographique de l'Ouest Africain au Moyen Age (1961) de Raymond Mauny. Apesar disso, os historiadores do período colonial permaneceram amadores, marginalizados da principal corrente historiográfica. Isto ocorreu tanto na França quanto na Grã-Bretanha, pois, embora homens como Delafosse e Labouret tivessem obtido cargos universitários quando retomaram à França, fizeram-no como professores de línguas africanas ou de administração colonial, e não como historiadores clássicos.
A partir de 1947, a Société Africaine de Culture e sua revista Présence A fricaine empenharam-se na promoção de uma história' da África descolonizada. Ao mesmo tempo, uma geração de intelectuais africanos que havia dominado as técnicas européias de investigação histórica começou a definir seu próprio enfoque em relação ao passado africano e a buscar nele as fontes de uma identidade cultural negada pelo colonialismo. Esses intelectuais refinaram e ampliaram as técnicas da metodologia histórica desembaraçando-a, ao mesmo tempo, de uma série de mitos e preconceitos subjetivos. A esse propósito devemos mencionar o simpósio organizado pela UNESCO no Cairo em 1974, que permitiu a pesquisadores africanos e não-africanos confrontar livremente seus pontos de vista sobre o problema do povoamento do antigo Egito.
Em 1948, aparecia a obra History of the Gold Coast de W. E. F. Ward. No mesmo ano, a Universidade de Londres criava o cargo de lecturer em História da África na School of Oriental and African Studies, confiado ao Dr. Roland Oliver e a partir dessa mesma data que a Grã-Bretanha empreende um programa de desenvolvimento das universidades nos territórios que dela dependiam: fundação de estabelecimentos universitários na Costa do Ouro e na Nigéria; elevação do Gordon College de Cartum e do Makerere College de Kampala à categoria de universidades. Nas colônias francesas e belgas, desenrolava-se um processo semelhante. Em 1950 era criada a Escola Superior de Letras de Dacar que, sete anos mais tarde, adquiriria o estatuto de universidade francesa. Lovanium, a primeira universidade do Congo (mais tarde Zaire), começou a funcionar em 1954.
Do ponto de vista da historiografia africana, a multiplicação das novas universidades a partir de 1948 foi seguramente mais significativa que a existência dos raros estabelecimentos criados antes, mas que vegetavam por falta de recursos, tais como o Liberia College de Monróvia e do Fourah Bay College de Serra Leoa, fundados respectivamente em 1864 e 1876.
Por outro lado, as nove universidades que existiam na África do Sul em 1940 eram prejudicadas pela política segregacionista do regime de Pretória: tanto a pesquisa histórica quanto o ensino eram eurocentristas, e a história da África não passava da história dos imigrantes brancos.
Todas as novas universidades, ao contrário, organizaram logo departamentos de história, o que, pela primeira vez, levou um número considerável de historiadores profissionais a trabalhar na África. Era inevitável, no início, que a maioria desses historiadores fosse proveniente de universidades não- -africanas. Mas a africanização sobreveio rapidamente. O primeiro diretor africano de um departamento de história, o professor K. O. Dike, foi nomeado em 1956, em Ibadã. Formaram-se muitos estudantes africanos. Os professores africanos que se tornaram historiadores profissionais sentiram necessidade de ampliar a parte reservada à história da África em seus programas e, quando essa história fosse pouco conhecida, de incluí-Ia em suas pesquisas.
A partir de 1948, a historiografia da África vai progressivamente se assemelhando à de qualquer outra parte do mundo. É evidente que ela possui problemas específicos, como a escassez relativa de fontes escritas para os períodos antigos e a conseqüente necessidade de lançar mão de outras fontes como a tradição oral, a lingüística ou a arqueologia. Mas, embora a historiografia africana tenha trazido importantes contribuições no que diz respeito ao uso e à interpretação dessas fontes, ela não se distingue fundamentalmente da historiografia de certos países da América Latina, da Ásia e da Europa que enfrentam problemas análogos. Aliás, o conhecimento da proveniência dos materiais não é essencial para o historiador, cuja tarefa fundamental consiste em fazer deles uma utilização crítica e comparativa, de modo a criar uma descrição inteligente e significativa do passado. O importante é que, nos últimos 25 anos, equipes de universitários africanos vêm se dedicando ao ofício de historiador. O estudo da história africana constitui hoje uma atividade bem estabelecida, a cargo de especialistas de alto nível. Seu desenvolvimento ulterior será assegurado pelos intercâmbios interafricanos e pelas relações entre as universidades da África e as de outras partes do mundo. Mas é preciso ressaltar que esta evolução positiva teria sido impossível sem o processo de libertação da África do jugo colonial: o levante armado de Madagáscar em 1947, a independência do Marrocos em 1955, a heróica luta do povo argelino e as guerras de libertação em todas as colônias da África contribuíram enormemente para esse processo já que criaram, para os povos africanos, a possibilidade de retomar o contato com sua própria história e de controlar a sua organização. Compreendendo desde logo esta necessidade, a Unesco promoveu ou facilitou a realização de encontros entre especialistas. Acertadamente, colocou como pré-requisito a coleta sistemática de tradições orais. Respondendo aos desejos dos intelectuais e dos Estados Africano.s essa entidade lançou, a partir de 1966, a idéia da elaboração de uma História Geral da África. A execução desse importante projeto foi iniciada sob os seus auspícios, em 1969.
Notas
1 As principais explicações sobre a África encontram-se na mais importante obra desse autor, a Muqqadima (tradução francesa de Vincent MONTEIL), e no fragmento de sua história traduzIdo por DE SLANE sob o título Histoire des Berberes.
2 Ver sobretudo BLOCH, Marc. 1939. p. 91.
3 Na tradução de M. G. DE SLANE, intitulada Histoire des Berberes (1925-1956), este capítulo figura no volume 2. p. 105-16.
4 O Ta'rikh al-Sudan foi traduzido para o francês e comentado por O. HOUDAS (1900); o Ta’arikh el-Fattash, por O. HOUDAS e M. DELAFOSSE (1913).
5 Pode-se encontrar uma tradução inglesa da Crônica de Kano em H. R. PALMER, 1928. vol. 3. p. 92-132, e da Crônica de Kilwa em G. S. P. FREEMAN-GRENVlLLE, 1962. p. 34-49.
6 Sobre a Crônica de Gonja e a coleção de manuscritos árabes na atual Gana, ver Nehemin LEVTZION, 1968, p. 27-32 sobretudo; Ivor WILKS. 1963, p. 409-17; e Thomas HOOOKIN. 1966, p. 442-60.
7 Existem várias traduções dessa obra, sobretudo uma (em francês) de J. PERRUCHON no Journa/ Asiatique. 1889.
8 The Voyages of Cadamosto, comentadas por G. R. CRONE, 1937; John BARBOT, 1732; William BOSMAN, edição comentada, 1967.
9 Em C. BECCARI, Rerum Aethiopicarum Scriptores Occidentales lnediti (Roma, 1905-1917), a obra de Paez se encontra nos volumes 2 e 3 e a de Almeida, nos volumes 5 e 7; existe uma tradução parcial em inglês da obra de ALMEIDA em C. F. BECKINGHAM e G. W. B. HUNTINGFORD, Some Records of Ethiopia, 1593-1646 (1954). A Historia Aethiopica de LUDOLF foi publicada em Frankfurt, em 1681.
10 CADORNEGA, A. de Oliveira de. Historia General das Guerras Angolanas. Comentada por M. DELGADO e A. CUNHA (Lisboa, 1940-1942).
11 A edição in-folio da Universal History compreende 23 volumes, dos quais 16 são consagrados à história moderna, contendo estes últimos dois volumes sobre a África.
12 Lisboa. 1937.
13 DALZEL, Archibald. The History of Dahomey (1793) p.V.
14 Estas citações foram extraídas das notas de abertura do primeiro ensaio de uma série de cursos proferidos pelo professor Hugh TREVOR-HOPER intitulada "The Rise of Christian Europe" (A Ascensão da Europa Cristã). Ver The Listener, 28-11-1963. p. 871.
15 Op. cit., edição de 1893. v. 2. p. 131 e 135.
16 "Africa and historical research". J.A.S., 22 (1922-1923).
17 STEPHEN foi funcionário no Colonial Office de 1825 a 1847 e professor de História Moderna em Cambridge de 1849 a 1859; MERIVALE foi professor de Economia Política em Oxford antes de suceder STEPHEN na qualidade de Permanent Under-Secretary do Colonial Office (1847-1859); FROUDE passou a maior parte de sua vida em Oxford e foi professor de História Moderna em 1892-1894, mas na década de 1870 serviu como emissário do Colonial Secretary na África do Sul; SEELEY foi professor de História Moderna em Cambridge de 1869 a 1895.
18 LUCAS foi funcionário no British Colonial Office de 1877 a 1911, tendo atingido o grau de Assistant Under-Secretary; ele obteve depois um posto no All Soul's College, em Oxford. HANOTAUX (1853-1944) seguiu duas carreiras: como político e homem de Estado desempenhou, na década de 1890, importante papel nas relações coloniais e exteriores da França; como historiador, foi eleito para a Academia Francesa.
19 op. cit., ed. de 1930. p. 96; ed. de 1966. p. 61.
20 Op. cit., ed. de 1930. p. 158; ed. de 1966. p. 101.
21 GREENBERG, J. H.. 1953 e 1963. De fato. GREENBERG. como a maioria dos lingüistas modernos, evita empregar o termo "camítico"; eles classificam as línguas outrora denominadas camíticas. ao lado das línguas semíticas e outras num grupo mais amplo. o afro-asiático ou eritreu, e não reconhecem o subgrupo "camítico" de modo específico.
22 GREENBERG. J. H.. 1963. p. 30. .
23 É interessante notar que a edição atualmente revisada, a quarta, de Races of África (1966) contém na página 61 uma frase importante que não se encontra na edição original de 1930. Os camitas são aí definidos como "europeus, ou seja, pertencentes à mesma grande raça da humanidade a que pertencem os homens brancos"!
24 PERHAM, Margery. Lugard, the Years of Authority (1960). p. 234.
25 Ver meu resumo sobre o assunto no artigo "Anthropology, botany and history". In: J.A.H., 11, 2 (1961), 299-309.
26 E impossível num artigo desta dimensão fazer justiça à grandeza da produção de FROBENIUS. Sua última obra de síntese foi Kulturgeschichte Afrikas (Viena, 1933) e sua obra mais notável foi, provavelmente, a coleção em 12 volumes Atlantis: Volksmärchen und Wolksdichtungen Afrikas (Iena, 1921-1928). Mas cabe também mencionar os livros que relatam cada uma de suas expedições, por exemplo, para os Iorubas e Mosso: Und Afrika Sprach (Berlim-Charlottenburg, 1912-1913). Ver a bibliografia completa em Freda KRETSCHMAR, Leo Frobenius (1968). Certos artigos recentes em inglês (por exemplo Dr, K. M. ITA "Frobenius in West African History". J. A. H. XIII, 4 (1972) e obras citadas neste artigo) sugerem um renascimento do interesse pela obra de FROBENIUS.
27 The Sacred State of The Akan (1951); The Akan Traditions of Origin (1952); The Akan of Ghana; their Ancient Beliefs (1958).
28 LAW, R. C. C. Early Historical Writing Among the Yoruba (to c. 1940).
29 DELAFOSSE, Maurice. Les Noirs de l'Afrique (Paris, 1921); HARDY, Georges. Vue Général de l'Histoire d'Afrique (Paris, 1937); LABOURET, Henry. Histoire des Noirs d'Afrique (Paris, 1946).